A Soberana Vontade de Deus – 46ª Mensagem

O Retorno a Jerusalém e à Cesareia

At 21.17 – 26.32

Defendendo-nos Com o Evangelho – Parte I

At 24

               Os próximos três capítulos do livro de Atos narram os vários momentos em que Paulo estando em Cesareia teve de se defender diante de várias autoridades, a saber, Félix e Drusila sua esposa, Festo, Herodes Agripa II e Berenice sua esposa, bem como de muitas outras autoridades, cumprindo assim o que o Senhor Jesus dissera quando o chamara para o apostolado (At 9.15). O mesmo assunto é visto nestes três capítulos, o qual será o tema desta e das próximas mensagens com base neles. Convido-os a meditarem comigo sobre: Defendendo-nos com o Evangelho.

Exposição v.1-9: “Cinco dias depois, desceu o sumo sacerdote, Ananias, com alguns anciãos e com certo orador, chamado Tértulo, os quais apresentaram ao governador libelo contra Paulo.  2 Sendo este chamado, passou Tértulo a acusá-lo, dizendo: Excelentíssimo Félix, tendo nós, por teu intermédio, gozado de paz perene, e, também por teu providente cuidado, se terem feito notáveis reformas em benefício deste povo,  3 sempre e por toda parte, isto reconhecemos com toda a gratidão.  4 Entretanto, para não te deter por longo tempo, rogo-te que, de conformidade com a tua clemência, nos atendas por um pouco.  5 Porque, tendo nós verificado que este homem é uma peste e promove sedições entre os judeus esparsos por todo o mundo, sendo também o principal agitador da seita dos nazarenos,  6 o qual também tentou profanar o templo, nós o prendemos com o intuito de julgá-lo segundo a nossa lei.  7 Mas, sobrevindo o comandante Lísias, o arrebatou das nossas mãos com grande violência,  8 ordenando que os seus acusadores viessem à tua presença. Tu mesmo, examinando-o, poderás tomar conhecimento de todas as coisas de que nós o acusamos.  9 Os judeus também concordaram na acusação, afirmando que estas coisas eram assim”.

               Nestes versículos temos a acusação infundada, mentirosa e dolosa dos judeus contra Paulo. Cinco dias depois da chegada de Paulo a Cesareia, o sumo sacerdote Ananias com alguns anciãos contrataram Tértulo, que foi o advogado deles apresentando um libelo (peça acusatória) contra Paulo. Ao que tudo indica, Tértulo era um judeu que conhecia muito bem as leis romanas, e talvez tivesse alguma ascendência romana como sugere seu nome.

               Félix, como todas as autoridades romanas, era odiado pelos judeus. Por isso mesmo, as palavras iniciais de Tértulo aqui não passaram de bajulação visando alcançar o seu favor.

               Tértulo prosseguiu em seu discurso acusando Paulo de:

ü Ser uma peste, que com sua mensagem colocava uns contra os outros;

ü Alguém que promovia sedições entre os judeus da Diáspora;

ü Principal agitador da “seita dos nazarenos”; chamando de “seita” os seguidores de Cristo, Tértulo estava desdenhando da Fé Cristã;

ü Tentar profanar o templo.

               Tértulo também acusou o comandante Lísias de ultrapassar sua jurisdição no caso. Os romanos concederam aos judeus a autoridade para julgar qualquer um que não fosse judeu e que ousasse entrar no templo deles. Tértulo alegou justamente isso (v.6-8). E diante de tantas mentiras, aqueles que alegavam ser o “povo de Deus” (os judeus) também concordaram com a acusação fraudulenta.

