Canções da Alma – 15ª Mensagem

Salmo 16

O Relacionamento de Deus com Seus Filhos

Contextualização

               Quando comparamos este Salmo com o relato em 2Sm 7.18-29 onde vemos Davi rendendo graças a Deus por Este ter estabelecido Sua Aliança com ele, parece adequado afirmarmos que este salmo foi escrito nesta ocasião, ou refletindo essa ocasião. O coração de Davi exultava de alegria na presença de Deus, com a alegria que Deus lhe colocara em seu coração, e, por isso mesmo seu coração entoou este hino[1] de louvor a Deus.

               Este Salmo nos apresenta uma peculiaridade na estrutura do seu pensamento. Ao mesmo tempo em que vemos aqui o rei Davi falando de seu relacionamento com Deus, também está falando do Messias, especialmente o v.10. Os apóstolos Pedro e Paulo, respectivamente em At 2.25-28 e 13.35, aplicaram as palavras desse versículo diretamente à pessoa de Jesus Cristo. Quer falando de Davi, quer falando de Cristo, este salmo vem nos mostrar como é O relacionamento de Deus com Seus filhos. Meditemos sobre isso.

               Em Seu relacionamento conosco

1) Deus nos dá plena felicidade, v.1-3

Exposição v.1-3: “Hino de Davi. Guarda-me, ó Deus, porque em ti me refugio.  2 Digo ao SENHOR: Tu és o meu Senhor; outro bem não possuo, senão a ti somente.  3 Quanto aos santos que há na terra, são eles os notáveis nos quais tenho todo o meu prazer”.

               Agostinho disse: “Nossa alma anda inquieta, e não se aquieta enquanto não descansa em Deus”. Ao criar-nos, Deus colocou a eternidade dentro de nós (Ec 3.11), ou seja, Ele criou-nos com um coração que só pode ser satisfeito com o que eterno. Por isso, o homem anda insatisfeito, vazio e em desespero, pois, nada, absolutamente nada neste mundo é capaz de plenificar seu coração, pelo simples fato de que tudo neste mundo é efêmero e passageiro, e ele continuará nesse vazio existencial enquanto não se deleitar em Deus.

               O pedido que Davi faz no v.1 não diz respeito a uma situação específica, mas, sim, um pedido no qual ele clama pela presença de Deus em toda a sua vida. Ele se refugiava em Deus e, por isso mesmo Lhe pediu que o guardasse.

               No v.2 ele faz uma linda declaração de fé. Ao mesmo tempo que ele olha para suas mãos e as vê vazias sem ter nada para dar a Deus, ele olha para Deus e diz que Deus é o único bem do seu coração. Outras versões como a Almeida Corrigida Fiel trazem esse verso assim: “A minha alma disse ao SENHOR: Tu és o meu Senhor, a minha bondade não chega à tua presença”. Mas, o sentido é exatamente o mesmo, a saber: somos vazios sem Deus, e só Ele pode satisfazer e plenificar nosso coração. Não há nada de bom em nós, nem mesmo o que consideramos ser nossas “boas ações” são capazes de merecer a graça de Deus. Por isso mesmo, Deus se doa a nós graciosamente.

               No v.3 Davi fala de um precioso recurso que Deus concede aos Seus filhos para que estes sejam verdadeiramente satisfeitos: a comunhão com os outros santos de Deus. Se a nossa bondade não chega até Deus por não sermos merecedores de Sua graça, Ele nos coloca no convívio de outros servos Dele para que, servindo-os sirvamos a Ele (Jo 13.15). É impossível amarmos a Deus a quem não vemos se odiamos e não amamos àqueles irmãos a quem vemos (1Jo 4.20).

Aplicação v.1-3: Nosso coração é traiçoeiro. Quando fazemos algo bom somos tomados por um gostoso sentimento de satisfação. Porém, é aí que se encontra um sério perigo. Com muita facilidade imaginamos que Deus nos deve alguma coisa por algo bom que fizemos. Esquecemos que fazer o que é correto e bom é o nosso dever, e se, o fazemos, não fazemos nada mais do que a nossa obrigação. Fora de Deus não temos nada de bom. Devemos encontrar a nossa satisfação e felicidade somente em Deus e na companhia de outros que também são plenamente satisfeitos em Deus. Você deve servir a Deus e aos seus irmãos vivendo na comunhão dos filhos de Deus. Não negligenciemos essa verdade.

