Canções da Alma – 16ª Mensagem

Salmo 17

Clamando Pela Intervenção Divina

Contextualização

               Este Salmo traz novamente um assunto que já vimos nos Sl 5 e 7, a saber, Davi estava sofrendo com as calúnias e mentiras que as pessoas contavam dele para o rei Saul. Em consequência disso, ele estava sofrendo severa perseguição de Saul. Possivelmente este salmo foi escrito nesta ocasião de perseguição por parte de Saul.

               O título deste Salmo é “Oração de Davi”. No idioma hebraico existem várias palavras que são traduzidas como “oração”. A que aparece aqui quer dizer “oração litúrgica”, isto é, oração feita na Casa de Deus, durante o culto ou suplicando algo a Deus. É uma oração suplicante, um pedido de intervenção.

               Nesta oração Davi clama a Deus suplicando-Lhe que intervenha nessa situação. Temos aqui ensinamentos preciosos para aqueles momentos quando suplicamos a Deus para que Ele venha defender-nos daqueles que querem o nosso mal. É sobre isso que meditaremos hoje: Clamando pela intervenção Divina.

               Quando erguermos nossa voz e clamarmos a Deus para que Ele intervenha a nosso favor devemos:

1) Confiar na justiça de Deus, v.1-5

Exposição v.1-5: “Oração de Davi. Ouve, SENHOR, a causa justa, atende ao meu clamor, dá ouvidos à minha oração, que procede de lábios não fraudulentos.  2 Baixe de tua presença o julgamento a meu respeito; os teus olhos veem com equidade.  3 Sondas-me o coração, de noite me visitas, provas-me no fogo e iniquidade nenhuma encontras em mim; a minha boca não transgride.  4 Quanto às ações dos homens, pela palavra dos teus lábios, eu me tenho guardado dos caminhos do violento.  5 Os meus passos se afizeram às tuas veredas, os meus pés não resvalaram”.

               A palavra-chave aqui é “Sonda-me” (v.3). É importante observarmos que aqui Davi não está alegando impecabilidade moral ou coisa parecida. Ele não está declarando que não é um pecador. Antes, ele está dizendo que não é culpado dos pecados de que seus caluniadores o acusavam. Ele está alegando sua inocência e consciência limpa diante de tais acusações. Por isso mesmo ele clama a Deus e tem certeza de que sua causa é justa (v.1). Ele pede a Deus que o ouça e atenda ao seu clamor “que procede de lábios não fraudulentos”, contrastando-se assim com os seus caluniadores.

               Ele espera que da presença de Deus viesse o juízo (julgamento) de sua causa, e faz uma declaração linda a respeito do caráter de Deus: “os teus olhos veem com equidade”, ou seja, ele sabia que Deus é justo em seu julgamento e que não agiria de outra forma. Um perigo que ronda o nosso coração nesses tempos de calúnias e mentiras contra nós é o de pensarmos que Deus não se importa com a injustiça dos homens.

               Davi sabe que Deus verá sua inocência em relação àquelas acusações fraudulentas, e por isso mesmo, vai mais além, pedindo a Deus que sonde o seu coração e o prove no fogo de Sua justiça. Os verbos sondar são sinônimos e trazem a ideia de “testar, apurar no fogo, verificar a consistência”. Davi tem certeza em seu coração que “iniquidade nenhuma” de que estava sendo acusado seria encontrada nele.

               Onde estava a fonte da justiça de Davi? A resposta está no v.4: “pela palavra dos teus lábios eu me tenho guardado…”. Das ações malignas dos homens e dos caminhos do violento (Saul?) o que guardava o coração de Davi era a Palavra de Deus. Um coração guardado e firmado na Palavra de Deus é refletido em ações que glorificam a Deus: “Os meus passos se afizeram às tuas veredas, e os meus pés não resvalaram”. O verbo “afazer” significa “acomodar-se, adaptar-se, afeiçoar-se”. O que ele está dizendo é que o seu coração se apegou à Palavra de Deus e o resultado disso pode ser visto em suas ações firmes que revelam o seu compromisso com Deus. Davi tinha em mente que a única coisa que poderia impedi-lo de cair em qualquer pecado era a Palavra de Deus, e por isso mesmo se apegou a ela de todo o seu coração.

