A Soberana Vontade de Deus – 36ª Mensagem

A Segunda Viagem Missionária

Revigoramento Espiritual

At 18.1-22

              Nesta última etapa da segunda viagem missionária, Paulo plantou a Igreja na cidade de Corinto (cf. 1Co 3.6). Ali em Corinto Paulo mais uma vez enfrentou dificuldades na Obra do Senhor, mas, também experimentou o revigoramento espiritual que Deus promoveu em sua vida de forma singular. E é sobre isso que quero meditar com os irmãos nessa ocasião: Revigoramento Espiritual.

              Como Deus revigora espiritualmente os Seus servos? Ele emprega alguns meios muito importantes, e aqui neste texto destacamos quatro desses meios. O primeiro é:

1)     Pela presença de outros servos Dele, v.1-4

 

Exposição v.1-4: “Depois disto, deixando Paulo Atenas, partiu para Corinto.  2 Lá, encontrou certo judeu chamado Áquila, natural do Ponto, recentemente chegado da Itália, com Priscila, sua mulher, em vista de ter Cláudio decretado que todos os judeus se retirassem de Roma. Paulo aproximou-se deles.  3 E, posto que eram do mesmo ofício, passou a morar com eles e ali trabalhava, pois a profissão deles era fazer tendas.  4 E todos os sábados discorria na sinagoga, persuadindo tanto judeus como gregos”.

              A cidade de Corinto era muito importante naquela época. Com uma população em torno de 200.000 habitantes, ela desempenhava o papel de capital comercial da Grécia, enquanto Atenas era a capital cultural. Localizada na península do Peloponeso, era uma cidade portuária com dois portos muito importantes (Cencreia e Lecaião). Justamente por ser uma cidade portuária abrigava gente de todos os lados que para ali vinham por vários motivos, dentre eles, para adorarem Afrodite, a deusa do amor, para a qual foi erigido um templo que abrigava um número considerável de prostitutas cultuais, sacerdotisas que se entregavam à prostituição como um ato de culto à deusa Afrodite.

              Agora, leia dentro dessa perspectiva o que Paulo escreveu em 1Co 2.1-5:

 

      Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria.  2 Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado.  3 E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós.  4 A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder,  5 para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus.  

              Se em Atenas o seu espírito se revoltou contra a idolatria dominante ali, aqui em Corinto ele sentiu-se por demais fraco e tremendo de medo. E isso fica ainda mais claro quando olhamos para os v.9,10 onde o Senhor Jesus lhe disse para não temer, mas, continuar pregando e confiando em Seu cuidado.

              Ali em Corinto ele estava sozinho, mas o Senhor Jesus preparou dois irmãos para estarem com ele: Áquila e Priscila. Eles eram judeus que haviam sido expulsos de Roma por causa de um édito de Cláudio contra os judeus. A julgar por outras referências bíblicas que falam sobre esse casal, eles já eram cristãos nessa ocasião, e por isso mesmo “Paulo aproximou-se deles” (v.2), o que indica algo relacional, pois, além do mesmo ofício de fazer tendas eles tinham a mesma fé.

              Paulo não estava sozinho. Aquele casal foi um instrumento de Deus em sua vida para ajuda-lo a levantar sustento fazendo tendas, a fim de poder pregar o Evangelho ali.

Aplicação v.1-4: É muito comum aqueles que se sentem solitários se isolarem ainda mais dos outros. Paulo estava sozinho a princípio, mas, assim que conheceu Áquila e Priscila ele tratou de se aproximar deles. É lamentável existir crentes que querem ser bajulados e paparicados, e quando isso não acontece, saem dizendo que a igreja é fria, não se importa com ninguém. Se você estiver se sentindo sozinho, você deve buscar a presença e comunhão dos irmãos. Não fique esperando alguém vir até você, mas, vá você em busca da comunhão. Deus nos prepara revigoramento espiritual na comunhão com os irmãos.

