Canções da Alma – 24ª Mensagem

Oração

“A Ti, ó Pai Glorioso, venho suplicar por instrução na Tua Palavra, iluminação da minha mente para entende-la, e, transformação em meu coração para ser um filho que O agrade, O glorifique e tenha todo o prazer do meu coração em Ti. Retire de mim tudo o que estiver atrapalhando esse objetivo. Em Nome de Cristo Jesus, Teu Filho Unigênito, amém!”

 

O Messias, o Rei da Glória

Salmo 20 – 24

O Comportamento do Messias em Meio ao Sofrimento

Salmo 22 – Parte II

O testemunho do Messias em meio ao sofrimento

v.22-31

Contextualização

               Na primeira parte deste Salmo vimos o clamor do Messias em meio ao sofrimento, e vimos também como a fé em Deus triunfa por Sua misericórdia, quando clamamos a Ele por socorro.

               Hoje, nestes versículos veremos O testemunho do Messias em meio ao sofrimento.  Em momentos de sofrimento (que não são poucos) na vida dos servos de Deus, temos a oportunidade singular de glorificarmos a Ele mostrando às pessoas como atravessamos esses momentos difíceis confiantes em Sua graça e amor, tal como fez nosso Senhor Jesus.

               Estes versículos constituem-se uma das porções mais missiológicas do Antigo Testamento, pois, o Messias começa o Seu testemunho no Seu coração (v.22), depois vai para os filhos de Israel (v.23-26), e parte, finalmente para os gentios (v.27-31).

               O testemunho do Messias em meio ao sofrimento:

 

1) É um louvor pessoal, v.22

Exposição v.22:22 A meus irmãos declararei o teu nome; cantar-te-ei louvores no meio da congregação”.

               O testemunho do Messias teve inicialmente o Seu próprio coração como alvo. Assim, começa o testemunho: “A meus irmãos declararei o teu nome; cantar-te-ei louvores no meio da congregação” (v.22). Note que as ações descritas aqui são individuais (“declararei… cantar-te-ei”).

               Na primeira parte desse Salmo, Davi fala do sofrimento e dor que o Messias suportou, mas, agora Ele fala “da alegria que lhe estava proposta” (Hb 12.2). Proclamar o “Nome” de Deus é proclamar o Seu caráter, falar quem Ele é.

               Após Sua ressurreição Ele apareceu somente aos irmãos. Não há qualquer evidência de que Ele tenha aparecido aos ímpios. Assim sendo, mais uma vez este salmo cumpriu-se em Cristo[1].

               Mas, em Sua vida, Cristo louvou a Deus e O exaltou o tempo todo. Sua vida, mesmo em meio aos sofrimentos sempre apontou para a glória do Pai. Em Jo 17.4-5 lemos: 4 Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer; 5 e, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo”.

               Olhando para Davi vemos dois elementos que se destacam aqui e são fundamentais para louvarmos a Deus: esperança e confiança. Ao olhar para trás e ver tudo o que Deus fizera em sua vida, Davi exaltou a Deus mostrando que sua confiança Nele não foi em vão, pois, Deus se lhe mostrou fidedigno. Por esta razão ele olhou para frente, e seu coração encheu-se de esperança quanto ao futuro, pois, Deus haveria de sustenta-lo.

               Como é importante o nosso coração recordar os maravilhosos feitos de Deus para ser impulsionado para frente cheio de esperança na Graça de Deus! Precisamos o tempo todo dizer a nós mesmos, quão bom e misericordioso é Deus.

Aplicação v.22: Com Cristo aprendemos que a única coisa que realmente importa nesta vida é a glória de Deus, e somente através de Cristo podemos viver para a glória de Deus. Como vemos no Catecismo Maior a Pergunta 1: “Qual é o fim supremo e principal do homem?”, Resposta: “O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”. O testemunho do crente começa com um ato de louvor e adoração a Deus por tudo o que Ele tem lhe feito e avança cheio de esperança no poder de Deus. Testemunhar a respeito de Deus é evidenciar em nossa vida os Seus poderosos feitos de misericórdia. Um coração que estiver inteiramente comprometido com a glória de Deus sempre testemunhará dos Seus poderosos feitos.

               O testemunho do Messias em meio ao sofrimento:

 

2) É um louvor congregacional, v.23-26.

Exposição v.23-26:23 vós que temeis o SENHOR, louvai-o; glorificai-o, vós todos, descendência de Jacó; reverenciai-o, vós todos, posteridade de Israel. 24 Pois não desprezou, nem abominou a dor do aflito, nem ocultou dele o rosto, mas o ouviu, quando lhe gritou por socorro. 25 De ti vem o meu louvor na grande congregação; cumprirei os meus votos na presença dos que o temem. 26 Os sofredores hão de comer e fartar-se; louvarão o SENHOR os que o buscam. Viva para sempre o vosso coração.

               No versículo anterior Davi já nos mostrou que o Messias enquanto louvava a Deus tinha em vista os seus irmãos. Num segundo momento, o Messias conclama ao povo de Deus que O louve, glorifique e reverencie o Seu Nome (v.23). É importante destacarmos aqui que não existe louvor verdadeiro onde Deus não é temido, glorificado e reverenciado.

