Canções da Alma – 23ª Mensagem

Oração

“Amantíssimo Pai, clamamos a Ti desfaça pelo Teu poder todo empecilho ao nosso coração para com a Tua Palavra. Que, enquanto meditarmos sobre o sofrimento e vitória do Seu santo Filho Jesus Cristo lá na cruz, sejamos não somente impulsionados pelo exemplo Dele, mas, acima de tudo, transformados, aperfeiçoados e santificados por Seu sacrifício supremo. Que Ele seja visto em nós, para honra e glória do Teu santo Nome. Em Nome de Jesus oramos. Amém!”.

 

 

O Messias, o Rei da Glória

Salmo 20 – 24

O Comportamento do Messias em Meio ao Sofrimento – Parte I

Salmo 22

O clamor do Messias em meio ao sofrimento

Sl 22.1-21

 

Contextualização

               Na sequência dos Salmos Messiânicos (20 – 24) que estamos vendo nestas últimas semanas, chegamos a este salmo, que sem dúvida alguma é de valor inestimável para o povo de Deus, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Warren Wiersbe afirma[1]:

     Os Salmos 22, 23 e 24 constituem uma trilogia sobre Cristo, o Pastor. No Salmo 22, o Bom Pastor dá a vida por suas ovelhas (Jo 10.1-18); no Salmo 23, o Grande Pastor dedica a vida às ovelhas e cuida delas (Hb 13.20, 21); e no Salmo 24, o Pastor Supremo volta à glória para recompensar suas ovelhas por seu serviço (1Pe 5.4).

               Ao descrever sua própria aflição, Davi, falou pelo Espírito Santo a respeito do sofrimento e aflição do Messias que foram algo incomparavelmente mais terrível do que todas as aflições de Davi e de todos os servos de Deus.

               É verdade que existem versículos neste Salmo que descrevem a situação de Davi, aos quais veremos no transcurso dessa mensagem. Contudo, o fato deste Salmo ser citado 13 vezes no Novo Testamento, sendo que 9 vezes somente no relato do sofrimento e morte de Jesus, nos mostra que este Salmo, portanto, é uma das profecias mais claras a respeito do sofrimento de Cristo. Como Matthew Henry nos lembra, Cristo colocou essas palavras nos lábios de Davi e dos profetas, e, lá na cruz Ele as falou novamente[2].

               Derek Kidner chama este de Salmo de “O Salmo da Cruz”[3]. E Matthew Henry completa: Ao cantar esse salmo, nós devemos manter os nossos pensamentos fixos em Cristo, e ser tão afetados pelos seus sofrimentos quanto experimentar a comunhão deles, e ser tão afetados pela sua graça quanto experimentar o poder e influência dela”[4]. Por isso mesmo meditaremos sobre: O comportamento do Messias em meio ao sofrimento.

               Em Rm 8.28-30 vemos que o propósito de Deus em “todas as coisas” as quais Ele faz com que concorram para o “bem daqueles que amam a Deus” é conformá-los à “imagem de seu Filho para que ele seja o primogênito entre muitos irmãos”. Assim sendo, neste Salmo ao vermos como o Servo de Deus, o Messias, se comportou em meio ao sofrimento temos para nós orientações e esperança para quando estivermos também passando por momentos de sofrimento.

               Nestes versículos (v.1-21) vemos o triunfo da fé em Deus diante das circunstâncias mais angustiantes dessa vida.

1) A fé em Deus insiste mesmo diante do abandono de Deus, v.1-5

Exposição v.1-5: “Ao mestre de canto, segundo a melodia Corça da manhã. Salmo de Davi. Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que se acham longe de minha salvação as palavras de meu bramido? 2 Deus meu, clamo de dia, e não me respondes; também de noite, porém não tenho sossego. 3 Contudo, tu és santo, entronizado entre os louvores de Israel. 4 Nossos pais confiaram em ti; confiaram, e os livraste. 5 A ti clamaram e se livraram; confiaram em ti e não foram confundidos.

               Não temos como saber exatamente o que era a melodia “Corsa da manhã”. Alguns traduzem como “Ajuda ao romper do dia”, o que sugere uma situação de sofrimento.

