A Soberana Vontade de Deus – 31ª Mensagem

A Segunda Viagem Missionária

Desavença entre Irmãos

At 15.36-41

              O intervalo entre a primeira e segunda viagem missionária foi marcado por controvérsias e disputas. Primeiramente vimos a questão polêmica sobre os gentios terem que se circuncidar para serem salvos o que foi imposto por um grupo de judeus desautorizados e que não haviam compreendido plenamente a amplitude da obra salvífica de Cristo lá na cruz. Tal questão levou os apóstolos se reunirem em concílio em Jerusalém para traçarem diretrizes para judeus e gentios quanto à questão.        Agora, nos preparativos para a segunda viagem missionária vemos uma desavença entre os apóstolos Paulo e Barnabé envolvendo o jovem João Marcos. No primeiro caso, envolveu toda a liderança e a Igreja de Cristo; no segundo, dois irmãos e grandes amigos que labutavam ombro a ombro pela causa do Senhor Jesus. Temos lições preciosas aqui. Por isso, nesta ocasião quero meditar com os irmãos sobre: Desavença entre irmãos.

              Destacamos aqui três verdades sobre as desavenças:

1)     Elas podem acontecer entre irmãos, v.36-38

 

Exposição v.36-38:36 Alguns dias depois, disse Paulo a Barnabé: Voltemos, agora, para visitar os irmãos por todas as cidades nas quais anunciamos a palavra do Senhor, para ver como passam.  37 E Barnabé queria levar também a João, chamado Marcos.  38 Mas Paulo não achava justo levarem aquele que se afastara desde a Panfília, não os acompanhando no trabalho”.

              Paulo e Barnabé, companheiros de ministério, irmãos na Fé e grandes amigos. Uma divergência de opinião entre os dois. Paulo queria visitar as igrejas plantadas na primeira viagem e por isso disse: “Voltemos, agora, para visitar os irmãos por todas as cidades nas quais anunciamos a palavra do Senhor, para ver como passam” (v.31). Era o seu coração de pastor falando alto. Alguns entendem que Paulo estava focado na obra, enquanto que Barnabé olhava para as pessoas, mas, isso é um equívoco. Paulo estava preocupado com os irmãos e a saúde espiritual deles. Paulo assumiu a liderança como sempre e apontou a direção da obra.

              Neste momento Barnabé se manifestou querendo “levar também a João, chamado Marcos” (v.37) ao que Paulo se opôs, pois, “não achava justo levarem aquele que se afastara desde a Panfília, não os acompanhando no trabalho” (v.38). João Marcos, primo de Barnabé (Cl 4.10), o qual havia abandonado a equipe missionária antes da metade da primeira viagem, agora se apresentava para continuar ajudando. Mas, Paulo não concordou porque soava incoerente eles visitarem as igrejas para fortalecerem os irmãos instruindo-os a permanecer firmes na fé, quando tinham na equipe um desertor, alguém que não ficou firme no propósito de servir a Deus através da obra missionária.

              Essa história nos mostra que mesmo entre aqueles que foram comprados pelo precioso sangue de Cristo, que comungam da mesma fé, podem ter posições e opiniões diferentes em determinada situação. E por que as desavenças acontecem? Porque são pecadores lutando para impor a própria vontade sobre o outro.

Aplicação v.36-38: Quando você estiver numa situação que caminha para uma desavença pergunte-se se não é a sua vontade que você está tentando impor sobre o outro. Não é a sua vontade que tem de ser imposta e muito menos feita pelos outros. Você tem de ter sempre em mente a vontade de Deus, e antes de você querer que os outros façam a vontade de Deus, faça você primeiro.

              A segunda verdade sobre as desavenças é que:

 

2)     Se não forem superadas podem separar irmãos, v.39

 

Exposição v.39:39 Houve entre eles tal desavença, que vieram a separar-se. Então, Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para Chipre”.

              Lucas enfatiza que Houve entre eles tal desavença, que vieram a separar-se”. A palavra que no grego foi traduzida aqui por “desavença”, indica “irritação, provocação, contenda”. Houve mesmo uma discussão a qual Lucas não registra os detalhes. Podemos supor que Barnabé apesar de ter um caráter sereno e consolador (como assim ele foi apelidado pelos irmãos, “filho de exortação”, At 4.36) nesse momento falou coisas que irritaram a Paulo profundamente, e o mesmo fez Paulo para com Barnabé. Provavelmente, eles se magoaram ali, se ofenderam, pois, como acontece em situações assim, e eles se separaram.

              Aquela equipe missionária foi destruída pelo orgulho inflamado dos dois. Nem um, nem outro retrocedeu. Paulo continuou firme e irredutível em não levar João Marcos; Barnabé não abria mão de João Marcos.

