A PONTE E A MENSAGEM PODEROSA

Conta-se que havia dois povoados que nunca tiveram contato um com o outro pelo fato de ambos estarem separados por um rio. Um desses povoados era o portador de uma mensagem poderosa capaz de transformar vidas; ou outro vivia na mais profunda escuridão espiritual. Certo dia, o pessoal do povoado detentor dessa mensagem poderosa tomado por um forte senso de responsabilidade e desejoso de compartilhar a poderosa mensagem que mudaria a vida daquele povoado, decidiu construir uma ponte para ligar os dois povoados e, assim, poder levar esta mensagem àquelas pessoas.
Fizeram um bela ponte, que de longe chamava a atenção das pessoas. Estando pronta, eles mandaram uma comitiva e um arauto para lhes proclamar aquela poderosa mensagem.
Com o passar dos dias, algo estranho aconteceu. Ambos os povoados começaram a admirar a ponte, até fizeram uma festa para celebrarem a construção da ponte, e em pouco tempo, tornaram-se especialistas em construir pontes, enviando construtores de pontes a outros povoados. Até criaram uma escola para ensinar as pessoas a construírem pontes e enviaram professores especialistas em construir pontes a outras escolas para ensinarem a arte da construção de pontes. E, assim, agora especialistas em construir pontes, haviam se esquecido do por quê construíam tão lindas pontes – a mensagem poderosa que transforma vidas.

Essa historinha é uma analogia com algo que vem acontecendo dentro das igrejas evangélicas atualmente. Para ser honesto, não falarei das outras denominações, mas, somente da minha, a Igreja Presbiteriana do Brasil.

Minha Igreja tem suas origens num movimento religioso e espiritual do século XVI, a Reforma Protestante, com um escocês chamado John Knox. Este teve importante participação no parlamento inglês e queria que o sistema presbiteriano fosse implantado no governo e na igreja da Inglaterra. Os que o apoiavam sua ideia lutavam por uma Igreja pura, livre do mundanismo. Queriam uma igreja constituída por crentes verdadeiros e sinceros. E assim, ficaram conhecidos como “Puritanos”.
Roger Olson explica este movimento da seguinte forma:

“Uma das marcas registradas da teologia puritana era o ideal da igreja pura. Para os reformadores puritanos da Igreja da Inglaterra sob a uniformidade elisabetana isso significava duas coisas: eliminar da igreja os vestígios remanescentes do catolicismo romano e expurgar do ministério e da congregação todos os incrédulos. Para eles, a igreja verdadeira de Jesus Cristo era mais do que uma autarquia do Estado ou um grupo de apoio aos pecadores. Devia ser o Corpo de Cristo na terra, a presença comunitária do reino de Deus na história e uma cidade acima das demais, cuja luz brilhasse para que todos vissem. Por isso, precisava ser composta de verdadeiros santos de Deus, demonstrar crenças corretas, vidas puras e líderes com essas qualidades. Isso não significa que somente as pessoas perfeitas podiam pertencer à igreja, mas certamente que cristãos meramente nominais, sem nenhuma experiência genuína com Deus de verdadeiro arrependimento e fé, não deviam ser membros plenos”.

Nessa época nasce um dos tratados teológicos mais sólidos de todos os tempos: a Confissão de Fé de Westminster, os Catecismos Breve (para crianças) e Maior (para os adultos) e o Diretório de Culto. Em introdução à edição portuguesa da Confissão de Fé o Rev. Cláudio Marra faz o seguinte comentário:

“A notável e histórica “Assembleia de Teólogos Sábios e Eruditos” foi convocada em 12 de junho de 1643 pelo Parlamento da Inglaterra para estabelecer a doutrina da Igreja em oposição ao arminianismo, para discutir também o Governo e a Liturgia da Igreja e para defender o ensino da Igreja Anglicana. A primeira sessão ocorreu no dia 1° de junho de 1643, e reuniu 121 teólogos da Abadia de Westminster, em Londres. A promulgação e adoção da Confissão de Fé foi um marco, não apenas para as igrejas da Inglaterra e da Escócia, mas para todo o Cristianismo Reformado (…)”.

E assim, ao longo dos últimos séculos,a Igreja Presbiteriana se solidificou e ampliou suas fronteiras chegando ao Brasil em agosto de 1859 com o missionário americano Ashbel Green Simonton. Desde então a IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil) tem sido uma proclamadora do Evangelho de Cristo, promovendo também a Educação por meio de Universidades e Educandários, bem como levando o socorro por meio de hospitais em várias partes do país.

Contudo, de uns tempos para cá “construtores de pontes” surgiram em nosso meio. Começaram a construir “pontes” para levar a mensagem do Evangelho, a qual ficou esquecida, soterrada e obliterada por um pragmatismo mundano. Um grupo, que alega trazer algo novo (e que, na verdade nada de novo tem, pois, em muitos aspectos copia a Missão Integral que por sua vez copia em muitos aspectos a Teologia da Libertação da Igreja Romana), tem difundido suas ideias por meio de “Comunidades” (é assim que eles se denominam, pois, o termo “Igreja” soa pedante e grotesco ao homem pós-moderno), de seus congressos de “CTPI”, ou por meio de modelos “sensíveis ao que busca” (no inglês “seeker sensitive”, por exemplo, Rick Warren e sua “Igreja com Propósitos”). Nesse nosso “jeito de construir pontes” (entenda-se “fazer igreja”) eles usam de tudo:
– música secular e mundana que tenha uma mensagem bonita e nada indecente substitui os velhos hinos tradicionais e os cânticos mais atuais. Tudo que esteja carregado com um “igrejês” (neologismo para “linguagem eclesiástica”) deve ser rejeitado. Daí ouvir e cantar Titãs, Renato Russo, Caetano Veloso é coisa comum nos cultos deles (e a eles);
– Santa Ceia deve ser ministrada a todos, até mesmo a ímpios descrentes (ops! isso é politicamente incorreto, é melhor chamá-los de “crentes em potencial”) que estiverem ali no momento, pois, se os excluirmos estaremos impedindo de receberem a Cristo e de se sentirem bem em nosso meio;
– as pregações não são mais chamadas assim (e por isso mesmo nem mesmo o são em essência), mas, sim de “palestras”. Filmes, filmetes, esquetes, teatros, “stand up” tomaram o lugar da pregação da Palavra, e quando esta é utilizada é apenas para dar ensejo ao que se pretende ensinar.

Assim, esse pessoal se tornou especialista em construir pontes, com seus congressos, seminários e mestres, mas, suas pontes só servem para transportar seus projetos de pontes, mas, não servem para a levar a Palavra de Deus. Constroem igrejas às quais se recusam a chamar assim, levam uma mensagem que tem cheiro de Evangelho, e tal como o cheiro de um churrasco não nos enche a barriga, essa mensagem não enche o coração com a Verdade, mas, o ilude com um “cheiro” da Verdade e nada mais. O resultado disso? Bem, ainda está um pouco cedo para dizermos com certeza, mas, se até no meio onde o Evangelho é anunciado plenamente, onde Cristo é cultuado biblicamente encontramos joio, não será nada difícil vermos joio no meio desse grupo parasita. Poderá até haver conversões ali, pois, ainda que o Evangelho seja anunciado de forma tão negligente (como foi com Jonas) Deus salvará os Seus eleitos. Mas, aí daqueles que trazem escândalo para o Evangelho e para Cristo.

Rev. Olivar Alves Pereira
Um puritano em sua origem
Um neopuritano para os aloprados

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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