A Soberana Vontade de Deus – 14ª Mensagem

A Organização do Organismo

At 6.1-7

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A Igreja estava crescendo. Nos v.1 e 7 vemos a ênfase que Lucas dá a essa verdade. Estava “multiplicando-se o número dos discípulos” (v.1) e com o crescimento (avanço) da Palavra de Deus “multiplicava o número dos discípulos” (v.7). Lucas diz que “naqueles dias”, ou seja, aos dias subsequentes à prisão dos apóstolos, os quais contrariando as ordens dos sinédrio intensificaram suas atividades resultando num crescimento impressionante. Mas, com o crescimento da Igreja os problemas internos começaram a surgir também, fazendo-se necessário que os apóstolos organizassem melhor a estrutura da Igreja. E para isso instituíram a primeira junta diaconal da história da Igreja Cristã.

Conquanto uma instituição, a Igreja é organizada em departamentos, paga impostos e encargos, exige uma estrutura organizacional para o seu bom andamento; conquanto Corpo de Cristo, ela é um organismo vivo com pessoas atuando nela, e especialmente, o Espírito Santo conduzindo cada ação e decisão. A Igreja precisa de organização. Por isso proponho o seguinte tema para nossa meditação: A organização do organismo.

A organização da Igreja é algo muito importante pelos seguintes motivos:

1)     Ela ajuda na resolução de conflitos, v.1

Exposição v.1: “Ora, naqueles dias, multiplicando-se o número dos discípulos, houve murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas na distribuição diária”. Um dos deveres que Deus sempre exigiu do Seu povo foi cuidar das viúvas e dos órfãos que não tivessem ninguém por eles e nenhum recurso para se sustentarem. Veja por exemplo, Dt 10.18; 14.29; 24.17,19,20,21 entre outros. Assim, tal preceito era observado pelos cristãos.

Apesar de toda união e comunhão na Igreja Primitiva, havia dois grupos dentro dela: os judeus de fala aramaica (aqui chamados de hebreus) e os judeus de fala grega (aqui chamados de helenistas). Essa divisão estava causando outro problema, a saber, as viúvas dos judeus de fala grega estavam sendo negligenciadas na distribuição diária de alimentos. A palavra que aqui foi traduzida por “esquecidas” tem um peso mais forte no grego mostrando que elas estavam sendo negligenciadas. Não sabemos exatamente porque isso acontecia. Penso que os apóstolos não estavam fazendo isso por maldade ou desleixo, mas, por sobrecarga em suas responsabilidades. Mas, outro problema que estava acontecendo aqui era a murmuração. Não encontramos nenhuma passagem na Bíblia em que a murmuração é vista com bons olhos por Deus. Na peregrinação do povo no deserto rumo à Canaã, a murmuração custou-lhes milhares de vidas e algumas décadas a mais na caminhada pelo deserto. A murmuração dentro da Igreja é como um veneno que corre dentro das veias de um corpo. Ela anda de mãos dadas com a amargura, e uma alimenta a outra. Ela incita intrigas entre as pessoas; gera desconfiança; atrapalha a comunhão; incita rebeldia. Os apóstolos identificaram esses problemas e trataram da situação. Mas, esses problemas (negligência e murmuração) eram resultados da divisão dentro da Igreja. Os dois grupos (hebreus e helenistas) não estavam convivendo como um só corpo. Nada pode ser mais danoso para a Igreja do que grupos e partidos dentro dela. Não nos iludamos. Mesmo em meio à mais terna comunhão podem surgir esses pecados danosos.

Aplicação v.1: Sua parte como membro da Igreja é lutar para que não haja divisões dentro da Igreja, porque divisão vai trazer disputa, murmuração e descontentamento. Nesse sentido, a organização ajuda na solução de problemas porque ela coloca cada um no seu lugar executando a sua responsabilidade.

E este é outro motivo pelo qual a organização é muito importante na vida da Igreja é:

2)     Ela ajuda a definir o papel de cada um, v.2-4

Exposição v.2-4: No v.2 lemos: “Então, os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas”. Os apóstolos tinham uma incumbência infinitamente mais importante do que socorrer materialmente os necessitados. Eles tinham de pregar a Palavra de Deus. Não estou dizendo que socorrer materialmente os necessitados não seja coisa importante, mas, sim, que não é mais importante do que pregar a Palavra de Deus. Você pode socorrer materialmente uma pessoa por toda a vida dela, mas, se ela não ouvir o Evangelho e crer em Cristo estará fatalmente perdida. De que adiantou toda a sua ajuda material? Às vezes os crentes são influenciados demais pelo Humanismo e se esquecem de que qualquer outra instituição pode socorrer materialmente os necessitados, mas, somente a Igreja de Cristo pode socorrer espiritualmente os necessitados, e este socorro é o mais importante.

