Canções da Alma – 26ª Mensagem

Oração

“Oh Soberano e Eterno Rei da Glória, diante de quem tudo é nada, o maior dos mortais é um verme; Tu que habitas a Eternidade e tem o nome de Santo, que em Sua graça e misericórdia Se digna a acolher pecadores como nós. A Ti elevamos nossa voz e clamamos para que fales ao nosso coração. Que tudo agora dê lugar à Tua Palavra e o nosso coração seja impactado, confrontado, transformado e fortalecido pelo Teu excelso poder. Assim oramos em Nome de Jesus, amém!”.

 

O Messias, o Rei da Glória

Salmo 20 – 24

O Reinado Absoluto de Cristo

Sl 24

 

Contextualização

               É importante que entendamos o contexto deste salmo. A maioria dos exegetas e comentaristas entendem que este salmo é hino processional entoado no momento em que Davi trazia para a Jerusalém a Arca da Aliança (2Sm 6.12-19; 1Cr 15.1–16.3), e depois, recordando este momento especial. Warren Wiersbe[1] o vê como uma antífona, ou seja, um hino em que uma parte do povo canta e outra parte do povo responde. Assim sendo:

– A congregação iniciava o cântico com os v.1-2,

– Um dirigente perguntava com o v.3,

– A congregação respondia com os v.4-6,

– Um interlúdio era feito com o v.7. As versões mais antigas trazem no final do v.6 a expressão hebraica סֶֽלָה que de conformidade com alguns exegetas, significa “Para levantar”, indicando assim à congregação que todos deveriam ficar em pé ou levantar a voz diante da ordem dada no v.7,

– Um dirigente fazia uma pergunta à congregação com as palavras do v.8a,

– A congregação respondia com o v.8b-9,

– O dirigente repetia a pergunta do v.10a,

– E toda a congregação exultando de alegria respondia com o v.10b.

               Este salmo encerra a série que vem desde o Sl 20 falando sobre o Messias, o Senhor Jesus Cristo.

               Como pode aquele homem, filho de um carpinteiro da Galileia, filho de um ninguém oriundo de um lugar sem qualquer importância, que passou mais tempo de sua vida com pessoas que viviam à margem da sociedade, que comia com pessoas cujo comportamento não era bem visto pelos religiosos, que vivia de um lugar para outro não tendo sequer um lugar para dormir que pudesse dizer que seu, que no fim de tudo ainda foi acusado, preso e condenado à pior e mais desonrosa forma de morte, sim, como pode Este ser o Rei da Glória?

               Foi pensando assim que os judeus em sua maioria deram as costas para o Senhor Jesus (cf. Jo 1.11). Mas, justamente Este que foi rejeitado pelos judeus e por muitos outros, Este que foi ridicularizado pelos ímpios arrogantes, Ele mesmo é o Rei da Glória. E apesar de ter vivido de forma tão simples e abnegada, não tendo nada além do necessário para viver, Ele é o Rei da Glória cujo reinado é absoluto e eterno. E esta é a mensagem de Deus para o seu coração nesta ocasião: O Reinado Absoluto de Cristo.

               Abraham Kuyper afirmou: “Não há um único centímetro quadrado, em todos os domínios de nossa existência, sobre os quais Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: ‘É meu!’”.

               Cristo reina absolutamente:

1) Sobre toda a Criação, v.1-2

Exposição v.1-2: “Ao SENHOR pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam. Fundo-a ele sobre os mares e sobre as correntes a estabeleceu”.

               Assim este salmo se inicia constatando as seguintes verdades:

