Canções da Alma – 12ª Mensagem

Uma Exposição do Livro dos Salmos

Salmo 13

O Propósito de Deus com as Nossas Tribulações

Contextualização

Como quase todos os salmos de Davi que falam das lutas e tribulações que ele sofria por causa dos adversários é bem provável que este salmo retrate o período em que Davi ficou exilado fugindo de Saul, ou pelo menos foram circunstâncias semelhantes que o levaram a escrever este salmo. Fato é que Davi estava profundamente angustiado pelas tribulações causadas pelos seus inimigos.

Este salmo nos ensina sobre O propósito de Deus com as nossas tribulações. Este é um assunto recorrente no livro dos Salmos. E este será o tema da nossa mensagem nesta ocasião.

A palavra “tribulação” tem sua origem no latim “tribulatio”, que por sua vez origina-se de um instrumento utilizado para colher o cereal. Este instrumento era chamado de “tribulom”, algo parecido com uma foice que quando passado numa moita de algum cereal agitava a mesma fazendo com que alguns grãos caíssem no chão. Assim, como o trigo era sacudido pelo tribulom, da mesma forma nós somos sacudidos pelas tribulações e sofrimentos nesta vida.

Nenhum de nós gosta de sofrer. Aliás, se tem algo do qual tentamos nos livrar o quanto antes é do sofrimento, não é mesmo? Contudo, nós, servos de Deus devemos ter um olhar cuidadoso para com as tribulações (cf. 2Co 4.16-18), porque elas nos são permitidas e impostas por Deus com propósito de nos ensinar preciosas lições para o nosso bem.

O que Deus quer nos ensinar com as tribulações?

1) Ensinar-nos a lidar com os nossos sentimentos, v.1-2

Exposição v.1-2: “Ao mestre de canto. Salmo de Davi. Até quando, SENHOR? Esquecer-te-ás de mim para sempre? Até quando ocultarás de mim o rosto?  2 Até quando estarei eu relutando dentro de minha alma, com tristeza no coração cada dia? Até quando se erguerá contra mim o meu inimigo?”.

Deus nos fez seres que sentem. Trazemos sentimentos em nossos corações. A capacidade de sentirmos as coisas ao nosso redor ou dentro de nós é um dom de Deus. Mas, esta capacidade de sentirmos não pode vir sozinha e nem mesmo nos dominar. Precisamos submeter nossos sentimentos à Palavra de Deus e com discernimento entende-los.

Nestes versículos Davi expressa a aflição e angústia de seu coração. As palavras “Até quando” em forma de questionamento aparecem quatro vezes nestes dois versículos mostrando assim a aflição de Davi.

Ele se sentia esquecido por Deus, e isto parecia não ter fim (“Esquecer-te-ás de mim para sempre?”). Ele se via apartado da bênção sacerdotal que Deus dera através de Moisés, na qual havia a promessa do SENHOR de fazer Seu rosto resplandecer e se levantar misericordiosamente sobre Seus filhos dando-lhes a paz (Nm 6.24-26), por isso ele se queixou a Deus cujo rosto lhe estava oculto. Ah! Que desespero é para aquele que anda sob a luz do rosto de Deus ver-se na escuridão da tribulação!

Essa situação fazia com que Davi estivesse “relutando” (em seu coração com uma profunda tristeza em sua alma. Para ele o fato de seus inimigos se erguerem contra ele com tanta violência, e, Deus estar em silêncio ao seu respeito fazia com que seu coração estivesse num turbilhão de sentimentos de abandono, de ameaça e de desespero. Por isso ele sentia o seu coração inquieto diante da situação. Se Deus era o seu protetor porque então Ele não se manifestava? Assim pensava Davi.

Não devemos ignorar nossos sentimentos, e nem mesmo negá-los fingindo que tudo está bem. Contudo, não devemos supervaloriza-los, pois, eles são enganosos (Jr 17.9). Devemos provar nossos sentimentos à luz da Palavra de Deus para detectarmos quaisquer pecados que possam estar ocultos. Os nossos sentimentos não são bons guias para nós.

