A Soberana Vontade de Deus – 50ª Mensagem

Considerações Finais Sobre o Livro de Atos

Intrepidez: Uma das Principais Características do Crente

 

 

               Nesta última mensagem no Livro de Atos gostaria de voltar a um assunto recorrente no livro o qual pode ser considerado o maior desejo dos apóstolos, a saber, a intrepidez que eles tinham em sua vida com Cristo. O tempo todo, quando eles tinham algo a pedir a Deus em suas orações, eles pediam intrepidez para pregarem o Evangelho.

               Eles não pediam livramento das tribulações (como muitas vezes fazemos) porque viam nas tribulações uma oportunidade de glorificarem a Deus. Eles não pediam a morte de seus inimigos, mas, sim, que Deus lhes concedesse intrepidez para enfrenta-los sem esmorecer ou se intimidarem para que não viessem a envergonhar o Nome de Jesus.

               A palavra “intrepidez” aparece 7 vezes na Bíblia, sendo todos elas no Novo Testamento, e dessas 7 vezes, 4 vezes somente em Atos (At 4.13,29,31; 28.31). No grego, “intrepidez” é parrhsi,a e seu significado primário é “ousadia, franqueza e destemor ao falar, falar livre e abertamente”. Assim sendo, o que eles mais desejavam e pediam a Deus era que Ele lhes desse intrepidez para pregarem o Evangelho, especialmente quando uma oportunidade fosse difícil e perigosa para eles.

               Vejamos cada uma dessas quatro passagens de Atos que falam sobre a intrepidez sendo que as três primeiras estão em At.4.

1)     A intrepidez é a marca de quem anda com Jesus, At.4.13

Exposição At 4.13: “Ao verem a intrepidez de Pedro e João, sabendo que eram homens iletrados e incultos, admiraram-se; e reconheceram que haviam eles estado com Jesus”.

               O contexto aqui é o discurso de Pedro perante o Sinédrio. Ele e João foram levados perante o Sinédrio por causa do milagre que Deus realizou na cura do paralítico que ficava junto à porta Formosa do templo (cf. At 3).

               O que nos chama a atenção aqui é o fato de que depois que ouviram Pedro falar com tanta intrepidez, apesar dele e João serem “homens iletrados e incultos”, a conclusão a que chegaram foi que “haviam eles estado com Jesus”.

               Anás, Caifás, João, Alexandre “e todos os que eram da linhagem do sumo sacerdote” (v.6), com certeza ouviram o Senhor Jesus falando, várias vezes O encontraram no meio da multidão, e, assim, viram em Pedro e João a mesma intrepidez e a mesma forma de falar se Seu Senhor.

               Somos pessoas que influenciam e que são influenciadas também. E não há nada de estranho e errado nisso. O problema está em como temos influenciado as pessoas e em quem está nos influenciando.

               Outra verdade que aqui encontramos é que só podemos agir e falar como Jesus se realmente tivermos um relacionamento profundo e sincero com Ele. Quando alguém realmente anda com Cristo revelará em suas palavras a mesma intrepidez e coragem ao falar de Seu maravilhoso Salvador e Senhor às pessoas.

Aplicação At 4.13: Você tem revelado essa mesma intrepidez em sua vida? Essa intrepidez é resultado da vida que Cristo coloca no coração da pessoa. Será impossível você demonstrar essa intrepidez se você não nasceu de novo. Alguém que anda com Cristo não rouba a glória para si, mas, sim, aponta em suas palavras e ações quem é que deve ser honrado e exaltado: o Senhor Jesus. Se você anda com Cristo é Ele quem deve ser visto em sua vida e não você.

2)     A intrepidez é um ato de confiança em Deus, At 4.29

Exposição At 4.29: “agora, Senhor, olha para as suas ameaças e concede aos teus servos que anunciem com toda a intrepidez a tua palavra”.

               Assim que o Sinédrio dispensou a Pedro e a João eles voltaram para os irmãos e lhes relataram tudo quando acontecera e o que eles disseram aos membros do Sinédrio, bem como foram ordenados pelo Sinédrio a se calarem em relação a Cristo, o que ele, é claro, recusaram. Diante do relato deles, a Igreja pôs-se a orar e a exaltar o Nome de Deus (At 3.24-30). No v.29 a igreja pediu a Deus que reparasse nas ameaças que o Sinédrio fez aos apóstolos Pedro e João, e que também concedesse a eles que anunciassem “com toda intrepidez” a Palavra de Deus.