  • Deus é o dono de tudo o que existe: a palavra “terra” (אֶרֶץ) aqui não é o planeta terra, até mesmo porque eles não tinham o conhecimento que temos sobre isso, mas sim, o chão, o solo, o qual Deus estabeleceu sobre as águas tanto dos mares quanto dos rios. Enquanto isso a palavra “mundo” (תֵּבֵל) é mais abrangente que “terra”, pois, além de abranger a terra, também abrange tudo o que está sobre ela (os animais, a vegetação, as águas, todos os tesouros, e, especialmente o homem[2]), e tudo o que está neste universo. O judeu entendia que ele era apenas um mordomo das coisas que tinha em sua posse, mas, o dono de tudo era Deus. Inclusive, eles entendiam que até seus corpos não lhes pertenciam. É de textos como este que extraímos uma doutrina muito importante, a saber, a doutrina da Mordomia Cristã. Tudo é de Deus e do Seu Cristo (Ap 11.15).
  • Deus é o Criador e o mantenedor de tudo o que existe: Como dono de fato e de direito que é Ele cuida de Sua Criação. Retomamos aqui um assunto que já vimos no Sl 8 e também no Sl 19, a saber, na vastidão de um universo tão grande como o nosso, somente nosso planeta tem vida, uma variedade tão grande de vida. Isso deve nos fazer refletir não só no cuidado que Deus tem conosco, mas, principalmente na grandiosidade do Ser de Deus. Ele que habita a glória eterna, olha para esse planeta que é um grão de areia se comparados a outros neste universo, um planeta que tem tudo para ser insignificante se comparado à vastidão desse universo. Mas foi neste pequeno planeta que Deus revelou o Seu amor enviando o Seu Filho.

Aplicação v.1-2: Você se vê como um mordomo de Deus com relação às coisas que você diz que são suas como os seus bens materiais, seu salário e especialmente o seu corpo? Você tem administrado todas essas coisas sabendo que um dia o Verdadeiro Dono delas virá para ajustar contas com você? Deixe-me ir mais além. Quero falar agora com os pais. Como você olha para os seus filhos? Você os vê como uma extensão sua? Ou como alguém que Deus lhe deu para fazer você feliz? Alguma vez lhe ocorreu que eles não são de fato seus, pois são de Deus, e que fazem parte da Aliança que Ele estabeleceu com você e sua família? Como você tem cuidado dos seus filhos? Como você tem os orientado, disciplinado e corrigido? Você exige deles obediência e respeito a você, ou você tem lhes mostrado que em obedecendo a você estarão honrando a Deus? Mas, você tem certeza de que aquilo que você quer que eles lhe obedeçam realmente é algo que glorifica a Deus? Nossos filhos não são nossos; são de Deus!

               O reinado absoluto de Cristo também é visto

2) Sobre o nosso coração, v.3-6

Exposição v.3-6: “Quem subirá ao monte do SENHOR? Quem há de permanecer no seu santo lugar? O que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à falsidade, nem jura dolosamente. Este obterá do SENHOR a bênção e a justiça do Deus da sua salvação. Tal é a geração dos que o buscam, dos que buscam a face do Deus de Jacó”.

               Estes versos estão descrevendo o caráter do verdadeiro adorador que Deus está procurando (cf. Jo 4.23-24), o caráter de quem rendeu-se a Cristo pela fé. Eles também retomam o assunto do Sl 15.

               Mas, devemos nos reportar a 2Sm 6.1-11, onde vemos a primeira tentativa de Davi em trazer a Arca da Aliança para Jerusalém. Ele aparelhou um carro de bois novo com bois que nunca tinham puxado um carro, fazendo o que muitos fazem hoje, a saber, inovações carnais, em vez de obedecerem ao que Deus prescreve na Palavra para a Sua adoração e culto. De repente os animais tropeçaram, e Uzá, estendeu a mão para segurar a Arca. O que parecia um gesto de zelo e preocupação (e certamente o foi) em não ver a Arca do SENHOR ser profanada por tocar no chão, Deus o viu como um ato irreverente: “Então, a ira do SENHOR se acendeu contra Uzá, e Deus o feriu ali por esta irreverência; e morreu ali junto à arca de Deus” (2Sm 6.7). Diante disso, Davi se desgostou tanto com Deus que até chamou aquele lugar de “Perez-Uzá” (2Sm 6.8). Com certeza Davi pôs-se a pensar: “Quem subirá ao monte do SENHOR? Quem há de permanecer no seu santo lugar?” (v.3). Isso não é privilégio para qualquer um!

               Algum tempo depois, Davi ficou sabendo que Deus abençoara a casa de Obede-Edom, e assim, ele entendera que era hora de trazer a Arca para Jerusalém. Dessa vez ele fez como Deus ordenara. A Arca tinha de ser carregada sobre os ombros dos sacerdotes levitas devidamente consagrados a Deus, os quais não podiam sequer tocar na Arca, mas, transportá-la segurando nos varais passados em argolas nas laterais da Arca. E a cada seis passos que davam bois e carneiros cevados eram sacrificados a Deus (2Sm 6.13). Mas, a purificação que os sacerdotes tinham de observar chamou a atenção de Davi. Deus requer consagração e dedicação dos Seus servos. Deus requer santidade e obediência para com a Sua Palavra.

