Canções da Alma – 29ª Mensagem

Oração

“Santo Deus, a razão de aqui estarmos para Te louvar é o Seu amor que nos atraiu a Ti. Na Tua presença encontramos tudo o que precisamos para fazer tudo o que Te agrada. Fala ao nosso coração neste momento. É o que Te pedimos em Nome de Jesus, amém!”.

 

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

Deus Está Presente

Sl 27

 

Contextualização

“Salmo de Davi”.

               As circunstâncias em que este salmo foi escrito por Davi são incertas. Uns afirmam que ele foi escrito antes de Davi subir ao trono de Israel, quando estava sob a forte perseguição de Saul, e banido para longe da Casa do SENHOR, sentia saudades da mesma (cf. v.4)[1]. Outros, seguindo a tradição judaica, afirmam que ele escreveu por ocasião da morte de seus pais ou das grandiosas vitórias como a que aconteceu contra o gigante Isbi-Benode, morto por Abisai, seu soldado, depois do que Davi foi poupado de ir para a guerra para que não fosse morto (2Sm 21.16-17)[2]. A primeira parece mais plausível. Porém, fico com Calvino que vê neste salmo o relato de várias experiências de Davi nas quais ele viu Deus agindo a seu favor livrando-o das mãos dos inimigos, pelo que ele exultava alegre e confiantemente diante de Deus (v.1-6), e, por isso mesmo, em outras circunstâncias de aperto voltou-se para Deus, pois, sabia que Deus haveria de socorrê-lo novamente (v.7-14)[3].

               Este salmo, portanto, vem nos falar sobre a verdade mais confortadora para o crente: Deus está presente. Davi sabia disso. E nesta ocasião Deus vem nos falar por Sua Palavra que Ele está presente em toda a Sua Criação e especialmente na vida do Seu povo.

               Diante dessa verdade e com base neste texto podemos afirmar com toda certeza que:

1- Deus está presente: não há nada a temer, v.1-3

Exposição v.1-3: “O SENHOR é a minha luz e a minha salvação; de quem terei medo? O SENHOR é a fortaleza da minha vida; a quem temerei?  2 Quando malfeitores me sobrevêm para me destruir, meus opressores e inimigos, eles é que tropeçam e caem. 3 Ainda que um exército se acampe contra mim, não se atemorizará o meu coração; e, se estourar contra mim a guerra, ainda assim terei confiança”.

Deus presente na vida dos Seus filhos faz o intento maligno dos inimigos fracassar (v.2). Davi se via cercado de inimigos que queriam derrubá-lo e destruí-lo. Ele percebia que os seus inimigos estavam se reunindo para ataca-lo a qualquer momento com seus exércitos (v.3a), porém, seu coração confiava em Deus apesar das circunstâncias não lhe serem em nada favoráveis e, por isso mesmo disse: “não se atemorizará o meu coração (…) ainda assim terei confiança” (v.3). Este salmo se inicia com uma declaração de plena confiança no cuidado de Deus para com Seu servo. A pergunta que é repetida no v.1 nos mostra que pelo fato de Deus estar presente em nossa vida não há nada a temer. Ele é a luz que espanta as trevas da nossa alma, salvando-nos do terror e ameaças da escuridão. Ele é a nossa salvação, por isso, nossa vitória é certa. Ele é a fortaleza da nossa vida, portanto, mesmo que em nós não haja força alguma, Ele é quem nos protege e sustenta. Ao contrário do que se pensa não se vence o medo com coragem, mas, sim, com confiança em Deus. Devemos dar todo o valor ao poder de Deus para nos proteger, pois, o único temor capaz de afugentar e destruir todos os outros temores é o temor a Deus. Não nos esqueçamos de Rm 8.34: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”.

Quando confiamos realmente em Deus não nutrimos em nosso coração o medo e a insegurança. Pelo contrário, a presença de Deus conosco dissipa todo medo e ameaça.