               E no v.24 ele expõe as razões para que a Congregação louve a Deus: “Porque não desprezou, nem abominou a dor do aflito, nem ocultou dele o rosto, mas o ouviu, quando lhe gritou por socorro”. Jesus agonizando na cruz era o aflito de que fala este versículo. Quando o Seu sangue foi derramado na cruz clamando a Deus pelo nosso perdão e salvação, Deus o ouviu. Deus não livrou Cristo da cruz, pois, foi para isso que Ele veio. Deus não O livrou da cruz, até mesmo por que Jesus não pediu isso ao Pai; na cruz Cristo clamou pelo nosso perdão, e Deus O ouviu.

               Por isso, “De ti vem o meu louvor na grande congregação; cumprirei os meus votos na presença dos que o temem” (v.25). Cristo louvou ao Pai por ter salvado os Seus filhos. Temos neste versículo alguns princípios da verdadeira adoração:

  • De Deus vem o louvor que rendemos a Ele. Nosso coração deve lutar ferrenhamente contra qualquer toda forma de cultuar a Deus que: (1) não esteja de acordo com a vontade Dele; (2) que não O tenha como a única fonte de poder e inspiração para adorá-Lo como devemos. Por vezes somos assaltados por sentimentos enganosos de “darmos o nosso melhor para Deus”, confiados em nossas habilidades e talentos, quando na verdade, uma voz desentoada cujo coração se alegra somente em Deus O agrada, ao passo que uma voz afinada como a de um rouxinol cujo coração está tomado pela vaidade é por Ele rejeitada. Precisamos de Deus para servirmos a Deus.
  • A importância do louvor comunitário. O louvor a Deus é algo que deve estar o tempo todo em nosso coração e lábios. Contudo, o louvor e culto comunitário são muito importantes, pois, é aqui que nos animamos, nos estimulamos “ao amor e à prática das boas obras” (Hb 10.24-25). Você deve ser crente lá fora, mas, não será um bom crente lá fora se não valorizar a comunhão aqui dentro. Além disso, crente anda com crente. O salmista disse que louvaria a Deus e cumpriria os seus votos na presença de outros servos de Deus que o temem.
  • A responsabilidade de cada crente. Votos solenes que feitos “na presença dos que o [Deus] temem” devem ser cumpridos, primeiramente por causa da solenidade destes, pois foram feitos a Deus, e, em segundo lugar, para servirem de testemunho a todos. Quanto descaso é feito com os votos solenes que um dia foram feitos na presença de Deus e da Igreja! Como é fácil para tantos desprezarem esses votos, quer quebrando-os ou ignorando-os.

         E, por esta razão, “Os sofredores hão de comer e fartar-se; louvarão o SENHOR os que o buscam” (v.26). Aplicadas a Davi, essas palavras nos lembram dos banquetes e festas que o rei dava, nos quais todo o povo, especialmente os necessitados podiam saciar sua fome. Mas, aplicadas a Cristo, essas palavras são muito mais expressivas e impressionantes. A vitória de Cristo é a festa do crente; as Bodas do Cordeiro são a nossa alegria: 7 Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe a glória, porque são chegadas as bodas do Cordeiro, cuja esposa a si mesma já se ataviou, 8 pois lhe foi dado vestir-se de linho finíssimo, resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos. 9 Então, me falou o anjo: Escreve: Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro. E acrescentou: São estas as verdadeiras palavras de Deus” (Ap 19.7-9). Lá nossa fome e sede espirituais serão plenamente saciadas por Cristo, e o nosso louvor a Deus ecoará por toda a eternidade.

Aplicação v.23-26: Você foi salvo para viver entre os filhos de Deus, e ser Sua família. Aqueles que não alimentam nenhum prazer pela comunhão com os irmãos aqui nesta vida, não devem alimentar nenhuma esperança de convivência com eles na glória eterna. Aqueles que aguardam a glória eterna e a desejam também demonstrarão satisfação, prazer e alegria na comunhão com os irmãos aqui. Quem não tem prazer na Igreja Visível e Militante, não deve alimentar nenhuma expectativa de pertencer à Igreja Invisível e Triunfante. Quem não se alimenta da Mesa de Cristo aqui, não participará da ceia nas Bodas do Cordeiro.

               Por fim, o testemunho do Messias em meio ao sofrimento:

 

3) É um louvor universal, v.27-31.

Exposição v.27-31:27 Lembrar-se-ão do SENHOR e a ele se converterão os confins da terra; perante ele se prostrarão todas as famílias das nações. 28 Pois do SENHOR é o reino, é ele quem governa as nações. 29 Todos os opulentos da terra hão de comer e adorar, e todos os que descem ao pó se prostrarão perante ele, até aquele que não pode preservar a própria vida. 30 A posteridade o servirá; falar-se-á do Senhor à geração vindoura. 31 Hão de vir anunciar a justiça dele; ao povo que há de nascer, contarão que foi ele quem o fez”.

