A Soberana Vontade de Deus – 41ª Mensagem

A Terceira Viagem Missionária

At 18.23 – 21.16

O Ministério da Pregação do Evangelho

Parte II

At 20.1-12

 

              No presente texto temos a continuação da obra missionária de Paulo e seus auxiliares na região da Macedônia. Foi uma região onde o Evangelho floresceu, mas, também enfrentou duras lutas. Reforço aqui que a pregação do Evangelho não é dever somente dos ministros ordenados, mas, de todos os crentes, e que a pregação do Evangelho se dá de forma específica por meio do ensino como o que estamos fazendo neste exato momento de cima de um púlpito, mas, de forma mais abrangente também se dá no nosso dia a dia quando separamos um tempo ou aproveitamos uma oportunidade para ministrar a Palavra de Deus a um coração pecador.

              Continuando o assunto da mensagem anterior, O ministério da pregação do Evangelho, quero destacar duas atitudes que Paulo teve aqui, as quais devemos levar em consideração e tê-las também quando estivermos executando a tarefa da pregação do Evangelho.

              Para executarmos a tarefa da pregação que Deus nos confiou precisamos:

1)     Planejar para que imprevistos não nos atrapalhem, v.1-6

 

Exposição v.1-6:1 Cessado o tumulto, Paulo mandou chamar os discípulos, e, tendo-os confortado, despediu-se, e partiu para a Macedônia.  2 Havendo atravessado aquelas terras, fortalecendo os discípulos com muitas exortações, dirigiu-se para a Grécia,  3 onde se demorou três meses. Tendo havido uma conspiração por parte dos judeus contra ele, quando estava para embarcar rumo à Síria, determinou voltar pela Macedônia.  4 Acompanharam-no [até à Ásia] Sópatro, de Beréia, filho de Pirro, Aristarco e Secundo, de Tessalônica, Gaio, de Derbe, e Timóteo, bem como Tíquico e Trófimo, da Ásia;  5 estes nos precederam, esperando-nos em Trôade.  6 Depois dos dias dos pães asmos, navegamos de Filipos e, em cinco dias, fomos ter com eles naquele porto, onde passamos uma semana”.

              Como vimos em At 19.21-41 o ministério de Paulo em Éfeso foi muito frutífero, mas, terminou ali com um tumulto incitado por Demétrio e outros ourives que faziam nichos da deusa Diana, cujo ofício estava ameaçado. Por isso Cessado o tumulto, Paulo mandou chamar os discípulos, e, tendo-os confortado, despediu-se, e partiu para a Macedônia” (v.1). A forma como ele se despede de seus amigos e irmãos aqui foi muito forte e terna. Matthew Henry comentando esse versículo disse faz uma observação importante[1]:

      “Amigos amorosos não sabem que se amam até que chegue a hora da despedida, quando então se mostrará como estava próximo o coração um do outro”.

              Ele foi para Macedônia (v.2), chegando até à cidade de Corinto na companhia de sete irmãos. Nas igrejas por onde passava ele fortalecia os discípulos “com muitas exortações”, ou seja, tinha muito que lhes ensinar, e como podemos ver ele ficou “três meses” (v.3) somente na Grécia dedicando-se ao ensino da Palavra.

              Mas, os judeus em Corinto não estavam nem um pouco felizes com os últimos acontecimentos. Ele não tinham se esquecido de Paulo que por meio de sua pregação convertera dois dos líderes dos judeus, Crispo e Sóstenes e plantara uma igreja ao lado da sinagoga (At 18.8,17; 1Co 1,14). Além disso, ainda se lembravam da humilhação que sofreram diante do tribunal presidido pelo procônsul Gálio (At 18.12-17). Diante de tudo isso eles tramaram para fazer mal a Paulo. Foi então que Paulo decidiu voltar a pé pela Macedônia em vez de ir de navio de Corinto à Síria.

              Acompanhado dos irmãos Sópatro (que pode ser o mesmo Sosípatro de Rm 16.21) que era de Bereia, Aristarco e Secundo que eram de Tessalônica, Gaio, de Derbe, Timóteo de Listra, Tíquico e Trófimo, da Ásia os quais lhe serviam como guarda-costas, pois, cuidavam de proteger as ofertas arrecadadas para os irmãos de Jerusalém. Num determinado momento, Tíquico e Trófimo se adiantaram do grupo esperando-os em Trôade (v.5).

              No v.6 a festas dos pães asmos é mencionada. Esta festa que era comemorada juntamente à Páscoa. Os pães asmos (sem fermento) lembravam a noite em que os israelitas deixaram o Egito, e por isso deveriam comer pães sem fermentos, pois, fermentá-los levaria tempo e os atrapalharia na fuga. Matthew Henry faz a seguinte observação[2]:

     “Os dias dos pães asmos são mencionados apenas para definir a época do ano e não para indicar que Paulo guardava a Páscoa segundo a maneira dos judeus. É que mais ou menos nesse tempo ele escreveu na primeira epístola à igreja em Corinto que Cristo é a nossa Páscoa e que a vida cristã é a nossa festa de pães asmos (1Co 5.7,8).  

 

              Paulo havia planejado todo o roteiro da viagem, partindo de Corinto para Jerusalém, mas, seus inimigos se levantaram e ele foi forçado a mudar seus planos. Depois, enquanto os outros cinco companheiros foram de Filipos a Trôade por navio, Paulo foi a pé até Assôs (cf. v.13). Alguns comentaristas bíblicos entendem que os inimigos queriam roubar-lhe o dinheiro arrecadado para as ofertas, mas, se fosse assim mesmo, ele teria permanecido com seus companheiros e embarcado com eles para Assôs. O fato dele ter se separado deles e em vez de ir pelo mar como eles e ter ido a pé para Assôs, nos mostra que eles estava despistando os judeus que na verdade queriam mata-lo mesmo.

              Embora, Paulo sempre tivesse encontrado inimigos por onde passou e soubesse ser muito provável encontra-los, nem sempre eles os enfrentou. Às vezes, como neste caso, ele optou pelo não enfrentamento. Isso não foi covardia, mas, sim, sabedoria e prudência.

Aplicação v.1-6: Às vezes traçaremos planos os quais serão aparentemente frustrados por algum imprevisto. Contudo, precisamos estar atentos e planejarmos nossas ações para que nem mesmo imprevistos nos atrapalhem. Um coração bem preparado e que com prudência sabe planejar suas ações saberá como lidar com os imprevistos e não ser atrapalhado por eles. Para executarmos bem a tarefa da pregação do Evangelho que Deus nos confiou precisamos ser prudentes e cautelosos sabendo quando e como enfrentar um inimigo ou nos desviarmos dele para não perdermos tempo precioso.

               Por fim, para executarmos a tarefa da pregação que Deus nos confiou também precisamos:

 

2)     Ter a Palavra de Deus como mais importante do que tudo, v.7-12

 

Exposição v.7-12:7 No primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão, Paulo, que devia seguir viagem no dia imediato, exortava-os e prolongou o discurso até à meia-noite.  8 Havia muitas lâmpadas no cenáculo onde estávamos reunidos.  9 Um jovem, chamado Êutico, que estava sentado numa janela, adormecendo profundamente durante o prolongado discurso de Paulo, vencido pelo sono, caiu do terceiro andar abaixo e foi levantado morto.  10 Descendo, porém, Paulo inclinou-se sobre ele e, abraçando-o, disse: Não vos perturbeis, que a vida nele está.  11 Subindo de novo, partiu o pão, e comeu, e ainda lhes falou largamente até ao romper da alva. E, assim, partiu.  12 Então, conduziram vivo o rapaz e sentiram-se grandemente confortados”.

              Depois das festas dos pães asmos, Paulo e os cinco que ficaram com ele navegaram de Filipos para Trôade, onde reuniram-se novamente a Tíquico e Trófimo. No v.7 lemos: “No primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão, Paulo, que devia seguir viagem no dia imediato, exortava-os e prolongou o discurso até à meia-noite”. Esta é a primeira menção no Novo Testamento de que os cristãos se reuniam no primeiro dia da semana (o domingo) para celebrarem a “Festa do amor” ou “Ágape”. Nesta celebração, primeiramente os mais abastados traziam comida de casa e punham uma mesa farta para que os mais necessitados pudessem ter uma refeição melhor naquele dia tão especial, pois, era o Dia do Senhor, o dia em que Cristo ressuscitou estabelecendo a Nova Criação (2Co 5.17). Em seguida, depois de comerem e saciarem a fome, eles partiam o pão, isto é, celebravam a Ceia do Senhor. Era um ambiente de amor e comunhão muito especial, onde a pregação da Palavra de Deus estendeu-se até à meia-noite. Paulo tinha muitas coisas a lhes dizer, e nem mesmo a necessidade de levantar cedo para prosseguir com a viagem foi maior do que a necessidade de lhes ensinar a Palavra de Deus.

