A Soberana Vontade de Deus – 42ª Mensagem

A Terceira Viagem Missionária

At 18.23 – 21.16

A Consciência Tranquila de um Servo de Deus

At 20.13-38

               Assim como os nossos olhos estão para o nosso corpo, nossa consciência está para nossa alma. Olhos que escolhem bem o que ver evitam grandes dores para o corpo como afirmou o Senhor Jesus em Mt 6.23: “se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão!”. A nossa consciência é o olho da alma. Feri-la é o mesmo que ferir nossos olhos e ficarmos cegos. Nada melhor do que uma consciência tranquila diante de Deus. Por isso que devemos praticar a confissão sincera de pecados para termos nossa consciência sempre limpa diante de Deus. Escrevendo a Timóteo, Paulo afirma que vários que não mantiveram sua consciência limpa diante de Deus naufragaram na fé (1Tm 1.19), e por isso mesmo exorta ao jovem pastor a que estivesse sempre “conservando o mistério da fé com consciência limpa” (1Tm 3.9). Por isso mesmo quero meditar com os irmãos sobre: A consciência tranquila de um servo de Deus.

               E olhando para as palavras de despedida de Paulo aos presbíteros de Éfeso registradas neste texto vemos que uma consciência tranquila perante Deus depende de:

1)     Comportamento servil, v.13-21

Exposição v.13-21: 13 Nós, porém, prosseguindo, embarcamos e navegamos para Assôs, onde devíamos receber Paulo, porque assim nos fora determinado, devendo ele ir por terra.  14 Quando se reuniu conosco em Assôs, recebemo-lo a bordo e fomos a Mitilene;  15 dali, navegando, no dia seguinte, passamos defronte de Quios, no dia imediato, tocamos em Samos e, um dia depois, chegamos a Mileto.  16 Porque Paulo já havia determinado não aportar em Éfeso, não querendo demorar-se na Ásia, porquanto se apressava com o intuito de passar o dia de Pentecostes em Jerusalém, caso lhe fosse possível.  17 De Mileto, mandou a Éfeso chamar os presbíteros da igreja.  18 E, quando se encontraram com ele, disse-lhes: Vós bem sabeis como foi que me conduzi entre vós em todo o tempo, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia,  19 servindo ao Senhor com toda a humildade, lágrimas e provações que, pelas ciladas dos judeus, me sobrevieram,  20 jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e também de casa em casa,  21 testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus [Cristo].

               Após reencontrar seus companheiros em Assôs, pois, enquanto eles foram por mar, Paulo decidira ir por terra (v.13), eles fizeram o seguinte roteiro de viagem rumo à Jerusalém. Saindo de Assôs, foram para Mitilene, e no dia seguinte passaram de fronte a Quios, chegando em Samos no dia seguinte, e no outro dia em Mileto (v.14,15). Mas, eles corriam contra o tempo, pois, o dia de Pentecostes estava se aproximando e Paulo queria muito estar em Jerusalém nessa ocasião (v.16). Por isso mesmo, mandou chamar os presbíteros da Igreja de Éfeso para que viessem até Mileto e ali se despedir deles não sem antes lhes dirigir várias exortações (v.17).

               Ali reunidos, Paulo lhes dirige a palavra: “Vós bem sabeis como foi que me conduzi entre vós em todo o tempo…” (v.18). Tratava-se de um conhecimento que eles tinham de seu comportamento o qual nada tinha a esconder, sem fingimento, sem bajulação, sem segundas intenções, mas, “servindo ao Senhor com toda a humildade, lágrimas e provações que, pelas ciladas dos judeus, me sobrevieram” (v.19). Paulo serviu àqueles irmãos porque manteve seu foco em Deus estando consciente que o seu trabalho era para Deus e não para as pessoas meramente. Este serviço foi com humildade sempre sabendo quem ele era de fato (um pecador alcançado pela Graça), e também com lágrimas por causa das provações causadas pelas perseguições dos judeus inimigos. Mas, essas perseguições não o desviaram de seu foco, pois ele, “jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e também de casa em casa, testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus [Cristo]” (v.20,21). Por amor a Deus e àqueles irmãos: (1) Ele não mudou o conteúdo de sua mensagem. As coisas proveitosas que ele lhes anunciou eram o Evangelho da Graça de Deus que chama o pecador ao arrependimento. (2) Ele não se deixou intimidar pelos inimigos. Antes, publicamente ou de casa em casa proclamava o Evangelho a todos a despeito dos inimigos o perseguirem.