               O testemunho que se revelou num louvor individual e que depois envolveu a Igreja, o povo da Aliança, agora, avança às nações.   Testemunhando às nações o Messias declara que:

  • Deus será adorado por todos (v.27). Não se trata da crença universalista que diz que todos serão salvos, mas sim que, a Igreja de Cristo é composta de pessoas de todos os lugares do planeta, por esta razão o Evangelho tem de ser anunciado a todo mundo. Contudo, há aqui o aspecto escatológico, pois, no Dia do Senhor Jesus, todos se prostrarão diante Dele e não haverá ninguém que não o fará (Cf. Fp 2.9-11).
  • Deus é o Senhor supremo das nações (v.28). “Pois do SENHOR é o reino, é Ele quem governa as nações” e não os poderosos deste mundo como se pensa. Na oração dominical o Senhor Jesus disse: “Pois teu é o reino, o poder, e a glória para sempre. Amém!” (Mt 6.13).
  • Deus deve ser adorado tanto pelos ricos quanto pelos pobres (v.29). Este versículo é esclarecido à luz de Tg 1.9-10 que diz: “O irmão, porém, de condição humilde glorie-se na sua dignidade, e o rico, na sua insignificância, porque ele passará como a flor da erva”. Ou seja, o pobre é socorrido pela graça de Deus, e o rico só é rico porque Deus lhe permitiu; assim sendo, o pobre que se vê insignificante por causa de sua pobreza deve olhar para a graça de Deus e exultar de alegria, enquanto que o rico, olhando para sua opulência e fartura deve se humilhar diante de Deus porque ele é tão frágil como um erva. Para qualquer pecador, rico ou pobre, reconhecer a Graça de Deus é algo impossível. A menos que Deus venha e abra os olhos do mesmo, este continuará cego em sua arrogância. E não devemos nos assustar com o fato de que os pobres podem ser tão arrogantes, avarentos e presunçosos quanto os ricos!
  • Deus deve ser proclamado de geração em geração (v.30-31). A proclamação do Nome de Deus de geração em geração está totalmente atrelada à Aliança que Ele estabeleceu na qual Ele prometeu fazer “misericórdia até mil gerações” (Êx 20.6) daqueles que O amam e obedecem aos Seus mandamentos. Estes versículos também nos lembram da responsabilidade que temos como pais em instruir aos nossos filhos nos caminhos do Senhor Jesus. Precisamos contar aos nossos filhos que foi Deus quem os fez, e, por isso, eles pertencem a Ele. O grande propósito nosso neste mundo é proclamar o Nome do Senhor Deus e a Sua glória.

Aplicação v.27-31: Preste bastante atenção: não haverá um só ser humano, em todas as eras que não conhecerá a Deus e O adorará. Até mesmo os que hoje O ignoram voluntariamente, no Dia do Senhor haverão de dobrar seus joelhos na presença Dele e O adorar. Nem mesmo aqueles que não tiveram a oportunidade de ouvir a pregação do Evangelho poderão se desculpar diante de Deus, pois, como nos lembra o apóstolo Paulo em Rm 1.19-20, por todos os lugares se veem os “atributos invisíveis de Deus”, e até em seus corações “a norma da lei” (Rm 2.14-15) foi gravada, ou seja, Deus equipou os homens com um senso de certo e errado. Ninguém poderá se desculpar por ter transgredido a Lei alegando ignorância em relação à mesma. Ninguém poderá dizer a Deus que não teve conhecimento da Lei de Deus, pois, não é o conhecimento ou ignorância da Lei de Deus que condena uma pessoa, mas, o fato dela desprezar a pessoa de Deus.

               Este não é o nosso caso. A nós Deus nos revelou Sua Palavra, nos deu a conhecer Sua vontade, nos mostrou claramente o Seu amor e nos converteu a Ele. Bem-aventurados nós somos porque hoje fomos chamados a adorar e servir a Deus, e, no Dia do Senhor Jesus, o Dia do Juízo, nós O adoraremos por termos sido feitos Seu povo, e não como os ímpios, que O adorarão não porque foram convertidos, mas, porque serão obrigados a faze-lo (Cf. Fp 2.9-11).

Conclusão

               Testemunhar da misericórdia de Deus é um ato de louvor; louvar a Deus por Sua misericórdia é o testemunho mais eficaz que podemos dar. Um coração que testemunha e louva a Deus pelas bênçãos derramadas, também compartilhará com a congregação dos santos, e junto aos santos de Deus congregados na sua Igreja, todos estes sairão pelo mundo, por entre as nações e O adorarão testemunhando do Seu amor, pois, assim,a terra se encherá do conhecimento da glória do SENHOR, como as águas cobrem o mar” (Hb 2.14). O avivamento espiritual que esperamos ver acontecer em nossa Igreja e se espalhar pelo mundo começará primeiramente em seu coração. Se você quer ver essa Igreja vibrando no poder de Deus e sendo um canal de bênçãos para o mundo pregando poderosamente a Palavra de Deus, você deverá ver isso acontecer primeiramente em seu coração.

[1] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.132.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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