Canções da Alma – 21ª Mensagem

Salmo 20 – 24

O Messias, o Rei da Glória

Salmo 20

O Dia da Tribulação

 

Oração

“Soberano e Eterno Deus, que em Sua infinita bondade nos salvou da condenação eterna e do pecado, e pelo sangue precioso de Seu Filho Jesus Cristo, nos redimiu e nos constituiu Sua Família. Rogamos-Te, ó Deus, que fale ao nosso coração por meio da Tua Palavra que nos santifica. Que por ela sejamos fortalecidos e que nela confiemos hoje e sempre para que o Teu Nome seja glorificado e exaltado em nossa vida. Que o Teu Santo Espírito lance luz nos mais recôndito do nosso coração por meio da Tua Palavra, e ilumine os nossos olhos para vermos nela Jesus. Sem Ti não podemos ser o que queres que sejamos. Ajude-nos, em Nome de Jesus Cristo, amém!”.

 

Contextualização

               Os Salmos 20 – 24 são o que chamamos de “Salmos Messiânicos”. Eles retratam aspectos da vida e obra do Messias. Por exemplo: o Sl 20 aponta para a invencibilidade do Messias; o Sl 21, o louvor que Lhe deve ser rendido por ser o Rei invencível; o Sl 22 mostra que a Sua vitória Lhe custou um sofrimento terrível, mas, Deus o amparou em todo tempo, como nos mostra o Sl 23, e o desfecho de tudo isso não poderia ser outro senão a Sua entrada e entronização na glória eterna como mostra o Sl 24. Enquanto meditarmos em cada um desses salmos nas próximas semanas, não percamos de vista este aspecto messiânico de cada um deles, pois, eles nos mostram O Messias, o Rei da Glória.

               Por enquanto, voltemos nossa atenção para o Sl 20 que é um cântico congregacional no qual vemos um costume dos israelitas com os qual temos muito a aprender sobre nosso relacionamento com Deus.

               Havia uma determinação na Lei Mosaica para que os israelitas buscassem a Deus antes de suas batalhas (Dt 20.1-4), e todas as vezes que saíram para a guerra sem antes terem buscado a bênção de Deus voltaram derrotados e humilhados, mas todas as vezes que buscaram a face de Deus e a Sua bênção retornaram vitoriosos. Ao que tudo indica, este Salmo se encontra numa situação semelhante, ou seja, Davi o escreveu para ser cantado pela congregação com o rei antes de saírem para uma batalha, e, juntos buscavam a Deus clamando por Sua bênção, a fim de que pudessem vencer o inimigo e honrar o Nome de Deus que estava sobre o Seu povo.

               Nessas ocasiões antes das guerras, o rei apresentava sacrifícios a Deus, os quais eram ministrados pelos sacerdotes, e, enquanto o rei apresentava seus sacrifícios, o povo dizia palavras semelhantes às dos v.1-5. Ditas estas palavras, um indivíduo (certamente um levita sacerdote) fazia a declaração como a que está no v.6, e finalmente, toda a congregação elevava sua voz expressando sua confiança em Deus clamando a Ele por vitória ao rei como descrevem os v.7-9.

               Há uma expressão no v.1 que eu tomarei como título para esta mensagem: O Dia da Tribulação, o qual é o dia em que vemos a invencibilidade do Messias, o Senhor Jesus.

               No caso aqui do Sl 20 este dia era o dia em que um reino inimigo se levantou contra Israel e seu rei Davi. Tal dia trazia angústia e consternação ao povo. Aplicando isso à nossa realidade, o nosso “dia da tribulação”        pode ser aquele em que más notícias nos alcançam, ou que sofremos com a ação maldosa de uma pessoa que quer nos derrubar, ou o dia em que sentimos que o inferno destacou um pelotão maior de demônios para nos assaltar com tentações terríveis. Mas é neste dia que vemos que servimos ao Deus invencível e Todo-Poderoso. Por isso mesmo este “dia de tribulação” é dia de:

