A Soberania de Deus – Como praticar essa doutrina bíblica?

 

Introdução

Um dos graves erros encontrados nas igrejas evangélicas de nossos tempos é o de se pensar que doutrina é algo impraticável e, por isso, sem importância. Mas, não se tem uma vida espiritual saudável sem a prática das doutrinas bíblicas. Todas as doutrinas bíblicas são:

–        Práticas

–        Importantes

–        Essenciais para uma vida cristã saudável

–        Necessárias à maturidade cristã

Por isso quero propor para nossa reflexão nessa aula o tema: A Soberania de Deus: como praticar essa doutrina bíblica?

Para João Calvino esta sempre foi a principal doutrina cristã pelo fato de que todas as demais verdades bíblicas dependem dela. Mas, para o homem não convertido essa doutrina é um entrave, é um estorvo para a realização de suas vontades. Lutero ao rebater as afirmações de Erasmo de Roterdã sobre vários pontos da fé católica, disse: “O Seu Deus é pequeno demais”. Isso porque na teologia de Erasmo, Deus era alguém tão limitado à vontade do homem que nem de longe se parecia com o Deus revelado nas Escrituras.

A fim de ser o mais objetivo e prático possível em minha abordagem quero delimitar o assunto a: 1) A definição da doutrina, 2) Sua relação com a Criação; 3) Sua relação com a responsabilidade do homem, e 4) Sua relação com a salvação dos pecadores.

1)     Definição

Em linhas gerais podemos dizer que a soberania de Deus é a Sua autoridade[1] sobre tudo e sobre todos. Nessa doutrina também está a vontade de Deus que é a razão e causa de tudo existir e acontecer. A soberania de Deus aponta o Seu poder que sustenta toda a Sua criação, fazendo assim como que tudo e todos sejam totalmente dependentes Dele.

Em Sua soberania Ele é totalmente independente de quem quer que seja e nem está sujeito à vontade de ninguém: Nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais” (At 17.25); Ele é totalmente autônomo, pois, não deve explicações a ninguém: Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim?” (Rm 9.20).

Em Is 46.9-11 encontramos uma clara descrição da soberania de Deus. Ele é o único Deus, e nem mesmo existe alguém semelhante a Ele (“o totalmente outro”, Rudolf Otto), que determina todos os fatos desde a antiguidade, ou seja, antes de tudo existir Ele já os determinou, e que sempre fez e fará a Sua própria vontade.

Destacamos aqui também os três “omnis” de Deus: a Sua onipotência (Ele é Todo-Poderoso), Sua onisciência (Ele é todo conhecedor de tudo); e Sua onipresença (Ele está em todos os lugares ao mesmo tempo. Também destacamos Sua santidade, isto é, o Seu caráter é perfeito e puro (Lv 20.7). E por fim, a Sua personalidade, isto é, Ele não é uma “força cósmica”, mas, sim, uma Pessoa Infinita. Quando Moisés perguntou pelo Nome Dele, a resposta foi: “EU SOU O QUE SOU” (Êx 3.14), mostrando assim a Sua atemporalidade.

2)    Sua relação com a Criação

A Criação, tanto o macro quanto o microcosmos foram criados por Deus. Em Ap 4.11 está escrito: “Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas”. Tudo o que Deus criou tem a sua finalidade nos Seus santos planos.

Conhecer a criação sem conhecer o Criador é o mesmo que contemplar um quadro famoso sem conhecer a intenção que o seu pintor tinha ao produzi-lo; perderemos muito se não conhecermos o pintor. Da mesma forma quando nos dedicamos a conhecer mais a Deus, o Criador, a criação passa a ter um significado todo especial!

Na Confissão de Fé de Westminster (CFW) Cap. IV-1 lemos: “Ao princípio aprouve a Deus o Pai, o Filho e o Espírito Santo, para a manifestação da glória do Seu eterno poder, sabedoria e bondade, criar ou fazer do nada, no espaço de seis dias, e tudo muito bom, o mundo e tudo o que nele há, visíveis ou invisíveis (Gn 1; Rm 11.36; Hb 1.2; Jo 1.2,3; Rm 1.20; Sl 104.24; Jr 10.12; At 17.24; Cl 1.16; Ex 20.11)”.

