A Soberana Vontade de Deus – 49ª Mensagem

A Viagem Para Roma

At 27.1 – 28.31

Jesus: a Esperança de Israel

At 28

 

               Chegamos ao último capítulo do livro de Atos. Este capítulo relata os últimos três momentos da vida de Paulo registrada neste livro. Primeiramente, vemos Paulo e os demais tripulantes na ilha de Malta, depois num segundo momento, seguindo a viagem pelo mar, e, por fim, a estadia em Roma e o ministério que ele desenvolveu lá, tal como o Senhor Jesus ordenara-lhe.

               O capítulo começa nos mostrando como as pessoas são volúveis e precipitadas em seus julgamentos.

              

Exposição v.1-6: “Uma vez em terra, verificamos que a ilha se chamava Malta.  2 Os bárbaros trataram-nos com singular humanidade, porque, acendendo uma fogueira, acolheram-nos a todos por causa da chuva que caía e por causa do frio.  3 Tendo Paulo ajuntado e atirado à fogueira um feixe de gravetos, uma víbora, fugindo do calor, prendeu-se-lhe à mão.  4 Quando os bárbaros viram a víbora pendente da mão dele, disseram uns aos outros: Certamente, este homem é assassino, porque, salvo do mar, a Justiça não o deixa viver.  5 Porém ele, sacudindo o réptil no fogo, não sofreu mal nenhum;  6 mas eles esperavam que ele viesse a inchar ou a cair morto de repente. Mas, depois de muito esperar, vendo que nenhum mal lhe sucedia, mudando de parecer, diziam ser ele um deus”.

               De um assassino a um deus em algumas horas. Os habitantes da ilha de Malta presenciaram Paulo sendo atacado por uma víbora que se agarrou em sua mão quando ele atirava gravetos na fogueira. A primeira conclusão a que chegaram foi precipitada, a saber, que ele era um assassino que, embora tivesse escapado do naufrágio, a deusa Justiça[1] havia alcançado para puni-lo. Eles eram bárbaros, e, por isso, não conheciam a Deus. Por isso, a Justiça a que eles se referiram aqui não era a Justiça de Deus, mas, sim o nome de uma deusa que eles cultuavam, como por exemplo, os gregos cultuavam Nêmesis, a deusa da justiça.

               Mas as horas foram se passando, e, a segunda conclusão a que chegaram foi equivocada, pois, aquele que parecia ser um assassino que não conseguiria escapar de Justiça, agora, era um deus, pois, mal nenhum lhe ocorrera com o veneno da serpente.

Aplicação v.1-6: Isso nos mostra como somos propensos a fazer julgamentos temerários, precipitados. Somos tendenciosos a estabelecer um veredito sem termos todos os dados. Que Deus nos dê sempre o discernimento necessário para não cairmos neste erro.

Exposição v.7-10:7 Perto daquele lugar, havia um sítio pertencente ao homem principal da ilha, chamado Públio, o qual nos recebeu e hospedou benignamente por três dias.  8 Aconteceu achar-se enfermo de disenteria, ardendo em febre, o pai de Públio. Paulo foi visitá-lo, e, orando, impôs-lhe as mãos, e o curou.  9 À vista deste acontecimento, os demais enfermos da ilha vieram e foram curados, 10 os quais nos distinguiram com muitas honrarias; e, tendo nós de prosseguir viagem, nos puseram a bordo tudo o que era necessário”.

               Deus usou Paulo ali para abençoar aquelas vidas que os receberam com tanta distinção e humanidade. O pai de Públio, o líder daquela ilha, estava ardendo em febre por conta de uma disenteria. Paulo foi até sua casa e “orando, impôs-lhe as mãos, e o curou”. Como já vimos em Atos, o ato de impor as mãos sobre o enfermo mostra que Jesus, e não Paulo foi quem o curou. Paulo era apenas um instrumento, um canal pelo qual o poder de Jesus alcançou o enfermo.

               Muitos outros enfermos foram trazidos à presença de Paulo “e foram curados”. Uma linda demonstração de gratidão. Por isso mesmo, eles abriram suas mãos e abasteceram Paulo e seus companheiros para prosseguirem viagem. Paulo não aproveitou deles, pelo contrário, Deus usou os habitantes da ilha para suprir as necessidades de Paulo e seus companheiros.

Aplicação v.7-10: A bênção de Deus é algo maravilhoso. Ele nos usa para abençoar outras vidas, e usa outras vidas para nos abençoar. Enquanto repartimos o que Ele nos dá, Ele multiplica o que damos e recebemos.