1) Buscarmos a Deus, v.1-5

Exposição v.1-5: “Ao mestre de canto. Salmo de Davi. O SENHOR te responda no dia da tribulação; o nome do Deus de Jacó te eleve em segurança. 2 Do seu santuário te envie socorro e desde Sião te sustenha. 3 Lembre-se de todas as tuas ofertas de manjares e aceite os teus holocaustos. 4 Conceda-te segundo o teu coração e realize todos os teus desígnios. 5 Celebraremos com júbilo a tua vitória e em nome do nosso Deus hastearemos pendões; satisfaça o SENHOR a todos os teus votos”.

               Antes de partir para a guerra com seu exército, o rei de Israel tinha de ir ao santuário de Deus e apresentar sacrifícios a Deus enquanto orava pedindo a proteção e a vitória contra os inimigos que invadiram suas fronteiras. Neste exato momento em que ele fazia suas ofertas e orações a Deus, o povo em alta voz dizia as palavras destes versículos. O rei era a figura mais importante ali. Mas, por quê? Como afirma Derek Kidner[1]:

     Neste homem único, o povo inteiro se vê personificado, e sua vida nacional sustentada: ele é “o fôlego de nossa vida”, “a sombra” protetora (Lm 4.20), “a lâmpada de Israel” (2Sm 21.17). Na prática, este papel acaba sendo por grandioso demais para qualquer pessoa senão o Messias, tratando-se, portanto, de um prenúncio Dele.

          Na batalha, o rei era o alvo do exército inimigo que dispenderia o maior número possível de soldados para derrubá-lo. Se o rei caísse, seu exército seria desbaratado, e os inimigos venceriam. Por esta razão, não somente o rei, mas, também o povo buscava a Deus e colocava somente em Deus todas as suas esperanças.

          Seis verbos aqui nestes versículos que estão conjugados no presente do subjuntivo indicam essa expectativa que o povo tinha em relação a Deus:

  • Responder (עָנָה): “O SENHOR te responda” (v.1). Significa “conceder um pedido”. O rei pedia a Deus que lhe desse a vitória, e o povo, juntamente com ele, alimentava essa expectativa do favor divino. É em Deus que encontramos as respostas para nossas orações.
  • Elevar (שׂגב): “o nome do Deus de Jacó te eleve em segurança” (v.1). O significado aqui é “engrandecer, exaltar”. O “nome” aqui é a própria glória de Deus. Assim, o povo clamava com o rei a Deus para que desse a vitória ao rei, pois, o Nome de Deus estava sobre ele e o povo. Se fossem derrotados, o Nome de Deus seria envergonhado. É na glória do Nome de Deus que está a grandeza do Seu povo.
  • Enviar (שָׁלַח): “Do seu santuário te envie socorro” (v.2). O santuário guardava o símbolo da presença de Deus com Seu povo, a saber, a Arca da Aliança. Mais do que de um lugar, e sim, de uma Pessoa, isto é, do próprio Deus, o Seu povo espera por socorro (עֵזֶר). É de Deus somente que devemos esperar por socorro.
  • Suster (סָעַד): “e desde Sião te sustenha” (v.2). Davi já havia transportado a Arca da Aliança para o Monte Sião, onde estava o santuário de Deus, e onde posteriormente fora construído o Templo do SENHOR. É a presença de Deus que sustenta os Seus servos.
  • Conceder (נָתַן): “Conceda-te segundo o te coração” (v.4). O povo esperava que Deus desse ao rei o que este Lhe pedira, a saber, a vitória na guerra. Como nos lembra Warren Wiersbe, Davi nunca saiu para guerrear por sua mera vontade. Antes, todas as batalhas em que ele se envolvera foi para defender o seu reino que estava sob ataque dos inimigos[2]. É em Deus que deve estar o nosso coração para que queiramos apenas aquilo que seja da vontade Dele.
  • Realizar (מָלֵא): “e realize todos os teus desígnios” (v.4). Este verbo traz a ideia de “encher, completar, satisfazer”. Matthew Henry nos lembra que o povo podia dizer tal coisa a Deus porque bem sabia que Davi era um homem segundo o Seu coração, e por isso mesmo, não pediria nada supérfluo e para sua glória pessoal[3]. Somente Deus pode tornar realidade aquilo que o nosso coração anseia, e por isso mesmo a Sua glória deve ser o alvo das nossas petições.