               O v.1 nos remete ao Calvário, às últimas palavras de Cristo na cruz. “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” (Mt 27.46). Essas palavras revelam um profundo desespero e angústia na alma.  Ninguém, exceto o Filho de Deus lá na cruz experimentou o abandono de Deus. Lá na cruz, Cristo suportou a fúria e a justiça de Deus contra o nosso pecado. Naquele momento somente Deus poderia livra-Lo, mas, era justamente contra o próprio Deus que Cristo estava O qual vindica a Sua justiça contra o pecado e é “santo, entronizado entre os louvores de Israel” (v.3). Não havia quem pudesse vir em Seu socorro. Davi passou por momentos difíceis em sua vida em que sentira a mão de Deus (cf. 2Sm 24.14-17), mas, não da mesma forma que Jesus sentiu na cruz.

               A resposta de Deus parecia muito longe da oração por socorroPor que se acham longe de minha salvação as palavras de meu bramido?” (v.1b); o clamor era feito diuturnamente “clamo de dia, e não me respondes; também de noite” (v.2) e a perturbação tomava conta de seu coração, mas ele dizia “porém não tenho sossego” (v.2b).

               Mas, observe que por três vezes Davi chama a Deus de “Deus meu”, e não somente isso, mas também declara que Ele era o Deus da Aliança com os patriarcas os quais “confiaram em ti, confiaram e os livraste. A ti clamaram e se livraram; confiaram em ti e não foram confundidos” (v.4b-5). E assim, a fé insistiu, permaneceu mesmo quando de Deus o Seu servo não ouviu nenhuma voz. Lá na cruz Cristo viu o amor de Deus em silêncio enquanto a justiça Dele ecoava por todos os lados.

Aplicação v.1-5: Como disse Calvino: “Não existe um sequer dentre todos os santos que não experimente em seu ser, um dia ou outro, a mesma coisa”[5]. Contudo, não há um só ser humano que tenha experimentado o sofrimento que Cristo suportou na cruz. No dia em que você estiver tomado por conflitos em seu coração lembre-se que o Seu Salvador sabe muito bem o que você está passando. Também você deverá entender o que Deus está querendo lhe mostrar por meio do sofrimento. Ele pode estar em silêncio em relação ao seu clamor, mas, não o desamparou. O único filho de Deus que experimentou de fato o abandono Dele, foi o Senhor Jesus, o único que não merecia, mas, era o único que poderia suportar tal abandono porque lá na cruz Ele estava suportando a ira de Deus que era para nós.

2) A fé em Deus insiste mesmo diante do desprezo dos homens, v.6-11.

Exposição v.6-11:6 Mas eu sou verme e não homem; opróbrio dos homens e desprezado do povo. 7 Todos os que me veem zombam de mim; afrouxam os lábios e meneiam a cabeça: 8 Confiou no SENHOR! Livre-o ele; salve-o, pois nele tem prazer. 9 Contudo, tu és quem me fez nascer; e me preservaste, estando eu ainda ao seio de minha mãe. 10 A ti me entreguei desde o meu nascimento; desde o ventre de minha mãe, tu és meu Deus. 11 Não te distancies de mim, porque a tribulação está próxima, e não há quem me acuda.

               Os v.6-7 devem ser interpretados à luz de Is 53.3 que nos mostra o desprezo que os homens iníquos tinham (e têm) pelo Messias, pois, Dele “os homens escondem o rosto”, ou seja, sentem nojo e repulsa como quem olha para um verme (v.6).

               O v.8 deve ser visto à luz de Mt 27.41-44, onde vemos os principais sacerdotes, escribas e os anciãos do povo lançando mão do Sl 22.8 para insultarem a Jesus! É impressionante como eles tiveram a capacidade de aplicar essas palavras a Jesus e não verem que essas palavras eram uma profecia a respeito Daquele de quem zombavam. Quando a liderança erra leva consigo os demais, pois, Mateus afirma que até os ladrões que foram crucificados ao lado de Cristo também zombavam Dele com essas palavras.