Tudo é Dele (Sl 24.1) e Ele faz o que bem quiser com a Sua Criação (Mc 11.12-14).

3)    Sua relação com a responsabilidade do homem

Diante dessas declarações é comum ouvirmos as pessoas levantarem os seguintes questionamentos: “Se Deus é soberano, então, Ele não seria o responsável por tudo que acontece, inclusive o pecado dos homens?”.

Certa vez perguntaram ao grande pastor e pregado Charles H. Spurgeon com o ele conciliava a soberania de Deus com a responsabilidade humana. Ele respondeu: “Simplesmente não faço; não reconcilia amigas”. A bíblia jamais apresenta essas duas verdades como contrárias, mas, sim, como as duas faces de uma mesma verdade. A Bíblia simplesmente revela Deus como o Soberano Eterno e o homem como o responsável por suas mazelas (Os 13.9).

Creio que tal questionamento se deve por causa de um entendimento errôneo a respeito da Livre Arbítrio, conceito esse que não encontramos na Bíblia. Não temos mais o livre arbítrio porque no momento em que nossos pais Adão e Eva pecaram, levaram consigo toda a humanidade à escravidão do pecado. O Dr. James Kennedy acertou quando disse: “Ele tem a liberdade de fazer tudo quanto lhe agradar, embora não tenha a liberdade de fazer tudo o que é de seu dever moral”[2]. Tanto a nossa liberdade de fazer escolhas quanto a nossa incapacidade de fazermos tudo o que é nosso dever moral nos torna responsáveis aos olhos de Deus.

Contudo, Deus jamais perde o controle mesmo em face à nossa desobediência; Ele não perde Sua soberania mesmo quando somos rebeldes a Ele. Aliás, somos responsáveis por nossas ações quando fazemos a nossa vontade e não a de Deus, e quando fazemos a vontade de Deus de forma incompleta.

4)    Sua relação com a salvação dos pecadores

Chegamos então ao ponto mais difícil dessa doutrina. Ela ensina que:

– É Deus quem salva a quem Ele quiser, Rm 9.14-18; Jo 5.21; 6.40

– É Deus quem traz a Cristo aqueles a quem Ele quis salvar, Jo 6.27,44,65;

O grande entrave nesse ponto se dá porque as pessoas, inclusive muitos crentes querem ser os capitães de seus navios, querem determinar o curso de suas vidas. O tempo todo o coração humano está em rebeldia contra Deus levantando o seu punho fechado contra Deus. O que é o pecado senão a nossa vontade contra a vontade de Deus?

Somos todos pecadores (Ec 7.20) e como disse Paulo: todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Rm 3.12). Isso é um golpe em nosso ego inflamado.

É simplesmente insustentável um Deus que seja admitido como soberano sobre toda a Criação, mas, que, no que se refere à decisão de salvar pecadores, sejam as criaturas as soberanas sobre essa decisão.

Considerações finais

Em que essa doutrina pode ser aplicada em nosso dia a dia? Responda as seguintes perguntas:

– Até que ponto você tem se submetido à soberania de Deus em sua vida?

– Diante das circunstâncias, das mais triviais às mais dolorosas e difíceis qual tem sido o seu comportamento? Tem revelado uma fé inabalável Naquele que é Todo-Poderoso, ou tem revelado desespero e pavor?

A prática dessa doutrina nos fará crentes mais vigorosos, servos que horam a Deus. John Piper disse que glorificamos mais a Deus quando confiamos totalmente em Seu poder.


[1] A palavra “autoridade” aparece 79 vezes na Bíblia, sendo que apenas 5 vezes no AT e 74 vezes no NT, e neste caso, a maioria dessas passagens são referentes a Cristo.

[2] KENNEDY, James. Verdades que transformam. Editora Fiel, 2005, p.11.

Rev. Olivar Alves Pereira

Aula dada na UEBRA – Universidade Evangélica do Brasil – Caçapava, 24/06/2013

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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