A Soberana Vontade de Deus – 35ª Mensagem

A Segunda Viagem Missionária

O Altar Vazio

At 17.16-34

              Sendo deixado pelos irmãos bereianos na Grécia, mais precisamente na sua capital Atenas, Paulo se via no maior centro intelectual dos tempos antigos. Atenas era uma cidade muito bela, com construções e edifícios belos, gente culta por todos os lados. Um lugar onde pessoas complexadas e tímidas não conseguiriam nem respirar. Mas, Paulo não estava ali para fazer turismo, e nem mesmo para fugir dos inimigos, embora esse motivo estivesse presente na atitude dos irmãos bereianos; ele estava ali para anunciar o Evangelho. Não se importando com o fato de estar na capital da filosofia humana, ele sabia que a sabedoria divina revelada no Evangelho é infinitamente superior.

Exposição v.16:16 Enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu espírito se revoltava em face da idolatria dominante na cidade”.

              Atenas recebera este nome em virtude da deusa grega Atena. A capital mundial da filosofia era o retratado do coração humano, a saber, extremamente idólatra. Eles tinham tantos ídolos que com medo de deixarem algum esquecido erigiram um altar AO DEUS DESCONHECIDO na esperança de que se um dia esse Deus se revelasse a eles, estariam mais seguros diante dele, pois, mesmo sem conhece-lo sempre o adoraram. E andando pelas ruas dessa cidade Paulo sentiu profunda revolta (literalmente, ira) ao ver a idolatria que dominava, escravizava e cegava aqueles corações arrogantes e orgulhosos de sua filosofia, que se mostrava incapaz de faze-los ver quão tola e ridícula era a fé deles em meros objetos.     

 

Exposição v.17,18:17 Por isso, dissertava na sinagoga entre os judeus e os gentios piedosos; também na praça, todos os dias, entre os que se encontravam ali.  18 E alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendiam com ele, havendo quem perguntasse: Que quer dizer esse tagarela? E outros: Parece pregador de estranhos deuses; pois pregava a Jesus e a ressurreição”.

              Adotando sua estratégia de sempre, Paulo procurou os judeus e gentios piedosos (convertidos ao Judaísmo) na sinagoga, e, depois de pregar-lhes o Evangelho voltou-se para os gregos. Tanto na sinagoga quanto na praça ele alçava sua voz e anunciava o Evangelho de Cristo.

              Dois grupos de filósofos, os epicureus e os estóicos entraram em contenda com ele, acusando-o de “tagarela”, um semeador de ideias[1] estranhas. Os epicureus seguiam às ideias de Epícuro (342 – 270 a.C.) que entre as quais estava que a morte é o fim de todas as coisas, inclusive da alma; com a morte até a alma desaparece. Já os estóicos por causa do Pórtico Poikilê (Pórtico Pintado) de onde eles proferiam seus discursos, eram discípulos de Zeno (332 – 260 a.C.), que entre outras ideias estava à do fatalismo que dizia que o homem só será feliz se submeter-se à sua sorte, não podendo mudar nada em sua vida. É a ideia do carma que diz que não se pode mudar o que você é; se nasceu escravo, deverá morrer escravo; se nasceu num lar onde um determinado deus é adorado, você não poderá mudar de deus.

              Estes dois grupos que não criam na existência eterna após a morte e estavam dominados por terrível idolatria foram confrontados com o Evangelho que anuncia a “Cristo e a ressurreição”.

Exposição v.19-21: 19 Então, tomando-o consigo, o levaram ao Areópago, dizendo: Poderemos saber que nova doutrina é essa que ensinas?  20 Posto que nos trazes aos ouvidos coisas estranhas, queremos saber o que vem a ser isso.  21 Pois todos os de Atenas e os estrangeiros residentes de outra coisa não cuidavam senão dizer ou ouvir as últimas novidades”.

