Canções da Alma – 18ª Mensagem

Salmo 18

O Deus da Nossa Salvação

Parte II

A Bondade do Deus da Nossa Salvação

Contextualização

               Hoje veremos os v.20-30, nos quais o assunto é A bondade do Deus da nossa salvação. Recapitulando alguns pontos importantes da mensagem anterior:

  • Este salmo é uma versão de 2Sm 22, adaptada para ser um cântico litúrgico entoado no culto a Deus.
  • Neste salmo Davi exaltou a Deus mostrando que a sua salvação foi obra exclusiva de Deus;
  • Este salmo apesar de referir-se ao maravilhoso livramento que Davi recebeu de Deus bem como seu estabelecimento no trono de Israel, é acima de tudo, um salmo messiânico retratando várias situações da vida, morte e ressurreição de Cristo.

               Nos v.20-30 Davi nos mostra que a bondade de Deus

 

1) Retribui conforme as obras de cada um v.20-27

Exposição v.20-27:20 Retribuiu-me o SENHOR, segundo a minha justiça, recompensou-me conforme a pureza das minhas mãos.  21 Pois tenho guardado os caminhos do SENHOR e não me apartei perversamente do meu Deus.  22 Porque todos os seus juízos me estão presentes, e não afastei de mim os seus preceitos.  23 Também fui íntegro para com ele e me guardei da iniquidade.  24 Daí retribuir-me o SENHOR, segundo a minha justiça, conforme a pureza das minhas mãos, na sua presença.  25 Para com o benigno, benigno te mostras; com o íntegro, também íntegro.  26 Com o puro, puro te mostras; com o perverso, inflexível.  27 Porque tu salvas o povo humilde, mas os olhos altivos, tu os abates”.

               Nestes versos vemos como Deus trata com aqueles que são obedientes e íntegros em Sua presença e com aqueles que são arrogantes e altivos.

               Aos lermos os v.20-24 não devemos entende-los como um gesto arrogante e presunçoso de Davi. Aqui ele não está alegando impecabilidade, mas sim, a certeza de ter sido obediente a Deus e íntegro em Sua presença com relação à sua trajetória ao trono de Israel. Os verbos “retribuir” e “recompensar” estão no passado, atestando as palavras de Davi. Se Deus não tivesse se agradado dele (cf. v.19) certamente não o teria abençoado. É claro que devemos evitar qualquer ideia de recompensa por merecimento. Davi nunca se julgou merecedor de qualquer bênção de Deus e o mesmo devemos fazer. Porém, não podemos nunca nos esquecer que em Sua Aliança conosco Deus revela-Se tão bondoso e misericordioso que além de nos dar bênçãos imerecidas também nos dá a privilégio de podermos obedecê-Lo (o que por si só já seria uma grande bênção), e quando O obedecemos recebemos muitas outras bênçãos da parte Dele.

               A retribuição e recompensa a que ele se refere aqui é ao reino de Israel. Em momento algum Davi agiu traiçoeira e levianamente em relação a Saul, o rei, como fica claro nas palavras do v.21: “Pois tenho guardado os caminhos do SENHOR e não me apartei perversamente do meu Deus”. O tempo todo ele o tratou como o “ungido do SENHOR”, e até mesmo quando teve oportunidade (não uma vez apenas) de mata-lo, poupou-lhe a vida por amor a Deus. É a esta inocência e retidão que Davi se refere aqui. E o resultado disso foi que Deus o colocou no trono. No sentido messiânico deste salmo, Cristo em Sua obediência perfeita ao Pai merece todas as bênçãos, e confiantes Nele, dessas bênçãos também desfrutamos.

               Os v.22-23 nos mostram significado da palavra integridade: 22 Porque todos os seus juízos me estão presentes, e não afastei de mim os seus preceitos.  23 Também fui íntegro para com ele e me guardei da iniquidade”. A mente e o coração do servo de Deus são atacados constantemente pelo inimigo. Tentações brotam a cada instante no coração do servo de Deus, e a única arma realmente eficaz que ele tem (e não há outra necessária) é a Palavra de Deus. A única forma que temos para vencer qualquer tentação, ataque maligno e iniquidade é trazendo a nossa mente e o nosso coração cativos à Palavra de Deus.

    Portanto, quem quer que deseje perseverar em retidão e integridade de vida, então que aprenda a exercitar-se diariamente no estudo da Palavra de Deus; pois, sempre que alguém despreza ou negligencia a instrução, o mesmo cai facilmente em displicência e estupidez, e todo o temor de Deus se desvanece em sua mente[1].