Aplicação v.1-2: Tome cuidado com seus sentimentos. Esteja o tempo todo avaliando-os na Palavra de Deus. Pedir para que Deus intervenha na situação o quanto antes, não é pecado. Mas, a partir do momento que seus sentimentos estiverem se impondo diante de Deus, então você precisará pedir perdão a Ele e se submeter à vontade e ao tempo Dele. Deus é maior que o seu coração (1Jo 3.20) e certamente elevará você acima das tempestades emocionais de sua vida!

Em meio às tribulações Deus também quer

 

2) Ensinar-nos a depender Dele somente, v.3-4

Exposição v.3-4:3 Atenta para mim, responde-me, SENHOR, Deus meu! Ilumina-me os olhos, para que eu não durma o sono da morte;  4 para que não diga o meu inimigo: Prevaleci contra ele; e não se regozijem os meus adversários, vindo eu a vacilar”.

Nos dois primeiros versículos Davi demonstrou a inquietação do seu coração e clamou por paz interior. É bom ter paz interior, mas, também é necessário proteção ao redor. E nestes dois versículos agora, Davi clama por Deus de forma ainda mais intensa.

Se anteriormente, o rosto de Deus lhe parecia escondido, agora ele clama: Atenta para mim, responde-me, SENHOR, Deus meu!”. Ele sabia que somente a luz do rosto de Deus poderia iluminar seus olhos, o que significava não somente um revigorar de sua alma, mas, também das forças físicas, como disse Calvino sobre a expressão “Ilumina-me os olhos”: no idioma hebraico, significa o mesmo que soprar o fôlego de vida, porquanto o vigor da vida transparece principalmente nos olhos”[1].

Três preocupações pesavam no coração de Davi:

  • As lutas internas em seu coração. Ele estava extenuado, cansado e sem forças. Via-se à beira da morte.
  • O trono (reino) de Israel. Ele foi escolhido por Deus para ser o rei de Israel, se ele caísse nas mãos dos inimigos, que grande vergonha seria trazida sobre o povo. Se Davi começasse a vacilar, o povo fiel da terra pensaria que Deus não era capaz de cumprir suas promessas (cf. Sl 35.19-21; 38.16-17)[2].
  • A glória de Deus. Era a glória de Deus que estava em jogo ali, se Davi fracassasse, o nome de Deus seria ridicularizado. Por isso ele pediu a Deus: “Não dê ao inimigo a alegria de me ver derrotado!”. O verbo “vacilar” (´emmôt, no 4, significa “oscilar, perturbar-se, cambalear, estremecer” (Sl 10.6). Nada pode ser mais vergonhoso para o Nome do SENHOR Deus do que um servo Dele viver vacilante e cambaleante em sua fé.

Em momentos de tribulação Deus quer nos ensinar a depender Dele. Embora Davi estivesse preocupado consigo mesmo, com o reino de Israel e com a glória do SENHOR Deus, ele sabia que para tudo isso ele dependia total e exclusivamente de Deus. Para ficarmos firmes em nossa fé quando estivermos passando por tribulações necessitamos totalmente de Deus. A melhor maneira de honrarmos a Deus é dependendo inteiramente Dele. Vemos isso em Davi. Ele dependia de Deus em sua vida pessoal, na sua vida pública (seu ofício de rei), e na sua vida devocional (zelo pela glória de Deus).

Aplicação v.3-4: Você quer honrar a Deus? Então demonstre total dependência do Seu poder para fazer aquilo que Ele quer que você faça. Deseje a luz de Deus em sua vida iluminando os seus olhos, dando-lhe a vida que o seu coração necessita. Mostre-se fraco para que o único poder visto em sua vida seja o poder de Deus (cf. 2Co 12.9-10).

Por fim, em meios às tribulações Deus quer

3) Ensinar-nos a confiar e exultar em Sua graça, v.5-6

Exposição v.5-6:5No tocante a mim, confio na tua graça; regozije-se o meu coração na tua salvação.  6 Cantarei ao SENHOR, porquanto me tem feito muito bem”.

