Canções da Alma – 25ª Mensagem

Oração

“Bom Pastor de nossa alma, alimente-nos com Tua Palavra; sacie-nos a sede que temos de Ti; leve-nos às pastagens verdejantes da Tua Verdade, nós ovelhas teimosas e frágeis totalmente carentes de Ti. Em Nome de Jesus, amém!”.

 

O Messias, o Rei da Glória

Salmo 20 – 24

A Presença do Messias com o Seu Povo

Sl 23

 

Contextualização

               Estamos diante do salmo mais conhecido até mesmo pelos não crentes. Este salmo está inteiramente relacionado à Aliança de Deus com Seu povo. Ele expressa o relacionamento de Deus com aqueles com quem Ele estabeleceu Sua Aliança. Mas, além disso, nada mais sabemos sobre a ocasião em que ele foi escrito. O mais comum é pensar em Davi aqui como ainda um jovenzinho pastoreando as ovelhas de seu pai, e, ao olhar para aquelas ovelhas e o seu cuidado com elas, faz uma analogia. Contudo, as palavras deste salmo revelam um crente maduro, experiente, que havia passado por várias situações em sua vida nas quais presenciara a mão de Deus sempre cuidando dele. Além disso, não podemos esquecer que Davi utilizou duas metáforas aqui: a do bom pastor (v.1-4) e a do bom anfitrião (v.5-6), e ambas mostrando o cuidado de Deus para com Seus filhos.

               Calvino[1] cria que este salmo foi escrito na fase adulta de Davi, num momento em que ele gozando de tranquilidade, não deixou seu coração se enganar como acontece à maioria dos homens, os quais estando regalando-se em suas conquistas se esquecem de Deus. Para que o seu coração não perdesse de vista que tudo o que ele era e tinha era resultado da graça de Deus, então ele entoa este salmo exaltando a Deus.

               Lembremo-nos ainda de que este salmo faz parte da sequência que começou no Sl 20 e vai até o Sl 24 nos quais vemos vários aspectos do ministério do Messias, o Senhor Jesus Cristo. Aqui vemos: A Presença do Messias com o Seu Povo.

               O Senhor Jesus Cristo está presente em nossa vida:

1) Suprindo as nossas necessidades, v.1-3

Exposição v.1-3:O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará. 2 Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso; 3 refrigera-me a alma. Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome”.

               A declaração inicial deste salmo chama a nossa atenção para o fato mais importante da vida do crente: “O SENHOR é o meu pastor”. É a presença de Deus (e de Cristo, o Messias) com o Seu povo a base de toda a segurança. Observe que estes versículos começam com no Nome do pactual de Deus “SENHOR”, e terminam falando “do seu nome”.

               Consideremos o seguinte sobre Nome de Deus aqui, SENHOR (יְהוָ֥ה). Este Nome sempre é um nome composto, ou seja, sempre vem acompanhado de outra palavra. Assim, cada parte desse salmo expressa algo do caráter de Deus:

(Gn 22.14) YEHWAH-Yeraêh “O SENHOR Proverá” – “nada me faltará”;

(Jz 6.24) YEHWAH-Shalom “O SENHOR é paz” – “Leva-me junto às águas de descanso”;

(Êx 15.26) YEHWAH-Roph’eka “O SENHOR que te sara” – “refrigera-me a alma”;

(Jr 33.16) YEHWAH-Tsidqenû “SENHOR, Justiça Nossa” – “guia-me pelas veredas da justiça”;

(Ez 48.35) YEHWAH-Shammáh “O SENHOR está ali”– “Tu estás comigo”;

(Êx 17.15) YEHWAH-Nissî “O SENHOR é minha bandeira”– “o teu bordão e o teu cajado”;

(Lv 20.8) YEHWAH-Meqaddishkem “O SENHOR que santifica” – “Unges-me a cabeça com óleo”.

               Ao chamar Deus pelo Seu Nome pactual (יְהוָ֥ה), e ao dizer que Deus faz tudo isso “por amor do seu nome”, Davi está:

  • Dizendo a si mesmo que todo o sucesso em sua vida era resultado da presença de Deus com ele. Uma das coisas mais difíceis para nós é o exercício da gratidão. Com quanta facilidade a arrogância toma conta do nosso coração e deixamos de exercitar a temperança e a humildade na presença de Deus. Com quanta facilidade usurpamos a glória que é de Deus. Nada nos falta porque Deus está presente.
  • O Senhor Jesus é pastor somente do Seu povo. É fundamental que a pessoa diga com convicção “O SENHOR é o MEU pastor”. Essas palavras não só revelam a quem você pertence (você é de Deus e Deus é seu), como também, o artigo definido deixa bem claro a exclusividade em questão: o SENHOR é o pastor da sua alma, o único que sua alma precisa, e o único que pode apascentar seu coração.

