Canções da Alma – 22ª Mensagem

Salmo 20 – 24

O Messias, o Rei da Glória

Salmo 21

O Dia da Celebração

Oração

“Deus Eterno e misericordioso, perante quem não merecemos estar e nem mesmo elevar nossa voz em oração. Porém, pelos méritos de Seu Filho Jesus Cristo nos aproximamos da Tua presença e clamamos para que tu enchas o nosso coração do mais profundo temor e tremor por Ti, para que com um coração reverente e sincero experimentemos da alegria e satisfação que só o Senhor pode nos dar. Assim como a Tua Palavra está aberta perante nós, que os nossos olhos estejam abertos e o nosso coração atento ao que o Senhor tem a nos ensinar nessa ocasião. Transforma-nos. Por Jesus Cristo, o Messias, oramos. Amém!”.

 

Contextualização

               Como vimos semana passada, este Salmo faz parte da “coleção” de Salmos Messiânicos, que retratam vários momentos da vida do Senhor Jesus como fazem aqui os v.8-12. É claro que não devemos perder de vista que ele está relacionado também às vitórias que Deus dera ao rei Davi, o autor deste Salmo o qual ele escreveu para que fosse entoado por toda a Congregação, como indicam as palavras “Ao mestre de canto” no seu título.

               No Sl 20 vimos “O Dia da Tribulação” no qual o povo juntamente com o seu rei buscaram a Deus pedindo-Lhe livramento das mãos dos inimigos. Aqui, no Sl 21 vemos toda a Congregação e o seu rei louvando a Deus por todo o livramento que Ele lhes deu. Assim sendo, temos aqui O Dia da Celebração.

               Duas palavras são muitos importantes aqui neste Salmo e se encontram no v.7: o verbo confiar (בָּטַח) e o substantivo misericórdia (חֶסֶד). O pacto de Deus com Seu povo sempre é preservado por Seu caráter santo e verdadeiro, e nisto vemos a Sua misericórdia (חֶסֶד), por isso mesmo, devemos responder-Lhe com confiança (מִבְטָח), o que infelizmente, nem sempre acontece por causa da nossa incredulidade, mas que por isso mesmo devemos ser constantemente desafiados a não deixarmos de confiar em Deus[1].

               Enquanto meditarmos neste Salmo pense nisso: o seu louvor e gratidão a Deus é na mesma proporção e intensidade do seu clamor a Ele por socorro?

               Para isso precisamos:

1) Regozijar na misericórdia de Deus no passado, v.1-7

Exposição v.1-7: “Ao mestre de canto. Salmo de Davi. Na tua força, SENHOR, o rei se alegra! E como exulta com a tua salvação! 2 Satisfizeste-lhe o desejo do coração e não lhe negaste as súplicas dos seus lábios. 3 Pois o supres das bênçãos de bondade; pões-lhe na cabeça uma coroa de ouro puro. 4 Ele te pediu vida, e tu lha deste; sim, longevidade para todo o sempre. 5 Grande lhe é a glória da tua salvação; de esplendor e majestade o sobrevestiste. 6 Pois o puseste por bênção para sempre e o encheste de gozo com a tua presença. 7 O rei confia no SENHOR e pela misericórdia do Altíssimo jamais vacilará”.

               O v.1 abre este salmo com uma nota impressionante: “Na tua força, SENHOR, o rei se alegra! E como exulta com a tua salvação!”. O povo ali reunido na presença de Deus reconhecia no seu rei que ele tinha:

  • Confiança na força de Deus. O rei se alegrava na força de Deus, porque Deus o havia alçado ao trono e também o sustentava ali, e por isso Davi demonstrava grande alegria;
  • Alegria na salvação que Deus operara na vida de Davi livrando-o de seus inimigos, o que trazia tanta alegria ao coração do rei a ponto do povo se admirar em vê-lo tão alegre pela salvação que Deus operara em sua vida. Calvino afirmou: Feliz é o povo cujo caráter do rei é aquele que faz da força de Deus a sua confiança e da salvação de Deus a sua alegria, que é agradado com todos os avanços do reino de Deus e confia em Deus para sustentá-lo em tudo o que ele faz para o serviço dele”[2].

               Por causa da aliança que Deus fizera com Davi (2Sm 7), o povo constatou:

  • (v.2-3) que Deus lhe respondera a todas as suas orações, satisfazendo-lhe aos desejos do seu coração. Era muito importante que o povo (e o próprio rei Davi) compreendesse que todas as vitórias (salvação) na vida de Davi eram resultado da misericórdia de Deus, e que mesmo Davi sendo o homem segundo o coração de Deus, não foram por seus méritos que Deus lhe satisfez os desejos de seu coração – Davi desejava livramento, e Deus lhe deu. Nenhuma das bênçãos que Davi recebera de Deus fora por mérito pessoal, mas, sim, “bênçãos de bondade”. Tanto a aliança como a manutenção dessa aliança com Davi não era merecimento dele, mas, sim, resultado da misericórdia de Deus[3]. Dessa forma, Davi foi amplamente suprido em tudo por Deus. Além disso, na afirmação “pões-lhe na cabeça uma coroa de ouro puro”, o povo reconhecia que a autoridade para instituir e destituir reis está nas mãos de Deus. Ainda que vivamos num regime democrático em que é servido ao povo escolher seus líderes, toda autoridade neste mundo está subordinada à autoridade de Deus (Rm 13.1-2), e ninguém está no poder se não for pela vontade de Deus.
  • (v.4) que a vida é um dom de Deus. A Ele Davi pediu vida e Dele recebeu. Contudo, aqui há algo mais. Nas palavras deste verso temos a confirmação de que o reino de Davi seria eterno tal como Deus lhe prometera em 2Sm 7.16. E claro que aqui temos uma referência clara ao mais ilustre descendente de Davi, o Messias, o Senhor Jesus Cristo.
  • (v.5) que o rei era um exemplo a ser seguido. O povo constatou que para o rei a glória do SENHOR Deus era grande, e justamente porque Davi amava a glória de Deus, fora por Deus revestido de esplendor e majestade. Um líder cristão sempre deve inspirar os que estão sob sua liderança a glorificarem a Deus.
  • (v.6-7) que a aliança que Deus estabelecera com Davi era eterna, e por isso, ele foi posto “por bênção para sempre”, ou seja, Davi seria para sempre lembrado pelo Seu mais ilustre descendente que se assentaria no seu trono, o Senhor Jesus. E, assim o povo reconheceu que Deus enchera a Davi de “gozo com a tua presença”. A alegria, satisfação e gozo de Davi não estavam baseados nas bênçãos do SENHOR Deus, mas, no SENHOR Deus das bênçãos, e por isso mesmo, “O rei confia no SENHOR e pela misericórdia do Altíssimo jamais vacilará”. Que declaração gloriosa e ao mesmo tempo cheia de humildade. É gloriosa, pois, exalta a Deus como o único merecedor de confiança, e é cheia de humildade, pois, o rei que poderia ostentar poder, majestade e autoridade diante dos homens deixou bem claro para os seus súditos que era a misericórdia do SENHOR Deus que o mantinha firme e que ele dependia somente de Deus.

Aplicação v.1-7: A verdadeira fé nos faz confiar somente na misericórdia de Deus. O povo celebrava e louvava a Deus porque olhando para o rei Davi via em sua vida o agir do Rei dos reis, e olhando para o Rei dos reis reconhecia a Sua misericórdia na vida de Seu servo e de todo o povo. Como pais, esposos, presbíteros, diáconos, professores, ou seja qual for a nossa posição de liderança devemos inspirar os que lideramos a amarem a glória de Deus, a depositarem somente Nele a sua confiança e a crerem que Ele nunca nos recusará a Sua misericórdia. É assim que as pessoas nos veem?

               Para que o nosso louvor seja mais intenso que o nosso clamor também precisamos

2) Confiar na misericórdia de Deus para o futuro, v.8-13

Exposição v.8-13:8 A tua mão alcançará todos os teus inimigos; a tua mão direita alcançará aqueles que te aborrecem. 9 Tu os farás como um forno aceso quando te manifestares; o SENHOR os devorará na sua indignação, e o fogo os consumirá. 10 Seu fruto destruirás da terra e a sua descendência, dentre os filhos dos homens. 11 Porque intentaram o mal contra ti; maquinaram um ardil, mas não prevalecerão. 12 Portanto, tu lhes farás voltar as costas; e com tuas flechas postas nas cordas lhes apontarás ao rosto. 13 Exalta-te, SENHOR, na tua força; então, cantaremos e louvaremos o teu poder”.

               Como bem observa Calvino, de nada adiantaria tanta paz, alegria e deleites dentro dos muros do reino (v.1-7) se o mesmo estivesse sobre assaltos dos inimigos. Por isso mesmo, eles confiavam na misericórdia de Deus também para o futuro.

               Quase todos os verbos nestes versículos estão no futuro, demonstrando assim a confiança do povo de Israel em Deus. O povo de Israel havia aprendido com seu rei a confiar na misericórdia de Deus (cf. v.7), e, por isso mesmo pôs em prática essa confiança na justiça de Deus. Como já vimos, um dos temas mais recorrentes nos salmos é a justiça de Deus revelada em favor dos Seus servos que são de alguma forma, injustiçados e perseguidos pelos inimigos. Assim, os servos de Deus não devem sair executando justiça com as próprias mãos, primeiramente porque a vingança pertence a Deus e Ele promete retribuir a cada um conforme as obras de cada um (cf. Rm 12.19), e em segundo lugar porque a nossa justiça nunca é justa, sempre que a aplicamos damos uma dose extra a fim de punirmos àqueles que nos fizeram algum mal.