Exposição v.11-15:11 Ao cabo de três meses, embarcamos num navio alexandrino, que invernara na ilha e tinha por emblema Dióscuros.  12 Tocando em Siracusa, ficamos ali três dias,  13 donde, bordejando, chegamos a Régio. No dia seguinte, tendo soprado vento sul, em dois dias, chegamos a Putéoli,  14 onde achamos alguns irmãos que nos rogaram ficássemos com eles sete dias; e foi assim que nos dirigimos a Roma.  15 Tendo ali os irmãos ouvido notícias nossas, vieram ao nosso encontro até à Praça de Ápio e às Três Vendas. Vendo-os Paulo e dando, por isso, graças a Deus, sentiu-se mais animado”.

               Nestes versículos temos o roteiro da viagem partindo da ilha de Malta até à Itália. Encontrando um “navio alexandrino, que invernara na ilha e tinha por emblema Dióscuros”, ou seja, este navio tinha o emblema dos deuses gregos Castor e Pollux, os quais se cria que eram filhos de Zeus. Este emblema demonstrava que os proprietários do navio criam que esses deuses os protegiam no mar.

               Assim que desceram em solo italiano, seu primeiro ponto de parada foi Régio. No dia seguinte, voltaram para o mar e navegaram até Putéoli, onde ficaram sete dias na companhia dos irmãos. Dali se dirigiram a Roma. Quando chegaram a Roma, os irmãos ao saberem que eles haviam chegado, foram encontra-los. E “Vendo-os Paulo e dando, por isso, graças a Deus, sentiu-se mais animado”.

Aplicação v.11-15: A presença dos irmãos animou Paulo. Que preciosa lição temos para nós aqui. Oh! Quanto precisamos valorizar a companhia dos nossos irmãos! Quanto maior valor devemos dar à congregação dos santos de Deus! Se existe um lugar onde somos animados é na comunhão com os irmãos. Se existe um lugar onde devemos buscar forças, este lugar é entre o povo de Deus.

Exposição v.16-22:16 Uma vez em Roma, foi permitido a Paulo morar por sua conta, tendo em sua companhia o soldado que o guardava.  17 Três dias depois, ele convocou os principais dos judeus e, quando se reuniram, lhes disse: Varões irmãos, nada havendo feito contra o povo ou contra os costumes paternos, contudo, vim preso desde Jerusalém, entregue nas mãos dos romanos;  18 os quais, havendo-me interrogado, quiseram soltar-me sob a preliminar de não haver em mim nenhum crime passível de morte.  19 Diante da oposição dos judeus, senti-me compelido a apelar para César, não tendo eu, porém, nada de que acusar minha nação.  20 Foi por isto que vos chamei para vos ver e falar; porque é pela esperança de Israel que estou preso com esta cadeia.  21 Então, eles lhe disseram: Nós não recebemos da Judéia nenhuma carta que te dissesse respeito; também não veio qualquer dos irmãos que nos anunciasse ou dissesse de ti mal algum.  22 Contudo, gostaríamos de ouvir o que pensas; porque, na verdade, é corrente a respeito desta seita que, por toda parte, é ela impugnada”.

               Assim que chegaram a Roma, Paulo recebeu permissão para alugar uma casa onde ele ficou preso e guardado por um soldado, que tanto impedia que ele fugisse (como se Paulo o quisesse!), quanto o protegia de inimigos que pudessem fazer-lhe algum mal.

               Três dias depois de haver se instalado em sua casa, Paulo mandou chamar os principais dos judeus. Quando estes o vieram lhes relatou sua inocência diante das acusações fraudulentas que os judeus de Jerusalém lhe fizeram pelas quais ele teve de apelar para César para ser julgado corretamente. Tudo isso estava acontecendo porque ele pregava a Cristo Jesus, a “esperança de Israel”, e por causa Dele estava preso. Eles então lhe disseram que não estavam sabendo de nada e quem nem mesmo nenhuma acusação formal receberam. Contudo, eles queriam muito ouvir o que Paulo tinha a dizer sobre a seita dos cristãos, pois chegou ao conhecimento deles que esta seita estava sendo impugnada em todos os lugares.

               No v.20 falando aos principais dos judeus Paulo usa uma expressão referente a Cristo Jesus indicando que esta era a razão pela qual ele estava passando por tudo o que vinha sofrendo: acusações falsas, perseguição dos judeus, prisões, naufrágio, etc. A expressão que ele usa é “pela esperança de Israel que estou preso com esta cadeia”. Sim, por Jesus, a esperança de Israel, Paulo via-se preso.