               Em Seu relacionamento conosco

2) Deus requer total fidelidade, v.4,5

Exposição v.4-5: “Muitas serão as penas dos que trocam o SENHOR por outros deuses; não oferecerei as suas libações de sangue, e os meus lábios não pronunciarão o seu nome. O SENHOR é a porção da minha herança e o meu cálice; tu és o arrimo da minha sorte”.

               Outra verdade sobre o coração humano é que ele foi criado para adorar a Deus. Mas, o pecado não só fez o homem afastar-se de Deus como também buscar deuses falsos e ídolos para suprir essa necessidade de seu coração, e isto o lançou num vazio apavorante.

               Adorador todo mundo é. Há os que adoram a Deus, os que adoram falsos deuses, e os que adoram a si mesmos. Até aqueles que se dizem agnósticos ou ateus se curvam diante de alguma coisa ou de alguma filosofia à qual se agarram ferrenhamente. Mas, “Muitas serão as penas dos que trocam o SENHOR por outros deuses”. Aqueles que assim o fazem não somente continuarão vazios em seus corações, mas, verão suas dores aumentarem terrivelmente.

               Por esta razão Davi declarou duas resoluções de seu coração em relação aos ídolos:

  • “não oferecerei as suas libações de sangue”: No culto estipulado por Deus, não se podia beber do sangue da reparação, pois, seria uma profanação. No lugar desse sangue um cálice de vinho era parte derramada e parte tomada pelo sacerdote – isto é libação. Já no culto idólatra, o sangue dos sacrifícios era tomado, e em muitos casos, sangue humano. Davi decidiu não se aproximar desse cálice macabro.
  • “e os meus lábios não pronunciarão o seu nome”: o só proferir os nomes desses ídolos era para Davi algo repugnante. Ele tinha em seu coração desprezo e ódio pela idolatria e pelos ídolos pagãos em razão do culto macabro que os envolvia.

               Mas o altar do seu coração não estava vazio. Se ele abominava o cálice sanguinário e profano dos idólatras, em seu coração estava outro cálice “O SENHOR é a porção da minha herança e o meu cálice”. Nos tempos de Moisés, a tribo de Levi não tinha posse de terras, pois, o SENHOR Deus era a herança deles (Dt 10.9). Davi não era da tribo de Levi, mas, sim, da de Judá. O que ele está dizendo aqui é exatamente o mesmo que dissera no v.2: Deus é o único bem de seu coração, a única herança que ele tinha nesta vida, Aquele que é o único que lhe fazia pleno e feliz.

Aplicação v.4-5: Nosso coração não precisa de muitos deuses; só precisamos do Deus Verdadeiro. Somente o culto a Deus é um culto que traz dignidade ao ser humano. Somente Deus pode fazer-nos verdadeira e plenamente felizes. Por todas essas razões devemos ser fiéis a Deus.

               Em Seu relacionamento conosco

 

3) Deus nos dá tranquilidade, v.6-11

Exposição v.6-11:6 Caem-me as divisas em lugares amenos, é mui linda a minha herança.  7 Bendigo o SENHOR, que me aconselha; pois até durante a noite o meu coração me ensina.  8 O SENHOR, tenho-o sempre à minha presença; estando ele à minha direita, não serei abalado.  9 Alegra-se, pois, o meu coração, e o meu espírito exulta; até o meu corpo repousará seguro.  10 Pois não deixarás a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção.  11 Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente”.

               O conceito que o mundo tem de tranquilidade é equivocado. Pensa-se em tranquilidade como ausência de problemas, preocupações e aflições. Mas, nada pode estar mais equivocado que isso.