              Diante dessa nova mensagem, “Cristo e a ressurreição”, eles tomaram a Paulo e o levaram ao Areópago (Colina de Áries), onde o concílio dos filósofos se reunia. Uma espécie de tribunal foi instalado ali, e, diante de todos Paulo foi interrogado por aqueles homens sobre a “nova doutrina” que ele ensinava, a qual soava aos seus ouvidos como “coisas estranhas” as quais estavam agitando a população que não cuidava de outra coisa “senão dizer ou ouvir as últimas novidades”.

Exposição v.22,23:22 Então, Paulo, levantando-se no meio do Areópago, disse: Senhores atenienses! Em tudo vos vejo acentuadamente religiosos;  23 porque, passando e observando os objetos de vosso culto, encontrei também um altar no qual está inscrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Pois esse que adorais sem conhecer é precisamente aquele que eu vos anuncio”.

              Apesar de revoltado com tanta idolatria, quando teve a oportunidade Paulo não lhes agrediu. Pelo contrário, sabendo que estava diante de homens vaidosos e arrogantes, sabia muito bem que em vez de palavras duras melhor seria usar de palavras habilidosas elogiando a religiosidade deles quando disse “Em tudo vos vejo acentuadamente religiosos”. Não devemos pensar que ele estivesse elogiando a idolatria deles, até mesmo porque foi justamente isso que lhe causou grande indignação. O que ele fez aqui foi cativar a atenção deles para que lhes pudesse pregar o Evangelho. Como se diz “pega-se moscas com mel e não com o fel”.

              Em vez de prender-se à religiosidade deles, Paulo tratou logo de mostrar-lhes que aquele DEUS DESCONHECIDO, era justamente a quem ele estava pregando ali. Diante de oportunidade tão preciosa, Paulo com toda a intrepidez que sempre buscou em Deus, proferiu um breve, porém, vigoroso sermão que poderíamos intitulá-lo “AO DEUS DESCONHECIDO”.

              Nos próximos versículos Paulo passa a apresentar quem Deus é:

Exposição v.24,25:24 O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas. 25 Nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais”.

              No v.24 Ele é apresentado como o Criador e Sustentador da Criação. Não vivemos um deísmo que ensina que depois de ter criado o universo Deus o entregou às leis naturais previamente estabelecidas, mas, não Se importa mais com a criação. A Bíblia apresenta o teísmo, ou seja, Deus não somente criou, mas, sustenta a Sua criação por meio de leis que estabeleceu, e por isso mesmo Ele é também o Senhor Absoluto e Santo dos céus e da terra, que se contrasta com os ídolos feitos por mãos humanas e são guardados em templos feitos pelos homens.

              No v.25 Ele é apresentado como independente e pleno em Si mesmo, pois, não necessita de nós para existir e nem mesmo do nosso serviço para que a Sua vontade seja executada. Ele não necessita ser servido para ser pleno e satisfeito, pois, Ele em Si mesmo se basta.

 

Exposição v.26,27:26 de um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação; 27 para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar, bem que não está longe de cada um de nós”.

              Nestes versículos Paulo desfere três golpes na arrogância dos atenienses.

Primeiro golpe – todos são iguais: Os gregos em sua arrogância dividiam a humanidade em dois grupos: os gregos e os bárbaros. Quem não fosse grego, era um ser ignóbil, um bárbaro. Semelhantemente, os judeus também fizeram isso. Contudo, ao afirmar que “de um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra”, Paulo golpeia a arrogância deles.

Segundo golpe – todos são dependentes: Outro golpe na arrogância deles foi mostrar-lhes que eles dependiam totalmente de Deus para prover-lhes o necessário para viver, pois, Ele fixou “tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação”, ou seja, todos os limites conquistados por eles foram estabelecidos por Deus. Os impérios surgem e desaparecem quando Deus bem quer.

Terceiro golpe – todos são cegos: àqueles que eram acentuadamente religiosos, Paulo mostra que em toda a religiosidade deles, eles eram cegos espiritualmente, incapazes de ver claramente, mas, só tateavam como cegos em busca da verdade. Mas, Deus em Sua misericórdia se deixou ser encontrado pelos homens, como exatamente estava fazendo nessa ocasião através da pregação do Evangelho por meio de Paulo.

 

Exposição v.28-31:28 pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dele também somos geração”.