               Quem tem este Deus maravilhoso como pastor de sua alma pode dizer “nada me faltará”. Por isso mesmo, Davi passa a mostrar como o Senhor Jesus, o Bom Pastor supre todas as necessidades das suas ovelhas:

  • “Ele me faz repousar em pastos verdejantes”. A ideia aqui não é só de uma pastagem forrada de grama verdejante, mas principalmente de abrigo. Os apriscos eram construídos onde havia alimento para as ovelhas, e onde elas poderiam ser abrigadas à noite quando a temperatura caía vertiginosamente e quando os inimigos atacavam. Na presença de Cristo encontramos alimento e abrigo deste mundo frio e hostil.
  • “Leva-me para junto das águas de descanso; refrigera-me a alma”. Se as noites eram frias, os dias eram de calor escaldante, o que poderia ser fatal para as ovelhas desabrigadas. Por isso, onde havia águas calmas e frias, ali era um bom lugar para elas estarem descansando no momento mais quente do dia. “Levar”, aqui, é uma atitude gentil e amorosa conduzindo as ovelhas para águas tranquilas, pois, águas correntes lhes seriam fatais. Davi sentia na presença de Deus o refrigério que sua alma tanto buscava. É na presença de Deus que temos o refrigério paras as dores angustiantes de nossa alma.
  • “Guia-me pelas veredas da justiça por amor do teu nome”. As veredas aqui eram trilhas, caminhos percorridos frequentemente a ponto de ficarem batidos e tornarem-se o caminho próprio para andar. O pastor vai à frente guiando as ovelhas. Elas não são empurradas como os bovinos, mas, sim, chamadas. Elas seguem a voz do seu pastor. Foi justamente a essa figura que o Senhor Jesus recorreu ao falar do nosso relacionamento com Ele. Em Jo 10.16 Ele diz que as Suas ovelhas sempre ouvirão a Sua voz. Muitos crentes se comportam como vacas e não como ovelhas. Carecem de alguém sempre “empurrando-os”, bajulando-os e aplaudindo-os senão ficam magoados e ofendidos. Ó, crente! Se você está agindo assim, pare com isso imediatamente, peça perdão a Deus e ande nas veredas da justiça. O compromisso de Deus é com o Nome Dele, e este também deve ser o nosso compromisso.

Aplicação v.1-3: No momento em que você tiver uma necessidade, o Bom Pastor, Jesus Cristo estará à sua frente lhe mostrando onde está o alimento, o repouso e o refrigério para o seu coração e você verá que Ele lhe é suficiente. Ouça o Bom Pastor, Ele estará à sua frente chamando você para segui-Lo. Confie Nele e vá. Se você precisa de alimento para sua alma e abrigo para o seu coração, ouça o Bom Pastor, pois, Ele sabe como alimentar seu coração, como refrigerar a sua alma em meio às angústias dessa vida.

               O Senhor Jesus Cristo, o Bom Pastor, está presente em nossa vida:

2) Livrando-nos dos perigos, v.4

Exposição v.4:4 Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam”.

               A vida da ovelha de Cristo, o Bom Pastor, não é só uma “campina verdejante” regada por “águas de descanso”. Sempre, sempre, nos deparamos com o “vale da sombra da morte”. Mas, o que é o “vale da sobra da morte”? Há algumas explicações e todas plausíveis. Para Warren Wiersbe, o vale da sombra da morte “representa qualquer experiência difícil em nossa vida que nos enche de temor”[2], o que inclui também a presença da morte. Para Derek Kidner são as “portas da morte”[3], e o mesmo afirma Matthew Henry[4]. Para Calvino, são as “diversas calamidades” pelas quais podemos passar[5]. Contudo, a explicação mais apropriada eu ouvi do Rev. Jorge Alberto Canelhas numa pregação sobre este salmo. Ele disse que “o vale da sombra da morte” era um vale por onde as ovelhas tinham de passar para encontrar comida e proteção. Mas, atravessando penhascos e desfiladeiros, ao olhar para a parede de pedra do outro lado do vale, elas viam a sombra do lobo ali projetada, o que significava que o lobo estava em cima deles pronto para ataca-las a qualquer momento. Caso esse ataque acontecesse elas ainda corriam o risco de caírem no desfiladeiro e morrer. De qualquer forma, aquele vale poderia ser-lhes fatal não fosse pela presença do pastor ali com elas, o qual, com o seu bordão era um bastão pesado com o qual o pastor poderia atordoar e até matar um lobo ou outra fera que atacasse o rebanho; já o cajado, era uma vara mais longa com uma das extremidades curvada usada para puxar uma ovelha que tivesse caído em algum buraco ou em alguma situação de risco. Dessa forma a ovelha era consolada. O consolo ela a certeza de que o pastor não a deixaria morrer nas garras do inimigo.

               Davi viu nisso uma analogia ao cuidado de Deus para com a sua vida. Ele havia passado por “cadeias infernais e tramas de morte” (Sl 18.5), e sabia muito bem o que era ter a morte se avizinhando. Ele sabia muito bem o que era passar por um vale onde a morte projetava sua sombra, mas, também sabia que Deus estava com ele, e que lhe protegeria de todos os inimigos, e, por isso mesmo, ele teve serenidade para enfrentar a morte.