               Assim sendo Davi descreve quem é que está em condições de se apresentar diante da “face do Deus de Jacó” (v.6).

  • Quem é puro nos seus atos, “O que é limpo de mãos” (v.4a): As obras dos filhos de Deus glorificam a Deus. Quando eles se deparam com obras malignas se aparta delas; quando são repreendidos por conta de alguma obra iníqua (até mesmo os mais santos dos homens são pecadores), arrepende-se a aparta-se de tais obras, e busca o perdão de Deus, e assim têm suas mãos purificas.
  • Quem é puro nos pensamentos e motivações do coração “e puro de coração e que não entrega a sua alma à falsidade” (v.4b): Todas as obras externas e visíveis que fizermos se vierem acompanhadas de pensamentos e motivações espúrias e perversas, desonram a Deus tanto quanto qualquer obra explicitamente iníqua. Todos nós conseguimos fazer obras que aos olhos humanos são belas, mas, Aquele que sonda os corações sabe com quais motivações as realizamos. Somos capazes das mais belas obras com as mais podres motivações. Esse fato deve nos fazer tremer diante de Deus. Esse deveria ser o único temor em nosso coração, e não o “temor dos homens”, ou seja, ficarmos preocupados com os que as pessoas pensarão de nós.
  • Quem é puro nas palavras “nem jura dolosamente” (v.4c): um juramento feito com a intenção de enganar. O rapaz que faz juras de amor à sua namorada a fim de convencê-la a fornicar com ele, quando na verdade deveria jurar para si mesmo nunca defraudar aquela que não sua mulher; o candidato ao ministério pastoral que faz juramentos no dia da sua ordenação, mas, com o propósito de ter um “emprego” garantido e não com o desejo de honrar a Deus. O crente que faz “voto” para Deus dizendo: “Se o Senhor me der um bem eu o dedicarei ao Seu serviço”, mas, que quando consegue tal bem, o usa de forma egoísta. Isso é jurar dolosamente. Juramentos mentirosos os quais fazemos sem qualquer intenção de cumpri-los. Mas, aquele que faz juramentos com intenção de glorificar a Deus, juramentos verdadeiros, e os cumpre, este honra a Deus.

               Os v.5-6 descrevem as bênçãos que os verdadeiros adoradores verdadeiramente consagrados a Deus recebem:

  • Ele é abençoado particularmente (v.5): De Deus ele receberá a “benção e a justiça”, ou seja, ele prosperará em tudo o que fizer porque o seu sucesso é obra da graça abençoadora de Deus, e receberá a justiça de Deus tanto justificando-o (perdoando), como também protegendo-o dos inimigos que lhe fizerem algum mal.
  • Ele é abençoado pactualmente (v.6): Os benefícios e bênçãos da Aliança de Deus com um filho Dele são percebidos e desfrutados exclusivamente com o povo da Aliança. João Calvino ressalta aqui o fato de que as bênçãos da Aliança são somente para quem é membro do povo de Deus. Embora o Santuário de Deus estivesse aberto para todos os judeus, “Deus não estava perto de todos eles, mas tão-somente daqueles que o temiam e o serviam sinceramente, e que haviam se purificado das contaminações do mundo, a fim de se devotarem à santidade e à justiça”[3]. Essa mesma temática é vista no Sl 133, o qual nos mostra que onde os irmãos estão vivendo em comunhão para ali o SENHOR Deus ordena a Sua bênção e a vida para sempre (Sl 133.3).

Aplicação v.3-6: Somente através do sacrifício remidor e santificador do sacrifício de Jesus é que podemos alcançar tão profunda santidade e justiça. Somente através de Jesus é que podemos nos apresentar como verdadeiros, sinceros e dedicados adoradores a Deus. Sem a santidade e justiça de Jesus não resistimos à santidade e justiça de Deus. Por isso é que Jesus tem todo o direito de ser o Rei absoluto de nossas vidas e ter total e permanente exclusividade sobre o nosso coração.

               Por fim, o reinado absoluto de Cristo é também

3) Sobre a Glória Eterna, v.7-10

Exposição v.7-10:7 Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó portais eternos, para que entre o Rei da Glória. 8 Quem é o Rei da Glória? O SENHOR, forte e poderoso, o SENHOR, poderoso nas batalhas. 9 Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó portais eternos, para que entre o Rei da Glória. 10 Quem é esse Rei da Glória? O SENHOR dos Exércitos, ele é o Rei da Glória”.