              Mas, o cansaço chegou. A luz âmbar das lamparinas (v.8) fizeram com que “Um jovem, chamado Êutico, que estava sentado numa janela, adormecendo profundamente durante o prolongado discurso de Paulo, vencido pelo sono, caiu do terceiro andar abaixo e foi levantado morto” (v.9). Este rapaz, cujo nome significa “afortunado” pegou profundamente no sono, e, desafortunadamente, caiu da janela do “terceiro andar”, e “foi levantado morto”. De um momento para outro, o cenário de alegria tornou-se de tristeza e dor. É importante observarmos a postura irreverente desse jovem durante a pregação da Palavra de Deus. Ele estava assentado no parapeito de uma janela, lugar totalmente inadequado, pois, deveria estar como os demais, assentado no chão, pois, estaria seguro. Em segundo lugar ele havia adormecido profundamente, ou seja, não estava dando a mínima importância para o que Paulo estava dizendo, mesmo sabendo que a Palavra de Deus é algo tão importante que fizera o próprio apóstolo deixar de descansar para a viagem no dia seguinte. Assim, este rapaz foi o responsável pela tragédia que lhe acometeu.

              Simon Kistemaker comentando os v.10-12 observa três fatos aqui[3]:

ü A ressurreição de Êutico: ao vê-lo cair, Paulo desce as escadas rapidamente, e se lança sobre o rapaz e declara-o vivo. Semelhantemente o fizeram dois profetas do Antigo Testamento, Elias (1Re 17.21) e Eliseu (2re 4.34,35), e no Novo Testamento, o apóstolo Pedro na ressurreição de Dorcas (At 9.40). Assim vemos que a mesma autoridade que tiveram os profetas também tiveram os apóstolos. É ainda importante destacarmos aqui que quem está relatando a morte e ressurreição de Êutico é Lucas, o médico, e não um leigo. Não parecia que Êutico havia morrido; ele morreu de fato! Assim temos aqui mais um verdadeiro milagre realizado por Deus pelas mãos de Paulo.

ü Alegria por causa do milagre: no v.12 está registrada a alegria daqueles irmãos que receberam vivo aquele que foi dado por morto. Fico pensando como será o Dia do Senhor em que os mortos em Cristo serão ressuscitados e os que estiverem vivos, transformados!

ü A comunhão dos irmãos: por duas vezes neste trecho do livro Lucas menciona o partir do pão, isto é, a Ceia do Senhor (v.7,11). Obviamente, ele fizera isso uma vez só nessa ocasião. Ele havia se reunido com eles com a finalidade de partir o pão e o fez. A verdadeira comunhão dos crentes não acontecia na Festa do amor, mas, sim, na Ceia do Senhor. A festa do amor era um socorro aos necessitados que com certeza deveria promover gratidão e amor (em Corinto, por causa da desordem e ganância dos mais abastados, essa festa havia se transformado num momento de rivalidade e desconsideração, 1Co 11.17-22). O que realmente une os crentes é o sacrifício de Cristo celebrado na Santa Ceia e a proclamação da Palavra de Deus que transforma o nosso coração.

              Novamente vemos que nem mesmo uma tragédia dessas tirou a importância da pregação da Palavra de Deus, pois, assim que receberam Êutico vivo, celebraram a Ceia do Senhor e ouviram Paulo lhes falar “largamente até ao romper da alva” (v.11) para depois partir.

              É muito comum ouvirmos as pessoas culparem os pregadores pela apatia que a Igreja muitas vezes demonstra. E é provável que eles tenham grande parcela de culpa mesmo. Mas, quando eu leio essa passagem fico pensando que nem mesmo diante do grande apóstolo Paulo, um dos maiores pregadores do Evangelho de todos os tempos, Êutico entregou-se ao sono mortal. A responsabilidade é pessoal.

 

Aplicação v.7-12: Há em sua vida esta importância pela Palavra de Deus? É visto em você este zelo pela Palavra a ponto de tudo o mais tornar-se secundário para você quando você está diante da Palavra de Deus? Ou em você é vista a mesma irreverência de Êutico, a mesma apatia, o mesmo sono letárgico e mortal? Lembre-se que é sua responsabilidade pessoal o que você faz com a Palavra de Deus que lhe é ensinada. Se o seu coração está neste “sono profundo de Êutico” você corre sério perigo. A responsabilidade por ser fiel ao que a Bíblia diz é do pregador; mas, a responsabilidade pela atenção ao que a Bíblia diz é de quem ouve.

Conclusão

              Sejamos precavidos e planejemos bem nossa atuação na pregação do Evangelho, mas, diante de um imprevisto fiquemos atentos para os rumos que Deus dará para nós. Contudo, que nenhum imprevisto roube de nosso coração a importância primordial que a Palavra de Deus deve ter em todas as nossas atividades.



[1] HENRY, 2008, p.217.

[2] HENRY, 2008, p.218

[3] KISTEMAKER, 2006, vol. 2, p.296.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.
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