Canções da Alma – 17ª Mensagem

Salmo 18

O Deus da Nossa Salvação

Parte I

O Poder do Deus da Nossa Salvação

Contextualização

               Esta não é a primeira vez que este salmo aparece na Bíblia. A primeira versão dele está registrada em 2Sm 22.1-51, ainda que com muitas diferenças menores, mas, no seu conteúdo geral é o mesmo. Ao que tudo indica, aqui, este cântico (com o é assim identificado em seu título) foi uma adaptação feita para o povo reunido para adorar a Deus entoá-lo sob a regência de um “mestre de canto”.

               O título desse Salmo: “Salmo de Davi, servo do SENHOR, o qual dirigiu ao SENHOR as palavras deste cântico, no dia em que o SENHOR o livrou de todos os seus inimigos e das mãos de Saul”, além de:

  • Informar-nos sobre a ocasião em que ele foi composto, ou seja, quando Deus fez Davi assentar-se definitivamente no trono de Israel,
  • Também nos mostra o profundo relacionamento de Deus com Seu servo. Por três vezes neste título Davi usa no nome pactual de Deus “SENHOR”, o que demonstra esse relacionamento.
  • E, ainda nos mostra que Davi sabia qual título lhe era mais importante. Em vez de apresentar-se como o rei de Israel, ele se apresenta como “servo do SENHOR”.

               Este Salmo é muito belo. Ele é o louvor de um servo de Deus que reconhece os poderosos feitos de Deus em sua vida – essa é uma das principais diferenças entre o servo de Deus e o ímpio, pois, enquanto este se vangloria, aquele se gloria em Deus. Neste Salmo Davi exalta a Deus como O Deus da nossa salvação.

               Contudo, concordo com William Macdonald[1] e João Calvino[2] que veem nas palavras deste Salmo uma profecia a respeito de Cristo, Seu sofrimento neste mundo, na Sua morte e a Sua glorificação junto ao Pai.

               E para aproveitarmos ao máximo do mesmo o dividiremos em três mensagens, do v.1-19; do v.20-30, e, por fim, do v.31-50.

               Hoje veremos O poder do Deus da nossa salvação (v.1-19). E assim podemos ver que o Seu poder se revela

 

1) Na Sua Aliança com Seu servo, v.1-3

Exposição v.1-3: “Eu te amo, ó SENHOR, força minha.  2 O SENHOR é a minha rocha, a minha cidadela, o meu libertador; o meu Deus, o meu rochedo em que me refugio; o meu escudo, a força da minha salvação, o meu baluarte.  3 Invoco o SENHOR, digno de ser louvado, e serei salvo dos meus inimigos”.

               Somente nos dois primeiros versos os pronomes possessivos “meu” e “minha” aparecem 9 vezes expressando a relação de Davi com Deus. Davi declara o seu amor por Deus, pois, sabe que não há melhor maneira de servir a Deus do que amando-O[3] e se fortalecendo em Seu poder. O louvor sincero acontece quando o coração ama verdadeiramente a Deus. Como nos lembra Matthew Henry: Quanto mais sérios nós temos sido com Deus por libertação, e quanto mais diretas são as respostas às nossas orações, mais nós somos obrigados a ser agradecidos”[4].

               Davi descreve a Deus como “força minha”, “minha rocha” (montanha, monte), “minha cidadela” (fortaleza), “meu libertador”, “meu Deus”, “meu rochedo” (rocha), “meu escudo”, “força da minha salvação”, “meu baluarte” (força, fortaleza). Em todas essas descrições Deus é visto como sempre presente e atuante na vida de Seu servo, e, por esta razão ele disse: “Invoco o SENHOR, digno de ser louvado, e serei salvo dos meus inimigos” (v.3).

Aplicação v.1-3: Os servos de Deus podem ter a certeza de que Ele lhes responderá o clamor por socorro. Todos quantos humildemente clamaram o socorro de Deus foram atendidos por Ele. Aqueles com quem Deus estabeleceu Sua Aliança jamais serão desamparados por Ele. Mesmo que sofram ataques vorazes de seus inimigos, não serão abandonados e deixados à mercê deles; o SENHOR os protegerá completamente. Sermos atacados por inimigos não quer dizer que Deus não está cumprindo Sua promessa de proteger-nos, mas, sim, que Ele está nos proporcionando uma ocasião para clamarmos por Ele e presenciarmos o Seu poder preservando Sua Aliança conosco.

               O poder do Deus da nossa salvação se revela:

2) Nas aflições de Seu servo, v.4-6

Exposição v.4-6:4 Laços de morte me cercaram, torrentes de impiedade me impuseram terror.  5 Cadeias infernais me cingiram, e tramas de morte me surpreenderam.  6 Na minha angústia, invoquei o SENHOR, gritei por socorro ao meu Deus. Ele do seu templo ouviu a minha voz, e o meu clamor lhe penetrou os ouvidos”.

                   A vida com Deus é uma vida de dores. O Messias era “homem de dores e que sabe o que é padecer” (Is 53.3), e, identificar-se com Cristo significa sofrer neste mundo o mesmo ódio que ele sofreu por parte dos pecadores (Jo 15.18).

               Davi experimentara terríveis tormentos aos quais ele descreve como

  • Laços de morte: ou seja, tristezas causadas pelo luto ou pela ameaça de morte; Davi experimentou a ambas e várias vezes;
  • Torrentes de impiedade me impuseram terror: literalmente “correntezas de Belial”. O nome “Belial” (Dt 13.13) é usado para descrever homens malignos, perversos e da mais baixa estirpe, a escória da sociedade. Davi várias vezes foi atormentado e aterrorizado por esse tipo de gente.
  • Cadeias infernais: ou seja, “as cordas do inferno me apertam”; a palavra que aqui foi traduzida por “infernais” no hebraico é lAav. e indica a sepultura, o estado de morte.

               As palavras desses versículos nos lembram os tormentos pelos quais Cristo passou nas mãos de Seus algozes e depois na sepultura onde a morte tentou segurá-Lo, mas, de onde o Pai pelo Seu divino poder o trouxe dos mortos (cf. Cl 2.12; 1Pe 1.21; 1Ts 1.10).

               Porém, cercado de tantos tormentos e angústias, Davi elevou sua voz a Deus: “invoquei o SENHOR, gritei por socorro ao meu Deus” (v.6a). Com essas palavras Davi descreve o seu desespero e dor. As orações mais sinceras são por vezes as que brotam da dor.

               Deus, então “do Seu templo ouviu a minha voz, e o meu clamor lhe penetrou os ouvidos” (v.6b). Por “templo” aqui, não devemos pensar no santuário de Jerusalém por ser um anacronismo. Foi Salomão, filho de Davi, anos depois da morte de Davi quem construiu o templo. Logo, “templo” aqui, refere-se à morada celeste, o céu de glória onde Deus tem Seu Trono estabelecido. Como Deus disse através do profeta Isaías: Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos” (Is 57.15).

Aplicação v.4-6: As nossas orações não são interrompidas pelas dores e angústias dessa vida, pelo contrário, o crente nesses tempos de angústia aproxima-se ainda mais de Deus e clama por Seu socorro. O que interrompe as nossas orações é o pecado e a vergonha que este nos causa. Contudo, a única forma de vencermos o pecado e reatando o quanto antes nossa comunhão com Deus por meio da oração e da obediência à Sua Palavra.

               Por fim, o poder do Deus da nossa salvação se revela:

3) Nas Forças da Criação, v.7-19

Exposição v.7-19:7 Então, a terra se abalou e tremeu, vacilaram também os fundamentos dos montes e se estremeceram, porque ele se indignou.  8 Das suas narinas subiu fumaça, e fogo devorador, da sua boca; dele saíram brasas ardentes.  9 Baixou ele os céus, e desceu, e teve sob os pés densa escuridão.  10 Cavalgava um querubim e voou; sim, levado velozmente nas asas do vento.  11 Das trevas fez um manto em que se ocultou; escuridade de águas e espessas nuvens dos céus eram o seu pavilhão.  12 Do resplendor que diante dele havia, as densas nuvens se desfizeram em granizo e brasas chamejantes.  13 Trovejou, então, o SENHOR, nos céus; o Altíssimo levantou a voz, e houve granizo e brasas de fogo.  14 Despediu as suas setas e espalhou os meus inimigos, multiplicou os seus raios e os desbaratou.  15 Então, se viu o leito das águas, e se descobriram os fundamentos do mundo, pela tua repreensão, SENHOR, pelo iroso resfolgar das tuas narinas.  16 Do alto me estendeu ele a mão e me tomou; tirou-me das muitas águas.  17 Livrou-me de forte inimigo e dos que me aborreciam, pois eram mais poderosos do que eu.  18 Assaltaram-me no dia da minha calamidade, mas o SENHOR me serviu de amparo.  19 Trouxe-me para um lugar espaçoso; livrou-me, porque ele se agradou de mim”.

               “A voz é fraca e solitária, mas, a resposta faz a Criação tremer” (F. B. Meyer)[5]. O servo de Deus arranca seu último suspiro de força e clama a Deus, e Ele portentosamente vem a seu encontro.

               Agora, quero convidá-lo a ver esses versículos tendo a diante de seus olhos o sacrifício de Cristo, pois, o que é descrito por Davi nestes versículos só podem ser aplicados a ele mesmo com relação ao livramento de Deus de forma hiperbólica, enquanto que em relação ao sacrifício de Cristo essas palavras aqui são literais.

               Lá estava o Senhor Jesus agonizando na cruz, e, no momento em que Ele rendeu Seu espírito:

Mt 27.51: “…tremeu a terra, fenderam-se as rochas”,

v.7-8:7 Então, a terra se abalou e tremeu, vacilaram também os fundamentos dos montes e se estremeceram, porque ele se indignou. 8 Das suas narinas subiu fumaça, e fogo devorador, da sua boca; dele saíram brasas ardentes”. No momento da morte de Cristo, Deus estava indignado e furioso não só contra aqueles que pregaram Jesus numa cruz, mas, ali, Deus estava punindo os nossos pecados em Cristo – uma ira que jamais conheceremos graças ao sacrifício substitutivo do Senhor Jesus;

               Quando pregaram o Senhor Jesus na cruz, a natureza entrou num cataclismo:

Mt 27.45: “Desde a hora sexta até à hora nona houve trevas sobre toda a terra”.

v.9-12:  “9 Baixou ele os céus, e desceu, e teve sob os pés densa escuridão.  10 Cavalgava um querubim e voou; sim, levado velozmente nas asas do vento.  11 Das trevas fez um manto em que se ocultou; escuridade de águas e espessas nuvens dos céus eram o seu pavilhão.  12 Do resplendor que diante dele havia, as densas nuvens se desfizeram em granizo e brasas chamejantes”, Deus baixara dos céus em Sua ira. A escuridão escondia dos olhos dos homens o Santo Filho de Deus que desfalecia naquela cruz, mas, não escondia dos olhos de Deus que é Aquele que a tudo vê até mesmo na mais densa escuridão, pois, a luz e as trevas são a mesma coisa (Sl 139.12). A velocidade com que a ira de Deus desceu (v.10) nos mostra a iminência da Sua justiça contra o pecado.

               Mas, não parou aqui. Coisas maravilhosas ainda estavam por acontecer. Não temos nem como imaginar o que ocorreu no plano espiritual.

               Os cataclismos vistos na ordem natural das coisas visíveis indicam que o que acontecera no mundo invisível e espiritual foi incomparavelmente pior. Na linguagem do apóstolo Paulo: “e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz” (Cl 2.15). Satanás investiu intenso poder para evitar que Cristo chegasse à cruz, mas, foi em vão. Cristo entregou a Sua vida declarando a todos que Ele era a única autoridade sobre Si mesmo além do Pai, e, que, por isso, Satanás nada podia para impedi-Lo do Seu sacrifício por nós. Restava a Satanás só mais uma cartada: o sepulcro. Não temos ideia do que ocorreu naqueles três dias. Se Jesus não ressuscitasse tudo teria sido em vão, Sua vida e sacrifício não teriam valor algum. Mas, na manhã do terceiro dia, o primeiro dia da semana, o Senhor Jesus foi trazido à vida pelo poder do Pai.

v.13-19: 13 Trovejou, então, o SENHOR, nos céus; o Altíssimo levantou a voz, e houve granizo e brasas de fogo.  14 Despediu as suas setas e espalhou os meus inimigos, multiplicou os seus raios e os desbaratou.  15 Então, se viu o leito das águas, e se descobriram os fundamentos do mundo, pela tua repreensão, SENHOR, pelo iroso resfolgar das tuas narinas.  16 Do alto me estendeu ele a mão e me tomou; tirou-me das muitas águas.  17 Livrou-me de forte inimigo e dos que me aborreciam, pois eram mais poderosos do que eu.  18 Assaltaram-me no dia da minha calamidade, mas o SENHOR me serviu de amparo.  19 Trouxe-me para um lugar espaçoso; livrou-me, porque ele se agradou de mim”. Embora muitos dos sinais que Davi descreve nestes versículos não aconteceram na ocasião da ressurreição de Cristo, com certeza o inferno se abalou e sofreu horrores muito piores dos que uma saraivada, brasas e fogo (símbolos da ira de Deus). O inferno foi espalhado e desbaratado (v.14).

               A figura das águas profundas que foram reviradas por Deus (v.15), nos lembra a sepultura de Cristo de onde Deus O retirou, não sem antes revirar o reino da morte.

               Do alto de Sua glória o Pai estendeu a mão ao Filho é o arrancou dos braços da morte. No v.17, o salmista declara que os seus inimigos eram mais fortes que ele. Como aplicar essas palavras a Cristo? Embora não seja tão simples explicar isso, devemos nos ater ao fato de que, ao Se encarnar Cristo assumiu a natureza humana, e ali no sepulcro Ele era como um de nós também, e sem o poder de Deus não teria saído de lá. Todas as vezes que a Bíblia fala da ressurreição de Jesus nos mostra o Pai exercendo o Seu divino poder para ressuscitar Jesus dentre os mortos (Cf. Ef 1.19-20; Cl 2.12; 1Pe 1.21; 1Ts 1.10).

               Os v.18-19 descrevem as tentativas frustradas dos inimigos em tentar destruir o servo do SENHOR, e o fracasso deles quando confrontados e derrotados pelo SENHOR que veio em socorro do Seu ungido.

Aplicação v.7-19: Deus controla a Criação. Ele a usa para dar Seu recado aos pecadores e ela é suficiente para atestar a culpa dos mesmos em não buscarem a Deus (Cf. Rm 1.19-20). Agora, olhando para o sacrifício de Cristo, os pecadores deveriam atinar para a gravidade disso: 2 Se, pois, se tornou firme a palavra falada por meio de anjos, e toda transgressão ou desobediência recebeu justo castigo,  3 como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação?” (Hb 2.2-3).

Conclusão

               Cristo é a garantia de que Deus nos ressuscitará; em Cristo temos a certeza de que a morte, o nosso último inimigo, não tem a última palavra. Assim como o Pai trouxe a Cristo dentro os mortos e também nos trouxe da nossa morte espiritual, em Cristo nos conduzirá em triunfo rumo à glória eterna: “Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento” (2Co 2.14).

[1] MACDONALD, 2011, vol.1, p.385

[2] CALVINO, 1999, vol.1, p.352.

[3] Cf. CALVINO, 1996, vol.1, p.356.

[4] HENRY, 2010, vol.3, p.268.

[5] In MACDONLAD, 2011, vol.1, p.386.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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