Canções da Alma – 13ª Mensagem

Salmo 14

O Caminho da Insensatez

Contextualização

              Ao escrever este salmo Davi volta a refletir num assunto que já falara nos Sl 10 e 12, a saber, o caráter do ímpio, expresso em suas atitudes insolentes (Sl 10), em suas palavras dissimuladas (Sl 12), e aqui no Sl 14 suas ações corruptas. Outra questão envolvendo este salmo é que ele é repetido praticamente em sua totalidade, salvo algumas pequenas diferenças no Sl 53.

              Não sabemos a exata ocasião em que Davi escreveu este salmo. Só podemos afirmar que ele estava refletindo sobre a corrupção dos ímpios, o sofrimento que estes causam aos filhos de Deus, e a Justiça de Deus que será revelada contra os ímpios e a favor do Seu povo.

              Em Rm 3.10-18 Paulo cita parte desse salmo para descrever a corrupção do gênero humano, da qual nem judeus e nem os gentios escapam. A depravação humana é universal. Logo, este salmo apresenta um “Raio X” do coração humano, falando sobre a total depravação em que este caiu. Assim, ele nos mostra como é O caminho da insensatez. E este será o tema da nossa mensagem nesta ocasião.

               Primeiramente vejamos

1) O seu começo, v.1-3

Exposição v.1-3: “Ao mestre de canto. Salmo de Davi. Diz o insensato no seu coração: Não há Deus. Corrompem-se e praticam abominação; já não há quem faça o bem.  2 Do céu olha o SENHOR para os filhos dos homens, para ver se há quem entenda, se há quem busque a Deus.  3 Todos se extraviaram e juntamente se corromperam; não há quem faça o bem, não há nem um sequer”.

Davi descreve o homem chamando-o de “insensato” (näbäl). Várias palavras no idioma hebraico são traduzidas por “insensato”, mas, a que é empregada aqui significa não somente “néscio, louco”, mas, principalmente, “vil, perverso, desprezível”.

               Nestes três versículos podemos ver que a insensatez do pecador começa dentro dele mesmo; não é algo externo que o obriga a agir de uma determinada maneira, mas, sim é o seu coração, a sua mente e sua decisão que são depravadas.

            Em seu coração ele diz: “Não há Deus”. O ateísmo é a essência da depravação, é o começo de tudo. Quando o homem se afasta de Deus, ele segue o seu próprio coração. Observe que o seu ateísmo primeiramente não é algo filosófico produzido por sua mente, mas, sim, algo moral, do seu coração (vontade). Sua vontade (coração) é inimiga de Deus. O nome dado a Deus aqui é élöhîm que descreve Deus como o Supremo Governante e Juiz da terra. Dessa forma o coração do insensato não aceita o governo de Deus.

           Olhando para a terra, Deus busca entre os filhos dos homens “para ver se há quem entenda, se há quem busque a Deus”. A mente do insensato está destituída da iluminação da glória de Deus (Rm 3.23). Uma mente envolta na escuridão do pecado não busca a Deus. O evangelista norte-americano Billy Sunday costumava dizer que os pecadores não conseguem encontrar Deus pelo mesmo motivo que criminosos não conseguem encontrar policiais – simplesmente porque não estão procurando; estão fugindo![1]

         Um coração depravado, uma mente envolta na escuridão produzirão somente decisões corrompidas. No v.3 vemos que “Todos se extraviaram e juntamente se corromperam”. O verbo “extraviar” indica uma ação em que os homens deram as costas para Deus, O desprezaram e ignoraram o propósito para o qual foram criados: glorifica-Lo. E tal ação não foi um ato individual, mas, sim, universal, pois, todos juntos se corromperam, se estregaram como um leite que azeda numa vasilha, não somente parte dele, mas, ele todo se estragou. E isto resultou numa completa inaptidão individual e coletiva de fazer o bem.

Aplicação v.1-3: Não permita que o seu coração se recuse a se submeter a Deus; nem que sua mente se afaste da luz da glória de Deus, para que suas decisões não sejam corrompidas e malignas. Você foi salvo por Deus, recebeu um novo coração (regeneração), uma nova disposição mental (arrependimento), e foi capacitado a decidir por aquilo que glorifica a Deus (santificação).

               Em segundo lugar vejamos o meio do caminho da insensatez

 2) O seu percurso, v.4

Exposição v.4:4 Acaso, não entendem todos os obreiros da iniquidade, que devoram o meu povo, como quem come pão, que não invocam o SENHOR? ”.

               Quem são esses “obreiros da iniquidade”? João Calvino afirmou que eram os príncipes do povo, autoridades que deveriam cuidar do povo, mas, que, em vez disso estavam explorando e dilapidando o povo[2]. Outros, porém, como Warren Wiersbe[3] e Allan Harman[4] entendem que estes obreiros da iniquidade são todos quantos se levantam contra o seus semelhantes e especialmente contra os filhos de Deus para oprimi-los. A metáfora “devoram o meu povo, como quem come pão” expressa a naturalidade e a facilidade com que praticam sua maldade explorando e devastando os filhos de Deus. Que loucura é essa que esses insensatos estão fazendo? Porque tanta imbecilidade, pois “não invocam o SENHOR? ”. Eles não invocam a Deus porque não querem se submeter a Ele.