               Os versículos seguintes nos mostram como Paulo se comportou diante dessas falsas acusações. Dificilmente estaremos diante de um tribunal como aconteceu com Paulo, mas, o tempo todo somos atacados por inimigos caluniadores e mentirosos que querem fazer mal a nós. Olhando para o comportamento de Paulo aprendemos que o nosso objetivo em nos defender vai muito além de defender a nossa honra. Precisamos ter em mente a honra do Nome de Cristo. Precisamos apontar para Cristo, e por isso mesmo temos de ser

1)     Verdadeiros diante das pessoas, v.10-13 e 17-21

 

Exposição v.10-13:10 Paulo, tendo-lhe o governador feito sinal que falasse, respondeu: Sabendo que há muitos anos és juiz desta nação, sinto-me à vontade para me defender,  11 visto poderes verificar que não há mais de doze dias desde que subi a Jerusalém para adorar;  12 e que não me acharam no templo discutindo com alguém, nem tampouco amotinando o povo, fosse nas sinagogas ou na cidade;  13 nem te podem provar as acusações que, agora, fazem contra mim”.

               Completamente o oposto de Tértulo, Paulo ao se dirigir a Félix ele foi sincero e verdadeiro, e não usou de bajulação hipócrita. Ele disse:

ü Que Félix governava havia muitos anos e que era juiz daquela nação (v.10), fato este comprovado por todos ali presentes.

ü Que todo aquele tumulto não passava de doze dias (v.11),

ü Que ele não foi encontrado pelos judeus discutindo com ninguém e nem mesmo amotinando o povo, quer no templo, nas sinagogas ou na cidade (v.12),

ü E que seus acusadores não podiam provar absolutamente nada do que o acusavam (v.13).

 

Exposição v.17-21:17 Depois de anos, vim trazer esmolas à minha nação e também fazer oferendas,  18 e foi nesta prática que alguns judeus da Ásia me encontraram já purificado no templo, sem ajuntamento e sem tumulto,  19 os quais deviam comparecer diante de ti e acusar, se tivessem alguma coisa contra mim.  20 Ou estes mesmos digam que iniquidade acharam em mim, por ocasião do meu comparecimento perante o Sinédrio,  21 salvo estas palavras que clamei, estando entre eles: hoje, sou eu julgado por vós acerca da ressurreição dos mortos”.

               Continuando o seu relato dos fatos Paulo afirmou diante de Félix que:

ü Depois de anos viajando anunciando o Evangelho, ele voltou a Jerusalém trazendo as esmolas e ofertas que foram levantadas pelas igrejas da Macedônia em favor dos judeus, bem como viera para cultuar a Deus (v.17);

ü Quando ele foi encontrado pelos seus inimigos, ele já estava devidamente purificado, e, portanto, sua estadia no templo não constituía em profanação como seus acusadores alegavam, e que não estava causando tumulto nenhum (v.18);

ü O único tumulto causado o foi por eles mesmos por fazerem acusações sem provas, e por serem mentirosos e covardes de não comparecerem até àquele momento para provar alguma coisa (v.19);

ü As únicas palavras que ele disse e que talvez pudessem dar alguma base para a acusação deles, ainda sim, não depunham contra Paulo, foram aquelas referentes à ressurreição dos mortos, assunto este que trouxe “grande dissenção entre fariseus e saduceus” (23.7).

Aplicação v. 10-13 e v.17-21: Não bajule. A bajulação é hipocrisia. Bajular não é elogiar, não é reconhecer os méritos e atributos das pessoas, mas, sim, manipular as pessoas com fins interesseiros. Seja honesto em suas palavras às pessoas. O servo de Deus deve falar a verdade. Deve escudar-se somente na verdade. Como alguém disse: “Quem fala a verdade sempre não precisa ter boa memória”. Falar a verdade é expressar o caráter de Deus em sua vida, pois, Ele é a Verdade. Falando a verdade você suscitará inimigos. Mas, pior do que sofrer retaliações por ter falado a verdade, será no dia do Juízo final olhar nos olhos Daquele que é a Verdade.

               Defendendo-nos com o Evangelho também precisamos ser:

              

2)     Fiéis na proclamação e vivência do Evangelho, v.14-16

 

Exposição v.14-16:14 Porém confesso-te que, segundo o Caminho, a que chamam seita, assim eu sirvo ao Deus de nossos pais, acreditando em todas as coisas que estejam de acordo com a lei e nos escritos dos profetas,  15 tendo esperança em Deus, como também estes a têm, de que haverá ressurreição, tanto de justos como de injustos.  16 Por isso, também me esforço por ter sempre consciência pura diante de Deus e dos homens”.