               Eu quero tomar esta expressão e emprega-la como o tema da nossa mensagem: Jesus, a esperança de Israel.

                Jesus é a esperança do seu povo:

1)     Que foi anunciado pela Lei e pelos Profetas, v.23

Exposição v.23:23 Havendo-lhe eles marcado um dia, vieram em grande número ao encontro de Paulo na sua própria residência. Então, desde a manhã até à tarde, lhes fez uma exposição em testemunho do reino de Deus, procurando persuadi-los a respeito de Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas”.

               Durante toda aquela manhã e aquela tarde, do nascer ao pôr do sol, com toda disposição, entusiasmo e energia Paulo expôs e testemunhou “do reino de Deus, procurando persuadi-los a respeito de Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas”. Esta é uma temática do Livro de Atos: a confirmação escriturística da pessoa de Jesus, ou seja, Ele é o Messias que Deus prometeu na Lei de Moisés e nos Profetas.

               Paulo pregou o Evangelho de Jesus a partir do Antigo Testamento (Lei e Profetas). Isso não é só mais uma das muitas doutrinas da Fé Cristã; é o ponto central das Escrituras. Sem Jesus, o Antigo Testamento não passa de um amontoado de promessas vazias, e o Novo Testamento fica suspenso no ar sem qualquer fundamentação.

Aplicação v.23: Pregando o Evangelho anuncie a Jesus a partir do Antigo Testamento. Mostre como Deus é fiel em cumprir cada uma de Suas promessas especialmente as promessas referentes à nossa salvação por meio do Messias. Pregar o Evangelho é relatar a fidelidade de Deus em cumprir Suas promessas por meio de Jesus Cristo.

               Jesus é a esperança do Seu povo

2)     Que divide as pessoas em dois grupos, v.24-29

 

Exposição v.24-29:24 Houve alguns que ficaram persuadidos pelo que ele dizia; outros, porém, continuaram incrédulos.  25 E, havendo discordância entre eles, despediram-se, dizendo Paulo estas palavras: Bem falou o Espírito Santo a vossos pais, por intermédio do profeta Isaías, quando disse:  26 Vai a este povo e dize-lhe: De ouvido, ouvireis e não entendereis; vendo, vereis e não percebereis.  27 Porquanto o coração deste povo se tornou endurecido; com os ouvidos ouviram tardiamente e fecharam os olhos, para que jamais vejam com os olhos, nem ouçam com os ouvidos, para que não entendam com o coração, e se convertam, e por mim sejam curados.  28 Tomai, pois, conhecimento de que esta salvação de Deus foi enviada aos gentios. E eles a ouvirão.  29 Ditas estas palavras, partiram os judeus, tendo entre si grande contenda”.

               Aqueles judeus conheciam o caminho das Obras da Lei, mas, não conheciam o Caminho da Graça. Diante desse ensinamento libertador da Graça de Deus em Cristo, houve uma divisão e dois grupos surgiram ali, o de “alguns que ficaram persuadidos pelo que ele dizia”, e, por isso creram na mensagem do Evangelho, e o dos que “continuaram incrédulos” diante do Evangelho anunciado.

               Deus quando olha para a Terra vê somente esses dois grupos: os que creem e os que não creem em Cristo. Aqueles que creem o fizeram porque foram persuadidos não pela eloquência de um pregador, mas, pelo Espírito Santo que aplica em seus corações a poderosa mensagem do Evangelho. Não foi a eloquência de Paulo e nem seu vibrante entusiasmo que convenceu a alguns daqueles judeus, mas, sim, foi o Espírito Santo. A conversão verdadeira se dá mediante o Verdadeiro Evangelho.

               No v.26 Paulo identifica o seu ministério apostólico com o ministério profético de Isaías que foi enviado a um povo surdo, cego e de coração empedernido pelo pecado. No mesmo tempo que o Evangelho atinge em cheio o coração daqueles a quem Deus quer salvar, também endurece os corações já endurecidos pelo pecado, pois, sua mensagem soa agressiva, intolerante, excludente e dura demais. Para o pecador é impossível abandonar por suas próprias forças e vontade o pecado do qual ele tanto gosta e tem prazer. A menos que ocorra o milagre do novo nascimento, no qual Deus coloca dentro de seu peito um novo coração, isto é, novas vontades que glorificam a Deus, a conversão jamais acontecerá.

