Canções da Alma – 10ª Mensagem

Uma Exposição do Livro dos Salmos

Salmo 11

O Que Poderá Fazer o Justo?

Contextualização

              A ocasião em que este salmo de Davi foi escrito e o seu contexto histórico não são desconhecidos. Teria sido nos dias de Saul, seu sogro que o perseguia vorazmente, ou nos dias de Absalão seu filho, que o perseguiu traiçoeiramente. Warren Wiersbe afirma[1]:

     Davi viu-se em perigo em várias situações, quer na corte de Saul (1Sm 19.1), no deserto, sendo perseguido por Saul, quer durante a rebelião de seu filho, Absalão. Davi fugiu da corte de Saul e se escondeu no deserto por cerca de dez anos e, também, deixou Jerusalém nas mãos de Absalão e buscou refúgio do outro lado do Jordão, duas decisões sábias.

             

              Calvino, por sua vez, afirma que o contexto histórico deste salmo está nos dias de Saul quando este perseguiu Davi[2]. Mas, sendo nos dias de Saul ou de Absalão, o que nos importa aqui é sabermos que nestas circunstâncias em que este salmo foi escrito Davi não fugiu refugiando-se em algum lugar e muito menos abandonou a sua confiança em Deus.

               No v.3 há uma constatação e uma pergunta as quais são a chave para interpretarmos esse salmo: “Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?”. Os inimigos de Davi lhe trouxeram sérios problemas. Saul havia sido rejeitado por Deus como rei, e Absalão, nunca foi escolhido por Deus para ser rei. Ambos, cada qual em seu tempo abalaram a nação, destruíram os fundamentos de confiança e estabilidade. A sociedade é construída sobre a verdade, e, quando a verdade é questionada ou negada, seus fundamentos são enfraquecidos (Is 59.11-15)[3]. Diante desse desastre, desses tempos de tribulação, perseguição e angústia fica a pergunta: O que poderá fazer o justo? Quero tomar essa pergunta como o tema da nossa mensagem nessa ocasião.

               Quando inimigos lhe cercarem, quando a maldade se avolumar diante de seus olhos e a injustiça varrer o seu caminho trazendo-lhe sérios problemas, o que você deverá fazer?

1) Tome cuidado com os conselhos que lhes são dados, v.1-3

 

Exposição v.1-3: “No SENHOR me refugio. Como dizeis, pois, à minha alma: Foge, como pássaro, para o teu monte?  2 Porque eis aí os ímpios, armam o arco, dispõem a sua flecha na corda, para, às ocultas, dispararem contra os retos de coração.  3 Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?”.

              Alguém disse que “Se conselho fosse bom, não era dado, mas, sim, vendido”. Este ditado é uma prova que nem todo conselho que nos é dado é bom e deve ser seguido.

              Quando a crise surgiu os conselheiros e os mais achegados a Davi lhe aconselharam: “Foge, como pássaro, para o teu monte”. O verbo “fugir” (nûd) está no plural (fujamos). O que seus companheiros estavam lhe dizendo é que ele deveria fugir juntamente com eles, uma vez que estavam sob sua liderança e, por isso, corriam os mesmos riscos que ele. Seus companheiros então o aconselharam a fugir “para o teu monte”, ou seja, “nas faldas (cumes) das penhas das cabras montesas” (1Sm 24.2), para onde ele já havia fugido uma vez de Saul.

              Diante desse conselho medroso dos seus amigos, Davi os questiona:

  • Ele se refugiava no SENHOR (v.1): Alguém que se refugia na proteção da vontade de Deus precisa fugir dos inimigos por mais ameaçadores e terríveis que eles pareçam ser? Claro que não! Então “Como, dizeis, pois, à minha alma: Foge, como pássaro, para o teu monte?”. Que absurdo tal conselho! Eles diziam para Davi trocar o Alto Refúgio que é Deus por refúgios que ele mesmo um dia encontrara.
  • Se saísse desse refúgio estaria vulnerável (v.2): Enquanto estivesse onde Deus queria que ele estivesse, não estaria em perigo porque Deus o protegeria. Mas, no momento em que ele “…como pássaro”, com toda rapidez batesse suas asas e saísse daquele refúgio da vontade de Deus, estaria à mercê, vulnerável pois, “Porque eis aí os ímpios, armam o arco, dispõem a sua flecha na corda para, às ocultas, dispararem contra os retos de coração”. Se Davi era apenas um pássaro, os inimigos eram caçadores astutos.

              Como sofremos por não perseverarmos na vontade de Deus! Como desonramos a Deus por não mostrarmos firmeza em confiarmos Nele, por sairmos desesperados como passarinhos amedrontados nos expondo aos perigos quando temos Nele toda a proteção que precisamos! O quanto perdemos por não permanecermos confiantes em Deus.