               Fidelidade na pregação do Evangelho quer dizer: pregar o Evangelho como ele é. Diante de Félix que era o juiz do povo, Paulo falou do Juiz Supremo perante o qual todos deveremos comparecer. A fidelidade de Paulo na pregação do Evangelho aqui pode ser vista nas seguintes verdades:

ü O Caminho, a Fé Cristã, não é uma seita, um partido como os judeus acusavam. Pelo contrário, era a mensagem que foi anunciava o cumprimento de todas as verdades proclamadas “de acordo com a lei e nos escritos dos profetas” (v.14),

ü Era a mensagem teocêntrica, pois, anunciava a “esperança em Deus” (v.15),

ü Mas, também anunciava o Juízo Divino sobre todos e a ressurreição final “tanto de justos como de injustos” (v.15),

ü E que tendo em vista esse grande dia, ele se esforçava “por ter sempre consciência pura diante de Deus e dos homens” (v.16).

               A fidelidade na pregação do Evangelho não consiste só na exatidão em apresenta-lo aos homens, mas, também em andar com a consciência pura diante de Deus, a qual é resultado de uma vida obediente ao Evangelho que se anuncia.

               Pregar fielmente o Evangelho anunciando todas as verdades que se relacionam ao Evangelho, mas, não viver de acordo com ele é hipocrisia. Em “1Co 9.27 Paulo declarou: Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado”.

Aplicação v. 10-13 e v.17-21: Ao anunciar o Evangelho aos outros não se esqueça de anuncia-lo a você primeiro. Enquanto apontar aos outros o Caminho da Salvação, não esqueça de você mesmo trilhá-lo, afinal, do Juízo Final ninguém escapará, pois, todos haveremos de comparecer perante o tribunal de Deus. Serão salvos somente aqueles que em Cristo mantiveram-se puros.

               Defendendo-nos com o Evangelho precisamos ser

3)     Incisivos com os pecadores, v.22-27

 

Exposição v.22-27:22 Então, Félix, conhecendo mais acuradamente as coisas com respeito ao Caminho, adiou a causa, dizendo: Quando descer o comandante Lísias, tomarei inteiro conhecimento do vosso caso.  23 E mandou ao centurião que conservasse a Paulo detido, tratando-o com indulgência e não impedindo que os seus próprios o servissem.  24 Passados alguns dias, vindo Félix com Drusila, sua mulher, que era judia, mandou chamar Paulo e passou a ouvi-lo a respeito da fé em Cristo Jesus.  25 Dissertando ele acerca da justiça, do domínio próprio e do Juízo vindouro, ficou Félix amedrontado e disse: Por agora, podes retirar-te, e, quando eu tiver vagar, chamar-te-ei;  26 esperando também, ao mesmo tempo, que Paulo lhe desse dinheiro; pelo que, chamando-o mais frequentemente, conversava com ele.  27 Dois anos mais tarde, Félix teve por sucessor Pórcio Festo; e, querendo Félix assegurar o apoio dos judeus, manteve Paulo encarcerado”.

               Félix conhecia “mais acuradamente as coisas com respeito ao Caminho” (v.22), do que as demais pessoas ali presentes. Talvez pela influência dos cristãos que lá estavam há mais de duas décadas, ou talvez por sua esposa Drusila “que era judia” (v.24). Ele decidiu então deixar Paulo sob custódia e mesmo tratando-o com indulgência, tal prisão não era lícita, pois, Paulo não havia quebrado nenhuma lei romana. Assim ele ficou detido até à chegada do comandante Lísias para que os fatos fossem melhor apurados.