              Outra forma de Deus nos revigorar é:

2)     Pelo surgimento de frutos do trabalho (v.5-8)

 

Exposição v.5-8:5 Quando Silas e Timóteo desceram da Macedônia, Paulo se entregou totalmente à palavra, testemunhando aos judeus que o Cristo é Jesus. 6 Opondo-se eles e blasfemando, sacudiu Paulo as vestes e disse-lhes: Sobre a vossa cabeça, o vosso sangue! Eu dele estou limpo e, desde agora, vou para os gentios.  7 Saindo dali, entrou na casa de um homem chamado Tício Justo, que era temente a Deus; a casa era contígua à sinagoga.  8 Mas Crispo, o principal da sinagoga, creu no Senhor, com toda a sua casa; também muitos dos coríntios, ouvindo, criam e eram batizados”.

              Silas e Timóteo vieram ao encontro de Paulo. Estes trouxeram notícias das igrejas da Macedônia e do franco crescimento das mesmas apesar de estarem em meio a perseguições (1Ts 3.1-10). Nesta ocasião Paulo escreveu 1Tessalonicenses e logo em seguida, 2Tessalonicenses. Leia agora 1Ts 1 e veja como tudo se encaixa.

              Estas notícias revigoraram ainda mais Paulo, o qual “se entregou totalmente à palavra, testemunhando aos judeus que o Cristo é Jesus”, ou seja, deixou o ofício de fazer tendas e dedicou-se à pregação da Palavra aos judeus que ali viviam. Mas, houve resistência destes para com o Evangelho. Eles não creram que o Cristo, o Messias que Deus enviara para salvar os homens era aquele humilde carpinteiro, Jesus de Nazaré (v.5). Por isso se levantaram contra Paulo com blasfêmias. A isso, Paulo sacudiu suas vestes, gesticulando assim o seu rompimento com eles e mostrando-lhes que já havia cumprido o seu papel ali como pregador do Evangelho.

              Mas, a pregação não ficou sem frutos. Tício Justo[1], cuja casa estava ao lado da sinagoga e Crispo, o principal da sinagoga e todos os de sua casa creram e foram batizados, bem como “também muitos dos coríntios, ouvindo, criam e eram batizados” (v.8). Há ainda a possibilidade de Sóstenes que ficou no lugar de Crispo como líder na sinagoga ter se convertido ao Senhor Jesus Cristo posteriormente, se o seu homônimo de 1Co 1.1 for ele[2]. O que nos importa saber aqui é que houve muitas conversões a Cristo ali em Corinto, fato este que com certeza contribuiu para revigorar o coração do apóstolo.

 

Aplicação v.5-8: Pregando o Evangelho não desanime, pois, no devido tempo Deus fará com que os frutos apareçam (Gl 6.9). Muitas vezes você será acometido por um desânimo terrível, pois, apesar de pregar, ensinar e se dedicar à obra da pregação do Evangelho você não verá uma conversão sequer. Porém, tempos depois você ouvirá alguém comentando que aquele trabalho que você realizou Deus o fez frutificar. Isso será revigorante! Quantas vezes estando abatido e desanimado eu recebo um comentário ou depoimento de alguém falando que numa determinada ocasião em que eu pregava Deus lhe falou ao coração ou converteu alguém! Isso é sobremodo animador.

              Outra maneira pela qual Deus nos revigora espiritualmente é:

3)     Pela Sua promessa de proteção (v.9-18)

 

Exposição v.9-18:  9 Teve Paulo durante a noite uma visão em que o Senhor lhe disse: Não temas; pelo contrário, fala e não te cales;  10 porquanto eu estou contigo, e ninguém ousará fazer-te mal, pois tenho muito povo nesta cidade.  11 E ali permaneceu um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus.  12 Quando, porém, Gálio era procônsul da Acaia, levantaram-se os judeus, concordemente, contra Paulo e o levaram ao tribunal,  13 dizendo: Este persuade os homens a adorar a Deus por modo contrário à lei.  14 Ia Paulo falar, quando Gálio declarou aos judeus: Se fosse, com efeito, alguma injustiça ou crime da maior gravidade, ó judeus, de razão seria atender-vos;  15 mas, se é questão de palavra, de nomes e da vossa lei, tratai disso vós mesmos; eu não quero ser juiz dessas coisas!  16 E os expulsou do tribunal.  17 Então, todos agarraram Sóstenes, o principal da sinagoga, e o espancavam diante do tribunal; Gálio, todavia, não se incomodava com estas coisas.  18 Mas Paulo, havendo permanecido ali ainda muitos dias, por fim, despedindo-se dos irmãos, navegou para a Síria, levando em sua companhia Priscila e Áqüila, depois de ter raspado a cabeça em Cencreia, porque tomara voto”.

              Apesar da presença dos irmãos e das muitas conversões decorrentes do seu trabalho, de alguma forma ainda o coração do apóstolo estava temeroso. Mas, o Senhor Jesus sabe confortar e encorajar o coração de Seus servos. Numa visão durante a noite, o Senhor Jesus apareceu a Paulo e lhe ordenou três coisas “Não temas; pelo contrário, fala e não te cales”. O apóstolo não deveria deixar-se vencer pelo medo e também deveria continuar pregando. Os cidadãos de prestígio de Corinto o desprezavam por ser ele um fazedor de tendas o que o colocava quase que no nível de um escravo; os judeus o odiavam por causa do Evangelho. Por isso, ele deixou-se abater.

              Mas, junto com a ordem veio a promessa de proteção: “porquanto eu estou contigo, e ninguém ousará fazer-te mal”. O Senhor Jesus não iria permitir que Seu servo viesse a sofrer algum dano, pois, havia um motivo para isso como disse o Senhor Jesus “pois tenho muito povo nesta cidade”. E justamente, por isso, Paulo ainda “permaneceu um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus”.

              Alguns meses depois (ainda dentro desse período de um ano e meio), nos dias em que Gálio era o procônsul de Roma ali na Acaia (Grécia), novamente os judeus tentaram atrapalhar Paulo. Gálio era irmão de Sêneca um filósofo estoico que era tutor do imperador Nero. Os judeus em acordo, trouxeram Paulo diante de Gálio e o acusaram dizendo: “Este persuade os homens a adorar a Deus por modo contrário à lei” (v.13).

              Quando Paulo ia respondendo à acusação, Gálio o interrompeu tratando com desdém a questão dos judeus considerando-a algo sem valor e importância por se tratar de uma “questão de palavra, de nomes e da vossa lei” (v.15). Deixando a questão com os próprios judeus.

              Mas, porque Sóstenes, o principal da sinagoga, que substituiu Crispo, fora espancado? Há duas possibilidades: (1) Os coríntios aproveitaram da situação e deram vazão aos seus sentimentos antissemitas. Se entendermos que “todos” aqui no v.17 se refere aos coríntios que assistiam a tudo ali e que de alguma forma estavam aborrecidos e cansados dos judeus, e por isso aproveitaram da situação e espancaram o seu líder. (2) Sóstenes já se simpatizava com o Evangelho e foi castigado pelos judeus. Se levarmos em consideração 1Co 1.1 onde aparece um Sóstenes como companheiro de Paulo e que este seja o mesmo aqui de Atos, então, podemos entender que os “todos” que o espancaram eram o judeus que não o viram tão influente como se esperava que fosse ali na situação. Esta segunda opção se mostra mais consistente.

              Em tudo isso, Paulo foi poupado de quaisquer sofrimentos físicos como o Senhor Jesus lhe prometera.