              Devemos ficar atentos aos conselhos que recebemos. Mesmo vindo de pessoas que nos querem bem, mesmo sendo de pessoas bem intencionadas, mas, se tais conselhos nos afastam do refúgio da vontade de Deus devemos recusá-los e até repeli-los.

Aplicação v.1-3: Davi tinha um monte aonde ele se refugiou algumas vezes e agora estava sendo induzido a recorrer a ele. Aquele monte era uma tentação para Davi, uma tentação que poderia desviá-lo da vontade de Deus.

               Eu lhe pergunto: Você tem algum “monte”, algum recurso que você mesmo inventou e recorre a ele em vez de recorrer a Deus? Quais conselhos o seu coração tem seguido? Conselhos que os afastam da vontade de Deus ou que o aproxima dela? Cuido, pois, até mesmo pessoas bem intencionadas, até mesmo crentes podem lhe dar conselhos que o afastarão da vontade de Deus colocando você em perigo e desonrando a Deus.

               Contra a maldade e injustiça dos ímpios, que mais poderá fazer o justo?

2) Cuide dos fundamentos da sua fé, v.4-7

 

Exposição v.4-7:4 O SENHOR está no seu santo templo; nos céus tem o SENHOR seu trono; os seus olhos estão atentos, as suas pálpebras sondam os filhos dos homens.  5 O SENHOR põe à prova ao justo e ao ímpio; mas, ao que ama a violência, a sua alma o abomina.  6 Fará chover sobre os perversos brasas de fogo e enxofre, e vento abrasador será a parte do seu cálice.  7 Porque o SENHOR é justo, ele ama a justiça; os retos lhe contemplarão a face.

               No v.3 Davi declarou que os fundamentos haviam sido destruídos, como uma árvore surrada por um vento tão forte que a arrancara do chão; assim estava o seu reino. Seus inimigos haviam abalado e destruído a tranquilidade do povo. Às vezes Deus permite que as coisas sejam não somente abaladas, mas, destruídas desde o seu fundamento a fim de que Seu povo se dedique à edificação de uma nova atitude fundamentada na Sua Palavra e na confiança exclusiva em Seu eterno poder. Às vezes nos detemos tentando segurar uma estrutura com estacas e apoios quando ela deveria ser destruída para ser edificada corretamente desde sua fundação. Determinadas coisas em nossas vidas devem ser demolidas e destruídas para que sejam reconstruídas no firme fundamento. Em vez de ficarmos escorando aqui e ali, deveríamos aceitar o fato de que as coisas às vezes têm que piorar muito a ponto de serem destruídas para que sejam refeitas da forma correta.

               Enquanto os inimigos devastavam seu reino, Davi olhava para o Rei Supremo. Se os ímpios diziam no seu íntimo que: “Deus se esqueceu, virou o rosto e não verá isto nunca” (Sl 10.11), Davi tinha absoluta certeza que “O SENHOR está no seu santo templo; nos céus tem o SENHOR seu trono” (v.4). Em vez de olhar ao seu redor e ver os problemas somente, Davi olha para Deus é vê a solução; em vez de olhar para o seu trono ameaçado, Davi olha para o Trono Celestial e sabe que nele está o Rei dos reis. Os olhos do SENHOR “estão atentos”, e “as suas pálpebras sondam os filhos dos homens” (v.4). Ainda que Ele pareça estar fora das nossas vistas, não estamos fora das vistas Dele. Ele sonda, examina cada um no mais íntimo de seus corações, como nos mostra o próximo versículo.

               No v.5a ao dizer que “O SENHOR põe à prova ao justo e ao ímpio”, Davi:

  • Mostra-nos a verdade de que a provação vem sobre os justos e ímpios, e ela vem pela mão de Deus. Isso põe por terra essa mentira que tem sido pregada por aí de que todo sofrimento, toda tribulação é obra do diabo. Deus pode usar o diabo para nos provar, mas, toda provação é um ato da vontade de Deus para purificar o justo e reprovar o ímpio;
  • A figura do metalúrgico que aqui foi empregada mostra justamente isso. Assim como o metalúrgico que leva ao fogo o metal, o qual sendo nobre mais puro ficará como a prata e o ouro (Jr 11.20; 17.10; 20.12), mas, em sendo um metal impuro não resistirá ao calor do cadinho e desaparecerá, assim Deus faz com o justo e o ímpio: o justo quanto mais provado e testado no calor da provação mais puro e refinado ele fica, ao passo que o ímpio “é como a palha que o vento dispersa” (Sl 1.4), e que ao menor contato com o fogo, desaparece.

