A Soberana Vontade de Deus – 19ª Mensagem

O Processo da Conversão

At 9.1-9

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O Cap.9 de Atos é a narrativa da conversão de Saulo que posteriormente passou a ser chamado de Paulo, o apóstolo. Lucas está narrando a ação dos apóstolos, em especial a de Pedro, mas, aqui ele abre um parêntese para contar como foi a conversão de Saulo.

A conversão a Cristo é descrita na Bíblia por meio de várias figuras de linguagem. Por exemplo: em Jo 3 o Senhor Jesus a descreve em termos de “um novo nascimento”; em Rm 6.1-14, Paulo a descreve falando do batismo como um “sepultamento do velho homem e ressurreição do novo homem em Cristo”; em At 3.19 Pedro relaciona a conversão ao arrependimento tendo como objetivo remissão dos pecados, e, se tomarmos o sentido literal de “arrependimento” veremos que se trata de uma mudança de mentalidade; em Rm 12.1,2 Paulo fala da conversão como uma “não conformação com a ideologia mundana”. Porém, aqui em At 9.1-19 a conversão é descrita pelos termos cegueira/visão, ou seja, a pessoa passa a ver de verdade as realidades espirituais após sua conversão. Em Ef 1.9 Paulo fala que Deus opera no coração do pecador “desvendando-lhe” os olhos para ver os “mistérios da sua vontade”, e um pouco mais a diante no v.18 diz: “iluminados os olhos os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento…”. Não resta dúvida que Paulo está aqui falando de sua própria experiência de conversão.

A conversão tem o mesmo resultado em todos nós, a saber, transformar-nos em filhos de Deus. Porém, as circunstâncias em que ela acontece é diferente em cada caso. Deus tem uma tratativa diferente para cada um. Uns choraram no dia da sua conversão; outros, mesmo profundamente impactados pela graça de Deus sequer derramaram uma lágrima. Outros precisaram de uma circunstância dramática (como foi com Saulo), outros, foi na calmaria quando liam a Palavra de Deus. Contudo, o processo da conversão é o mesmo em todos. Por isso convido você a meditar comigo sobre O processo da conversão.

Há uma sequência presente na conversão de todo pecador. O primeiro estágio é o em que todo pecador se encontra:

1)     A cegueira do pecado, v.1,2

 

Exposição v.1,2: nestes versos lemos: “Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote e lhe pediu cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que eram do Caminho, assim homens como mulheres, os levasse presos para Jerusalém”.

A expressão “respirando ainda ameaças e morte” demonstra que a morte de Estêvão (7.54 – 8.1) não foi capaz de aplacar a ira de Saulo contra os cristãos. Antes, acendeu ainda mais a chama de seu ódio por eles. Ele respirava ameaças. A respiração de uma pessoa é algo vital, que a faz se mover; dessa forma, o ódio que ele tinha pelos cristãos movia seu coração, era o que lhe dava sentido para a vida. Agora, observe que ele fazia isso por que julgava estar realizando a obra do Senhor conforme ele mesmo relata em At 26.9,10, sem saber que o próprio Senhor Jesus havia dito que: “Eles vos expulsarão das sinagogas; mas vem a hora em que todo o que vos matar julgará com isso tributar culto a Deus. Isto farão porque não conhecem o Pai, nem a mim” (Jo 16.2,3).

Devidamente autorizado pelo sumo sacerdote, partiu para Damasco (Síria) onde habitavam muitos judeus convertidos a Cristo. Ele estava certo de que estava agindo pela causa de Deus, e por amor a Deus, mesmo tendo seu coração tomado por ódio pelos seus compatriotas.

Saulo era incapaz de ver em quão densas trevas estava o seu coração. Assim, é todo pecador, incapaz de ver sua real condição. Todo pecador já nasce em trevas.

Estes versos nos alertam quanto ao perigo de uma religiosidade cega que é incapaz de ver o pecado dentro do próprio coração. Saulo era um fervoroso fariseu, e, no seu fervor religioso julgava estar fazendo a vontade de Deus contra os cristãos; ao mesmo tempo em que ele professava seu amor por Deus abrigava em seu coração um ódio mortal pelos filhos de Deus. Nada pode ser mais contraditório.

Aplicação v.1,2: irmão, o seu zelo pelas coisas de Deus não deve ser justificativa para fazer o mal a ninguém, nem mesmo aos piores pecadores e muito menos aos filhos de Deus. Se você estiver fazendo o que Deus manda, ainda que seja doloroso para as pessoas, Deus o abençoará. Mas, se o que você estiver fazendo for expressão de ódio, raiva, amargura e vingança, tenha certeza que tal coisa desagrada a Deus.

O segundo estágio em que o pecador se encontra é

2)     O Encontro com Cristo, v.3-5

Exposição v.3-5: lemos no v.3 que: “Seguindo ele estrada fora, ao aproximar-se de Damasco, subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor”.

Dois fatos chamam a atenção aqui. Primeiramente, o fato da luz da glória de Cristo aparecer subitamente. Deus não avisa o momento em que ele quer Se manifestar ao pecador; Ele é soberano e por isso já tem determinado o momento exato em que realizará a Sua vontade, mas, não avisa. Saulo seguia seu caminho e inesperadamente Cristo Se revelou a ele. Em segundo lugar, destaca-se o fulgor da glória de Cristo. Em At 26.13, Paulo relata que foi em pleno meio-dia, e a luz de Cristo sobre ele foi mais intensa que a luz do sol. No Antigo Testamento ela é chamada de kabôd que é o brilho, o resplendor da presença (Shakan, Shekinah) de Deus. Jesus Cristo Se revelou em sua glória a Saulo.

No v.4 lemos: “e, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?”. Conforme At 26.14 todos eles caíram no chão. Ante o fulgor da glória de Cristo o pecador não tem outra ação a não ser cair de rosto ao chão (em todas as vezes que Deus Se manifestou a alguém e esta pessoa caiu em Sua presença foi com o rosto em terra, algo bem diferente das tais “manifestações” tidas como do Espírito Santo em nossos dias em que a pessoa cai para trás). Em seguida ele ouviu uma voz chamando pelo seu nome e perguntando pela razão de Saulo estar perseguindo-O. Note que Cristo não lhe perguntou por que ele perseguia aos Seus discípulos, mas, sim, a Ele. O que nos mostra que quem faz mal ao povo de Deus haverá de acertar contas com o próprio Deus. Por esta razão não devemos procurar por vingança.

E no v.5 “Ele respondeu: Quem és tu, Senhor? E a resposta foi: Eu sou Jesus, a quem tu persegues”. Algumas versões (Revista e Corrigida, por exemplo) trazem o acréscimo: “Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões” o qual aparecerá nas palavras de Paulo em At 26.14. Contudo, no texto original esse acréscimo não aparece aqui. A pergunta de Saulo revela que ele estava confuso. Ele sabia que: (1) uma luz tão forte quanto aquela só podia ser a luz da glória de Deus, e por isso ele se dirigiu Àquele que falava com ele chamando-o de “Senhor”. (2) mas, como Deus poderia estar contra ele se ele estava fazendo algo pela honra de Deus? Assim ele pensava. Algo não estava fazendo sentido. Mas a resposta do Senhor Jesus foi assaz reveladora. Ao dizer, “Eu sou Jesus, a quem tu persegues”, ao mesmo tempo em que o Senhor Se apresentava com Seu nome terreno “Jesus”, mostrando Sua natureza humana, também apresentou-Se como o Eterno Deus que é ao dizer “Eu sou”. No grego, essa expressão é egô eimi, que literalmente traduzida é “Eu, Eu sou”. Assim o Senhor Jesus afirmou também a Sua natureza divina tal como o Pai que Se revelou a Moisés dizendo “Eu Sou o que Sou”.

É Cristo quem Se revela ao pecador; se Ele não Se revelar ao pecador, este jamais poderá conhece-Lo. A revelação plena de Cristo consiste em Ele ser plenamente Deus e plenamente homem.

Aplicação v.3-5: Você já teve esse encontro com Cristo? Como disse no início dessa mensagem, as circunstâncias da conversão são bem diferentes de uma pessoa para outra. Mas, o efeito é um só: a pessoa é profunda e completamente impactada pela Graça de Deus e por ela transformada. Ainda que você não tenha tido uma experiência tão dramática como a de Saulo, pode ter certeza de que se de fato você teve um encontro com Cristo você foi tão profundamente transformado quanto Saulo.