               Mas, os v.9-10 expressam a fé e a esperança que Davi tinha em Deus. Novamente, ele chama a Deus de “meu Deus” (v.10), o que nos remete à Aliança de Deus com Seu servo. Deus havia feito uma Aliança com Davi desde antes de seu nascimento (o mesmo Deus fizera com Cristo protegendo-O das garras de Herodes). A Aliança de Deus com Seus filhos vem desde antes da existência deles para mostrar que não é por mérito nosso, mas, pela misericórdia de Deus que somos consagrados a Ele e também salvos.

               Por isso mesmo, no v.11 Davi clamava a Deus que não se distanciasse dele, pois, desde sempre Deus estivera ao seu lado, e, agora que a tribulação se avizinhava dele, não havia ninguém para socorrê-lo, exceto o Deus da Aliança. Deus nos permite ficar sem recursos e nenhuma ajuda para que não tenhamos dúvida de que foi Ele quem nos ajudou e nos socorreu.

 

Aplicação v.6-11: Não espere ser amado pelo mundo. Eles odiaram e odeiam ao nosso Senhor e com certeza também nos odiarão (Jo 15.18). Se há um discurso de ódio sendo feito há séculos é contra a Igreja de Cristo. Em meio aos sofrimentos desta vida, especialmente aqueles por causa da sua fé em Cristo, permaneça firme, e não se esqueça que a base da sua confiança em Deus deve ser somente o caráter fiel de Deus e a Aliança que Ele estabeleceu com você, não por seu mérito, mas, pelo amor Dele.

 

3) A fé em Deus insiste mesmo diante das angústias da alma, v.12-18.

Exposição v.12-18: 12 Muitos touros me cercam, fortes touros de Basã me rodeiam. 13 Contra mim abrem a boca, como faz o leão que despedaça e ruge. 14 Derramei-me como água, e todos os meus ossos se desconjuntaram; meu coração fez-se como cera, derreteu-se dentro de mim. 15 Secou-se o meu vigor, como um caco de barro, e a língua se me apega ao céu da boca; assim, me deitas no pó da morte. 16 Cães me cercam; uma súcia de malfeitores me rodeia; traspassaram-me as mãos e os pés. 17 Posso contar todos os meus ossos; eles me estão olhando e encarando em mim. 18 Repartem entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica deitam sortes”.

               Estes versículos descrevem a intensa angústia que Davi estava passando. Contudo, muitos dos dados descritos aqui nunca aconteceram com Davi e por isso mesmo eles têm um propósito maior, a saber, mostrarem a angústia de Cristo horas antes e durante a crucificação.

               Os inimigos mais fortes são comparados aos “touros de Basã” (v.12), a “leões” (v.13,21) e a “búfalos” (v.21), enquanto que os menores a “cães” (v.16). Basã era a região que hoje é conhecida como as Colinas de Golã, uma região fértil, na qual, bois selvagens viviam. Estes bois rodeavam um alvo comum e o destruíam. O Senhor Jesus se viu cercado por inimigos de todo jeito que se valiam até mesmo da Palavra de Deus para O condenarem. Os inimigos agiram como leões e cães atacando-O.

               O v.14 descreve a terrível angústia que humano algum, exceto Jesus, sentiu. Isaías descreveu o Messias como “raiz de uma terra seca” (Is 53.2) e aqui, Davi O descreve como alguém de quem “Secou-se o meu vigor, como um caco de barro”. É importante ainda destacar que a crucificação não era a pena de morte adotada em Israel. Logo, tudo aqui aponta para a crucificação de Cristo, e Davi estava profetizando a respeito do Messias:

  • “e a língua se me apega ao céu da boca” (v.15); lá na cruz Cristo teve sede (Jo 19.28) e Lhe deram fel e vinho que era um anestésico (Mt 27.34), mas Ele recusou; novamente tentaram Lhe dar dessa bebida para ajudar a suportar a dor (Mt 27.48), mas, foram impedidos de fazê-lo, pois, ao ouvirem Jesus clamar: “Eli, Eli, lamá sabactâni”, que são as palavras do 1 deste salmo “Deus meu, Deu meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46), pensaram que Jesus estivesse clamando ao profeta Elias por socorro, e disseram: “Deixa, vejamos se Elias vem salvá-lo” (Mt 27.49). E assim, a descrição que Davi faz aqui desses inimigos perversos é a de cães que cercam a presa.
  • “traspassaram-me as mãos e os pés” (v.16b). Lá na cruz o Senhor Jesus foi pregado tendo Suas mãos e pés traspassados por pregos. Mas, é importante lembrarmos do que disse Isaías, pois, não foram só os pregos que O traspassaram, mas, “…ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53.5).
  • “Repartem entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica deitam sortes” (v.17-18). O 17 deve ser entendido neste momento também, a saber, Cristo despido ali na cruz, totalmente exposto não só aos olhos dos homens, mas ao mundo espiritual como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29; Ap 13.8). Ali, enquanto Jesus sofria terrível dor e humilhação, Suas vestes eram repartidas entre os soldados (Lc 23.34; Jo 19.24).

 

Aplicação v.12-18: Não permita que o seu coração seja iludido com esse triunfalismo barato que tem sido pregado em nossos dias. Os servos de Deus sofrem, o sofrimento é uma realidade em nossa vida não como meio de conseguirmos as bênçãos de Deus, mas, como identificação com Cristo. O chamado de Cristo para segui-Lo começa com a crucificação e mortificação do próprio ego (Lc 9.23-24) e eu desconheço sofrimento maior que este, a saber, negar a nós mesmos aquilo que tanto queremos para fazermos somente a vontade de Deus.

4) A fé em Deus triunfa enfim, v.19-21.

Exposição v.19-21: 19 Tu, porém, SENHOR, não te afastes de mim; força minha, apressa-te em socorrer-me. 20 Livra a minha alma da espada, e, das presas do cão, a minha vida. 21 Salva-me das fauces do leão e dos chifres dos búfalos; sim, tu me respondes”.

               Apesar das investidas dos inimigos, apesar da intensa angústia em seu coração saiba que a fé em Deus sempre triunfa porque é o próprio Deus quem efetua o socorro e livramento em sua vida. Assim como Cristo, devemos clamar a Deus e esperarmos o Seu agir.

               Nos v.1 e 11, o salmista via Deus longe de seus clamores, mas aqui, pela terceira vez ele se volta para Deus e clama: “não te afastes de mim; força minha, apressa-te em socorrer-me” (v.19), pois, somente Deus poderia livrá-lo dos inimigos.

               As expressões “espada”, “presas do cão”, “fauces [garganta] do leão” e “chifres dos búfalos” apontam para o risco de morte ao qual Ele estava constantemente exposto, porém, apesar disso Ele se dirige a Deus em oração e afirma: “sim, tu me respondes” (v.21). Que bendita confiança!

               Mas, como esse livramento se aplica a Cristo sendo que Ele morreu na cruz? Calvino[6] afirma que devemos olhar para além da cruz, isto é, para a ressurreição. A morte não teve a última palavra sobre Cristo, e do túmulo Deus trouxe Jesus à vida dando-Lhe então a vitória.

               Na cruz a morte parecia ter vencido a Cristo, mas, ao terceiro dia vitória de Cristo sobre a morte lá no túmulo deixou definitivamente conquistada a vitória por nós e é a ressurreição de Cristo a garantia de que também venceremos.

Aplicação v.19-21: Não há decepção para aqueles que confiam em Deus e insistem em confiar a despeito das circunstâncias. A principal vitória do crente não se encontra nesta vida, mas, sim na eternidade.

Conclusão

               Cristo suportou a ira de Deus em nosso lugar; Cristo suportou a humilhação causada por pecadores miseráveis como nós; Cristo suportou angústias em Seu coração que jamais saberemos. Em Cristo temos a maior prova de amor (Rm 5.8).

               Que Deus nos dê a graça de nos comportarmos em meio aos sofrimentos como nosso Senhor Jesus se comportou, a saber, confiando sempre no socorro de Deus e em tudo obedecendo ao Pai.

[1] WIERSBE, 2010, vol.3, p.130

[2] Cf. HENRY, 2010, vol.3, p.279.

[3] KIDNER, 1980, vol.1, p. 123.

[4] HENRY, 2010, vol.3, p.279.

[5] CALVINO, 1999, vol.1, p.471.

[6] Cf. CALVINO, 1999, vol.1, p.494.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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