               No v.28 Paulo lhes dá um ultimato: “Tomai, pois, conhecimento de que esta salvação de Deus foi enviada aos gentios”. Ele lhes diz que a salvação primeiramente fora anunciada aos judeus e depois haveria de ser anunciada aos gentios. Observe que Paulo não está dizendo que Deus foi frustrado em Seus planos salvíficos porque os judeus O recusaram, e por isso teve que oferecer Sua salvação aos gentios. Definitivamente, não é isto que ele está dizendo aqui! O que Paulo está dizendo é que nos propósitos eternos de Deus, a salvação deveria ser anunciada aos judeus primeiramente, mas, que, em seguida seria anunciada também aos gentios. A recusa dos judeus era o ponto que marcaria a transição da mensagem do Evangelho para os gentios. Existem judeus sendo convertidos a Cristo depois disso? Sim, claro! Mas, a partir de então, a mensagem do Evangelho não se restringiria somente aos judeus. Jesus não seria a esperança somente de Israel, mas, de todo o povo de Deus composto por pessoas de todas as nações.

               O v.29 nos mostra que: “Ditas estas palavras, partiram os judeus, tendo entre si grande contenda”. Estas palavras estão em itálico porque não constam em todos os manuscritos. Contudo, elas confirmam tudo o que foi dito anteriormente sobre a dureza do coração dos judeus.

Aplicação v.24-29: Existem apenas dois grupos diante de Deus: os que creem em Cristo e os que O rejeitam. De qual desses grupos você faz parte?

               Jesus é a esperança do Seu povo

3)     Que devemos anunciar com toda dedicação, v.30-31

 

Exposição v.30-31:30 Por dois anos, permaneceu Paulo na sua própria casa, que alugara, onde recebia todos que o procuravam,  31 pregando o reino de Deus, e, com toda a intrepidez, sem impedimento algum, ensinava as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo”.

               Paulo estava acorrentado (v.20) e preso em sua própria casa. Ele não podia sair para nada. E assim permaneceu por dois anos. Ele dependia totalmente dos irmãos para suprirem suas despesas, pois, mesmo sendo um fazedor de tendas (ofício este para o qual ele recorria em tempos de apertos financeiros), não podia trabalhar dentro de sua casa. Tudo contribuía para que ele se calasse e se fechasse em seu mundo.

               Ele não podia sair pelas ruas e ir às sinagogas como sempre fazia para pregar o Evangelho. Contudo, em sua casa ele “recebia todos que o procuravam”. Em vez de ficar lamuriando e reclamando da demora do Imperador em julgar sua causa, ele entendeu que era aquela a circunstância que Deus preparara para que ele pregasse o Evangelho. E por isso mesmo “com toda a intrepidez, sem impedimento algum, ensinava as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo”.

               Observe que a Bíblia diz que ele pregava com toda intrepidez e sem impedimento algum. Muitas vezes os impedimentos que temos não são recorrentes das circunstâncias, mas, sim, do nosso coração preguiçoso, iracundo e murmurador.

               Outra verdade que devemos observar aqui é o conteúdo do ensino de Paulo. Eram “as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo”. Pregar o Evangelho é falar de Jesus. Se Jesus não estiver sendo anunciado em nossa pregação estamos pregando qualquer coisa, menos o Evangelho.

               A intrepidez e o desimpedimento para pregar o Evangelho estão diretamente relacionados ao nosso amor por Cristo. Quando vemos que Cristo não mediu esforços, rompeu todas as barreiras e enfrentou a cruz por amor à glória de Deus e por amor a nós, deveríamos responder com um amor profundo e dedicado, intrépido e livre de qualquer amarra.

Aplicação v.30-31: Quais justificativas você tem dado para não pregar o Evangelho? Ou quais recursos você tem buscado para fazê-lo?

Conclusão

         Aqueles de quem Cristo é a esperança vivem para a glória de Deus. Olham para as circunstâncias não como empecilhos, mas, como oportunidades a serem adaptadas e aproveitadas para a proclamação do Evangelho. Que Deus em Sua infinita graça e bondade nos ajude a vermos em cada circunstância uma opor



[1] Simon Kistemaker afirma que a “Justiça” a que esses pagãos se referiam não era a justiça de Deus, pois, eles não conheciam a Deus. Assim sendo, era a deusa Justiça a que eles se referiam. Vide KISTEMAKER, 2006, vol.2 p.600. O mesmo afirma I. Howard Marshall – vide MARSHALL, 2005, p.387.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.
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