               Este é o comportamento de um verdadeiro servo de Deus: se coloca disposto a servir àqueles que Deus lhe confiou. Não servimos a Deus de fato enquanto não servimos nossos irmãos no ato.

 

Aplicação v.13-21: Você se lembra da última oportunidade que você teve de servir alguém? O que você fez? Para servir aos seus irmãos e ao seu próximo você tem de ser humilde. Às vezes levará você às lágrimas, mas, faça isso para o Senhor Jesus, para a glória Dele. Assim sua consciência estará sempre tranquila diante de Deus.

              Uma consciência tranquila diante de Deus depende de:

2)     Obediência completa, v.22-27

Exposição v.22-27:22 E, agora, constrangido em meu espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que ali me acontecerá,  23 senão que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura que me esperam cadeias e tribulações.  24 Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus.  25 Agora, eu sei que todos vós, em cujo meio passei pregando o reino, não vereis mais o meu rosto.  26 Portanto, eu vos protesto, no dia de hoje, que estou limpo do sangue de todos;  27 porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus”.

              Paulo declarou-lhes que sentia-se constrangido em seu espírito a ir para Jerusalém. Literalmente ele disse que o seu espírito estava ligado a essa resolução e ele não tinha como fugir dela. Apesar de estar claro que ele queria ir por causa do dia de Pentecostes (cf. v.16), ele também sabia que estava cumprindo uma determinação do Espírito Santo de Deus que lhe guiava o tempo todo e de “cidade em cidade” (v.23).

              Havia em seu coração uma expectativa que não era nada agradável. O Espírito Santo lhe assegurara, garantira que o que ele iria encontrar pela frente seriam “cadeias e tribulações” (v.23). Essa expectativa de sofrimento sempre o acompanhara desde o seu chamamento (At 9.16). Contudo, nunca se deixara amedrontar pelas circunstâncias, especialmente quando estas se mostravam nada favoráveis.

              Mas, o que faz uma pessoa se entregar obedientemente e de forma completa a Deus mesmo sob risco de morte? Paulo responde: “Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus” (v.24). Só consegue pensar e agir assim aquele que compreendeu que a sua vida não lhe pertence mais, mas, que, Aquele que por ela pagou alto preço (cf. v.28) Este tem o direito sobre ela. Logo, completar a carreira e desempenhar o ministério que do Senhor Jesus ele recebera era a única coisa que lhe importava.

              Ainda que não mais viesse ver aqueles amados irmãos (v.25), seu coração estava tranquilo pelo fato de que o sangue deles já não pesava mais sobre os seus ombros (v.26), isto é, porque ele havia cumprido fielmente o seu trabalho anunciando-lhes “todo o desígnio de Deus” (v.27), e, agora podia descansar no fato de que eles atingiram a maturidade espiritual podendo cuidar não somente deles, mas, também de “todo o rebanho” (v.28).

Aplicação v.22-27: Sua obediência a Deus é completa? Você obedece a Deus inteira, imediata e internamente? Você O obedece a despeito das ameaças, dos sofrimentos, das dificuldades e lutas que surgem em sua vida? Você compreendeu que o chamado para seguir a Cristo requer de você abnegação total e considerar que a sua vida não tem valor algum em si mesma, mas, somente na dedicação total a Deus? Você tem procurado entregar a mensagem do Evangelho às pessoas não deixando de anunciar nada com relação à vontade (desígnio) de Deus? Ou você tem tido mais medo em confrontar as pessoas com amor e na Palavra, do que de deixar de fazê-lo? Lembre-se que aqueles a quem Deus lhe confiou Ele lhe pedirá contas!