Aplicação v.1-5: É muito comum vermos as pessoas evocando a justiça de Deus a favor delas quando são acusadas de alguma conduta errada. Contudo, aqui aprendemos que para evocarmos a justiça de Deus devemos antes de tudo ter a certeza de que não somos culpados dos pecados de que somos acusados. Se é um crime de perjúrio mentir diante de um juiz humano, quanto mais o é evocarmos a justiça de Deus a nosso favor sendo nós culpados daquilo que somos acusados?! Além disso, devemos ter em mente que quando evocarmos a justiça de Deus devemos ter plena certeza não só da nossa inocência, mas, também de que estamos firmados em Sua Palavra para que não venhamos a cair nos pecados de que nos acusam nossos inimigos. Somente a Palavra de Deus em nosso coração pode nos livrar de pecar.

               Clamando a intervenção Divina também devemos

2) Confiar na proteção de Deus, v. 6-12

Exposição v.6-12:6 Eu te invoco, ó Deus, pois tu me respondes; inclina-me os ouvidos e acode às minhas palavras.  7 Mostra as maravilhas da tua bondade, ó Salvador dos que à tua destra buscam refúgio dos que se levantam contra eles.  8 Guarda-me como a menina dos olhos, esconde-me à sombra das tuas asas,  9 dos perversos que me oprimem, inimigos que me assediam de morte.  10 Insensíveis, cerram o coração, falam com lábios insolentes;  11 andam agora cercando os nossos passos e fixam em nós os olhos para nos deitar por terra.  12 Parecem-se com o leão, ávido por sua presa, ou o leãozinho, que espreita de emboscada”.

               A palavra-chave aqui é “Guarda-me” (v.8). Nestes versículos Davi clama a Deus por Sua proteção. As palavras do v.6 “Eu te invoco, ó Deus, pois tu me respondes” não devem ser entendidas como pragmáticas ou utilitaristas. O que Davi está dizendo aqui é que ele confia plenamente em Deus, pois, Ele nunca deixou de responder-lhe às orações. Que preciosa verdade temos nessas palavras! Deus sempre responde às orações dos Seus filhos. O que não quer dizer que Ele sempre nos dá o que Lhe pedimos, mas, sim, que nunca nos deixa sem respostas.

               Cada uma das expressões a seguir dos v.6-8 demonstra que Deus protege os Seus filhos e por isso é digno de toda a nossa confiança.

  • “inclina-me os ouvidos e acode às minhas palavras” (v.6b). A ideia aqui é a de um pai que se agacha para ouvir os gemidos de seu filho prostrado numa cama ou no chão, sem forças para se levantar. Essas palavras nos lembram de Rm 8.26.
  • “Mostra as maravilhas da tua bondade, ó Salvador dos que à tua destra buscam refúgio dos que se levantam contra eles” (v.7). Davi clama a Deus que Se revele bondoso, cheio de misericórdia, como o Salvador daqueles que se refugiam Nele quando os inimigos os atacam. Assim como outros servos de Deus que se abrigam em Deus também era Davi. Os servos de Deus seguem o exemplo de outros servos de Deus! Além disso, essas palavras de Davi revelam a fidelidade de Deus que sempre salvou os Seus filhos.
  • “Guarda-me como a menina dos olhos, esconde-me à sombra das tuas asas” (v.8). As palavras de Davi neste versículo além de ser uma verdade belíssima a respeito do caráter de Deus são também tremendamente confortadoras para o nosso coração. A “menina dos olhos”, e a o abrigo que Deus nos dá “à sombra das tuas asas”, são figuras que a mesmo tempo nos remetem à ideia de nossa fragilidade, também nos remetem ao cuidado amoroso e constante de Deus que Se digna a cuidar de seres tão fracos e pequenos como nós. No hebraico, expressão “menina dos olhos” literalmente é “o pequeno homem dos olhos”, ou seja, quando você se vê no olho de outra pessoa, vê-se pequenino ali, porém guardado no olho do outro[1]. É assim que “estamos” nos olhos de Deus.