               Eles estavam pedindo a Deus que por sua graça, guardasse o coração dos apóstolos e os animasse a prosseguir com alegria na obra apesar da proibição do Sinédrio.

               Em vez de querermos evitar as adversidades e lutas devemos nos concentrar em prosseguir confiantes na Graça de Deus e com alegria em nosso coração para executarmos a obra que Deus nos confiou.

               Observe que a oração que eles fizeram não foi: “Senhor, olha para as suas ameaças, amedronta-os, cala-lhes a boca e enche-lhes o rosto de vergonha”; mas: “Senhor, olha para as suas ameaças, anima-nos, abre a nossa boca e enche o nosso coração de ousadia”.  Eles não oraram: “Senhor; dá-nos a justa oportunidade de nos retirar de nossa obra, visto que agora está ficando perigosa”; mas, sim: “Senhor; dá-nos a graça para prosseguirmos em nossa obra e não termos medo do rosto dos homens”[1].

               Três verdades devem ser consideradas aqui[2]:

ü Devemos entregar a mensagem com toda ousadia, com toda a liberdade de expressão. Nunca devemos deixar de anunciar todo o conselho de Deus (At 20.27), ainda que pessoas se ofendam. Jamais devemos duvidar do que dizemos!

ü Devemos buscar a Deus pedindo-lhe habilidade para disseminar a sua palavra com ousadia. Quando precisarmos da ajuda e força divina, estejamos certos de que Deus nos dará. Temos de sair e prosseguir na força do Senhor Deus (Sl 71.16).

ü As ameaças de nossos inimigos, que visam a debilitar nossas mãos e a nos afastar da obra, devem antes nos incentivar a ponto de sermos mais ousados e determinados no que realizarmos. Eles ousam batalhar contra Cristo? Nós não nos envergonhamos do Evangelho que é o poder de Deus para a salvação daquele que crê (cf. Rm 1.16). Por vergonha, nunca nos desviemos do nosso dever!

Aplicação At 4.29: Em quem você confia quando prega o Evangelho? Pedro e João eram homens iletrados e incultos, mas, viveram com e por Cristo, e isto deu-lhes o poder para realizarem a Obra do Senhor. Eles não confiavam em si mesmos. Deus lhe deu recursos, use-os para a glória Dele. Mas, não seja insensato a ponto de confiar nesses recursos em vez de confiar somente em Deus.

3)     A intrepidez é sinal da presença do Espírito Santo, At 4.31

Exposição At 4.31: “Tendo eles orado, tremeu o lugar onde estavam reunidos; todos ficaram cheios do Espírito Santo e, com intrepidez, anunciavam a palavra de Deus”.

               Deus respondeu-lhes a oração com poder. Um terremoto sacudiu o lugar. A mensagem divina aqui foi clara: é melhor temer Àquele que é capaz de fazer tremer a terra, do que temer homens como nós, como nos disse o Senhor Jesus em Lc 12.4-5: 4 Digo-vos, pois, amigos meus: não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer.  5 Eu, porém, vos mostrarei a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a esse deveis temer”.

               A manifestação do poder de Deus não foi somente em relação ao lugar. Mais importante do que tremer a terra é ver coração cheio do Espírito Santo. Por isso mesmo, Deus fez com que todos ali ficassem cheios do Espírito Santo. E o resultado desse enchimento e plenitude do Espírito Santo foi a intrepidez na pregação do Evangelho.

               Em 1Co 12.7 lemos: “A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando um fim proveitoso”, e assim que foram plenificados pelo Espírito Santo se puseram à pregação da Palavra de Deus. Eles não saíram se exibindo ou chamando a atenção para si mesmos, mas, saíram pregando a Palavra de Deus.

               É importante ressaltarmos aqui que ser cheio do Espírito Santo é o resultado ter em seu coração um profundo temor por Deus. E assim, temendo a Deus e cheios do Espírito Santo eles obedeceram a Deus.

Aplicação At 4.31: Observando aqui a oração destes servos de Deus e como eles foram contemplados por Ele com a resposta tão poderosa, eu lhe pergunto: como têm sido suas orações? Você tem recebido o que tem pedido a Deus? O que você tem pedido tem sido para a glória de Deus? Orações comprometidas com a glória de Deus sempre são atendidas.