              Uma consciência tranquila diante de Deus também depende

3)     Amor responsável, v.28-38

Exposição v.28-38:28 Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue.  29 Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho.  30 E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles.  31 Portanto, vigiai, lembrando-vos de que, por três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um.  32 Agora, pois, encomendo-vos ao Senhor e à palavra da sua graça, que tem poder para vos edificar e dar herança entre todos os que são santificados.  33 De ninguém cobicei prata, nem ouro, nem vestes;  34 vós mesmos sabeis que estas mãos serviram para o que me era necessário a mim e aos que estavam comigo.  35 Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber.  36 Tendo dito estas coisas, ajoelhando-se, orou com todos eles.  37 Então, houve grande pranto entre todos, e, abraçando afetuosamente a Paulo, o beijavam,  38 entristecidos especialmente pela palavra que ele dissera: que não mais veriam o seu rosto. E acompanharam-no até ao navio”.

              Nestes versículos temos várias demonstrações de amor responsável:

ü Cuidado com as ovelhas de Cristo (v.28-32). No v.28 Paulo exortou aos presbíteros a que pastoreassem a Igreja de Cristo, para a qual eles foram constituídos pelo Espírito Santo como bispos (supervisores), pois, esta igreja foi comprada com o sangue de Cristo. No amor que Cristo tem por Sua Igreja é que os presbíteros devem agir para com as ovelhas. Os presbíteros deveriam ter duas atitudes para com a Igreja: atender e vigiar.

(1)    “Atendei”, ou seja, prestar atenção, olhar com amor cuidando de cada uma das ovelhas de Cristo. E por que deveriam ter tanta atenção com as ovelhas Cristo? Porque de dentro da Igreja surgiriam “lobos vorazes” (v.29), isto é, “homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles” (v.30). Pior do que hereges fora da Igreja são os de dentro; pior do que lobos na floresta, são os lobos dentro do aprisco, pois, estes atacam dentro da Igreja, enquanto os que estão fora só atacarão se nós formos até eles. O grande perigo que falsos mestres infiltrados na Igreja oferecem é que eles o tempo todo se parecem com ovelhas. Por isso, a liderança da Igreja, os presbíteros, precisam ser habilidosos em farejar esses lobos e ataca-los, porque onde lobos são poupados, ovelhas são sacrificadas.

(2)    “Vigiai”, é necessária uma postura de constante vigilância para com o rebanho de Cristo; nenhuma ovelha deve ser abandonada e deixada à mercê de lobos vorazes; as portas do aprisco devem ser vigiadas o tempo todo para que falsos ensinamentos não entrem por elas e façam estrago ao rebanho. Para isso, os presbíteros devem sempre encomendar cada ovelha de Cristo “à palavra da sua graça, que tem poder para vos edificar e dar herança entre todos os que são santificados” (v.32). Só podemos proteger as ovelhas das mentiras dos falsos mestres com a Verdade da Palavra de Deus. Uma Igreja que não ensina puramente a Palavra de Deus, antes, a dilui com filosofias humanas, ideologias e psicologias com certeza não é um aprisco, não é um lugar de proteção para as ovelhas de Cristo. Somente a Palavra de Deus pode proteger seu coração, somente a Palavra de Deus pode lhe dar a Vida Eterna.

ü Dando bom testemunho (v.33-35). Um bom testemunho demonstra nosso amor por Deus antes de tudo, e também amor pelas pessoas, pois, se queremos que elas sejam salvas é muito importante que o nosso testemunho demonstre nosso amor por Deus. Alguém disse que: “De cada dez pessoas, um lerá a Bíblia, e nove lerão o cristão”. É claro que não estamos dizendo que o nosso testemunho seja mais poderoso que a Palavra de Deus, mas, é fato que a maioria das pessoas terá contato primeiro conosco e depois com a Bíblia. Por isso, precisamos falar, viver e nos expressar de acordo com a Palavra para que quando as pessoas tiverem contato com a Ela se lembrem de nós. Foi justamente isso que Paulo disse aos presbíteros “lembrando-vos que, por três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um” (v.31). Os presbíteros deveriam se lembrar como foi o comportamento de Paulo entre eles no tocante ao pastoreio do rebanho de Cristo e fazerem o mesmo. Ele não agiu com cobiça e ganância (v.33), não foi pesado e inconveniente para com ninguém, mas, em vez disso ajudou quem precisava (v.34,35), cumprindo assim a vontade de Deus em sua vida. Ainda no v.35 temos mais um importante ensinamento: “Mais bem-aventurado é dar do que receber”. A graça da liberalidade em doar e repartir demonstra o nível da nossa maturidade espiritual.

ü Demonstrações públicas de afeto (v.36-38). Tanto Paulo quanto os presbíteros naquele momento de profunda comoção demonstraram seu amor por meio de lágrimas por sua partida, abraços e beijos. O amor ali foi demonstrado por Paulo e pelos presbíteros:

(1)  Orando por eles (v.36), ali junto aos seus irmãos, de joelhos, “orou com todos eles”. A oração é um poderoso instrumento que Deus usa para unir os corações em amor;

(2)  Chorando por (e com) eles (v.37), Com certeza não somente eles, mas, o próprio Paulo chorou naquele momento, e, assim, ele “regou” com suas lágrimas a semente do amor que ele um dia semeou naqueles corações.

(3)  Sendo beijado por eles (v.37), não somente Paulo, mas, os presbíteros também demonstraram seu amor. Em nossa cultura o significado do beijo varia do gesto afetuoso para um ato carnal. Mas, na cultura oriental, beijar a face de alguém é mostrar-lhe fidelidade. Quando Judas traiu nosso Senhor Jesus com um beijo, o Senhor lhe perguntou: “Com um beijo trais o Filho do Homem?” (Lc 22.48), isto porque um beijo demonstrava fidelidade, tudo o que Judas Iscariotes não tinha por Jesus. Ao beijarem Paulo estavam como que dizendo: “Permaneceremos fiéis ao que você nos ensinou! Não deixaremos de cumprir tudo quanto você nos disse!”. Da mesma forma, demonstramos nosso amor por meio da nossa fidelidade!

(4)  Entristecendo-se pela separação (v.38), o adeus de Paulo tornou-se semelhante a um funeral, pois, “não mais veriam o seu rosto”. Deveríamos nos abraçar, beijar e nos alegrarmos uns com os outros como se fosse a última vez.

 

              O amor responsável cuida, protege, ensina e exorta por meio da Palavra de Deus, demonstra afetos, chora com os que choram e se alegra com os que se alegram. Não mede sua intensidade, mas, se doa por completo e sem reservas. Tanto os que pastoreiam quanto os que são pastoreados devem se entreolhar com esse amor, pois, somente o amor que tem como base a Palavra de Deus pode proteger todo o aprisco.

 

Aplicação v.28-38: Seu amor pelos irmãos é assim? Se você recebeu a incumbência do Espírito Santo para pastorear o rebanho Dele, esse amor responsável é visto em sua vida? Mas, se você é apenas uma ovelha do rebanho de Cristo, há amor em seu coração por aqueles que atendem, cuidam e protegem sua vida dos ataques dos lobos vorazes e dos falsos mestres? Ou você tem tornado o trabalho desses pastores algo penoso, difícil e extenuante mais do que já é?

Conclusão

              Uma consciência tranquila diante de Deus tem de ter um comportamento servil cuja característica principal é a humildade e a consagração a Deus, uma obediência completa ainda que sob risco de morte, e, amor responsável que sabe que haverá de responder a Deus pela forma como se conduziu entre Suas ovelhas. Que Ele nos ajude. Amém!  

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.
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