Aplicação v.4: Se em momentos de necessidade o Bom Pastor vai à sua frente chamando-lhe para as pastagens verdejantes onde você encontrará alimento e repouso, em momentos de terríveis ameaças e perigos Ele se porá ao seu lado para proteger-lhe, e assim você terá a serenidade para enfrentar a morte. Porque temer a morte se Aquele que a domina está ao seu lado?

               O Senhor Jesus Cristo está presente em nossa vida:

3) Honrando-nos diante dos inimigos, v.5-6

Exposição v.5-6:5 Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários, unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda. 6 Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do SENHOR para todo o sempre”.

               Alguns exegetas entendem que a ideia deste versículo ainda é a de um pastor que leva suas ovelhas para as pradarias (“mesa”) repletas de alimento (cf. v.2), onde ele vigia o rebanho impedindo que os inimigos se aproximem. O mesmo é feito com a palavra “cálice” a qual é interpretada como as “águas de descanso” onde as ovelhas saciavam a sede[6]. Contudo essa interpretação seja bela e plausível, ela não reflete a ideia central aqui do versículo.

               A palavra “mesa” (שֻׁלְחָ֗ן) alude à refeição farta que um anfitrião prepara para o seu convidado[7], o qual era recebido com honras e cuidado especial como nos mostra a expressão “unges-me a cabeça com óleo”, o qual, entre outros significados destaca-se a da presença santificadora e consagradora do Espírito Santo.  

               Sobre a mesa havia alimento em abundância e o seu cálice transbordava de vinho, figuras de alegria e satisfação. J.H. Jowett comentando este versículo traz a seguinte ilustração[8]A hospitalidade oriental garante segurança ao convidado. Todas as sanções sagradas da hospitalidade se reúnem em torno dele para sua defesa. Ele é levado para a tenda, onde o anfitrião lhe oferece alimento, enquanto os perseguidores do qual escapou permanecem do lado de fora com expressão carrancuda”.

               Esta é a mensagem desse versículo, especialmente se a olharmos à luz do v.6 que fala sobre a “Bondade e misericórdia” constantes na vida do servo de Deus por “todos os dias da minha vida” e o seu desejo de habitar “na Casa do SENHOR para todo sempre”. Embora Davi esteja falando aqui do tabernáculo como “Casa do SENHOR” há algo mais aqui, a saber, a Glória Eterna, o Céu. Assim sendo, como alguém definiu com propriedade: o Céu é o lugar onde os amigos se deleitam na mais profunda alegria enquanto os inimigos ficam de fora.

               O crente, aquele que pode chamar a Jesus de “SENHOR” e de “meu pastor”, tem a certeza expressa no Sl 73.24: “Tu me guias com o teu conselho e depois me recebes na glória”.

               Preste atenção: a honra que Cristo promete a nós, Seus servos, não é para este mundo, até mesmo porque sempre haveremos de ser humilhados pelo mundo, sofreremos golpes que nos machucarão. É claro que experimentamos já nesta vida do cuidado de Cristo curando nossas feridas causadas pelos inimigos, e a Sua Verdade honrando-nos diante dos homens que nos caluniam e falam falsamente contra nós. Porém, nosso cálice transbordará e a nossa alegria será constante e eterna somente lá na Glória. É nos Céus que deve estar o nosso coração e todo o nosso desejo de sermos honrados, porque esta honra ninguém a tira de nós. A nossa vida aqui na terra não tem sentido algum se não for vivida sob a perspectiva da Glória Eterna.

Aplicação v.5-6: Nos momentos de necessidade, o Bom Pastor vai à nossa frente nos chamando e mostrando onde encontrar alimento e proteção. Quando perigos se avizinham de nós, Ele vem ficar ao nosso lado. Quando nossa vida aqui chegar ao fim, Ele nos dirá: “Vem para a minha presença, meu filho”. A certeza de que o Bom Pastor que deu a Sua vida pelas Suas ovelhas (Jo 10.11) está conosco o tempo todo nesta vida fortalece a nossa esperança de um dia estarmos com Ele em Sua Glória. Encarando a vida assim, nem mesmo a morte nos assusta. Antes, a morte passa a ser vista apenas como mais uma etapa da nossa existência, a porta que se abre para a Eternidade de Glória.

Conclusão

               Quero ainda chamar a sua atenção para um aspecto muito importante neste salmo: a vida em comunidade. Este salmo fala dos filhos de Deus vivendo como ovelhas num rebanho e num aprisco. É na comunhão da Igreja que os filhos de Deus são alimentados pela Palavra, protegidos pelos Meios de Graça e fortalecidos na comunhão da Mesa do Senhor Jesus. Que crente pode alegar comunhão com o Bom Pastor se menospreza o povo de Deus, a Igreja? Que Hb 10.24-25 ecoe sempre em nosso coração. Amém!

[1] CALVINO, 1999, vol.1, p.509.

[2] WIERSBE, 2010, vol.3, p.134.

[3] KIDNER, 1980, vol.1, p.130.

[4] HENRY, 2010, vol.3, p. 288.

[5] CALVINO, 1999, vol.1, p.514.

[6] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p. 134.

[7] Cf. VAN GEMEREN (Org), 2011, vol.4, p.124.

[8] In, MACDONALD, 2011, vol.1, p.393.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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