Os apóstolos viram que não era razoável (literalmente, “correto”) deixarem de pregar a Palavra de Deus para levar alimento às viúvas. Contudo, eles não desprezavam essa atividade de socorrer às viúvas e, por isso mesmo, nos v.3 e 4 disseram: “Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço; e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra”. Observe aqui três ações dos apóstolos com relação à Palavra de Deus:

(1) seguiram um princípio bíblico, a saber, escolheram homens (e não mulheres) para o diaconato. Esse é um princípio do Antigo Testamento o qual os apóstolos observaram com muito cuidado. Estes homens deveriam ser triplamente qualificados “de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria”. As coisas de Deus têm de ser executadas conforme os parâmetros da Palavra de Deus e não de acordo com a nossa perspectiva e interpretação.

(2) foram humildes. Desde o começo da Igreja Cristã os apóstolos foram os responsáveis pela administração dos recursos para socorrer aos necessitados (At 4.34,35). Ter o controle das finanças de alguma instituição se não for visto com humildade, honestidade e responsabilidade pode ser muito fácil a pessoa se corromper ou se julgar “o mais importante” do que os outros. Mas, neste exato momento, os apóstolos agiram com humildade, pois, reconheceram que eram limitados, e, que, alguém poderia fazer melhor do que eles aquele serviço.

(3) zelo e responsabilidade. Eles foram chamados e preparados pelo próprio Senhor Jesus durante três anos para assumirem a responsabilidade de cuidar da Igreja de Cristo, especialmente recebendo a revelação da Palavra de Deus que viria a se tornar o Novo Testamento. Por essa razão deveriam se consagrar “à oração e ao ministério da palavra”. O verbo “consagraremos”, aqui, traz consigo a ideia de “devoção”, “persistência”. Os apóstolos se devotariam, dedicariam, persistiriam em orar e ensinar. Enquanto isso, homens com boa reputação, cheios do Espírito Santo e cheios de sabedoria estariam socorrendo materialmente às viúvas. Mas, das duas, a mais importante era a parte que cabia aos apóstolos, pois, além de tudo estariam recebendo a Revelação do Novo Testamento. Além disso, com eles instruindo devidamente a Igreja em todas as questões, com certeza o socorro material por parte dos diáconos seria feito de forma correta. A organização nos ajuda a definir a função, o papel de cada um na Igreja cumprindo assim o propósito de Deus em que um membro completa o outro.

Aplicação v.2-4: Você sabe qual o seu papel na Igreja de Cristo? Se você já sabe, como tem executado? Saiba que todos nós somos importantes neste processo. Cada um tem uma função, uma incumbência que o próprio Deus nos deu. Dedique-se em fazer bem a sua parte, e percebendo que pode repartir a responsabilidade com outro faça isso. Mas, não deixe para outro fazer aquilo que é responsabilidade sua.

Outro motivo pelo qual a organização é importante para a Igreja é que:

3)     Ela ajuda a preservar a unanimidade, v.5,6

Alguém disse que a unanimidade é burra. Discordo. Burrice é ficar disputando alguma coisa. A Bíblia sempre nos mostra que a unanimidade é propósito de Deus para Sua Igreja, e que devemos nos empenhar para manter essa unidade. Infelizmente, nem sempre a unanimidade numa decisão é realidade. É por isso que precisamos de um denominador comum, de um ponto de convergência para o qual nossas opiniões deverão ser dirigidas. Esse ponto de convergência é a Bíblia. Para interpretarmos o que a Bíblia diz precisamos do Espírito Santo nos dando a mesma orientação.

Exposição v.5,6: lemos que “O parecer agradou a toda a comunidade; e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. Apresentaram-nos perante os apóstolos, e estes, orando, lhes impuseram as mãos”. No v.2 vimos que os apóstolos “convocaram a comunidade dos discípulos” e lhes expuseram o problema e a solução. No v.5 a Bíblia diz que “O parecer agradou a toda a comunidade”, e assim fizeram conforme os apóstolos instruíram. Os apóstolos não escolheram os diáconos, quem escolheu foi a Igreja por meio de uma eleição que obedeceu aos critérios do v.3.

