Canções da Alma – 14ª Mensagem

Salmo 15

Aquele que Vive em Comunhão com Deus

Contextualização

              Enquanto os ímpios arrogantes trilham o caminho da insensatez (Sl 14), os filhos de Deus trilham o caminho da integridade. O filho de Deus neste mundo é um peregrino e comporta-se como tal, porque sabe que o seu lugar, sua pátria não é aqui.

Exposição v.1: “Quem, SENHOR, habitará no teu tabernáculo? Quem há de morar no teu santo monte?”.

               As duas perguntas neste versículo expressam a mesma ideia. Este recurso da língua hebraica é frequentemente usado, a saber, repetir a mesma ideia ou pergunta na frase seguinte com a finalidade de reforçar o pensamento.

               Temos também aqui, uma pista para sabermos qual a ocasião em que Davi escreveu esse salmo. Por referir-se ao lugar da adoração a Deus como “tabernáculo” e não como “templo”, e por questionar quem estaria habilitado para estar na presença de Deus, podemos, com certa segurança afirmar que Davi escreveu este salmo depois da segunda (e bem-sucedida) tentativa de trazer a Arca da Aliança para Jerusalém, visto que na primeira tentativa mesmo tendo construído um carro de bois novo com bois novos, mas, fizera tudo diferente daquilo que Deus determinara, vindo o SENHOR Deus a irromper contra Uzá que foi fulminado por Deus ao segurar a Arca para que esta não caísse no chão (cf. 2Sm 6) – Davi fizera tudo de boa vontade, mas, não de acordo com a vontade de Deus. Depois de ter visto Uzá ser morto, depois de ter visto que fazendo tudo conforme a vontade de Deus e recebido Dele a aprovação viu a Arca repousar em Jerusalém. Foi quando certamente ele se pôs a refletir sobre a importância de uma vida de comunhão com Deus. Este será o tema da nossa meditação: Aquele que vive em comunhão com Deus.

               Warren Wiersbe faz a seguinte afirmação[1]:

     É importante observar que o Salmo 15 não é uma prescrição para ser salvo, mas uma descrição de como as pessoas salvas devem viver a fim de agradar a Deus e ter comunhão com Ele.

               Mas, como é aquele que vive em comunhão com Deus?

1) É íntegro em seu caráter, v.2-3

Exposição v.2-3:2 O que vive com integridade, e pratica a justiça, e, de coração, fala a verdade;  3 o que não difama com sua língua, não faz mal ao próximo, nem lança injúria contra o seu vizinho”.

               Integridade é ser no particular aquilo que você diz ser em público. Este salmo trata, portanto, do caráter do adorador.

               Quem vive em comunhão com Deus, “pratica a justiça”, isto é, tal pessoa não só se abstém de toda forma de mal, mas suas ações são de acordo com a Lei de Deus; é a Lei de Deus o parâmetro para suas ações. Além disso, aquele que vive em comunhão com Deus “de coração, fala a verdade”, como disse Calvino[2]:

     “…denota a concordância e harmonia entre o coração e a língua, visto que a linguagem é, por assim dizer, uma vívida representação da afeição oculta ou sentimento interior”.

               O Senhor Jesus disse: “porque a boca fala do que está cheio o coração” (Lc 6.45). Mas, o filho de Deus não só está revestido com a verdade, ele também se despe de toda forma de mentira, pois, “não difama com sua língua”, e “nem lança injúria contra o seu vizinho”, ou seja, ele além de não dizer dos outros aquilo que é difamatório (ainda que seja verdadeiro), também não diz mentiras a fim de prejudicar e desonrar os outros. É nesse sentido que a frase “não faz mal ao próximo” deve ser entendida aqui, pois, nossas palavras tanto podem fazer o bem quanto o mal às pessoas e a nós mesmos (cf. Tg 3.6). Quando modificamos as palavras, essas palavras acabam nos modificando.

               Em Pv 16.28 lemos: “O homem perverso espalha contendas, e o difamador separa os maiores amigos”. O oposto exato daquele que vive em comunhão com Deus.

               Se estamos falando mal, mentido e injuriando as pessoas não estamos em comunhão com Deus.

Aplicação v.2-3: Quando você pensar em dizer algo de alguém lembre-se que Deus já sabe o que você dirá (Sl 139.4). Se o que você for dizer é um pecado contra o seu próximo, você já pecou contra Deus, pelo fato de permitir seu coração pensar tais coisas. A única forma de você evitar usar seus lábios pecaminosamente é vivendo em comunhão constante com o SENHOR Deus.

               Aquele que vive em comunhão com Deus

 

2) É zeloso pela honra, v.4

Exposição v.4: “o que, a seus olhos, tem por desprezível ao réprobo, mas honra aos que temem ao SENHOR; o que jura com dano próprio e não se retrata”.

               Neste versículo vemos que aquele que vive em comunhão com Deus tanto zela pela honra dos outros (especialmente, a de Deus), como também pela sua própria honra.

               Ao ver o que é “réprobo”, isto é, aquilo que é rejeitado e tido como desonroso e vergonhoso. Quem está em comunhão com Deus deve desprezar aquilo que é rejeitado por Ele por ser algo vil e desonroso.

               Mas, também, o filho de Deus que está em comunhão com Ele deve saber honrar “aos que temem ao SENHOR”. Como veremos posteriormente no Sl 16.3: “Quanto aos santos que há na terra, são eles os notáveis nos quais tenho todo o meu prazer”. Àqueles que temem ao SENHOR Deus são dignos de honra e respeito. Contudo, não podemos esperar que o mundo nos respeite e nos honre, pois, como disse o Senhor Jesus: 18 Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim.  19 Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia” (Jo 15.18-19). Mas, entre nós, servos de Deus e filhos do Seu amor devemos ter essa deferência uns para com os outros.

               A parte final do v.4 nos fala da honra pessoal, pois, aquele que vive em comunhão com Deus cumpre os seus votos, honra a sua palavra, pois, “jura com dano próprio e não se retrata”, ou seja, ele cumpre os seus votos ainda que seja prejudicado por algum infortúnio. Dizem por aí que em nossa época a palavra de um homem não tem valor nenhum porque o que vale hoje é o que pode pagá-la e compra-la. A coisa mais comum em nossos dias é vermos crentes quebrando seus votos para obter alguma vantagem em alguma transação. Os votos num casamento são facilmente quebrados diante de uma paixão carnal e pecaminosa; filhos crescem vendo seus pais quebrando promessas as quais eles nunca tiveram intenção de cumprir. Mas, aquele que está em comunhão com Deus sabe que Ele não se agrada de voto de tolos, e por isso mesmo é diligente em cumpri-los (cf. Ec 5.4).

               Se estamos assistindo apáticos à injustiça e a desonra contra aqueles que deveriam ser honrados por que são servos do Deus Altíssimo, estamos pecando de igual forma, e não estamos em comunhão com Deus.

Aplicação v.4: Não compactue e nem mesmo assista calado como um mero expectador as ações desonrosas dos perversos. Não deixe de honrar aqueles que vivem para honrar a Deus, junte-se a eles, pois, serão estes que habitarão na Sião Celestial. Viva como um filho de Deus sofrendo o dano, mas, sem quebrar sua palavra. Cumprir promessas e votos é expressar o caráter santo de Deus que nunca deixou de cumprir Sua Palavra.

               Por fim, aquele que vive em comunhão com Deus

3) É um bom mordomo, v.5a

Exposição v.5a: “o que não empresta com usura, nem aceita suborno contra o inocente”.

               A relação que temos com os nossos recursos financeiros mostram muito da nossa confiança em Deus. Alguém é avarento não só quando tem dinheiro e quer mais, mas, também quando não o tem e o deseja muito. Tão pecado quanto a avareza é o mau uso que damos ao dinheiro que Deus nos deu.

               A palavra “usura”  significa “emprestar dinheiro e toma-lo de volta extorquindo juros”, o que é uma boa definição para agiotagem. Também pode ser o levar vantagem numa negociação. Calvino comentando esse verso disse[3]:

     “Não há pior espécie de usura do que aquele modo injusto de fazer barganhas, quando a equidade é desrespeitada de ambos os lados”.

               Alguém disse que uma negociação só é boa quando ambas as partes são beneficiadas. Prejudicar alguém para obter lucro interrompe a comunhão com Deus.

               Ainda tem a questão do suborno, algo muito comum em nossos dias com o nome de propina. O que está em evidência aqui é a figura de um juiz que não deve aceitar suborno para incriminar alguém que é inocente. Contudo, pode-se estender também àqueles que são chamados como testemunhas ou integrantes de um júri. A aplicação aqui vale para todos nós, pois, se aceitarmos qualquer benefício para depormos contra um inocente negando-lhe o seu direito, estaremos pecando e não estaremos em comunhão com Deus.

Aplicação v.5a: Seja um bom mordomo daquilo que o SENHOR Deus lhe confiou. Não seja avarento e ganancioso, pois, com certeza você estará tirando de outro aquilo que não pertence a você e que Deus não lhe confiou. Da mesma forma que isso veio parar em suas mãos também sairá – o que vem fácil vai fácil. Não prejudique ninguém para obter mais dinheiro. Mostre para as pessoas quem é o seu verdadeiro Deus.

Conclusão

Exposição v.5b: “Quem desse modo procede não será jamais abalado”.

               A parte final do v.5 é a conclusão deste salmo: “Quem desse modo procede não será jamais abalado. Dizer-se “filho e servo de Deus” é uma coisa; outra bem diferente é viver como tal. Uma coisa é dizer que estamos em comunhão com Deus; outra bem diferente é estarmos em comunhão com Ele.

               Deus não nos prometeu isenção de lutas e intempéries na vida; Ele nos prometeu que estando em comunhão com Ele não seremos jamais abalados. Diante das intempéries da vida, aqueles que se abalam são os que não estão em comunhão com Deus. É na comunhão com Ele que encontramos a força para continuarmos mesmo quando somos injustiçados, difamados, injuriados, prejudicados e extorquidos pelos ímpios. É na comunhão com Deus que viveremos de forma justa, verdadeira, honrosa e altruísta, e mesmo se formos atacados violentamente por ímpios ficaremos firmes e inabaláveis porque quem nos sustenta é Deus. Que a nossa maior preocupação sejamos não interrompermos nossa comunhão com Deus.      Que aquilo que em público dissermos que somos sejamos de fato no particular para a glória do SENHOR Deus, Aquele que vê todas as coisas, inclusive o que vai em nosso coração.

[1] WIERSBE, 2010, vol.3, p.114.

[2] CALVINO, 1999, vol.1, p.290.

[3] CALVINO, 1999, vol. 1, p.297.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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