 

               No v.5, encontramos a expressão máxima da esperança do povo. Enquanto intercedia pelo seu rei pedindo a Deus que lhe satisfizesse “a todos os teus votos”, o povo tinha a certeza do resultado daquela batalha: um retorno cheio de júbilo e celebração ao Nome de Deus pela vitória que Ele haveria de conceder ao seu ungido. No dia da tribulação devemos buscar intensamente a Deus e colocar em Suas mãos todas as nossas esperanças de vitória. Eles tinham em mente que sairiam para a batalha hasteando seus pendões (bandeiras), e tanto na batalha quanto após, ao vencerem os inimigos, eles creditariam a Deus todo o louvor e glória pela vitória obtida.

Aplicação v.1-5: Vencemos a batalha antes dela começar, no exato momento em que louvamos a Deus por nos conceder a graça de esperarmos em Seu poder. No dia em que seu coração estiver cercado por inimigos, e atribulado por seus ataques, ponha-se na presença de Deus e busque-O de todo o seu coração. Buscar a Deus é uma atitude de esperança; esperar em Deus é uma atitude de confiança.

               Este é a outra verdade sobre o dia da tribulação. Este dia é dia de:

2) Confiarmos em Deus, v.6-9

Exposição v.6-9:6 Agora, sei que o SENHOR salva o seu ungido; ele lhe responderá do seu santo céu com a vitoriosa força de sua destra. 7 Uns confiam em carros, outros, em cavalos; nós, porém, nos gloriaremos em o nome do SENHOR, nosso Deus. 8 Eles se encurvam e caem; nós, porém, nos levantamos e nos mantemos de pé. 9 Ó SENHOR, dá vitória ao rei; responde-nos, quando clamarmos”.

               Após a oração do rei e o clamor comunitário em seu favor, o sacerdote dizia algo como essas palavras do v.6 expressando sua confiança em Deus Agora, sei que o SENHOR salva o seu ungido; ele lhe responderá do seu santo céu com a vitoriosa força de sua destra”.

               O reino de Davi foi fundado mediante a vocação de Deus constituindo-o como rei de Israel. Não foi Davi quem se declarou rei, mas, foi Deus quem o declarou. A Aliança que Deus fizera com Davi dera-lhe não só a garantia de que ele venceria os seus inimigos, como também veria o seu reino ser perpetuado na pessoa do seu mais nobre descendente, o Senhor Jesus Cristo. Da boca de Deus Davi recebera a sua vocação; das mãos de Deus, o poder para ter seu reino estabelecido e mantido mesmo quando fosse ferozmente atacado por seus inimigos[4].

               O rei e o povo pediram a Deus que respondesse à oração do rei (v.1), e “Agora” o sacerdote interlocutor declara “sei que o SENHOR (…) lhe responderá” (v.6). Antes, eles pediram a Deus que respondesse ao rei “Do seu santuário (…) desde Sião” (v.2), e “Agora” têm a certeza de que será uma resposta portentosa que virá “do seu santo céu com a vitoriosa força de sua destra” (v.6).

               Allan Harman afirma[5]:

    O livramento é ainda futuro, porém dá-se a certeza de que o Senhor ouve e responde ao clamor do rei. Ele faz isso de seu santo trono nas alturas. Sua “mão direita” descreve, em termos antropomórficos, o poder e capacidade de Deus em livrar.