Outro fato importante aqui na escolha dos diáconos é que todos os nomes aqui são de origem grega, o que nos leva a pensar que todos eram helenistas (cf. KISTEMAKER, 2006, p.300). O primeiro da lista é Estêvão (“Coroa”) que se destaca entre todos. Quando Lucas diz que Estêvão era “homem cheio de fé e do Espírito Santo”, não está dizendo que os demais não o eram, mas, tão somente está preparando o leitor para o que vem a seguir no relato de como Estêvão se tornou o primeiro mártir da Igreja Cristã. Filipe, posteriormente aparece como evangelista (At 8.26-40; 21.8). De Prócoro, Nicanor, Timão e Pármenas nada mais sabemos. O último é Nicolau, era um gentio nascido em Antioquia que havia se convertido ao Judaísmo e, posteriormente, a Cristo por isso ele é chamado de “prosélito”.

O que ressaltamos aqui é que quando os apóstolos trouxeram a proposta de elegerem uma junta diaconal, toda a comunidade aprovou e obedeceu, e, quando a comunidade escolheu e elegeu a esses irmãos como diáconos, todos os apóstolos aprovaram e os ordenaram ao ofício (cf. v.6). Isso é unanimidade.

Aplicação v.5,6: Quando existe organização fica bem mais fácil haver unanimidade porque as coisas ficam mais esclarecidas. Empenhe-se em manter nossa Igreja organizada a fim de que sejamos unânimes em nossas decisões. Lembre-se que o motivo de sermos unânimes não é outro senão ver o Evangelho de Cristo ser anunciado e Cristo ser exaltado entre as nações.

E este é o último motivo pelo qual a organização é importante na igreja:

4)     Ela ajuda no crescimento da Igreja, v.7

Lembre-se que um dos objetivos de Lucas em escrever Atos é mostrar que a despeito das lutas, perseguições, limitações dos discípulos e outros empecilhos, a Igreja de Cristo crescia a passos largos, porque quem estava fazendo com que ela crescesse era o próprio Deus (cf. At 2.47).

Exposição v.7: lemos que: “Crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé”. A Igreja cresce quando o Evangelho se expande pela face da terra. É importante destacar aqui que por causa da dedicação exclusiva dos apóstolos à pregação da Palavra e à oração, o Evangelho de Cristo (aqui chamado de “palavra de Deus”) propagava-se fenomenalmente. A Palavra de Deus crescia (literalmente, “aumentava”), avançava e conquistava cada vez mais pessoas, e, dentre elas, “muitíssimos sacerdotes”. Os turnos sacerdotais constavam de alguns milhares, cerca de 5.000 sacerdotes. Nas ruas de Jerusalém esbarrar num sacerdote era a coisa mais comum. Contudo estivesse crescendo a pregação da Palavra de Deus, ainda estava crescendo somente em Jerusalém. Por isso Deus permitiu que uma perseguição viesse sobre a Igreja naqueles dias, como veremos nas próximas mensagens.

O crescimento quem dá é Deus, mas, com certeza Ele usa uma Igreja que zela por sua organização até mesmo porque isso é um bom testemunho que a Igreja dá diante do mundo. Ainda é importante destacar o que o final do v.7 que diz a respeito dos sacerdotes convertidos. Eles “obedeciam à fé”. A Fé Cristã não é um amontoado de doutrinas e elucubrações; ela é completamente prática. Ela requer obediência às doutrinas que ela ensina.

Aplicação v.7: Deus abençoa uma Igreja e a faz crescer quando esta demonstra zelo para com as coisas de Deus. E uma boa maneira de demonstrarmos zelo com as coisas de Deus é mantendo a organização da nossa Igreja. Cada um atuando onde Deus o colocou e fazendo bem feito aquilo que Deus lhe confiou. Seja zeloso com as coisas de Deus; seja responsável com a função que Deus concedeu a você aqui na Igreja. Cooperando aqui com a sua Igreja você contribuirá para que o Evangelho seja propagado na face da terra através dessa Igreja.

Conclusão

“Tudo, porém, seja feito com decência e ordem” (1Co 14.40). Uma Igreja ordeira e bem organizada reflete o caráter de Deus, transmite seriedade. Contudo, não devemos pensar que só isso é o suficiente. Não é somente porque fazemos tudo com decência e ordem que Deus nos abençoará, mas, sim, quando fazemos tudo em total dependência Dele. A organização não substituirá jamais a nossa dependência de Deus; dependermos totalmente de Deus não nos isenta da responsabilidade de sermos organizados.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos – ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.

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2 Responses to A Soberana Vontade de Deus – 14ª Mensagem

  1. Missionário Edson Pereira says:

    Boa noite Pastor Olivar, o senhor tem estudo expositivo em 1 e 2 corintios?

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