               Por cinco vezes neste texto Deus é chamado de “Rei da Glória”. Esta Glória foi transferida a Cristo, e no Dia do Seu retorno Ele a exibirá em toda a Sua força e poder (Mc 13.26; At 1.11; Ap 5.12-13).

               Mas, o que quer dizer a expressão “Levantai, ó portas, as vossas cabeças, levantai-vos, ó portais eternos” (v.7,9)? A melhor tradução aqui foi oferecida por Martinho Lutero: “Dai boas-vindas ao Senhor de todo o coração”[4]. Os portais das muralhas de Jerusalém se abriam para fora. Sem dúvida havia espaço para a Arca passar nos ombros dos levitas. Davi então ordena ao povo que no momento em que a Arca parasse ante aos portões de Jerusalém todo o povo se levantasse e desse boas-vindas ao Rei da Glória. Este Rei da Glória é “forte e poderoso, o SENHOR poderoso nas batalhas…o SENHOR dos Exércitos” (v.8 e 10).

               Mas porque este cântico repete a expressão “Levantai ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó portais eternos”? Warren Wiersbe[5] faz uma afirmação belíssima explicando essa questão.

               A primeira vez que a expressão aparece (v.7), refere-se quando Jesus entrou em Jerusalém naquele domingo, sendo recebido com mantos e palmas e grito de “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor e que é Rei de Israel” (Jo 12.13). Mas, no final daquela semana Ele não foi honrado como o Rei de Israel. Foi injustiçado, condenado e morto por mãos iníquas. Foi colocado num sepulcro frio. Mas, de lá ressuscitou com grande poder e glória e depois foi recebido como vencedor na Sião Celestial (cf. Hb 12.22-24).

               A segunda vez que a expressão aparece (v.9) refere-se ao dia em que Ele voltará à Terra e retornará para a Glória Eterna com Seu povo. Aqueles que tiveram seus corações regenerados e santificados por Ele, com Ele subirão, enquanto os ímpios zombeteiros que O desprezaram sofrerão terrível e eterna condenação. Então todos os crentes e redimidos juntamente com o Cristo vencedor, o Rei da Glória, verão os portais da Jerusalém Celestial se abrindo para receberem o Rei da Glória.

Aplicação v.7-10: Você está pronto para esse dia? Você está preparado para subir nessa procissão celestial? Você será um vencedor naquele dia? Lembre-se que só vencerá naquele dia aqueles que lavaram suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro de Deus (Ap 7.14), cujos pensamentos, palavras e ações glorificam a Deus.

               Voltemos para o início dessa mensagem quando mostrei-lhes o contexto em que este salmo deveria ser entoado. Pense um pouco: se para os israelitas foi algo lindo, maravilhoso e tremendo ver a Arca da Aliança adentrando os portões de Jerusalém, quanto mais infinitamente será vermos o Senhor Jesus juntamente com todos os redimidos vencedores adentrando os portões celestiais! Você estará no meio dessa procissão?

 

Conclusão

               Jesus é o Rei da Glória, o Rei do Universo e do nosso coração. O fato de pessoas não se submeterem a Ele não muda em nada a Sua autoridade e domínio. Aqueles que não se submetem a Ele, na eternidade haverão de receber o castigo do qual não poderão jamais escapar, ainda que quererão fazê-lo (cf. Os 10.8; Lc 23.30 e Ap 6.16). Aqueles que hoje se rendem ao Senhorio de Cristo e têm a maravilhosa experiência do novo nascimento, da regeneração e da santificação promovidas pelo sacrifício santo de Jesus, reinarão vitoriosos com Ele por toda a eternidade (cf. Ap 5.10; 20.6; 22.5). A qual desses dois grupos você pertence?

[1] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.135.

[2] Cf. VAN GEMEREN (Org), 2011, vol4, p.271

[3] CALVINO, 1999, vol.1, p.522.

[4] In WIERSBE, 2010, vol.3, p.136.

[5] Ibid, 136.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.
This entry was posted in Mensagens Expositivas do Livro de Salmos. Bookmark the permalink.

2 Responses to Canções da Alma – 26ª Mensagem

  1. josimar Gabriel da rocha says:

    muito bom

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *