A Soberana Vontade de Deus – 39ª Mensagem

A Terceira Viagem Missionária

At 18.23 – 21.16

O Reino, o Rei e os Súditos

At 19.8-20

 

                   Em Éfeso, Paulo teve um ministério muito profícuo. Ali ele gastou mais de dois anos ensinando a Palavra de Deus, teve embates ferrenhos (como veremos na próxima mensagem em 19.23-41), Deus operou milagres extraordinários (v.11), estreitou laços profundos no amor fraternal (20.36-38), e viu muitas conversões a Cristo. Isso tudo porque ele foi fiel em anunciar: O Reino, o Rei e os Súditos.

              No v.8 a Bíblia diz que Paulo na sinagoga “falava ousadamente,, dissertando e persuadindo com respeito ao reino de Deus”, e mais à frente nos v.13 e 17 “o nome do Senhor Jesus” era invocado sobre as pessoas que sofriam enfermidades e possessões malignas, trazendo cura e livramento fazendo com que mais pessoas cressem no Senhor Jesus e assim “o nome do Senhor Jesus era engrandecido”. Nos v.17-20 vemos pessoas sendo convertidas a Cristo Jesus, e dessa forma constituindo-se em Seus súditos. Vejamos com mais detalhes:

1)     O Reino, v.8-10.

 

Exposição v.8-10:8 Durante três meses, Paulo frequentou a sinagoga, onde falava ousadamente, dissertando e persuadindo com respeito ao reino de Deus.  9 Visto que alguns deles se mostravam empedernidos e descrentes, falando mal do Caminho diante da multidão, Paulo, apartando-se deles, separou os discípulos, passando a discorrer diariamente na escola de Tirano.  10 Durou isto por espaço de dois anos, dando ensejo a que todos os habitantes da Ásia ouvissem a palavra do Senhor, tanto judeus como gregos”.

              A expressão “reino de Deus” (v.8) em Atos refere-se ao Evangelho, como vemos no v. 9 “Caminho” e v.10 “…a palavra do Senhor”. O Evangelho é as Boas Novas de Deus anunciando a vinda do Rei. É a mensagem da salvação, do amor de Deus pelos pecadores salvando-os por Sua graça e misericórdia. É a mensagem mais importante e mais urgente que temos de anunciar.

              Por esta razão “Durante três meses, Paulo frequentou a sinagoga, onde falava ousadamente, dissertando e persuadindo com respeito ao reino de Deus” (v.8), com ousadia (coragem, intrepidez) ele apelava tanto à lógica daqueles homens por meio da dissertação (discurso, exposição das Escrituras), quanto à vontade deles por meio da persuasão[1].

              Apesar de todo empenho e dedicação de Paulo “… alguns deles se mostravam empedernidos e descrentes, falando mal do Caminho diante da multidão” (v.9). Seus corações eram duros como pedra, e nessa obstinação contra a Palavra de Deus eram também desobedientes, pois, deveriam crer. Incredulidade é uma das formas mais grotescas de desobediência a Deus. E como não bastassem tanta dureza e incredulidade, eles ainda saíram falando mal do Caminho, ou seja, da Palavra de Deus. Mas, dentro esse grupo de empedernidos havia discípulos os quais Paulo separou “… passando a discorrer diariamente na escola de Tirano” (v.9). Há uma cópia ocidental do texto grego que acrescenta que Paulo dissertava com esses discípulos da “quinta até à décima hora”, ou seja, das 11h às 16h, que segundo o costume oriental, nessas horas devido ao forte calor, eles se recolhiam (e até hoje é assim) voltando às atividades corriqueiras quando o sol estivesse mais fraco. Nessas horas de intenso calor e recolhimento eles aproveitavam para exercícios intelectuais e religiosos[2]. Possivelmente Paulo alugara esse recinto conhecido como “escola de Tirano” para instruir aqueles irmãos.

              E por mais de dois anos, Paulo empenhou-se em pregar o Evangelho do Reino de Deus de modo que todos os habitantes da província da Ásia, tanto os judeus como os gregos ouvissem a Palavra (v.10).    

Aplicação v.8-10: pregando o Evangelho do Reino de Deus faça-o com toda a dedicação, empenho e esforço de sua parte. Apele para o intelecto e para o coração das pessoas, mostrando-lhes a exatidão das Escrituras e como estas se cumpriram plenamente na pessoa de Jesus. Mas, não perca seu tempo com zombadores e difamadores do Evangelho. Volte-se para aqueles que demonstram ser discípulos querendo mais de Cristo.

2)     O Rei, v.11-17

Exposição v.11-17:11 E Deus, pelas mãos de Paulo, fazia milagres extraordinários,  12 a ponto de levarem aos enfermos lenços e aventais do seu uso pessoal, diante dos quais as enfermidades fugiam das suas vítimas, e os espíritos malignos se retiravam.  13 E alguns judeus, exorcistas ambulantes, tentaram invocar o nome do Senhor Jesus sobre possessos de espíritos malignos, dizendo: Esconjuro-vos por Jesus, a quem Paulo prega.  14 Os que faziam isto eram sete filhos de um judeu chamado Ceva, sumo sacerdote.  15 Mas o espírito maligno lhes respondeu: Conheço a Jesus e sei quem é Paulo; mas vós, quem sois?  16 E o possesso do espírito maligno saltou sobre eles, subjugando a todos, e, de tal modo prevaleceu contra eles, que, desnudos e feridos, fugiram daquela casa.  17 Chegou este fato ao conhecimento de todos, assim judeus como gregos habitantes de Éfeso; veio temor sobre todos eles, e o nome do Senhor Jesus era engrandecido”.

              Apesar da instrumentalidade de Paulo, quem fazia os tais “milagres extraordinários” (v.11) era o Senhor Deus! É importante destacar que o médico Lucas chama esses milagres de “extraordinários”, e como observou Calvino, os objetos simplórios como lenços e aventais do uso de Paulo (v.12) não deveriam incitar qualquer forma de idolatria e superstição. O foco aqui está em Deus que cura fisicamente as pessoas e as restaura espiritualmente por meio da Sua Palavra. E se Ele quiser usar coisas tão simplórias como a sombra de Pedro (At 5.15) ou os lenços e aventais de Paulo, Ele usará e isso para mostrar-nos que o poder não está nas pessoas, mas, sim, Nele próprio.    

              Como de costume, Lucas apresenta o assunto resumidamente e depois o expande. Ele falou do poder de Deus através de Paulo realizando milagres extraordinários. A seguir nos v.13-16 ele narra o que aconteceu com sete judeus “exorcistas ambulantes” (v.13), os quais eram filhos do sumo sacerdote chamado Ceva. A cena seria hilária se não fosse vergonhosa e trágica.

              Em Mt 12.27 e Lc 11.19 o Senhor Jesus declara que a prática do exorcismo era algo conhecido dos judeus. O historiador judeu Flávio Josefo relata que ele viu um patrício seu expulsar um demônio de um homem possesso na presença do general romano Vespasiano[3]. Como eram esses exorcismos pouco sabemos. Mas uma coisa era certa: os exorcistas ambulantes viviam sempre em busca de uma nova fórmula para esconjurar os demônios. Foi justamente isso que aconteceu a estes sete filhos de Ceva. Eles disseram: “Esconjuro-vos por Jesus, a quem Paulo prega” (v.13). Ao verem Paulo expulsando demônios pelo nome de Jesus, estes rapazes julgaram ter encontrado uma fórmula nova, a saber, “o nome de Jesus”. No nome de Jesus estão a Sua autoridade real, suas obras reais, e a Sua própria pessoa. Invocar o nome de Jesus é clamar por Ele próprio e não por uma palavra mágica. Por esta razão devemos ser muito cuidadosos em colocarmos o santo nome de Jesus em vão. Usá-Lo em vão é demonstrar que não O conhecemos como Ele é revelado nas Escrituras, isto é, como o Rei Eterno, o Deus Todo-Poderoso e santo.

              Na esconjuração que estes rapazes fizeram eles demonstraram não ter qualquer conhecimento da pessoa de Jesus, e, por isso mesmo ouviram a resposta do espírito maligno: “Conheço a Jesus e sei que é Paulo; mas vós, quem sois?”. O demônio havia aprendido sobre Jesus e sabia que o poder divino que dele fluía para Paulo podia dominá-lo[4]. Mas, quem eram aqueles rapazes? Que autoridade emanava deles? Nenhuma. Só se pode enfrentar o mal com a autoridade de Cristo. E isso eles não tinham, porque esta autoridade é concedida por Cristo aos que com Ele se relacionam.

              No v.15 Lucas mostra o espírito maligno falando, e no v.16 o possesso de espírito maligno agindo, atacando aqueles rapazes. Com uma força sobrenatural, aquele endemoninhado salta sobre eles e os espanca a ponto de deixa-los desnudos e feridos, e por isso eles só tiveram uma opção: “fugiram daquela casa”, literalmente, escaparam das mãos do endemoninhado.

              Mas, o que foi desonra para esses intrometidos foi revertido em benefício da pregação do Evangelho e “o nome do Senhor Jesus era engrandecido” porque tanto os judeus quanto os gregos habitantes de Éfeso ficaram tomados de temor e reverência pelo nome de Cristo. Este fato é maravilhoso, pois, pela lógica, era para as pessoas temerem o diabo (como vemos em nossos dias quando mais se fala do diabo do que de Cristo em muitas igrejas!). Porém, Deus reverteu a situação a tal ponto que favoreceu o engrandecimento do nome de Cristo perante aquelas pessoas. As pessoas viram que invocar o nome de Jesus de forma descomprometida e supersticiosa é um grave erro que traz sérias consequências.

