A Soberania Incontestável de Deus

A soberania incontestável de Deus]Jó 40.3-5; 42.1-6

Estamos diante de um dos livros mais desafiadores para os exegetas, comentaristas bíblicos e pregadores: o livro de Jó.

Não sabemos se foi o próprio Jó que escreveu sua história ou se foi outro quem o fez, mas, isso pouco importa. O que importa é que estamos diante de um texto bíblico inspirado pelo Espírito Santo com o propósito de nos ensinar verdades a respeito do ser de Deus.

Jó é apresentado logo no início do livro como “homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal” (1.8), e quem disse isso dele foi o próprio Senhor Deus.

A razão desse testemunho é que Jó não só levava sua vida com Deus a sério como também levava a sério o relacionamento de seus filhos com Deus, pois, é dito que ele se levantava de madrugada para oferecer sacrifícios a Deus conforme o número de seus filhos, pois, pensava que algum deles pudesse ter cometido algum pecado contra Deus. Isso ele fazia continuamente (1.5).

Mas, um diálogo no mundo espiritual mudaria totalmente a sorte de Jó. O Senhor Deus levanta uma questão diante de Satanás chamando a sua atenção para Jó: “Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto e que se desvia do mal” (1.8). E a resposta de Satanás foi: “Porventura, Jó debalde teme a Deus?” (v.9), ou seja, “será que Jó serve ao Senhor inutilmente, à toa, por acaso?”. E ele continuou: “Acaso, não o cercaste com sebe, a ele, a sua casa e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste, e os seus bens se multiplicaram na terra. Estende, porém, a mão, e toca-lhe em tudo quanto ele tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face” (v.10,11). O que Satanás estava dizendo aqui é que é impossível qualquer ser humano servir a Deus se Deus não o cumular de bênçãos. Satanás acusou Jó de ser um utilitarista, um interesseiro. No momento em que Deus o abandonasse, Jó também abandonaria a Deus.

Daí para frente sabemos da história. Deus permitiu que Satanás tocasse em Jó retirando-lhe os filhos e todos os seus bens, e, por fim, sua saúde. A única coisa que Deus vetou a Satanás foi a vida de Jó, ou seja, ele não poderia levar Jó à morte.

Não bastando essas terríveis perdas, a Bíblia diz que Jó contraiu uma doença que lhe encheu de feridas da cabeça aos pés. Sua carne fedeu em vida (2.7). Diante dessa situação lastimável a esposa de Jó lhe dá o seguinte conselho: “Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoa o teu Deus e morre” (2.9), ao que ele lhe respondeu: “Falas como qualquer doida; temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” (2.10). A mulher de Jó estava sendo usada por Satanás.

Foi então que três amigos de Jó ficaram sabendo do seu sofrimento e decidiram vir ao seu encontro para condoer-se com ele e consolá-lo (2.11). Eles se chamavam Elifaz, Bildade e Zofar. Posteriormente, lá no Cap.32 aparece um quarto amigo de Jó chamado Eliú.

Os três amigos ficaram sete dias ao lado de Jó em silêncio absoluto apenas vendo a sua dor intensa (2.13). Antes tivessem ficado assim. Daqui para frente o que vemos são acusações que eles fazem contra Jó quando ele levantou alguns questionamentos relativos à sua dor.

Para entender melhor o conteúdo do livro vejamos o seguinte esboço (simplificado) do mesmo:

Cap.1 e 2: O testemunho da integridade de Jó; o desafio de Deus e as aflições de Jó.

Cap.3 – 31: Questionamentos de Jó e repreensões dos três amigos.

Cap.32 – 37: Discursos de Eliú, o mais novo e o mais arrogante de todos os amigos de Jó.

Cap.38 e 39: Primeira resposta de Deus;

Cap.40.3-5: Jó reconhece sua indignidade

Cap. 40.6 – 41.34: Segunda resposta de Deus;

Cap.42.1-6: A confissão de Jó

Cap.42.7-17: Deus repreende os amigos de Jó e o restaura.

De um lado estava Jó tentando entender o seu sofrimento. Buscava em si algum pecado não confessado, mas, não o encontrava. Do outro lado estavam os seus amigos acusando-o de não ser sincero e honesto, pois com certeza ele havia cometido algum pecado. O tempo todo eles exaltam a Deus e acusam Jó, mas, ele insiste em defender sua inocência. E Jó estava certo. Ele não havia cometido nenhum pecado específico.

A discussão entre eles tornou-se cada vez mais renhida. Foi aí que levantou-se Eliú, que de imediato saiu distribuindo pancadas em todos. Eliú acusa os demais de ignorância apesar da idade deles. Ele se volta contra Jó e o repreende, começando com um discurso que mais parecia defender-se do que defender a honra de Deus: “As minhas razões provam a sinceridade do meu coração, e os meus lábios proferem o puro saber” (33.3). Apesar de o tempo todo em seu discurso ele apontar para a glória e majestade de Deus, há bem da verdade, Eliú estava apontando para si mesmo, chamando a atenção para “as suas razões”. A humildade passou longe desse sujeito.

De repente, um redemoinho revira não só a poeira do chão, mas, também a realidade de cada um. Deus se apresenta num redemoinho e do meio deste responde a Jó. O tempo todo Deus se dirige a Jó. Somente depois de tudo é que Ele se volta para os amigos de Jó e lhes repreende (42.7-9).