Em 1Jo 4.18 lemos que: “No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor”. Um pouco antes, no v.8 João diz que “Deus é amor”. No v.17 do mesmo capítulo ele diz que não precisamos temer o dia do Juízo porque estamos guardados no amor de Deus. De fato, não há ameaça mais terrível do que a da condenação no Dia do Juízo, mas, nem mesmo essa ameaça deve causar-nos medo se estivermos firmes e abrigados em Deus, pois, somente Ele pode nos livrar da Sua ira.

Aplicação v.1-3: Qual é o maior temor do seu coração? Ao que ou a quem a sua alma mais teme? Você teme passar por circunstâncias ameaçadoras, vexatórias ou dolorosas? Você teme morrer? E morrendo, ir para o inferno? E o Dia do Juízo, causa-lhe angústia? Se o seu coração temer somente a Deus e Nele se abrigar, então não há mais nada a temer.

2- Deus está presente: estamos protegidos, v.4-10

Exposição v.4-10:4 Uma coisa peço ao SENHOR, e a buscarei: que eu possa morar na Casa do SENHOR todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do SENHOR e meditar no seu templo. 5 Pois, no dia da adversidade, ele me ocultará no seu pavilhão; no recôndito do seu tabernáculo, me acolherá; elevar-me-á sobre uma rocha. 6 Agora, será exaltada a minha cabeça acima dos inimigos que me cercam. No seu tabernáculo, oferecerei sacrifício de júbilo; cantarei e salmodiarei ao SENHOR. 7 Ouve, SENHOR, a minha voz; eu clamo; compadece-te de mim e responde-me. 8 Ao meu coração me ocorre: Buscai a minha presença; buscarei, pois, SENHOR, a tua presença.  9 Não me escondas, SENHOR, a tua face, não rejeites com ira o teu servo; tu és o meu auxílio, não me recuses, nem me desampares, ó Deus da minha salvação. 10 Porque, se meu pai e minha mãe me desampararem, o SENHOR me acolherá”.

Estes versículos descrevem o anelo de Davi pela Casa do SENHOR, o lugar onde estava a Arca da Aliança, símbolo da presença de Deus. Davi estando cercado por inimigos, ameaçado de diversas formas, com problemas se acumulando sobre ele, não desejava a solução de seus problemas, nem o fim de seus inimigos mais do que a presença de Deus e estar em Sua Casa para ali “contemplar a beleza do SENHOR e meditar no seu templo” (v.4). Não é triste vermos como somos mais propensos a focarmos na feiura e ameaça dos nossos problemas mais do que na beleza de Deus? Nosso coração definha quando em vez de contemplarmos a beleza de Deus focamos na feiura e ameaça dos problemas.

O templo do SENHOR era um lugar de abrigo, e quem se refugiasse lá dentro teria proteção enquanto lá estivesse. Em 1Rs 1.50 lemos que Adonias depois de fracassar em  usurpar o trono de Israel, vendo-se ameaçado por Salomão correu para o templo e segurou nas pontas do altar pedindo-lhe clemência, pois, enquanto estivesse ali no templo, Salomão nada poderia contra ele. Em 2Rs 11.1-3 lemos que Joás, filho do rei Acazias, para ser protegido de sua avó sanguinária, a rainha Atalia que mandou matar a todos os seus netos para usurpar o trono de seu filho Acazias, foi salvo por sua tia Jeoseba, irmã do falecido rei Acazias que escondeu a ele e à sua ama por seis anos na câmara interior do templo de Salomão.

Com certeza Davi estava expressando aqui essa ideia, a saber, na presença de Deus ele sabia que estava protegido (cf. v.5). Mas, sendo Deus onipresente, Ele não está confinado a um templo. Eis aqui algo grandioso. O templo do SENHOR no Antigo Testamento era o lugar da Sua morada. Nos tempos do Novo Testamento e hoje, o templo do Senhor Jesus é o coração de cada crente. Logo, a proteção de Deus não se limita a um lugar, mas, onde estiver um filho Dele, ali ele estará presente para protegê-lo.

