A Soberana Vontade de Deus – 43ª Mensagem

A Terceira Viagem Missionária

At 18.23 – 21.16

Entendendo Biblicamente o Sofrimento

At 21.1-16

               Numa leitura rápida nesse texto temos a impressão de que Paulo foi teimoso e desobediente a Deus, pois, ele foi para Jerusalém mesmo quando o Espírito Santo por meio dos irmãos da Igreja de Tiro (v.4), e depois, por meio das filhas de Filipe como nos dá a entender o v.9, e por fim, através de Ágabo que por meio de uma dramatização revelou o sofrimento que Paulo haveria de passar em Jerusalém (v.11). Mas, essa interpretação é equivocada.

               O que temos aqui neste relato não é a teimosia de Paulo, mas, sim, Deus preparando Paulo e todos os demais cristãos por meio de profecias, e por meio de vários instrumentos quanto ao sofrimento que Paulo haveria de passar, e quando tudo isso acontecesse, todos ficariam sabendo da veracidade das profecias que Deus dava aos Seus filhos, e, também, fossem devidamente preparados para seguirem a Cristo tendo a consciência de que isto implicaria em sofrimento nesta vida.

               Em nossos dias, dado ao forte hedonismo que impera (e muitas vezes até mesmo dentro da Igreja), falar de sofrimento é algo que as pessoas evitam. O tema “sofrimento” causa grande sofrimento nas pessoas, e, por isso mesmo elas fazem de tudo para fugirem dele. Até mesmo falar de sofrimento por amor a Cristo é algo inconcebível para muitos cristãos hoje em dia que acreditam nas mentiras ensinadas pelos pregadores da teologia da prosperidade.

               Mas, Deus quando nos chama para sermos salvos e para servi-Lo não omite o fato de que haveremos de passar por muitos sofrimentos. É necessário que tenhamos um olhar bíblico sobre esse assunto para não cairmos em mentiras. Por isso quero falar com vocês nesta ocasião sobre: Entendendo biblicamente o sofrimento.

               Obviamente, que temos em vista aqui o sofrimento por amor a Cristo, como aconteceu com os servos de Deus no passado e com o próprio Senhor Jesus que foi “homem de dores e que sabe o que é padecer” (Is 53.3).

               Para termos uma compreensão correta, isto é, bíblica do sofrimento que Deus nos permite passar por amor a Ele precisamos:

1)     Atentar para as nossas emoções e sentimentos, v.1-6

Exposição v.1-6:1 Depois de nos apartarmos, fizemo-nos à vela e, correndo em direitura, chegamos a Cós; no dia seguinte, a Rodes, e dali, a Pátara.  2 Achando um navio que ia para a Fenícia, embarcamos nele, seguindo viagem.  3 Quando Chipre já estava à vista, deixando-a à esquerda, navegamos para a Síria e chegamos a Tiro; pois o navio devia ser descarregado ali.  4 Encontrando os discípulos, permanecemos lá durante sete dias; e eles, movidos pelo Espírito, recomendavam a Paulo que não fosse a Jerusalém.  5 Passados aqueles dias, tendo-nos retirado, prosseguimos viagem, acompanhados por todos, cada um com sua mulher e filhos, até fora da cidade; ajoelhados na praia, oramos.  6 E, despedindo-nos uns dos outros, então, embarcamos; e eles voltaram para casa”.

               Depois de passar por vários lugares em rota marítima (v.1-3), Paulo e seus companheiros chegaram em Tiro, no litoral da Palestina. Ali em Tiro eles encontraram os discípulos de Cristo. Como sempre era seu costume, onde quer que ele chegasse buscava a companhia dos irmãos. Permaneceram ali sete dias com aqueles irmãos, os quais “movidos pelo Espírito Santo, recomendavam a Paulo que não fosse a Jerusalém” (v.4). Eles haviam recebido do Espírito Santo a revelação dos sofrimentos que Paulo haveria de passar em Jerusalém, exatamente a mesma revelação que Paulo recebera (cf. 20.22,23). Contudo, enquanto Paulo entendera perfeitamente que no seu chamamento apostólico estava explícito que o mesmo seria cheio de sofrimento (cf. 9.16), e que nessa sua ida a Jerusalém haveria de sofrer muito, aqueles irmãos da Igreja de Tiro não entenderam da mesma forma. O Espírito Santo não estava dando uma ordem diferente através deles, mas, sim, eles é que não entenderam o propósito do sofrimento de Paulo. Enquanto Paulo entendia que Deus estava preparando o seu espírito para enfrentar essas situações difíceis, aqueles irmãos queriam poupá-lo dos sofrimentos.

               As emoções e os sentimentos fraternos deles por Paulo os atrapalharam compreender os propósitos sublimes dos sofrimentos pelos quais Paulo haveria de passar. Semelhantemente acontece conosco. Somos facilmente enganados pelas nossas emoções e sentimentos. Eles não são seguros, não são exatos. Devemos trazer o nosso coração em “rédeas curtas” e nunca, ouvirmos a sua voz. Ele é traiçoeiro, é enganoso, é perigoso (cf. Jr 17.9).

               Contudo, aprendemos outra lição com esses irmãos sobre o nosso coração: devemos amar nossos irmãos como todo o nosso coração. Quando chegou a hora de Paulo e seus companheiros partirem, aqueles irmãos de Tiro juntamente com suas esposas e filhos os acompanharam até à saída da cidade, e juntos, ali na praia oraram ao Senhor Jesus ajoelhados. Paulo e seus companheiros seguiram viagem, e aqueles irmãos retornaram para suas casas (v.5,6). Se existe algo importante que precisamos aprender o quanto antes é como lidar com nossas emoções e sentimentos.

 

Aplicação v.1-6: Ame verdadeiramente seus irmãos em Cristo, mas, nunca permita que os seus sentimentos e emoções sirvam como tropeço para eles impedindo-os de cumprirem a vontade de Deus em suas vidas. O tempo todo investigue seu coração para nunca tomar uma decisão com base em suas emoções e sentimentos.

              Para não cairmos no engodo das nossas emoções e sentimentos precisamos de algo que seja exato e perfeito. Precisamos:

 

2)     Verificar a coerência da revelação divina, v.7-11

Exposição v.7-11:7 Quanto a nós, concluindo a viagem de Tiro, chegamos a Ptolemaida, onde saudamos os irmãos, passando um dia com eles.  8 No dia seguinte, partimos e fomos para Cesareia; e, entrando na casa de Filipe, o evangelista, que era um dos sete, ficamos com ele.  9 Tinha este quatro filhas donzelas, que profetizavam.  10 Demorando-nos ali alguns dias, desceu da Judéia um profeta chamado Ágabo;  11 e, vindo ter conosco, tomando o cinto de Paulo, ligando com ele os próprios pés e mãos, declarou: Isto diz o Espírito Santo: Assim os judeus, em Jerusalém, farão ao dono deste cinto e o entregarão nas mãos dos gentios”.

                   Depois de saírem de Tiro, passarem um dia com os irmãos em Ptolemaida, foram para Cesareia, onde se hospedaram na casa de Filipe, o evangelista. Este é o mesmo Filipe que foi eleito um dos sete diáconos da Igreja, o qual também levara o Evangelho a Samaria e ao etíope eunuco (At 8). Ele tinha quatro filhas donzelas que profetizavam, ou seja, que anunciavam a Palavra de Deus. É bem provável que elas também profetizaram sobre os sofrimentos de Paulo em Jerusalém.

              Mas, mais impressionante é a aparição de um profeta chamado Ágabo. Esta é a segunda vez que ele aparece em Atos, sendo a primeira em At 11.27-30 quando ele profetizou terrível fome sobre a terra.

              Aqui, tomando o cinto que Paulo usava, uma faixa de pano grande que servia para prender sua roupa, Ágabo dramatiza a forma como Paulo seria preso. Amarrando as mãos e os pés ele disse: “Isto diz o Espírito Santo: Assim os judeus, em Jerusalém, farão ao dono deste cinto e o entregarão nas mãos dos gentios” (v.10).

              A profecia que Ágabo trouxe estava em pleno acordo e coerência com todas as outras vezes que o Espírito Santo revelara esses acontecimentos futuros. Nada houve de incoerente e diferente aqui. Os detalhes que Ágabo mostrou só ressaltaram ainda mais as “cadeias e tribulações” (At 20.23) que Paulo haveria de enfrentar.

              De igual forma devemos sempre verificar a coerência da revelação de Deus em Sua Palavra. As Escrituras são perfeitas. Elas não entram em contradição momento algum. Elas são puras. Não dizem algo aqui para acolá dizerem coisa completamente diferente. Elas são seguras.

Aplicação v.7-11: Você tem buscado nas Escrituras Sagradas a orientação para o seu coração? Tem guiado o seu coração pela revelação perfeita que Deus deu de Si para nós através das Escrituras? Guie o seu coração pelas Escrituras Sagradas. Nelas você não ficará confuso, não será enganado. Obedecer à Palavra de Deus é sem dúvida alguma o caminho mais seguro para você entender o propósito dos sofrimentos que poderão vir sobre você.

              Por fim, para termos uma compreensão bíblica dos sofrimentos que poderemos passar, é necessário:

3)     Ter convicção da vontade de Deus, v.12-16

Exposição v.12-16:12 Quando ouvimos estas palavras, tanto nós como os daquele lugar, rogamos a Paulo que não subisse a Jerusalém.  13 Então, ele respondeu: Que fazeis chorando e quebrantando-me o coração? Pois estou pronto não só para ser preso, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus.  14 Como, porém, não o persuadimos, conformados, dissemos: Faça-se a vontade do Senhor!  15 Passados aqueles dias, tendo feito os preparativos, subimos para Jerusalém;  16 e alguns dos discípulos também vieram de Cesareia conosco, trazendo consigo Mnasom, natural de Chipre, velho discípulo, com quem nos deveríamos hospedar”.

               Diante da profecia de Ágabo, todos ali, tanto os companheiros de Paulo quanto os irmãos de Cesareia rogaram a Paulo “que não subisse a Jerusalém” (v.12). Novamente, Paulo se via cercado por irmãos sinceros, mas, que estavam equivocados em suas conclusões. Por isso, ele lhes respondeu: “Que fazeis chorando e quebrantando-me o coração? Pois estou pronto não só para ser preso, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus” (v.13). Aquela cena lhe partiu o coração do apóstolo, mas, ele não se deixou levar por isso. Ele não foi obstinado e teimoso, mas, sim, obediente a Deus que já vinha lhe preparando o coração para enfrentar todos aqueles sofrimentos. Demostrando firme convicção da vontade de Deus para sua vida, ele estava determinado a obedecer fielmente a qualquer custo. Ele não estava convicto apenas de que iria sofrer, mas, estava tão convicto de sua fé que sabia que se necessário fosse morrer por amor a Cristo, ele morreria.

               Como disse Stephen Lawson: “O servo de Deus não tem opiniões; ele tem convicções”. E assim a convicção que Paulo tinha de estar fazendo a vontade de Deus tal como Deus queria alcançou também aqueles irmãos, como o próprio Lucas escreve: “Como, porém, não o persuadimos, conformados, dissemos: Faça-se a vontade do Senhor!” (v.14). A convicção do servo de Deus deve ser contagiante. Como tem faltado em nossos dias crentes com convicção! Nada pode ser mais danoso para a propagação do Evangelho do que crentes sem convicção, pusilânimes.

               E movido por essa convicção, Paulo liderando o grupo, depois daqueles dias ali em Cesareia, feitos os preparativos, partiram para Jerusalém, levando em sua companhia “alguns discípulos” que vieram de Cesareia e também a Mnasom de Chipre, descrito como “velho discípulo”, o que parece indicar que ele havia se convertido junto com os 3.000 em At 2, no dia de Pentecostes. A convicção de Paulo de estar fazendo a vontade de Deus não somente o levou a Jerusalém como também levou a vários irmãos com ele.

Aplicação v.12-16: Em sua vida tal convicção de estar fazendo a vontade de Deus é encontrada? As pessoas olhando para você veem tal convicção? Elas sabem que para você o que é mais importante e é o essencial é fazer a vontade de Deus? Ou em sua vida o que é visto é o egoísmo, a sua vontade de bem-estar e de evitar o sofrimento a todo custo?

Conclusão

               Deus nos prepara para o sofrimento. Ele nunca omite ou esconde de nós a realidade de que a vida com Cristo é difícil, é dura. Ele sempre deixou claro que o Reino dos céus é tomado por esforço (Mt 11.12), que no mundo teremos aflições, mas que devemos ter bom ânimo porque Ele já venceu o mundo (Jo 16.33).

               O que faz homens como Paulo enfrentar o sofrimento por amor a Cristo? É a certeza de que Deus nos amou tanto que para nos ter ao Seu lado na glória eterna nos deu Seu Filho. Um amor assim merece o meu eu, o meu tudo (Isaac Watts).

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.
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