Agora observe isso: Jó é temente a Deus e íntegro em seu viver, Deus permite que Satanás toque nele e lhe traga flagelos em várias áreas da sua vida. Quando ele questiona a Deus por seu sofrimento seus amigos vêm ao seu encontro para consolá-lo e só trazem mais dor ao seu coração com acusações infundadas, e isso faz com que Jó questione ainda mais a Deus. De repente Deus aparece e em vez de respostas, diz a Jó: “Cinge, pois, os teus lombos como homem” (38.3), ou seja, Deus lhe manda “apertar os cintos” porque Ele iria bombardeá-lo com mais questionamentos ainda. Quando Jó admite sua arrogância em questionar Deus (40.3-5), em vez de refrigério para o seu coração, Jó ouve Deus apertá-lo ainda com mais questionamentos (40.6 – 41.34). Ou seja, Deus não aceitou ser questionado em Seus desígnios. E essa é a lição principal que o livro de Jó nos dá: Deus não admite ser questionado em Sua soberania.

Por isso mesmo meditemos sobre: A Soberania Incontestável de Deus.

Olhando para a confissão que Jó fez em 42.1-6 destacamos que a Soberania de Deus não pode ser contestada e por isso mesmo

1)      Seus planos não podem ser frustrados, v.2

Sempre ouvimos pregadores dizerem sobre os “sonhos” de Deus. Isso é um erro, pois, Deus não sonha; Ele tem vontade soberana. O que Ele quer, Ele realiza; o que Ele não quer, jamais existirá.

Ao admitir que nenhum dos planos de Deus pode ser frustrado, Jó estava dizendo que embora não entendesse a razão de tudo o que ele estava passando, ele sabia que Deus tinha um propósito com tudo isso. Aliás, ele já havia entendido isso quando respondeu à sua esposa: “…temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?” (2.10).

O que Deus determinou acontecerá do jeito que Ele determinou.

Sei que tal afirmação soa dura demais aos ouvidos acostumados a ouvirem somente que “Deus nos faz andar por sobre as ondas da vida”, “Deus não nos deixará sofrer” e outras coisas assim. Há bem da verdade, a história de Jó vem nos dizer que Deus nos permite sofrer sim. O sofrimento não é uma realidade somente para quem não teme a Deus. Servos de Deus sofrem, e muitas vezes, até mais que os ímpios.

Mas, porque Deus nos permite passar por tanto sofrimento? Porque Ele permitiu Jó sofrer terrivelmente tudo isso? Porque Ele não Se dignou a responder ao Seu servo fiel, afinal de contas ninguém havia na terra semelhante a ele? Para essas perguntas encontramos muitas respostas, mas, somente uma é a que nos importa aqui e ela se encontra na próxima verdade dessa mensagem. Em Sua soberania incontestável, ao realizar Seus planos que não podem ser frustrados, ainda que eles sejam dolorosos para nós, Deus assim o faz para que

2) Ele seja ainda mais conhecido por nós, v.5,6

A conclusão que Jó chegou depois de tudo isso foi que embora ele tivesse algum conhecimento de Deus, faltava-lhe conhecer muito mais, pois, Deus não é só aquilo que sabemos que Ele é. Ele é infinito em Seu ser. Daí a conclusão que Jó chegou: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza” (v.5,6).

A revelação de Deus a nós partiu Dele. E em meio às lutas e sofrimentos do nosso coração temos uma oportunidade singular de conhecê-Lo ainda mais. As nossas tribulações e aflições nas mãos de Deus têm o propósito de nos trazer para mais perto Dele para conhecê-Lo de forma ainda mais ampliada.

Deus se revela ao nosso coração por meio da Sua Palavra, mas, sem dúvida alguma, quando passamos por aflições a Palavra de Deus cala mais fundo em nosso coração nos fazendo conhecê-Lo ainda mais.

O salmista captou bem essa verdade quando disse: “Foi-me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos” (Sl 119.71).

Deus não estava apenas calando a boca de Jó com mais questionamentos;Ele o estava fazendo pensar e pensar sobre a grandiosidade do Seu Ser. E quando Jó então compreendeu que estava diante do Todo-Poderoso Deus, Criador e Sustentador do universo, Jó percebeu a sua loucura em questioná-Lo como a um igual.

Deus não é o nosso colega de aventuras, o nosso amigo de futebol ou de pescaria a quem podemos dizer o que quisermos; Deus não é nosso igual para que possamos questioná-Lo sobre os Seus planos para nossa vida. Muitas vezes questionamos a Deus, e o fato Dele nos tolerar quando assim fazemos, não quer dizer que Ele Se agrada disso. É só olharmos para o caso de Jó. Sendo ele um servo fiel e justo como nenhum outro na terra, isso foi motivo para Deus lhe prestar esclarecimentos do que Ele estava fazendo com sua vida. Quando Deus se apresentou a Jó, não deu explicações, porque Ele não precisa prestar contas às Suas criaturas, e estas não tem o direito de questioná-Lo (Rm 9.20,21).

Conclusão

Não questione a Deus, mas, submeta-se aos Seus planos e conheça-O ainda mais.

Mensagem proclamada na IPBJardimSul, São José dos Campos, 11/03/2012

Rev.Olivar Alves Pereira

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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