               A tranquilidade que Deus nos dá é justamente o Seu precioso recurso para acalmar, guiar, e dar esperança ao nosso coração enquanto passamos pelas tormentas dessa vida e especialmente quando pensamos no futuro. Davi descreveu muito bem essa tranquilidade que Deus dá aos Seus servos por meio da Sua santa presença com eles:

  • Deleite para o seu coração (v.6): quando ele diz que suas divisas caem em lugares amenos (suaves, tranquilos) e que sua herança é mui linda, está falando do próprio SENHOR Deus, como havia dito no 5.
  • Iluminação para o seu coração (v.7): o “conselho” que Deus dava a Davi é a iluminação espiritual que Ele dá ao coração de Seus filhos. Essa iluminação é individual, interna e constante como nos mostram as palavras pois até durante a noite o meu coração me ensina”. É importante destacar que o ensino e instrução vêm de Deus, e é Ele mesmo quem habilita e capacita o coração do eleito a refletir e meditar nos Seus santos conselhos.
  • Fé para o seu coração (v.8): a constante presença de Deus é que sustenta a fé do Seu servo. Sendo a fé um dom de Deus (cf. Ef 2.8), nunca devemos vê-la como produto do nosso esforço, mas, sim, como resultado da presença de Deus em nossa vida. Deus estando conosco não seremos abalados, jamais!
  • Esperança para o coração (v.9-11): um assunto do qual o homem natural se esquiva e evita falar é a morte, especialmente quando sente que ela está perto. Talvez por isso eles vivam desvairadamente preenchendo seu tempo com suas futilidades para não pensarem no fim de todos os seres humanos, a morte. Para os que vivem atormentados pelo medo de morrer o sono da noite é um tormento, mas, para aquele cuja esperança está em Deus a certeza de que seu corpo repousará seguro vai além de uma noite de descanso. Ele tem a certeza de que mesmo durante à noite, se a morte lhe vier ele sabe que Deus o guardará e por isso mesmo diz a Deus: “Porque não deixarás a minha alma da morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção”. Mas, como já dissemos, este versículo tem uma aplicação especial: ele refere-se a Cristo. Assim, como nos lembra Calvino[2], Davi aqui falou pelo espírito de profecia e inspirado pelo Espírito Santo acerca do Messias vitorioso sobre o pior dos inimigos dos mortais: a morte. Pelo fato dos apóstolos Pedro e Paulo terem afirmado que este versículo era uma profecia a respeito do Messias que se cumpriu em Jesus, encontramos aqui a razão da nossa esperança. Cristo é “as primícias dos que dormem” (1Co 15.20), isto é, Ele foi o primeiro de todos os filhos de Deus que foi ressuscitado por Deus. A certeza de que Cristo venceu a morte quando ressuscitou é a certeza que move a nossa esperança a qual não se limita à essa vida, pois, “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15.19). Assim, o crente vive tranquilo mesmo ciente de que a morte poderá lhe vir a qualquer momento, porque ele sabe que seu Deus o guia pelos “caminhos da vida”, caminhos estes onde a presença de Deus dá “plenitude de alegria (…) delícias perpetuamente” (v.11). Observe que estes caminhos só têm vida, plenitude de alegria e delícias perpétuas por causa de Deus. Somente os que nutrem nesta vida um profundo e sincero relacionamento com Deus deleitando-se somente Nele é que haverão de gozar dos céus de glória. O céu não é para qualquer um; antes ele é para os que neste mundo desejaram e se deleitaram em Cristo. O conceito esdrúxulo e ridículo que os ímpios têm do céu é resultado do deleite que seus corações têm nas coisas deste mundo.

 

Aplicação v.6-11: Aquele que deleita-se em Deus, é instruído por Sua Palavra, cujo coração tem fé em Deus e fortalece sua esperança da vida eterna com base na vitória de Cristo sobre o pecado e a morte há de desfrutar de uma tranquilidade tão maravilhosa, perene e real que ao olhar para a morte não a temerá porque sabe que o Seu Rei Vitorioso não somente estará às portas dos céus o esperando, como também o conduzirá até lá. Você vive assim?

Conclusão

               Os tesouros do céu são para aqueles que dizem ao SENHOR: “Tu és o meu Senhor, outro bem não possuo, senão a ti somente”.

[1] A palavra em hebraico é ~T’îk.mi (miktäm) que pode significar “ouro” ou “escrito com pena de ouro”. Mas, a interpretação mais correta é que seja uma palavra que marca o início de um cântico (cf. CALVINO, 1999, vol.1, p.305). Allan Harman afirma que se trata de um cântico que deve ser inscrito (HARMAN, 2011, p.108).

[2] Cf. CALVINO, 1999, vol.1, p.321.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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