 

               Confiar em Deus significa apropriar-se das Suas benditas promessas. Na aliança que Deus havia feito com Davi, ele prometera-lhe sucesso na batalha (2Sm 7.11), e Davi apropriou-se dessa promessa pela fé”[6].

               Os ímpios “confiam em carros (…) em cavalos” (v.7), e tão grande quanto a sua loucura em confiar em seus próprios recursos será a ruína deles. Enquanto isso, os filhos de Deus declaram: “nós, porém, nos gloriaremos em o nome do SENHOR nosso Deus”. O que distingue o povo de Deus dos demais povos é a sua confiança em Deus. O verbo “gloriar” (זָכַר) e traz a ideia de “relembrar, recordar, trazer à memória, louvar”[7]. Recordando os poderosos feitos de Deus no passado em nosso favor certamente nosso coração será tomado de júbilo e louvor a Deus.

               O resultado para aqueles que confiam em si mesmos é diametralmente oposto ao dos servos de Deus que Nele confiam. Os ímpios “… se encurvam em caem”. Essas palavras descrevem aqueles que foram mortalmente feridos, que se encurvam quando recebem o golpe fatal e ali mesmo caem, isto é, morrem. Enquanto isso “nós, porém, nos levantamos e nos mantemos de pé” (v.8). Pela Graça de Deus somos mantidos de pé. Pelo Seu eterno poder, mesmo quando somos derrubados por golpes dos inimigos, nos levantamos!

               A nossa suficiência vem de Deus (2Co 3.5), e por isso mesmo podemos clamar como Israel fez aqui no v.9: “Ó SENHOR, dá vitória ao rei; responde-nos, quando clamarmos”.

Aplicação v.6-9: Sua confiança está em Deus? Ou você tem posto sua confiança em seus recursos? Mas, observe que uma confiança dividida ofende tanto a Deus quanto nenhuma confiança, pois, em ambos os casos você está dizendo que Deus não é suficiente. Somente a fé exclusiva em Deus O honra, pois, ela além e dizer que Deus é suficiente para o Seu servo também O exalta como o Único Deus merecedor da nossa confiança. O coração que não confia em Deus se enfraquece, cai, definha e morre. Mas, aquele que confia inteiramente no SENHOR Deus tem suas forças renovadas, tem a vida em seu coração e o louvor a Deus em Seus lábios.

Conclusão

               Há ainda uma lição muito importante que tiramos de todo o escopo deste Salmo, a saber, o dia da tribulação é um dia para ser enfrentado também na comunhão com os irmãos. Davi escrevera este Salmo para ser entoado pela Igreja, e juntamente com a congregação do povo de Deus ele dirigiu essas palavras a Deus e recebeu a intercessão do povo; mesmo sendo o soberano de Israel estava junto daqueles que estavam sob o seu cetro. A sua vitória seria a vitória de todo o Israel. A partir do v.5 todos os verbos aparecem na primeira pessoa do plural mostrando que se estamos no povo de Deus, a luta de um é a luta de todos, a dor de um é a dor de todos, e, por isso mesmo, a vitória de um é a vitória de todos. Você tem dado o devido valor à comunhão com os irmãos? Celebrar suas vitórias ao lado de seus irmãos tem sido tão certo quanto o seu pedido de ajuda e intercessão deles?

               Voltando nossa atenção para a Pessoa de Cristo nas palavras deste Salmo é importante lembrarmos que a vitória de Cristo é a nossa vitória, se estivermos unidos a Ele pela fé. A vitória de Cristo não é prometida a qualquer um, mas, somente àqueles com quem Ele estabeleceu Sua aliança.

[1] KIDNER, 1980, p. 119.

[2] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.127.

[3] Cf. HENRY, 2010, vol.3, p.275.

[4] Cf. CALVINO, 1999, vol.1, p.448.

[5] HARMAN, 2011, p.126.

[6] WIERSBE, 2010, vol.3, p.128.

[7] VANGEMEREN (Org), 2011, vol.1, p. 1073.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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