               Outra verdade ainda no v.5b (que já nos foi apresentada em Sl 5.5) é que “ao que ama a violência, a sua (de Deus) alma o abomina” (Sä|n´â) que literalmente traduzido é “odiar”. Não encontramos amparo escriturístico nenhum para essa propaganda mentirosa apregoada em nossos dias de que “Deus odeia o pecado, mas, ama o pecador”, pelo contrário, o que vemos é que Deus odeia o pecado e também odeia ao pecador. Os únicos pecadores a quem Ele amou, também os predestinou para serem conformes os Seu Filho (Rm 8.28-30). Como nos lembra Calvino[4]:

       Portanto, a fim de preservar essa sua própria ordem, sagrada e designada, ele tem de ser inimigo dos perversos, os quais trazem injustiça e transtorno aos demais. Isso é também aqui contrastado com o ódio divino pelos perversos e o amor que os homens têm pela iniquidade, para ensinar-nos que aqueles que se deleitam e se gabam de suas práticas nocivas, nada lucram com tais louvores, e apenas enganam a si próprios.

               No v.6 Davi relembra de momentos marcantes da história de Israel nos quais Deus revelou-Se terrivelmente. Ao dizer: “Fará chover sobre os perversos brasas de fogo e enxofre, e vento abrasador será a parte do seu cálice”, nos remete a Sodoma e Gomorra, e ao próprio Egito que experimentou a fúria de Deus. O que Davi está fazendo aqui é recordar os poderosos feitos de Deus no passado em favor do Seu povo. A figura do “cálice derramado” é sempre empregada em relação à ira de Deus. O Rei assentado em sua mesa, num momento de fúria por causa da insolência de Seus servos, esbarra no cálice derramando-o.

         A fúria de Deus é “a parte” que cabe ao ímpio “que ama a violência”, mas, os “retos” terão outro fim completamente diferente. “Porque o SENHOR é justo, ele ama a justiça”, assim sendo, o Seu julgamento é feito com base em Seu caráter. Observe que é o caráter de Deus que determina as ações Dele: Ele é justo, e Ele ama a justiça, porque a justiça é expressão do Seu caráter. Da mesma forma, aqueles que são “retos”, isto é, justos porque tiverem seu caráter transformado por Deus “lhe contemplarão a face”. Essa tradução não corresponde à exatidão do texto. Uma tradução mais apurada aqui seria: “Seu semblante (rosto) aprova os íntegros”. No céu não contemplaremos a face de Deus, a não ser através da face de Jesus Cristo (cf. 2Co 4.3-6). Assim sendo a tradução “os retos lhe contemplarão a face” no sentido de vê-Lo face a face não só contraria o contexto imediato deste salmo que está mostrando o resultado da ação de cada um, como também do ensino bíblico sobre a glória e a presença de Deus. O que Davi está falando aqui é: aquele que ama o que Deus ama sempre receberá a Sua aprovação, ao passo que aquele que odeia o que Deus ama, ou ama o que Deus odeia será severamente punido por Ele. Por esta razão a pergunta: O que poderá fazer o justo? Encontra a sua resposta nos lábios do profeta Miquéias: Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus” (Mq 6.8).

         Com quanta facilidade queremos a aprovação dos homens, e, por isso mesmo acatamos seus conselhos muitas vezes divorciados da Palavra de Deus. Ou quantas vezes queremos manter em pé aquilo que já deveria ter sido posto ao chão e reedificado algo novo? Quantas vezes amamos o que Deus odeia, e não amamos o que Ele ama? O único olhar de aprovação que deveríamos almejar é o de Deus, pois um coração que se preocupa em agradar somente a Deus não se ocupará em agradar meros mortais.

Aplicação v.4-7: Recorde os poderosos feitos de Deus na vida do povo Dele e na sua vida. Reafirme sua fé em Deus o tempo todo. Quando tudo ao seu redor estiver em ruínas olhe para o céu, contemple Àquele que é Eterno e está assentado em Seu trono e reinado que é eterno. Ame a justiça e pratique-a. Aparte-se de qualquer forma de impiedade. O semblante do SENHOR Deus em aprovação estará sobre você. Agindo assim você estará cuidando dos fundamentos da sua fé em Deus, e não será abalado, mesmo que ao seu redor tudo estiver sendo destruído pela degradação moral.

Conclusão

               O tempo todo, nesta mensagem, falei como o justo deve agir. Eu lhe pergunto: Você é um justo?

               O justo é aquele que se refugia na vontade de Deus, que não sai e nem se aparta da vontade de Deus para sua vida; e ainda que ao seu redor tudo estiver caindo pela degradação e corrupção, seu coração permanece firme e seus olhos fixos no Trono de Deus. Todo aquele que sinceramente depende da graça de Deus e segue a Sua justiça estará seguro em Deus.

               O que poderá fazer o justo? A resposta está em Is 64.4: “Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele espera”. E ainda, Is 26.12: SENHOR, concede-nos a paz, porque todas as nossas obras tu as fazes por nós”. Amém!

 

 

[1] WIERSBE, 2006, vol.3, p.108.

[2] CALVINO, 1999, vol.1, p. 233.

[3] WIERSBE, 2006, vol.3, p.108.

[4] CALVINO, 1999, vol.1, p.242.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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