A forma como Davi começou este salmo e a forma como ele o encerra, pode ser descrita na frase: “a fé triunfa sobre o medo”. Ao dizer: “No tocante a mim, confio na tua graça”, ele demonstra não só a transição do questionamento para a confiança na promessa de Deus, mas também a suficiência da Graça de Deus em amparar o seu servo tal como acontecera com Paulo em 2Co 12.8-9.

Em Deus Davi punha a sua esperança e por isso mesmo disse: “regozije-se o meu coração na tua salvação”. Como afirmou Warren Wiersbe:O povo de Deus não vive de explicações, mas sim de promessas, tão imutáveis quanto o caráter de Deus”[3].

O testemunho final de Davi aqui é maravilhoso. Ele declarou: “Cantarei ao SENHOR, porquanto me tem feito muito bem”. Se no começo deste salmo ele via o SENHOR Deus longe dele, agora, O vê bem perto, pois, reparando no cuidado de Deus para com sua vida ele declarou que Deus lhe tinha feito muito bem. Essa expressão no hebraico é kî gämal que tem o sentido de “levar uma obra à sua conclusão, uma lavoura à sua colheita, finalização bem sucedida”[4]. Assim Davi via o agir de Deus em sua vida. Mas a pergunta que surge nesse momento é: o que havia mudado nas circunstâncias para Davi entre o v.1 e o v.6? Absolutamente nada. As circunstâncias continuavam as mesmas. Davi ainda estava cercado por ameaças, Deus não havia mudado absolutamente nada nas circunstâncias. Então, o que mudara para que Davi agora reconhecesse o cuidado de Deus em sua vida e prorrompesse em louvores a Deus? A resposta é: o coração de Davi.

Antes seu coração estava tomado pelo egocentrismo; ele via-se como vítima indefesa nas mãos dos perversos, e o que era pior, pensava que Deus estava apático ao seu sofrimento. Mas, isso estava correto? De forma alguma. A autocomiseração e a autocompaixão são pecados extremamente danosos, pois, fazem com que duvidemos da promessa de Deus. Mas, no exato momento em que o nosso coração se move em direção a Deus e confia Nele, então o louvor toma conta do nosso ser; nossos lábios cantam louvores ao SENHOR Deus, e tudo isso porque sabemos que Deus não está longe de nós, e que não nos deixou à mercê das circunstâncias.

Warren Wiersbe disse: As circunstancias de Davi não mudaram, mas Deus o transformou quando Davi parou de olhar para seus sentimentos e adversários e, pela fé, começou a olhar para o Senhor” [5].

Ainda que não nos livremos totalmente do sofrimento, ainda que tenhamos de conviver com ele, devemos trazer o louvor a Deus em nosso coração e em nossos lábios. O louvor a Deus em nosso coração mudará nossa perspectiva das circunstâncias; o louvor a Deus em nossos lábios testemunhará ao mundo que Deus tem nos feito muito bem!

 Aplicação v.5-6: Deus pode mudar as circunstâncias, mas, somente depois que mudar o seu coração. Ele não desperdiça nenhuma circunstância. Quando se trata de ensinar-lhe algo, Deus fará com que todas as coisas cooperem para o seu bem, e este bem é o propósito Dele para a sua vida, e este propósito é torna-lo cada vez mais parecido com o Senhor Jesus em Seu caráter santo e puro (Rm 8.28-30). Lembre-se disso quando estiver passando por uma tribulação.

Conclusão

Que o Senhor Jesus nos conceda a sabedoria para vermos Sua graça infalível e suficiente em nossa vida especialmente naquelas circunstâncias de dor e luta. Que não fiquemos nos contemplando numa autocomiseração mórbida, mas que confiemos na Graça de Deus e o nosso coração seja fortalecido com louvores a Deus, e estes mesmos louvores em nossos lábios testemunhem ao mundo que Deus nos tem feito muito bem!

[1] CALVINO, 1999, vol.1, p.265.

[2] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.110.

[3] Ibid, p.112.

[4] Cf. Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do AT, 2001, vol.1 p.846.

[5] WIERSBE, 2010, vol.3, p.112.

 

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
This entry was posted in Mensagens Expositivas do Livro de Salmos. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.