               O resultado dessa obediência e integridade não poderia ser outro. O SENHOR Deus retribuiu e recompensou ao Seu servo segundo a sua “justiça”, ou seja, de acordo com o seu comportamento correto e honesto que não se desviou da Palavra de Deus, com as promessas da Palavra de Deus ele foi abençoado.

               Os v.25-27 nos mostram a “lei da semeadura”. Tudo o que plantamos nessa vida, colheremos, e colheremos da mesma semente em muito maior quantidade, e tudo isso das mãos de Deus! É Deus quem retribui a cada um conforme as obras de cada um. Davi disse:

  • “Para com o benigno, benigno tem mostras”: a palavra “benigno” quer dizer “mostrar-se bondoso”, “demonstrar misericórdia”. Uma das virtudes que Deus requer dos Seus filhos é que eles amem a misericórdia (Mq 6.8).
  • “com o íntegro, também íntegro”: no hebraico há um jogo de palavras aqui emprestadas do comércio dizendo: “com o completo tu ages com plenitude”, ou seja, “com aquele que põe o peso e a medida certa no que ele vende (honestidade) Deus age com plenitude e exatidão não deixando nada faltar na medida de Sua paga”.
  • “Com o puro, puro te mostras”: para com aqueles que são retos e sinceros diante de Deus Ele lhes revelará Sua justiça abençoando-os; aqueles que se afastam da impureza desfrutarão da pura de Deus ainda mais.

“Para com o perverso, inflexível”. No hebraico, literalmente, Davi disse: “para com o perverso te mostras perverso”. Àqueles que são astutos e perversos em suas ações Deus também os trata com astúcia, e os coloca em “lugares escorregadios”, como vemos no Sl 73.18 “Tu certamente os pões em lugares escorregadios e os fazes cair na destruição”, e em Jr 23.12 “Portanto, o caminho deles será como lugares escorregadios na escuridão; serão empurrados e cairão nele; porque trarei sobre eles calamidade, o ano mesmo em que os castigarei, diz o SENHOR”. .

               O v.27 traduz bem o pensamento dos v.25-26. Deus vem em socorro do humilde que clama por Ele, que se vê totalmente sem forças e incapacitado diante dos inimigos e das circunstâncias contrárias. O humilde eleva a sua voz a Deus no meio da angústia e grita por socorro (cf. v.6) e, Deus, prontamente vem em seu socorro. Mas, “os olhos altivos”, orgulhosos e soberbos, Deus os abate.

Aplicação v.20-27: O caráter e as alianças de Deus nunca mudam, mas seu modo de tratar conosco é determinado pelas condições em que nosso coração se encontra” [2]. Ele estabeleceu Sua Aliança com Seus filhos, uma Aliança de Graça a qual Ele não precisava estabelecer e, muito menos nós merecíamos. Esta Aliança por si só é a manifestação da Graça de Deus. Contudo, Ele não Se cansa de nos abençoar e amar, e, por isso mesmo, cumula-nos de bênçãos. Tenha o seu coração e a sua mente cativos à Palavra de Deus; esta é a única forma de você manter-se íntegro perante Ele. Seja humilde, e não tente ser íntegro com base em você mesmo. Somente a Palavra de Deus pode santifica-lo (Jo 17.17).

               Deus em Sua bondade

2) Derrama luz em nossa escuridão, v.28

Exposição v.28: “Porque fazes resplandecer a minha lâmpada; o SENHOR, meu Deus, derrama luz nas minhas trevas”.

               No texto correlato de 2Sm 22.29 a Bíblia diz: “Tu, SENHOR, és a minha lâmpada; o SENHOR derrama luz nas minhas trevas”. Aqui no Sl 18 Davi diz que Deus fez a sua lâmpada resplandecer. Em ambos o textos o significado é o mesmo: Deus é a fonte de luz para o Seu servo. O substantivo “lâmpada” é uma figura de linguagem para descrever a graça de Deus em guardar e manter a vida de Seu servo, bem como a sua descendência até chegar no seu mais ilustre descendente: o Messias.

               “…o SENHOR derrama luz nas minhas trevas”. Que linda confissão de fé Davi faz aqui. Essas palavras nos mostram:

  • A nossa escuridade espiritual: fomos gerados e nascemos nas trevas do pecado. Enquanto Deus não nos retira dessa escuridão, não há esperança para nós.
  • Deus não só acende a nossa lâmpada, mas, transforma nossas trevas em luz. Pense em seu coração como um recipiente tomado pela escuridão; a luz de Deus derramada nele expulsando todas as trevas dali de dentro.

               Essas palavras nos lembram Jo 1.4,5,8 e 9: “4 A vida estava nele e a vida era a luz dos homens.  5 A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela (…) 8 Ele não era a luz, mas veio para que testificasse da luz,  9 a saber, a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem”.

               A situação terrível em que Davi se encontrou nas mãos de seus inimigos foi descrita como “laços de morte, torrentes de impiedade, cadeias infernais” (v.4-5), ou seja, uma situação tenebrosa e sombria. Mas, quando Deus agiu a seu favor todas essas trevas foram dissipadas pelo poder de Deus revelando-lhe a Sua graça e amor.

Aplicação v.28: Quando você se encontrar em aperto e cercado por ameaças sombrias, quando sentir-se rodeado pelas forças infernais, e tomado pela angústia em sua alma como que a escurecer seus olhos, não há outra saída a não ser dirigir seus olhos a Deus e clamar por Ele para que derrame luz em suas trevas.

    “…consideremos como fato que jamais teremos o conforto de ver nossas adversidades levadas a bom termo, a menos que Deus disperse as trevas que porventura nos envolvam e nos restaure a luz da alegria. Contudo, que não nos seja penoso andar nas trevas, desde que Deus se agrade de usar-nos como lâmpadas”[3].

               Por fim, em Sua bondade Deus

3) Dá vitória aos que Nele confiam, v.29-30

Exposição v.29-30:29 Pois contigo desbarato exércitos, com o meu Deus salto muralhas.  30 O caminho de Deus é perfeito; a palavra do SENHOR é provada; ele é escudo para todos os que nele se refugiam”.

               Nestes versículos Davi retoma o assunto do começo deste salmo onde ele exalta a Deus pelo livramento das mãos de seus inimigos a ele concedido.

               Olhando para o passado e vendo o que Deus fizera por ele, Davi expressa não somente a sua gratidão a Deus, mas também sua confiança Nele em capacitá-lo para a batalha. Pelo poder de Deus presente em sua vida ele era capaz de romper as barricadas dos inimigos e saltar os muros deles. É certo que essas palavras nos causam certa estranheza, pois, para nós, a guerra não é algo a ser louvado e nem mesmo desejado. Contudo, devemos nos ater à confiança em Deus que Davi expressa com essas palavras (v.29). Mesmo sendo muito hábil e corajoso guerreiro ele não rouba para si a glória da vitória, antes, credita-a a Deus. É no poder de Deus que ele desbaratou exércitos e tomou de sobressalto a cidades como uma tempestade[4].

               “O caminho de Deus é perfeito”, ou seja, a forma como Deus conduz a vida dos Seus servos é perfeita, não há erros em Deus; Ele não comete equívocos ou deslizes, nem mesmo é pego de surpresa; as circunstâncias estão sob controle absoluto de Deus.

               “…a palavra do SENHOR é provada”, ou seja, as promessas de Deus são plenamente confiáveis, porque quando provada, testada ela se mostra pura e digna de toda confiança, porque tais promessas descansam no caráter de Deus como nos mostrarão os versículos finais deste Salmo. E a promessa de Deus é “ele é escudo para todos os que nele se refugiam”. O escudo é um instrumento de defesa que só cumpre seu papel se usado próximo ao corpo, o que nos lembra da proximidade que devemos ter de Deus em nosso relacionamento com Ele. É claro que Deus é onipresente e o tempo e espaço não são um empecilho para o Seu cuidado para conosco. O que estamos dizemos aqui é que devemos andar em constante contato com a Palavra de Deus e apegados à Sua presença

Aplicação v.29-30: Seu coração está firme nas promessas da Aliança de Deus? Seu coração tem experimentado e confirmado a infalibilidade e veracidade da Palavra de Deus que honra cada uma de Suas promessas? Aqueles que se apropriam das promessas de Deus e depositam sua fé e esperança nas Suas promessas ver-se-ão protegidos e amparados pelo Seu infinito poder, não temerão as ameaças dos inimigos por mais terríveis que elas sejam.

Conclusão

               A bondade de Deus nos é revelada não por merecimento nosso, mas por carecimento. Sem a bondade de Deus estaríamos não somente à mercê dos nossos inimigos como principalmente ainda envoltos nas mais densas trevas. O merecimento está em Cristo, é a Sua obra e sacrífico que nos garante a bondade de Deus e a Sua bênção. Acheguemo-nos a Deus, pois, confiantes somente em Cristo.

[1] CALVINO, 1999, vol.1, p.383.

[2] WIERSBE, 2010, vol.3, p.122.

[3] CALVINO, 1999, vol.1, p.390.

[4] Cf. Ibid, p.390.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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