Enquanto os inimigos de Davi estavam do lado de fora a espreita-lo, ele estava na presença de Deus louvando-O (v.6). Enquanto somos tomados por sérias ameaças devemos estar na presença de Deus, na Casa do SENHOR com outros servos Dele louvando-O. Não é de admirar-nos ver tantos crentes que em meio às lutas e tribulações em vez de procurarem estar na Casa de Deus com outros irmãos acabam por se afastar?

Quando a situação tornou-se renhida, Davi então elevou sua voz a Deus e clamou por socorro dizendo: “compadece-te de mim e responde-me” (v.7). E Deus respondeu.

No v.8 algo maravilhoso acontece. Deus sussurra ao coração de Davi chamando-o à Sua presença. Não se trata de uma intuição ou uma sensação estranha que ele sentiu, mas, sim, da convicção da presença de Deus em sua vida chamando-o para deleitar-se na presença de Deus dizendo-lhe: “Buscai a minha presença” ao que Davi responde: “buscarei, pois, SENHOR, a tua presença”. Quanto nós perdemos porque em tempos de tribulação em vez de estarmos atentos ao que Deus nos fala através da Sua Palavra, da oração, do culto, da comunhão, enfim, através dos Meios de Graça, ficamos agitados, revoltados ou temerosos diante das circunstâncias, não nos conformando à vontade de Deus.

Em vez disso, devemos fazer como Davi fez: buscar a presença de Deus depositando na misericórdia Dele a esperança de sermos socorridos e amparados, porque fora da misericórdia de Deus somos como quaisquer outros pecadores, a saber, merecedores da rejeição divina (v.9). Por mais que ele desejasse ver face do SENHOR, ele só poderia ver o SENHOR se Ele quisesse Se revelar a Seu servo.

É possível que pais abandonem seus filhos, e infelizmente, isso tem acontecido com muito maior frequência até mesmo dentro da Igreja de Cristo. Mas, é impossível que Deus abandone um só de Seus filhos (v.10). Na presença de Deus sempre estaremos acolhidos e protegidos.

Aplicação v.4-10: Em vez de ficar olhando para a feiura dos seus problemas, para as faces carrancudas e cheias de ódio dos seus inimigos e o diabo, contemple a beleza do SENHOR, admire Sua pureza, grandeza e esplendor. Deus está presente em sua vida, você é um templo Dele (se, é claro, passou pelo novo nascimento) onde Ele habita (cf. Is 57.15). No meio das tribulações não se afaste da comunhão dos irmãos, nem da Casa do SENHOR, e muito menos deixe de orar e meditar na Palavra de Deus. Em vez, disso, atenda ao chamado de Deus para estar na presença Dele, pois, em quem mais você encontraria proteção e amparo perpétuos além de Deus?

3- Deus está presente: temos esperança, v.11-14

Exposição v.11-12:11 Ensina-me, SENHOR, o teu caminho e guia-me por vereda plana, por causa dos que me espreitam. 12 Não me deixes à vontade dos meus adversários; pois contra mim se levantam falsas testemunhas e os que só respiram crueldade. 13 Eu creio que verei a bondade do SENHOR na terra dos viventes. 14 Espera pelo SENHOR, tem bom ânimo, e fortifique-se o teu coração; espera, pois, pelo SENHOR”.

É fato: quando somos atacados por inimigos é muito fácil ficarmos confusos e atordoados. Por isso mesmo precisamos da orientação de Deus. Foi por isso que Davi orou a Deus e pediu que Ele o ensinasse e o guiasse “por vereda plana, por causa dos que me espreitam” (v.11).