               Estes versos, ainda que tenham sua aplicação em relação a Davi e a Israel, são melhores entendidos e aplicados à nossa vida se os virmos à luz das pessoas de Deus e do Messias, pois:

  • (v.8) somente Deus e o Seu Messias podem alcançar e apanhar nossos inimigos. O que nos lembra das palavras do próprio Senhor Jesus em Lc 11.21-22: “21 Quando o valente guarda, armado, a sua casa, em segurança está tudo quanto tem. 22 Mas, sobrevindo outro mais valente do que ele e vencendo-o, tira- lhe toda a armadura em que confiava e reparte os seus despojos”.
  • (v.9-10) somente Deus e o Seu Messias podem executar o juízo contra os inimigos. Os inimigos são “combustíveis” da fornalha do Messias. O fogo sempre está associado ao juízo de Deus. Por isso mesmo é demonstração de tolice pedir que Deus mande fogo do céu sobre nós como se isso fosse algo bom que nos “aquecerá” a fé. Todas as vezes que caiu fogo do céu foi sinal do juízo de Deus. Aqui devemos atentar para o fato de que a própria severidade da punição comprova a profundidade da perversidade”[4]. Os inimigos da Igreja de Cristo podem deflagrar seu ódio, atear fogo contra ela, e provocar-lhe intensa dor, mas, tudo isso não se compara nem de longe com o juízo e fogo eterno que sofrerão por causa da sua iniquidade contra Deus. O 10 nos lembra do que Deus disse a Moisés por ocasião dos Dez Mandamentos em Êx 20.5-6: “5 Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR, teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a maldade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem 6 e faço misericórdia em milhares aos que me amam e guardam os meus mandamentos”.
  • (v.11-12) somente Deus e o Seu Messias podem destruir os inimigos. Os inimigos do povo de Deus, como vimos no Sl 2, são inimigos de Deus (cf. At 9.5), e, portanto, ao atacarem o povo de Deus, a Igreja de Cristo, acertarão contas diretamente com Deus. Contudo, isso acontecerá no tempo de Deus. E quando acontecer será terrível para os inimigos de Deus e do Seu povo. O 12 traz consigo a ideia de que Deus é como um saldado que ao derrubar o inimigo, deixa-o de bruços, e subindo nele o imobiliza forçando-o a virar o rosto em direção a ele enquanto com Seu arco mira bem na face do inimigo e dispara sua flecha fatal. Tal cena nos lembra do que Deus disse a Satanás sobre o juízo que Aquele que era “a semente da mulher” haveria de lhe fazer: “Este [o Messias] lhe ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15).

               Assim, depois dessa belíssima declaração de confiança na misericórdia de Deus que haverá de se revelar no futuro tanto quanto se revelara no passado, o salmo se encerra com mais uma oração de confiança e adoração a Deus. O tempo todo neste salmo, o povo reconheceu que tudo o que Davi lograra como êxito e vitória foi resultado do agir de Deus em sua vida. Por isso, não poderiam terminar este salmo de outa forma, mas tão somente podiam dizer: “Exalta-te, SENHOR, na tua força! Nós cantaremos e louvaremos o teu poder” (v.13). Uma verdade que salta aos nossos olhos aqui é que Deus não precisa de nós para ser exaltado; Ele por Si só faz isso. Ao sermos convidados a exaltá-Lo, com certeza isto é mais um dos Seus atos misericordiosos pelos quais devemos louvá-Lo.

Aplicação v.1-7: Temos pouca ou nenhuma força em nós. Somos incapazes de vencer somente com as nossas forças. Por isso, a única coisa que temos a fazer é clamarmos a Deus por Sua misericórdia para que Ele nos livre dos inimigos que nos cercam diuturnamente. Enquanto estivermos sob o ataque dos inimigos devemos ficar firmes e confiantes em Deus, ainda Ele nos pareça demorado em agir (cf. 2Pe 3.9), pois, certamente Ele agirá no tempo certo. Em vez de alimentarmos ódio ou desejo de vingança em nosso coração contra os nossos inimigos, que alimentemos nossa confiança na misericórdia de Deus.

Conclusão

               No início desta mensagem perguntei: o seu louvor e gratidão a Deus é na mesma proporção e intensidade do seu clamor a Ele por socorro? Tanto quanto ou ainda mais intenso do que o nosso clamor a Deus para que Ele nos socorra deve ser o nosso louvor e gratidão a Deus quando Ele nos socorrer; mais intenso quanto o Dia da Tribulação deve ser o Dia da Celebração. Enquanto Ele não nos responde que o nosso coração se recorde das muitas misericórdias do SENHOR Deus que Ele derramou sobre nós no passado e assim regozije-se confiante em Sua misericórdia!

 

[1] Cf. HARMAN, 2011, p.127.

[2] HENRY, 2010, vol.3. p. 277.

[3] Cf. Ibid, p.277.

[4] CALVINO, 1999, vol.1, p.464.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
This entry was posted in Mensagens Expositivas do Livro de Salmos. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.