              Conectando todas essas verdades sobre Deus com seus ouvintes ali, Paulo lembra-lhes o que disseram dois de seus filósofos antigos: Epimênides (600 a.C.) que disse que os homens são descendentes de Zeus, e que existem, vivem e se movem pela força de Zeus. O outro poeta grego chamado Aratus (3º século a.C.) também disse que os homens eram descendência de Zeus[2]. Ao usar essas palavras ele não estava concordando com elas, mas, sim, lhes mostrando quem de fato é o Deus Todo-Poderoso que lhes deu a vida.

Exposição v.29-31:29 Sendo, pois, geração de Deus, não devemos pensar que a divindade é semelhante ao ouro, à prata ou à pedra, trabalhados pela arte e imaginação do homem.  30 Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam;  31 porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos”.

              Concluindo sua mensagem, Paulo aplica todas as verdades sobre o DEUS DESCONHECIDO resumindo-as e conclamando-os ao arrependimento. O Deus verdadeiro:

ü Ele é Criador e não fruto da imaginação pecaminosa e cega dos homens;

ü Ele é o Deus santo que habita a Sua glória e não templos ou altares feitos pelas mãos dos homens;

ü Ele é misericordioso e dá aos homens a oportunidade de se arrependerem;

ü Ele é o Justo Juiz que condenará os pecadores tendo como referência a Justiça de Seu Filho Jesus Cristo, a quem Ele ressuscitou dentre os mortos mostrando assim que o sacrifício Dele foi aceito.

 

Exposição v.32-34:32 Quando ouviram falar de ressurreição de mortos, uns escarneceram, e outros disseram: A respeito disso te ouviremos noutra ocasião.  33 A essa altura, Paulo se retirou do meio deles.  34 Houve, porém, alguns homens que se agregaram a ele e creram; entre eles estava Dionísio, o areopagita, uma mulher chamada Dâmaris e, com eles, outros mais”.

               Estes versículos descrevem o resultado da pregação do Evangelho. De repente a pregação de Paulo foi interrompida em tom irônico pelos arrogantes incrédulos: “A respeito disso te ouviremos noutra ocasião”. Mas, será que houve outra ocasião para eles? Os atenienses temiam não adorar algum DEUS DESCONHECIDO, mas quando este Deus se revelou a eles, simplesmente Lhe deram as costas.

              Alguns dos que creram agregaram-se a Paulo, dentre eles, Dionísio, areopagita, um dos membros do concílio do Areópago, e Dâmaris de quem nada sabemos.

              Diante de tudo isso que expomos, quero chamar a sua atenção para aquele altar erigido pelos atenienses AO DEUS DESCONHECIDO, que estava no meio de todos aqueles altares e que estava vazio.

              Na Igreja Cristã não temos altares, pelo fato de que não temos mais sacrifícios sendo realizados no culto a Deus como antigamente. Nos tempos do Novo Testamento, o templo do Senhor é o homem, e o altar é o coração do homem. E fazendo uma analogia entre a situação dos atenienses que tinham um altar vazio e a situação do coração do homem sem Deus, proponho o seguinte tema para nossa meditação: O altar vazio.

                   O altar vazio permanecerá vazio:

1)     Enquanto estiver cheio de ídolos

              O coração do homem é uma fábrica de ídolos, disse João Calvino. E é a mais pura verdade.

              Por conta do vazio provocado pelo pecado, o homem vive às apalpadelas, tateando os seus ídolos e neles crendo. Não deveríamos ficar admirados com a multidão de ídolos dos atenienses porque há bem da verdade nosso coração enquanto não se rende a Deus totalmente, terá tantos ídolos quanto tiveram os atenienses.

              Preste muita atenção: enquanto o seu coração estiver sob o domínio da idolatria, ainda que esteja cheio, na verdade, ele estará vazio. Sabe por quê? Por que ídolos não preenchem o vazio do coração, por que o vazio do coração só pode ser preenchido com vida, e todo o ídolo não tem vida. Como pode algo que não tem vida comunicar vida? Como pode objetos e coisas comunicarem vida se em si mesmos eles não têm vida alguma?