               Os v.9-12 descrevem os inimigos de Deus, os quais mostram sua inimizade contra Deus quando fazem mal aos Seus filhos. Davi os descreve “perversos e inimigos” (v.9) que o oprimem e o assediam para lhe tirar a vida; como “insensíveis” (v.10), isto é, moralmente depravados que não se importam com a maldade contra os inocentes. O hebraico traz a ideia de alguém envolto em sua própria gordura, uma metáfora de orgulho[2]. E por serem arrogantes e tomados de orgulho em seus corações, são também “insolentes” não trazendo nenhum sinal de respeito em suas palavras, são zombeteiros. Eles também são comparados a leões que espreitam com avidez suas presas (v.11-12), o que mostra que eles são traiçoeiros, astutos e perigosos. Sendo a sociedade em sua maioria de homens dessa estirpe, somente Deus pode proteger e amparar o justo. Por esta razão, devemos confiar somente em Deus para nos proteger.

Aplicação v.6-12: Não importa quais perigos estejam cercando sua alma; a única coisa que você tem a fazer é confiar sua vida aos cuidados de Deus tendo a certeza de sua integridade em relação à Palavra de Deus. Ele tem você nos olhos Dele; Ele o tem em Seus braços poderosos. Os nossos inimigos por mais perigosos e ardilosos que sejam, nada podem ante o poder de Deus e à Sua Verdade que destrói qualquer mentira forjada contra nós.

               Por fim, clamando pela intervenção Divina devemos

 

3) Confiar no livramento de Deus, v.13-15

Exposição v.13-15:13 Levanta-te, SENHOR, defronta-os, arrasa-os; livra do ímpio a minha alma com a tua espada,  14 com a tua mão, SENHOR, dos homens mundanos, cujo quinhão é desta vida e cujo ventre tu enches dos teus tesouros; os quais se fartam de filhos e o que lhes sobra deixam aos seus pequeninos.  15 Eu, porém, na justiça contemplarei a tua face; quando acordar, eu me satisfarei com a tua semelhança”.

               A palavra-chave aqui é “Levanta-te” (v.13). Enquanto os v.6-12 nos mostram Deus ao redor de Davi protegendo-o dos ataques dos inimigos, os v.13-15 O mostram indo para cima dos inimigos de Davi. Essa é a diferença entre as duas proposições aqui no texto.

               O “Levanta-te, SENHOR” (v.13), nos remete a Nm 10.35: “Partindo a arca, Moisés dizia: Levanta-te, SENHOR, e dissipados sejam os teus inimigos, e fujam diante de ti os que te odeiam”. Assim Davi pede a Deus que intervenha na situação em que se encontrava à mercê de Saul.

               O v.14 traz certa dificuldade de interpretação. Algumas interpretações são apresentadas aqui, mas, para ser objetivo apresento a que julgo mais coerente. Aqueles a quem Davi chama de “homens mundanos cujo quinhão é desta vida” são aqueles, como disse Calvino[3], que têm o seu deleite e satisfação nas coisas desta vida. São homens que não se importam com Deus. A dificuldade de interpretação vem na afirmação seguinte: “e cujo ventre tu enches dos teus tesouros; os quais se fartam de filhos e o que lhe sobra deixam aos seus pequeninos”. Num primeiro olhar soa estranho aos nossos ouvidos o fato de que é das mãos de Deus que vem a riqueza para esses “homens mundanos” a qual eles deixam para seus filhos e netos. Mas, precisamos ter em mente o que dizem as Escrituras:

  • O rico e o pobre se encontram; a um e a outro faz o SENHOR” (Pv 22.2).
  • 44Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; 45para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mt 5.44-45 ).

         O que estes textos nos mostram é que é Deus quem faz alguém obter bens e riquezas. É com permissão de Deus que uma pessoa pode ficar rica. Com isso não estou dizendo que é Deus quem dá ao ímpio a riqueza alçada por meios desonestos e ilícitos, mas, sim, que Ele permite que o ímpio acumule riquezas ilícitas e sofra as consequências disso depois. Uma das grandes diferenças entre o crente e o ímpio é que o crente reconhece Deus em todos os seus caminhos e sabe que é Dele que ele recebe tudo o de que necessita ao passo que o ímpio se arvora em sua arrogância e prepotência. Davi reconhecia que Saul era o rei e via nisso a mão de Deus, enquanto que Saul o tempo todo mostrava-se arrogante e ímpio diante de Deus.

         O crente não somente reconhece que as bênçãos que recebeu vieram das mãos de Deus, mas, ele também tem em seu coração a esperança bendita da maior de todas as riquezas: a Glória Eterna. O v.15 deve ser interpretado sob a ótica da glória eterna. Temos neste verso implicitamente a doutrina da ressurreição quando Davi diz contemplará a face de Deus, como já vimos no Sl 11.7, não se trata de ver Deus face a face, mas, sim, que, Deus lhe será favorável e aprovará suas ações que partem de uma consciência limpa e tranquila como ele asseverou no início desse Salmo; Dessa forma, a aprovação de Deus daria a Davi a certeza da alegria eterna da Sua glória. Davi cria que quando ressuscitasse (“acordar”) ele seria satisfeito com a “semelhança” de Deus, isto é a Sua excelsa glória.

         Aqueles que zombam de nós crentes dizendo que a fé e esperança da glória eterna é nada mais nada menos que um subterfúgio que inventamos para nos consolar diante das frustrações, dores e fracassos desta vida, dizem tal calúnia e imbecilidade porque as verdades do Reino de Deus soam como loucura para os seus corações mortos em delitos e pecados. Porém, nós também temos uma parcela de culpa nisso. O que Deus nos promete em Sua Palavra em relação à glória eterna deveria encher nosso coração da mais profunda alegria já nesta vida. Em Cl 3.1-3 lemos: Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus.  2 Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra;  3 porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus”. O verbo “pensar” significa literalmente “fazer festa, exultar de alegria”, ou seja, quando pensarmos no céu, na glória eterna que o nosso coração não somente se console, mas, que faça festa, que exulte de tanta alegria, a fim de que os ímpios ao olharem para nós percebam que a nossa alegria, a nossa esperança, o nosso tesouro está lá na glória eterna, e que as coisas deste mundo não têm nenhum valor para nós. Se Cristo nos desse esperança somente para esta vida, se Ele nos desse bênçãos somente para esta vida, seríamos como os demais que não têm esperança da vida eterna (1Ts 4.13) e os mais infelizes de todos os homens (cf. 1Co 15.19), pois, depois de experimentarmos o cuidado de Deus aqui nos depararíamos com o Seu abandono na eternidade.

 

Aplicação v.13-15: Deus promete nos livrar dos nossos inimigos, contudo, o principal livramento que teremos da parte de Deus é no tocante à Sua ira, da qual Cristo nos livrou por Seu sacrifício e nos deu a Vida Eterna. Podemos exultar de alegria pela certeza de que não pereceremos no inferno, mas, viveremos eternamente com Ele em Sua glória. Enquanto esse dia não chega, que o nosso coração viva reconhecendo a presença de Deus em cada passo que dermos; que a nossa esperança da glória eterna seja vista em nossas palavras e ações. Com o céu no coração enquanto os pés na terra.

Conclusão

               Ser crente é confiar plenamente no cuidado de Deus. Ele cuida do meu coração sondando-me, cuida do meu coração protegendo-me e livrando-me dos que querem o meu mal. Em quem mais encontro tão precioso amor?

[1] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.120.

[2] Cf. CALVINO, 1999, vol.1, p.339.

[3] Cf. CALVINO, 1999, , vol.1, p.344.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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