Trabalho ou Ministério? Uma reflexão sobre o que é ser professor

Trabalho ou ministério?!

Motivados em Cristo para fazer a diferença na vida dos alunos!

 

Introdução

Quem você é? Que resposta vem à sua mente quando alguém lhe faz essa pergunta? No meu caso, quando alguém me pergunta quem eu sou eu respondo: “Sou pastor presbiteriano, professor, casado, pai, pescador, santista…” e a lista pode se estender um pouco mais.

Mas, a pergunta não foi: “O que você faz”, mas, sim, “Quem você é?”. Bem, há quem veja nisso algo estranho e disfuncional. Particularmente, não vejo problema algum com isso, pois, o “ser” e o “fazer” se fundem em nós de forma um tanto quanto normal. O que eu sou me leva a fazer o que eu faço, e o que eu faço demonstra o que sou. Aliás, “profissão” é a declaração que fazemos quando alguém nos pergunta o que fazemos com a nossa “vocação” que é aquilo que Deus nos chamou para fazer em nossa vida.

O tema que me foi proposto aqui é bastante sugestivo e interessante. Ele nos chama a uma reflexão necessária especialmente no começo de uma nova temporada. Vamos trabalhar algumas definições.

Trabalho ou Ministério?

Gosto muito de recorrer ao sentido etimológico das palavras e ver como elas mudam de acordo com o tempo.

Trabalho: vem do Latim TRIPALIUM, que designava um instrumento de tortura cujo desenho felizmente se perdeu, mas que era formado por três estacas agudas (tri + palum).
Esta palavra passou ao Francês como TRAVAILLER, significando “sofrer, sentir dor”, evoluindo depois para “trabalhar duro”.
Passando para a Inglaterra, acabou surgindo a palavra TRAVEL, “viajar”, certamente da noção que, nessa época, com poucas hospedarias e muitos ladrões na estrada, uma viagem era algo muito sofrido[1].

Minitério: “Ministrar”: do latim MINISTERIUM, “cargo, função, serviço”, de MINISTER, “escravo, assistente de um sacerdote”, de MINUS, “menos, de menor importância”. MINISTER depois passou a significar “o que age em nome de outrem”[2].

No grego a palavra é diakonía e tem o mesmo sentido: um servo, um escravo.

Pensando em nós como professores, tanto trabalho quanto ministério expressam em algum grau a nossa realidade, não é mesmo? Tanto sofremos com a rebeldia, indisciplina e relaxo de alguns alunos, quanto com as lutas, dores e sofrimentos que muitas dessas crianças passam em suas vidas. Sofremos com os relatórios, pressão, noites mal dormidas preparando uma boa aula que no dia seguinte parece ter ido pelo ralo diante de uma classe que não quer “nada com nada”. Sofremos com pais que muitas vezes se esquecem que a mensalidade que eles pagam (quando pagam!) não compra a dignidade de ninguém, e que por isso nos tratam muitas vezes como seus empregados. Mas, no meio disso tudo, ainda somos lembrados pela Palavra de Deus que estamos aqui para servir, ministrar às crianças, aos pais, e a quem quer que por aqui passar.

Qual a nossa motivação para fazer do nosso trabalho um ministério?

Ter uma visão e compreensão correta da nossa vocação/profissão fará com que cumpramos nosso dever de forma correta. Mas, para termos uma visão e compreensão correta da nossa vocação/profissão precisamos entendê-las do ponto de vista de Deus, tal como a Bíblia nos mostra.

1)     A vocação vem antes da profissão (João 15.16)

O Senhor Jesus disse aos Seus discípulos: Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda”. Antes de enviar Seus discípulos a propagarem o Evangelho, o Senhor Jesus os chamou. Somos professores (aqueles que professam, declaram diante das pessoas) porque um dia fomos chamados, sentimo-nos vocacionados para tal.

Aqueles que cursam uma faculdade de pedagogia com o objetivo de conquistar um emprego certamente serão professores amargurados, estressados e frustrados no seu dia a dia como professores. Mas, aqueles que olham para o magistério (ou qualquer outra profissão honesta) sabendo que foram chamados, e, portanto têm uma missão a cumprir para a glória de Deus, com certeza encontrarão prazer e grande alegria, mesmo em meio ao tripalium da sua vocação/profissão.

O alvo conforme João 15.16 é um só, mas, com as seguintes características:

ü  Obediência a Cristo: escolhidos respondem obedientemente ao chamado de Cristo;

ü  Produtividade para Cristo: Ele nos designou para darmos fruto e um fruto permanente (o fruto do Espírito Santo, Gálatas 5.22,23.

ü  Glorificarmos a Cristo: Tudo o que pedirmos ao Pai em nome de Cristo e para a glória de Cristo, isto nos será concedido.

Pensando nesta terceira característica do nosso objetivo como professores vemos que:

2)     Não devemos nos esquecer de quem somos (1Coríntios 15.9; Efésios 3.8; 1Timóteo 1.15)

Um dos problemas mais sérios que afetam os adultos é a amnésia conveniente ou podemos chamar de hipocrisia crônica. Em outras palavras, com muita facilidade nos esquecemos de quem éramos, de quem somos e de quem devemos ser.

Não temos muitas vezes a paciência que devíamos com nossos alunos, como se nós quando crianças tivéssemos sido as melhores crianças do mundo. Não estou dizendo que devemos relaxar com a disciplina, mas, sim, que devemos ter sempre em mente o que Cristo está operando em nossos corações.

Quanto mais crescemos na Graça e no Conhecimento da Pessoa de Cristo Jesus, mais humildes, mais amorosos, mais pacientes, mais corajosos e honestos quanto ao nosso coração deveríamos ser. Observe o apóstolo Paulo.

53 – 57 d.C. (1Coríntios) Paulo declarou:

“Porque eu sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus”.

60 – 62 d.C. (Efésios)  Paulo declarou:

“A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo”.

62-64 d.C. (1Timóteo) Paulo declarou:

“Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal”.

A cada ano que se passa nossas convicções deveriam crescer “para baixo” como aconteceu com Paulo e com outros servos de Deus, como, por exemplo, João Batista que disse o seguinte a respeito de Jesus: “Convém que ele cresça e que eu diminua” (João 3.30). Se formos honestos conosco mesmos e admitirmos que não somos os melhores professores do mundo, não somos os mais crentes dentre os crentes, mas, que somos os principais pecadores, e justamente por esses miseráveis pecadores Jesus derramou Seu sangue na cruz, certamente, seremos mais misericordiosos quando nossos alunos precisarem de misericórdia, seremos mais amorosos quando eles precisarem de amor (que muitas vezes não encontram em suas casas), seremos mais justos com nossos alunos quando eles tiverem dificuldades de praticar a justiça. Seremos mestres não por excelência mas, para a Excelência que é Cristo.

Conclusão

Trabalho ou ministério? As duas coisas. Não haverá ensino, educação transformação ser trabalho duro, sem sermos afligidos, extenuados e não poucas vezes, desanimados. Mas, se olharmos para Cristo, o Autor e Consumador da nossa fé (Hebreus 12.2) não ficaremos exigindo honra para nós, pois, Ele sendo o Deus Eterno sujeitou-se ao Pai e veio ao mundo como homem (Filipenses 2.5-11) e em tudo glorificou ao pai.

Maior do que a obra que Deus tem para realizar através de nós é a obra que Ele tem para realizar em nós.


About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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