Aplicação: Sabe aquele sentimento de vazio em seu peito? Sabe aquela sensação de vacuidade em sua alma, aquela falta de sentido para a vida? Isso acontece porque o altar do seu coração está vazio embora esteja repleto de quinquilharias idólatras. Deus chama você ao arrependimento, a abandonar essa idolatria seja ela o que for: uma paixão, um vício, ganância, avareza, o desejo de ter, ter e ter cada vez mais, mas, nunca é o desejo de ter mais de Deus.

              O altar (seu coração) continuará vazio

2)     Enquanto Deus ainda for desconhecido

              A pessoa mais falada neste mundo é Deus, porém, é a menos conhecida. Isto por que os homens procuram conhece-Lo onde Ele não Se revelou. Procuram conhece-Lo nos lugares e filosofias dos mais absurdos. Se buscassem conhece-Lo por meio de Jesus Cristo, O qual é “o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser…” (Hb 1.3), com certeza O conheceriam.

              Paulo falou aos atenienses sobre o DEUS DESCONHECIDO apresentando-lhes o Senhor Jesus e a ressurreição. Eles o ridicularizaram. Como pode um crucificado me apresentar o Deus verdadeiro? Mas, Ele pode porque Ele é o próprio Deus que Se revelou.

              Mas, enquanto Deus não for conhecido por seu coração, o seu coração continuará vazio; esse “altar” continuará vago, porém, tomado pelo vazio desesperador.

Aplicação: Onde e em quem você tem buscado o conhecimento de Deus? Você tem buscado conhecer a Deus por meio da Sua Palavra que nos mostra quem é Jesus Cristo, ou tem buscado suas próprias fontes? Se o seu coração continua vazio, isso indica que a sua fonte é enganosa, é ilusória, é um poço de idolatria. Você acha que tiver um casamento, um emprego dos sonhos, muita saúde, e muito dinheiro você será feliz e um servo melhor? Quantos são os que se entregaram a tudo isso e hoje estão desesperadamente vazios.

              O altar (seu coração) continuará vazio

3)     Enquanto não houver uma resposta de fé.

               Conhecemos a Deus não quando o entendemos, mas, sim, quando Nele cremos. E crer em Deus significa não buscar nenhuma outra forma de fé, porque Deus é suficiente.

               Crer em Deus nos leva a descansar quanto ao futuro, pois, embora o Juízo Divino aguarda a todos nós, ele não nos causará dano porque Cristo sofreu na cruz o nosso dano.

               Crer em Deus nos leva a nos aquietarmos no presente sabendo que é no Seu eterno pode que “vivemos, e nos movemos e existimos”, e que por isso mesmo não devemos nos desesperar.

               Crer em Deus nos leva a ver que o nosso passado foi perdoado, porque Deus não leva em conta os pecados cometidos nos tempos da ignorância, e por isso “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1).

               Mas, seu coração não desfrutará nada disso enquanto você não responder com fé a Deus, enquanto você não desistir de cada um dos seus muitos ídolos e das falsas promessas de plena satisfação para o seu coração.

Aplicação: Você está disposto a abrir mão de seus ídolos? Você ainda quer guarda-los escondidos das pessoas como Raquel fizera com os ídolos de seu pai (Gn 31.30-35)? Você até os esconderá por um tempo dos olhos das pessoas, mas, nunca os esconderá de Deus. Abandone seus ídolos e se volte para Deus com fé, crendo que Ele poderá plenificar seu coração com as riquezas de Sua glória eterna.

Conclusão

               Deus não habita em templos feitos por mãos humanas, mas, habita em templos humanos feitos por Sua mão. Há privilégio maior que este?



[1] No grego a palavra spermológos, é um pegador de sementes, usado para indicar pássaros que bicavam grãos; posteriormente passou a designar homens que procuram encrenca. Com o passar dos anos passou a designar homens que negociavam e pechinchavam no mercado, mas, nos dias de Paulo o significado era pejorativo indicando pessoas indignas em geral.

[2] KISTEMAKER, 2006, vol.2, p.192.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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