Aplicação v.11-17: Não importam os meios e os instrumentos que Deus usa para realizar Sua obra, o que importa é que a honra nunca será para o instrumento, mas, sempre para Ele. Se for servido a Ele nos usar de alguma forma não devemos jamais tomar para nós a glória que é somente Dele. Além disso, devemos demonstrar profundo zelo pelo nome de Cristo não invocando-O supersticiosamente, e muito menos de forma insolente. Invocar o nome de Jesus implica em conhece-Lo como Rei Eterno, Deus Todo-poderoso, Senhor Supremo diante de quem todos devem dobrar seus joelhos humildemente. Quando você toma o nome de Cristo em vão ou o coloca em conversas banais demonstra ser pior que um demônio que apesar de ser um ente maligno e condenado, conhece a Cristo e treme de medo diante do Seu santo nome.

3)     Os súditos, v.18-20

 

Exposição v.18-20:18 Muitos dos que creram vieram confessando e denunciando publicamente as suas próprias obras.  19 Também muitos dos que haviam praticado artes mágicas, reunindo os seus livros, os queimaram diante de todos. Calculados os seus preços, achou-se que montavam a cinquenta mil denários.  20 Assim, a palavra do Senhor crescia e prevalecia poderosamente”.

              Crer em Cristo significa mudança de vida. Crer não é só um assentimento intelectual, mas, sim, obediência, submissão e entrega total. Por isso Paulo dissertava (apelava ao intelecto) e persuadia (apelava ao coração, à vontade) das pessoas.

              A influência da superstição e magia na vida dos cristãos de Éfeso era tão grande[5] que mesmo dizendo que eram crentes no Senhor Jesus e Seus discípulos “Muitos dos que creram vieram confessando e denunciando publicamente as suas próprias obras” (v.18). E que obras más eram essas? No v.19 lemos que eram “artes mágicas”. O acontecido com os filhos de Ceva levou esses cristãos à conclusão de que tais práticas eram “incompatíveis e inconsistentes com a fé cristã”[6].

              Lucas fala que estes irmãos trouxeram seus livros contendo fórmulas mágicas aos quais eles “queimaram diante de todos” e que “Calculados os seus preços, achou-se que montavam a cinquenta mil denários” (v.19). Um denário equivalia a o valor de um dia de serviço de um trabalhador braçal. Se tomarmos os valores atuais com base no salário mínimo um dia está na casa dos 10 dólares, assim sendo o valor seria de aproximadamente 500 mil dólares ou R$ 1.250.000,00. Isso trouxe sérios prejuízos financeiros para a cidade como veremos posteriormente neste capítulo. Mas, o que é o valor das coisas desse mundo se comparadas com a Palavra de Deus? E o resultado desse rompimento com o pecado da idolatria e magia foi que “a Palavra do Senhor crescia e prevalecia poderosamente” (v.20). Com essa afirmação Lucas está relatando a profunda transformação pela qual passou a cidade de Éfeso pelo poder do Evangelho de Cristo.

              Assim, os súditos do Reino do Rei Jesus são pessoas que estão sempre rompendo com quaisquer formas de pecado, abandonam quaisquer coisas que lhes possam atrapalhar em seu relacionamento com Cristo e consideram que o maior prejuízo que possam ter não é o material, mas, sim, não viver plenamente em Cristo.

Aplicação v.18-20: Em sua vida existem pecados e empecilhos que precisam ser abandonados para que a Palavra de Deus cresça e prevaleça em sua vida? Não temos livros de mágica, mas, temos outras coisas que roubam o nosso tempo e coração. São os entretenimentos desta vida, coisas que são úteis se devidamente empregadas, mas, que se tornam sérios obstáculos à nossa comunhão com Cristo.

Conclusão

              O súdito do Reino do Rei Eterno tem só uma preocupação: manifestar o Reino em todo lugar e fazer seu Rei Eterno ser conhecido de todos.



[1] Cf. MACDONALD, 2011, vol.2, p.390.

[2] Cf. KISTEMAKER, 2006, vol.2, p.251.

[3] Cf. KISTEMAKER, 2006, vol.2, p.255.

[4] Ibid, p.257.

[5] A cidade de Éfeso era um centro de artes mágicas, conforme confirmado por descobertas arqueológicas. Numerosos documentos contêm encantamentos, alguns dos quais eram conhecidos como as cartas efésias. Além disso ainda existia o templo da deusa Diana (Ártemis) que exercia forte influência idólatra sobre o povo (KISTEMAKER, 2006, vol.2, p.259, nota).

[6] Cf. KISTEMAKER, 2006, vol.2, p.259.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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