Ele estava rodeado de “falsas testemunhas e os que só respiram crueldade”, pessoas que só queriam a sua ruína (v.12). Ele também sabia que quem impedia que tais inimigos sobressaíssem a ele era somente Deus. Por isso mais uma vez clamou ao SENHOR para que não deixasse à vontade dos inimigos.

Mas, o v.13 é um lindo brado de confiança em Deus. Ele acreditava que a bondade do SENHOR (בְּֽטוּב־יְהוָ֗ה) o acompanhava todos os dias, e que por isso mesmo ela seria vista na “terra dos viventes”. Se as falsas testemunhas se levantavam contra ele para destruí-lo, Deus ainda mais Se levantaria testemunhando em seu favor com Sua bondade, e todos os viventes da terra veriam isso.

O v.14 encerra este salmo com uma verdade esclarecedora. Ele começa e termina com a mesma exortação “Espera pelo SENHOR”. No meio está a ordem: “tem bom ânimo, e fortifique-se o seu coração”. O que Davi está dizendo aqui é “Confia no Senhor! Sê forte e corajoso. Confia no Senhor!”. A ideia aqui é de um ciclo. Devemos confiar em Deus, e enquanto mantemos nosso ânimo bem firme e constante em Sua graça, Ele fortificará o nosso coração, o qual deve responder novamente com mais confiança Nele.

Nosso coração deve buscar o tempo todo ao SENHOR Deus, porque o tempo todo inimigos se levantam contra nós. O nosso grande erro é depois que vencemos uma batalha acharmos que vencemos a guerra. Como disse o pregador escocês Andrew Bonar: “Permaneçamos tão vigilantes depois da vitória quanto antes da batalha”[4]. Somente Deus pode nos livrar dos inimigos e manter-nos firmes para a próxima batalha. Nossos inimigos são astutos, e, por vezes nos vencem porque enquanto estamos na euforia de uma vitória somos apanhados de surpresa com outro ataque deles. É coisa muito comum vermos crentes que num dia estão desfilando vitoriosamente, e, no outro, estão sob o manto da vergonha por terem cometido algo horrendo contra Deus. Não adianta culparmos nossos inimigos pelas nossas derrotas quando o que nos faltou foi a vigilância e a confiança constante em Deus. Devemos confiar em Deus, pois, é assim, quando em meio às lutas mantemos nosso ânimo firme e constante em Sua graça que experimentamos um fortalecimento poderoso vindo de Deus ao nosso coração. Mas, não podemos parar aí, precisamos continuar confiando em Deus.

               Na vida cristã tão importante quanto começar a caminhada é continuar animado pela graça de Deus na caminhada. Não se esqueça de que a promessa da coroa da vida é para os que perseverarem até o fim. Se o seu coração estiver precisando de revigoramento, não adianta buscar em outro lugar que não na presença de Deus. Há esperança para o coração cansado somente na presença de Deus, pois, fora Dele tudo é morte.

Aplicação v.11-14: Seu coração precisa de esperança? Você está esgotado e cansado? Basta ver no que ou em quem você tem posto a sua esperança. Dizem por aí que a esperança é a última que morre. Para o crente, sua Esperança morreu uma única vez, mas, ressuscitou para que lhe mostrar que nem mesmo a coisa que mais atemoriza os mortais, a morte, o deterá eternamente. Cristo Jesus, nossa esperança (1Tm 1.1).

 

Conclusão

Deus está presente, não há o que temer, a não ser Ele somente; Deus está presente, e, por isso nossa vida tem sentido, porque o sentido dela é existir para glorificar a Deus; Deus está presente, por isso, os crentes são os únicos que podem ter esperança de triunfar sobre tudo, especialmente sobre a morte, e, no Dia do Juízo estarem amparados pela graça de Deus.

Deus está presente, mas, como você tem se comportado na presença Dele?

 

 

[1] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.140.

[2] HENRY, 2010, vol.3, p. 298.

[3] Cf. CALVINO, 1999, vol.1, p.580.

[4] WIERSBE, 2010, vol.3, p.141.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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