               O britânico Bertrand Russell que era um filósofo agnóstico, certa feita foi arguido sobre quando morresse o que faria ao se deparar na presença de Deus, o que ele iria dizer Àquele a quem ele sempre negou existir. Russel respondeu: “Deus, você não nos deu provas suficientes da Sua existência!”[5]. Como este tolo ainda podia exigir mais provas? A natureza, o universo, as mais variadas formas de organismos e elementos criados por Deus já seriam suficientes, mas, a cruz é o brado maior não só da existência, mas, do amor de Deus.

               Um cosmonauta ateu afirmou numa entrevista que enquanto estava no espaço sideral procurou atentamente por Deus, mas, não O encontrou. Alguém comentou: “Se ele tivesse aberto a porta de sua capsula espacial O teria encontrado”[6].

               Ao insensato nem todas as provas são suficientes; ao justo, nenhuma prova além da Palavra de Deus é necessária.

Aplicação v.4: Não percorra o caminho da insensatez. Você em pouco tempo renegará a Deus, usará as pessoas como se coisas fossem, e, não terá mais volta. O caminho da insensatez é caminho de morte (Pv 14.12; 16.25).

               Por fim, vejamos como o caminho da insensatez termina.

3) O seu fim, v.5-7

Exposição v.5-7:5 Tomar-se-ão de grande pavor, porque Deus está com a linhagem do justo.  6 Meteis a ridículo o conselho dos humildes, mas o SENHOR é o seu refúgio. 7 Tomara de Sião viesse já a salvação de Israel! Quando o SENHOR restaurar a sorte do seu povo, então, exultará Jacó, e Israel se alegrará”.

               Por não temerem Aquele que é superior, eles se voltam contra os que são vistos como inferiores, “a linhagem do justo”. Mas, quanta loucura! Quanta insensatez! Pois, quem defende o justo e a sua linhagem é o próprio Deus! Por isso mesmo “Tomar-se-ão de grande pavor”. A construção dessa frase no idioma hebraico cuja tradução segura é “Ali tremem de medo”. Como que Davi estivesse apontando com o dedo e dizendo: “Ali onde eles fazem o mal aos filhos de Deus, eles tremerão de medo, porque Deus está com Seus filhos para lhes fazer justiça”.

               Apesar de saberem que Deus promete vindicar Seus filhos, os insensatos continuam ridicularizando os humildes, mas, Davi novamente adverte “mas o SENHOR é o seu refúgio”. Os v.5-6 na forma como estão dispostos transmitem a ideia de que:

  • Os insensatos massacram os pobres;
  • Deus promete fazer justiça a eles;
  • Os insensatos por desprezarem a Deus, não se importam com a ameaça;
  • Mas, a vingança do SENHOR Deus é certa.

               Por mais que os insensatos sejam advertidos do Juízo de Deus eles continuam zombando Dele e fazendo pouco caso. Mas, a justiça do SENHOR Deus não tarda em vir. Por isso mesmo o v.7 é uma expressão da confiança do salmista, uma aspiração, um desejo de sua alma: “Tomara de Sião viesse já a salvação de Israel!. O servo de Deus deve almejar a justiça de Deus mais do que tudo, porque Ele promete saciá-los e fartá-los com Sua justiça (cf. Mt 5.6). Davi não olhava nem para a direita e nem para a esquerda, mas, para cima, para Aquele que governa o universo. Assim, ao encerrar este salmo Davi estabelece um contraste impressionante com o seu começo. No v.1 ele inicia mostrando que o insensato rejeita o governo de Deus, e, por isso mesmo, vive de mal a pior; aqui, no v.7 ele mostra que aquele que reconhece e se submete ao governo de Deus, tem em seu coração a esperança inabalável. E bem sabemos que a esperança é uma poderosa aliada da fé. Um coração sem esperança em Deus definha, ao passo que um coração que espera em Deus jamais será envergonhado! Por isso mesmo Davi afirma: “Quando o SENHOR restaurar a sorte do seu povo, então, exultará Jacó, e Israel se alegrará”.

 

Aplicação v.5-7: Em quem você tem posto a sua esperança? Para responder isso com exatidão observe o seguinte: o seu coração e os seus lábios têm exultado de alegria pelo que Deus tem feito em sua vida? Se o seu coração estiver amargo, lamuriante e em desespero significa que você tem esperado em qualquer outra coisa ou pessoa, menos em Deus. Lembre-se: o SENHOR Deus está com Seus filhos, bem ali no meio da dor, da luta e da perseguição; é ali que Ele executará o juízo contra os algozes do Seu povo.

Conclusão

               Por quais caminhos você tem andado? Que escolhas você tem feito? Que esperanças alentam o seu coração? Busque ao SENHOR Deus. Não seja um insensato que decidiu ser o senhor de si mesmo. Por sermos totalmente depravados não sabemos nos guiar sozinhos, precisamos de Deus. Medite sempre em Pv 3.5-8: 5 Confia no SENHOR de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento.  6 Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas.  7 Não sejas sábio aos teus próprios olhos; teme ao SENHOR e aparta-te do mal;  8 será isto saúde para o teu corpo e refrigério, para os teus ossos”.

 

 

 

[1] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.113.

[2] Cf. CALVINO, 1999, vol.1, p.280.

[3] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.114.

[4] Cf. HARMAN, 2011, p.106.

[5] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3. p.113.

[6] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3. p.113.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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