4)     Intrepidez é a postura de um coração livre, At 28.31

 

Exposição At 28.31: “pregando o reino de Deus, e, com toda a intrepidez, sem impedimento algum, ensinava as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo”.

               Paulo estava preso em Roma. Sua prisão era a sua própria casa que ele alugara. Estranho pensar assim, mas, ele pagava pela própria prisão. Estava vigiado o tempo todo por um soldado. Tinha que depender financeiramente dos irmãos para sustenta-lo. Seu julgamento foi adiado por dois anos. Em suma, o que não faltava para Paulo eram motivos para desanimar e deixar de pregar o Evangelho. Mas, apesar de todas essas circunstâncias contrárias, Paulo estava ali pregando o Evangelho do reino de Deus com toda a intrepidez, sem nenhum obstáculo ou impedimento. Mas, como podia ele pregar o Evangelho sem impedimento se ele estava vigiado por um soldado, preso em sua própria casa da qual não podia sair, e dependendo totalmente de outras pessoas? Isso é possível quando se tem um coração livre e liberto pela Graça de Deus.

               O coração de Paulo não estava preso às circunstâncias. Pelo contrário, ele via nas circunstâncias a execução da soberana vontade de Deus. Logo, estando daquele jeito numa prisão ele mesmo tendo todos os motivos do mundo para se calar, deixar-se envolver com pensamentos se sentimentos depressivos e de desânimo, ele se deleitava na salvação divina, cumpria fielmente sua responsabilidade de apóstolo e aproveitava cada oportunidade que surgia para pregar o Evangelho.

               Ele sabia que Deus o queria em Roma pregando o Evangelho. Mas, não sabia em que circunstâncias ele realizaria essa tarefa. Temos aqui uma lição preciosa para nós. Quantas vezes por fazermos a obra de Deus julgamos que por isso Ele haverá de tirar todo empecilho e embaraço, deixando o nosso caminho livre e espaçoso? Mas, quando as adversidades começam a surgir logo desanimamos e até questionamos o cuidado de Deus. Quando Deus nos dá uma ordem em vez de ficarmos alimentando fantasias devemos nos concentrar em obedecer a Deus e não ficarmos avaliando as circunstâncias e permitir que isso nos desvie do propósito de obedecer a Deus.

Aplicação At 28.31: Sua postura é intrépida ou você fica murmurando e reclamando diante da menor mudança nas circunstâncias? Você tem focado na vontade de Deus, ou está esperando que Ele faça a sua vontade removendo quaisquer obstáculos e inimigos para então você fazer o que Ele lhe ordena? Quais desculpas você tem dado para não fazer a vontade de Deus?

Conclusão

               Muitas outras verdades poderiam ser destacadas no Livro de Atos. Contudo, se guardarmos em nosso coração a importância que devemos dar à intrepidez como marca de alguém que anda com Cristo, como um ato de confiança em Deus, como sinal da presença do Espírito Santo e como a postura que devemos ter diante das circunstâncias adversas, então continuaremos a história de Atos, ou seja, levaremos o Evangelho às pessoas que ainda não conhecem a Palavra de Deus, seremos instrumentos Dele neste mundo caído e depravado. Veremos nossa igreja crescer não porque temos de crescer numericamente, mas, porque Deus abençoará o nosso trabalho e dará ao Cordeiro Santo o fruto do Seu penoso trabalho (Is 53.11).

               Que a mensagem central do livro de Atos, a Soberana Vontade de Deus seja vista e experimentada por todos nós, todos os dias. Que o mesmo compromisso que tiveram nossos irmãos no passado seja visto em nós hoje. Que em nosso coração haja tanta intrepidez que as pessoas ao nos ouvirem sejam impactadas com a Palavra de Deus. A Ele toda a glória!



[1] Cf. HENRY, 2008, vol.6, p.43.

[2] Ibid.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.
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3 Responses to A Soberana Vontade de Deus – 50ª Mensagem

  1. Leita Nunes says:

    Meu Deus como eu aprendi. Quero mais, quero pregar a palavra de Deus com intrepidez. Que Deus continue te iluminando para escrever para pessoas iguais a mim que tem fome, muita fome de aprender e desejo de repassar. A paz.

  2. Alisson Alves Dias de Godoy says:

    Pastor sem palavras, edificante de mais, que todos nós venhamos a pregar com intrepidez a palavra do Senhor.

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