O terceiro estágio em que o pecador, agora transformado, se encontra é:

3)     Submissão a Cristo, v.6-9

 

Exposição v.6-9: no v.6 o Senhor Jesus ordenou-lhe o seguinte: “mas levanta-te e entra na cidade, onde te dirão o que te convém fazer”. Novamente algumas versões (por exemplo, a Revista Corrigida) trazem o acréscimo no início desse verso: “E ele, tremendo e atônito, disse: Senhor, que queres que eu faça?”, o qual não consta nos originais. Quem está no comando da vida do convertido é Cristo. É importante notarmos que o Senhor Jesus não deu detalhes nesta ordem, mas, tão somente disse que a primeira coisa que deveria fazer era entrar em Damasco.

No v.7 lemos que “Os seus companheiros de viagem pararam emudecidos, ouvindo a voz, não vendo, contudo, ninguém”. Aquela luz forte da manifestação de Cristo foi vista por eles, o que fez com que ficassem emudecidos de medo e pavor. Eles ouviram a voz, mas, não viram a ninguém, ou seja, não viram quem falava. Em At 22.9 Paulo informa que eles não compreenderam o sentido das palavras que foram ditas. Saulo, contudo, compreendeu como fica claro nos v.8 e 9: “Então, se levantou Saulo da terra e, abrindo os olhos, nada podia ver. E, guiando-o pela mão, levaram-no para Damasco. Esteve três dias sem ver, durante os quais nada comeu, nem bebeu”. Primeiro, Saulo levanta-se do chão. Ele teve de ser derrubado em sua arrogância e prepotência. A conversão verdadeira tem de passar por esse processo. O pecador precisa se ver no nível do pó da terra para que então clame por salvação.

Colocando-se em pé, abriu seus olhos, mas, estava cego. O fulgor daquela luz celestial cegou-lhe totalmente. Precisou de que alguém o guiasse pelas mãos e o levassem a Damasco tal como o Senhor Jesus ordenara. Mesmo impossibilitado de enxergar Saulo obedeceu a Cristo, pois, compreendera que seria loucura recalcitrar contra os aguilhões divinos (cf. At 26.14). A cegueira durou longos três dias, acompanhada de um jejum total. Nada neste mundo, nem mesmo as coisas mais importantes como a alimentação eram mais importantes do que o que estava acontecendo ali com ele. Nestes três dias Deus tratou seu coração que em oração buscava ao Senhor Jesus para reavaliar toda a sua vida e entender tudo o que estava acontecendo. Separado de tudo e de todos, Saulo agora tinha todo o tempo necessário para lidar com a maior crise de sua vida: a conversão.

Que inversão de acontecimentos! Aquele que queria por todas as formas derrubar a Igreja de Cristo, agora estava derrubado ao chão; aquele que tinha como objetivo acorrentar os cristãos e conduzi-los como animais amarrados, agora, precisava de que alguém o conduzisse pela mão. Aquele que veio para triunfar sobre a Fé Cristã, agora, se vê rendido a ela.

Simon Kistemaker faz a seguinte afirmação:

“Note-se o simbolismo dos três dias que Paulo permaneceu cego em confinamento solitário. “Ele é crucificado com Cristo, e os três dias de escuridão são como os três dias no túmulo”. E note-se o contraste entre luz e trevas no relato da conversão de Paulo. Em cegueira espiritual, ele vê Jesus em radiante luz de glória. Fisicamente cego, Paulo ora e começa a enxergar espiritualmente”.

Paulo não teve apenas uma visão de Cristo; ele teve um encontro pessoal com o Cristo Glorificado. O mesmo acontecera a Pedro, Tiago e João no Monte da transfiguração (cf. Mt 17.1-8), depois com Estêvão (At 7.55) e em Ap 1.9-20 quando João viu o Senhor Jesus ressurreto na ilha de Patmos. Este foi o primeiro requisito que Paulo recebeu como distintivo do apostolado que ainda estava por receber de Cristo.

Aplicação v.6-9: Saulo mesmo cego obedeceu a Cristo porque a conversão possibilitou a ele poder ver as coisas espiritualmente, e assim, ele viu quem é que de fato é o Senhor. A sua conversão a Cristo traz essa marca de obediência incondicional? A conversão é descrita na Palavra como mudança de vontades, ou seja, não mais a sua vontade, mas, somente a de Deus é que importa para o convertido. É assim na sua vida?

Conclusão

Da cegueira do pecado, ao encontro regenerador com Cristo seguindo por uma vida de obediência e Ele. É assim a vida de um discípulo de Cristo. Que Ele nos capacite cada vez mais a vivermos assim. Amém!

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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