               Entrementes, Félix mandou “mandou chamar Paulo e passou a ouvi-lo a respeito da fé em Cristo Jesus” (v.24). Como nos lembra Simon Kistemaker[1]:

    Esse casal, interessado em aprender mais sobre o Caminho, tinha uma história marital marcada pela promiscuidade. O historiógrafo Suetônio relata que Drusila era a terceira mulher de Félix. De forma semelhante, Drusila tinha também tido sua cota de maridos. Nascida em Roma, Drusila fora trazida fora por seu pai para a Cesareia onde ela passou sua infância. Aos 6 anos de idade, Drusila foi prometida em casamento a Epífanes, filho do rei Antíoco de Comagene. Mas, Epífanes se recusou a se submeter ao ritual de circuncisão judeu e, por isso, o casamento nunca se consumou. Quando Drusila tinha 14 anos de idade, seu irmão Agripa II, deu-a e casamento ao rei Azizo de Emesa no norte da Síria; entretanto Drusila deixou-o para se tornar a esposa de Félix (…) Ao se casar com Félix, a judia Drusila desafiou a lei do Antigo Testamento que a proibia de se casar com um gentio. Mesmo assim, ela estava suficientemente interessada para ir até Paulo e ouvi-lo pregar o evangelho de Jesus Cristo.

               Paulo dissertou com ele “acerca da justiça, do domínio próprio e do Juízo vindouro”, pelo que “ficou Félix amedrontado e disse: Por agora, podes retirar-te, e, quando eu tiver vagar, chamar-te-ei” (v.25). Paulo ressaltou a justiça e o domínio (princípios ausentes na vida de seu juiz, Félix), e, além disso, ressaltou também o Juízo vindouro. Não devemos pensar que Paulo lhes deu uma aula de teologia com conceitos um tanto quanto abstratos. Em vez disso, conhecendo o histórico de pecado e promiscuidade daquele casal, ele toca em pontos cruciais da Vida Cristã:

ü A justiça de Deus que torna o pecador justificado e perdoado,

ü O domínio próprio, tão ausente de suas vidas, e, por isso mesmo se entregaram à uma vida de adultério,

ü O Juízo vindouro que dará a cada um conforme seu procedimento.

               Depois de ouvir essas duras verdades e ser confrontado em cada uma delas, Félix ficou tomado pelo medo. Mas, mesmo assim, ele se esquivou de assumir um compromisso de vida com Cristo. Era demais para ele, especialmente porque estes princípios do Evangelho acertaram em cheio sua moral e ética.

               Félix queria receber propina de Paulo e, por isso, o manteve no cárcere, onde ele visitava o apóstolo frequentemente. Paulo teve inúmeras chances de ser liberto bastava apenas pagar a propina. Mas, aquele que anuncia a justiça, o domínio próprio e o Juízo vindouro não pode incorrer no pecado que condena!

               Dois anos se passaram, e Félix foi substituído por Pórcio Festo. Mesmo assim, Félix querendo “assegurar o apoio dos judeus, manteve Paulo encarcerado” (v.27). A razão pela qual Félix queria o apoio dos judeus mesmo depois de não mais ser o governador tem levantado questionamentos. Há quem afirme que foi porque Drusila ter ficado muito irritada com Paulo por tê-la confrontado em sua vida conjugal promíscua[2]. Seja como for, sabemos que tudo o que estava acontecendo com Paulo estava sob a direção da soberana vontade de Deus.

Aplicação v.22-27: Ao anunciar o Evangelho seja incisivo. Os pecadores precisam saber que a ofensa que lhes é feita quando lhes mostramos seus pecados, nem se compara com a ofensa que eles fazem ao santo Nome de Deus. Os pecadores precisam ser confrontados com a justiça de Deus, que é a única forma deles escaparem do Juízo vindouro; precisam ser confrontados quanto ao domínio próprio, pois, quando pecam o fazem porque querem – é a vontade deles que eles estão fazendo com a qual se rebelam contra a vontade santa de Deus. Mas, cuidado para não incorrer nos pecados que você condena.

Conclusão

               Verdade, fidelidade e incisividade são elementos fundamentais quando estamos pregando o Evangelho ou nos defendendo quando somos atacados por causa da nossa fé. Que a nossa vida seja sempre calcada no Evangelho para a glória de Deus.



[1] KISTEMAKER, 2006, vol.2, p.471.

[2] KISTEMAKER, 2006, vol.2 p.475.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.
This entry was posted in Mensagens Expositivas em Atos dos Apóstolos. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *