Desentronizando o Eu

Uma das minhas maiores alegrias é ser o chofer da minha filha. Nos momentos em que a levo à escola, ou à igreja, ou a algum outro lugar, ela me bombardeia com as perguntas que fervilham em sua cabecinha de sete anos.

Num dia desses ela me perguntou: “Papai, Deus já sabe o que eu vou ser quando crescer. Mas, como eu vou saber o que Deus quer que eu seja?”. Tentei ser o mais claro possível para ela sem contudo dar uma resposta rasa. Disse-lhe que ela deveria observar as coisas que ela mais gosta de fazer e se dedicar àquelas outras que lhe forem dadas a realizar. Também lhe disse que Deus, aos poucos, lhe mostrará o que Ele quer da vida dela, e que por isso mesmo ela deveria descansar em Deus e esperar o momento certo das coisas acontecerem. 

Meu coração de pai-chofer fica radiante de alegria quando ela faz esses comentários. O que eu mais quero como pai cristão é ver minha filha amar a Deus mais do que tudo e acima de todos. E como é maravilhoso vê-la preocupada em fazer a vontade de Deus!

Porém, depois que a deixei na escola nesse dia, ao seguir rumo ao meu trabalho fiquei pensando em como as coisas têm mudado em nossos dias no que diz respeito à vontade de Deus. Há um tempo atrás, os crentes viviam preocupados em fazer a vontade de Deus. Lembro-me da minha juventude em que os encontros dos jovens em nossas igrejas os temas mais abordados eram: “Como viver de forma que agrada a Deus?”, ou “Entenda qual a vontade de Deus para sua vida”. Hoje, os encontros passam longe disso. Os pregadores (especialmente os que estão em evidência na Mídia) pregam justamente o contrário: “Como ser feliz?”, ou “Sete passos para uma vida vitoriosa” (entenda-se por “vida vitoriosa” conquistas materiais, e coisas do gênero), ou ainda “Como conquistar as bênçãos de Deus?”, e para os mais ousados “Como tomar posse das bênçãos?”. O que se vê hoje, é uma entronização do “eu”, uma idolatria do próprio ego.

Aquele que antes era buscado por ser o Bem Maior dos corações, a saber, Deus, hoje é buscado como uma espécie de “gênio da lâmpada” que basta alguns esfregões e os desejos são atendidos. Textos como o de Efésios 5.17: “Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor”, já não fazem mais sentido para muitos que estão idolatrando a si mesmos.

Irmãos, não podemos nos esquecer do que a Palavra de Deus diz em 2Tm 3.1-5: “Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes”. Que descrição clara e vívida dos nossos dias, não é mesmo? A ordem para nós, filhos de Deus é para fugirmos destes. Como filhos de Deus não podemos ser contados com esses que agem assim.

Temos de constantemente lembrar nosso coração do que disse João Batista em relação a si mesmo e a Jesus: “Convém que ele cresça e que eu diminua” (João 3.30). Sim, este é o chamado que o Evangelho faz aos pecadores. A cada dia temos uma nova oportunidade de mortificarmos o nosso eu e de vermos Cristo cada vez mais no centro de nossas vidas. Em Lucas 9.23 encontramos justamente essa ordem para nós: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me”. O chamado de Jesus para nós nesta vida não para nos assentarmos em tronos e nem para ocuparmos lugares de destaque. Antes, é um chamado para a morte do eu, onde dia a dia tomamos a cruz (um instrumento de morte) e nela encravamos o nosso eu e permitimos que somente Cristo seja visto em nós.

Não tenho dúvida de que a coisa mais difícil em se tratando de vida cristã é a mortificação do nosso ego. Também vejo a mortificação do eu como uma das maiores bênçãos que podemos receber de Deus. Ele nos liberta da nossa “autotirania”, pois, nosso coração é o pior tirano que podemos ter. Uma pessoa entregue ao egoísmo é escrava de si mesma. Mas, aquele que entrega sua vida a Cristo Jesus, negando a si mesmo qualquer direito e dia a dia toma a a sua cruz e nela encrava o seu eu pecaminoso, este experimenta a mais profunda e verdadeira felicidade e liberdade.

Tire o seu eu do trono do seu coração e viva sob o senhorio e soberania de Cristo. É Ele quem tem de estar assentado no trono do seu coração. Outro que ali se assentar fará de você o ser mais infeliz deste universo.

Rev.Olivar Alves Pereira

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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