              Podemos nos perguntar se não faltou a Paulo um pouco de coerência aqui, pois, quando ele precisou de um apoio por ocasião da sua conversão, Barnabé foi o primeiro a estender-lhe a mão. Não era a hora de Paulo fazer o mesmo e dar uma segunda chance ao jovem João Marcos?

              Como é triste ver irmãos em Cristo separados porque o orgulho deles falou mais alto que o amor.

Aplicação v.39: Quando você estiver diante de uma desavença que não pode ser evitada, empenhe-se por dirimi-la não deixando que nenhuma raiz de amargura fique em seu coração. Lembre-se que a amargura em seu coração não afeta somente a você: “atentando, diligentemente, por que ninguém seja faltoso, separando-se da graça de Deus; nem haja alguma raiz de amargura que, brotando, vos perturbe, e, por meio dela, muitos sejam contaminados” (Hb 12.15).

              Por fim, a terceira verdade sobre as desavenças é que

3)     Deus continua agindo apesar das desavenças, v.40,41

 

Exposição v.40,41:40 Mas Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu encomendado pelos irmãos à graça do Senhor.  41 E passou pela Síria e Cilícia, confirmando as igrejas”.

              Naquele momento irredutível para ambos, depois de tomarem a decisão de se separarem, faltava cada um seguir numa direção. Barnabé seguiu com João Marcos para sua terra natal, a ilha de Chipre, enquanto que Paulo trouxe consigo a Silas, também conhecido como Silvano (2Co 1.19), e foram pelas terras da Síria e Cilícia.  Silas era um dos “notáveis” da Igreja de Jerusalém (cf. At 15.22).

              Agora, não mais uma, mas, duas equipes missionárias. Mais pessoas ao mesmo tempo estavam sendo alcançadas com o Evangelho. Mas, Deus não estava trabalhando somente no avanço da pregação do Evangelho. Ele também estava trabalhando no coração de Paulo.

              É importante ressaltarmos que esta é a última vez que Barnabé aparece no livro de Atos. Mas, em suas cartas quando Paulo mencionou Barnabé demostrou não ter guardado nenhuma mágoa em relação ao companheiro. Quando ele escreveu a carta aos Gálatas na sua segunda viagem missionária estando em Corinto, ou seja, pouco tempo depois do ocorrido, não o vemos falando com mágoa ou alguma animosidade contra Barnabé (Gl 2.13).

              Mas não foi só em relação a Barnabé que Deus tratou o coração de Paulo. Com relação ao jovem João Marcos Deus também tratou o coração do apóstolo. Anos depois escrevendo aos crentes da Igreja de Colossos, Paulo recomendou Marcos como alguém de confiança (Cl 4.10), e quando no final de sua vida, estando preso pela segunda vez em Roma, Paulo pede a Timóteo várias coisas, dentre elas que lhe trouxesse em sua companhia a João Marcos porque ele lhe era “útil para o ministério”, isto é, para o serviço (2Tm 4.11). Aquele que foi o pivô da separação de Paulo e Barnabé porque fora reprovado e tido como inútil para o trabalho, anos depois, Deus o transformou em alguém útil para o ministério aos olhos de Paulo.

              Aqui fica a pergunta: quem estava certo nessa disputa? Se formos avaliar os resultados do ministério deles estaremos sendo injustos com Barnabé, pois, de agora em diante Lucas concentra sua atenção em Paulo e nada mais fala sobre Barnabé. Cremos que a resposta mais adequada é: os dois estavam certos em seus posicionamentos, mas, os dois estavam errados na forma como lidaram com a questão. É por isso que Deus age independente dos nossos erros.

Aplicação v.40,41: Nunca se esqueça que enquanto Deus age através de você, Ele, principalmente está agindo em você. Ele tem o poder de agir nas circunstâncias revertendo qualquer situação fazendo com que qualquer situação concorra para a glória do Nome Dele, mas, em meio às circunstâncias Ele está agindo em seu coração fazendo você perceber que o exercício da misericórdia deve sempre andar junto com a submissão à verdade.

Conclusão

              Desavenças infelizmente, sempre acontecerão em nossos relacionamentos. Devemos não somente nos empenhar para que elas não aconteçam, como também se elas acontecerem nos empenharmos para que elas não causem marcas permanecentes em nosso coração. Assim como Paulo que não carregou em seu coração nenhuma mágoa contra Barnabé e João Marcos, antes viu neles o que Deus fizera em suas vidas, da mesma forma devemos nós agir também. Para gerarmos uma desavença nenhum grau de maturidade é necessário, mas, para resolve-la e impedir que a amargura tome conta do nosso coração é necessário muita maturidade espiritual.

              Que Deus assim nos ajude a vivermos em paz, sem nunca comprometermos a verdade.

 

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.
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