              No v.18 vemos que Paulo antes de chegar na Síria estando ainda em Cencreia (Corinto) raspou o cabelo em cumprimento a um voto que fizera a Deus. Simon Kistemaker afirma que este voto foi em gratidão pela proteção que Deus lhe dispensara em Corinto[3]. Trata-se do voto nazireu, no qual após o corte do cabelo um sacrifício deveria ser oferecido em Jerusalém após trinta dias. Para os judeus, Paulo permaneceu um judeu, mesmo em cumprir seus votos e trazer ofertas ao templo, conforme vemos em At 21.23-26[4]. Assim a fidelidade de Cristo pôde ser vista na vida de Paulo ainda que este tenha sofrido a oposição e sofreu acusações num tribunal.

              A presença real de Cristo com Seus servos é a garantia de que mesmo passando por momentos difíceis sempre estaremos amparados e protegidos.

Aplicação v.9-18: Entenda que quando Deus diz: “Não temas” Ele não está lhe dando uma opção, mas, sim, uma ordem. Portanto, deixar-se vencer pelo medo é desobediência a Deus. Não seja complacente com o medo em seu coração. Ele é um monstro que se você permitir, dominará o seu coração. Para que isso não aconteça, obedeça a Deus em demonstrar sua confiança no Seu infinito poder.

              Por fim, o quarto meio que Deus usa para nos revigorar espiritualmente é:

4)     Pelo compromisso com os irmãos, v.19-22

 

Exposição v.19-22:19 Chegados a Éfeso, deixou-os ali; ele, porém, entrando na sinagoga, pregava aos judeus.  20 Rogando-lhe eles que permanecesse ali mais algum tempo, não acedeu.  21 Mas, despedindo-se, disse: Se Deus quiser, voltarei para vós outros. E, embarcando, partiu de Éfeso.  22 Chegando a Cesareia, desembarcou, subindo a Jerusalém; e, tendo saudado a igreja, desceu para Antioquia”.

              Depois de ter deixado Áquila e Priscila na cidade de Éfeso com certeza para que ali fosse implantada a Igreja de Éfeso. Os irmãos efésios rogaram a Paulo que permanecesse ali com eles, mas, devido ao voto que fizera e a urgência que tinha em apresentar sua oferta em Jerusalém, não pôde ficar ali por mais tempo. Porém, prometeu-lhes: “Se Deus quiser, voltarei para vós outros” (v.21).

              Partindo de Éfeso, foi para Cesareia, subindo para Jerusalém e depois partiu para Antioquia. Em Jerusalém e Antioquia ele fez como de costume, a saber, encontrou-se com os irmãos, prestou relatório enquanto se preparava para a terceira viagem missionária.

              Vemos o compromisso de Paulo com os irmãos em Éfeso, Jerusalém e Antioquia. Com os de Éfeso ele havia assumido o compromisso de voltar assim que Deus permitisse. Com os irmãos de Jerusalém e Antioquia ele tinha o compromisso da prestação de contas.

Aplicação v.19-22: Você tem compromisso com seus irmãos em Cristo? Você presa pela comunhão com eles? Você se importa em prestar-lhes contas no que é necessário? Muitos crentes encontram-se enfraquecidos e desanimados justamente porque não dão o devido valor à comunhão com os irmãos não demonstrando qualquer compromisso com os irmãos. Uma coisa que você não pode esquecer é que se você não honra seus compromissos com seus irmãos também não honrará seus compromissos com Deus. Quem não é fiel no pouco, não o será no muito.

Conclusão

         Não nos faltam recursos da parte de Deus para revigorarmos nosso coração cansado, amedrontado e triste. O que nos falta é um senso de



[1] Possivelmente este é Gaio a quem Paulo se refere em Rm 16.23. Alguns comentaristas afirmam que seu nome completo é Gaio Tício Justo (BRUCE, 2012, p.1236).

[2] Cf. MARSHALL, 2005, p.281.

[3] Cf. KISTEMAKER, 2006, p.225.

[4] Ibid., p.226.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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