Canções da Alma – 2ª Mensagem

Salmo 2

O Messias e o Seu Reinado Eterno

[audio:http://www.noutesia.com.br/wp-content/uploads/2015/02/002-Canções-da-Alma-2ª-Mensagem-Sl-2.mp3|titles=Canções da Alma – 2ª Mensagem]

Contextualização

              Não sabemos quem compôs esse hino. Talvez tenha sido Davi, ou Salomão, ou um sacerdote ou um profeta[1]. Este hino (e outros como este) era entoado na coroação de algum descendente de Davi, ou nas cerimônias anuais onde o rei deveria recitá-lo lembrando a si mesmo e a todo o povo que o seu reinado fazia parte da linhagem de Davi e também que desta linhagem haveria de vir o Messias. Por isso este salmo é classificado como um “salmo messiânico”.

              Contudo, devemos levar em consideração o contexto imediato e o distante deste salmo. O contexto distante é este que já apresentamos, a saber, o reinado do Messias apontando para o Senhor Jesus; o contexto imediato é o reinado de Davi, o qual estava sob a ameaça de uma confederação de reis pagãos (cf. 2Sm 10; 1Rs 11.14,21,23). A estes que se levantavam contra Davi ele lembra-lhes que de que o seu reino e reinado não eram resultados de seu esforço pessoal e conquistas, mas, sim, obra do decreto eterno de Deus que o ungira como rei e designara a sua descendência para da mesma vir o Messias (Ungido) de Deus ao mundo e reinar eternamente. Seria loucura da parte desses reis se levantarem contra Davi, pois, na verdade estariam se levantando contra Deus e o Messias, e por isso mesmo não poderiam resistir neste embate contra Davi. E é este o tema deste salmo: O Messias e o Seu Reinado Eterno.

              As seguintes verdades são encontradas neste salmo com relação ao reinado eterno do Messias (Jesus Cristo):

1)     Os arrogantes desprezam a Deus e ao Seu Ungido, v.1-3

Exposição v.1-3: “Por que se enfurecem os gentios e os povos imaginam coisas vãs?  2 Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram contra o SENHOR e contra o seu Ungido, dizendo:  3 Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas”.

              Os “gentios” aqui não são apenas os povos pagãos; são também os judeus. João Calvino lembra que Davi tinha inimigos de todos os lados, nações pagãs vizinhas, nações parentes como Edom, Amom e Moabe, e, também inimigos de dentro de sua família como seu sogro Saul e seu filho Absalão[2]. Em escala muito mais ampla o mesmo aconteceu com o Senhor Jesus como vemos em Jo 1.11: “Veio para o que era seu, mas, os seus não o receberam”.

              Os inimigos do Messias “imaginam coisas vãs”, isto é, andam no “conselho dos ímpios” (Sl 1.1), fazem planos insensatos, e “conspiram contra o SENHOR e contra o seu Ungido”. O que o salmista estava dizendo aqui é que insurgir-se contra o rei Davi ou contra sua linhagem era o mesmo que insurgir-se contra Deus e Seu ungido não se submetendo à Sua autoridade.

              No ápice de sua arrogância eles dizem: “Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas”. Nos tempos antigos, quando um soberano morria, os seus vassalos criavam coragem para se rebelarem contra o seu reinado e se verem livres de sua tirania. A morte do soberano era a melhor ocasião para romperem as cadeias (laços e algemas), se libertarem e se tornarem os senhores de si mesmos.

              Temos aqui a expressão do ateísmo. O ateu diz que Deus não existe, ou que, se, um dia Ele existiu, hoje está morto porque na verdade, não quer se submeter a Deus. Na década de 1960 um grupo de teólogos americanos e alemães trouxe a público aquilo que ficou conhecido como “O Movimento da Morte de Deus”[3]. Não trouxeram nada de novo, pois, esse absurdo sempre esteve no coração e mente de muitos. Uns cem anos antes Friedrich Nietzsche havia dito: “Deus está morto, e os templos erigidos a Ele são o Seu sepulcro”. No Século IV a.C., Epícuro (342 – 270 a.C.) também afirmou algo parecido. Veremos mais à frente no Sl 14.1 que o insensato afirma em seu coração que Deus não existe. Tudo isso nos mostra que faz parte da índole pecaminosa e perversa do homem rebelar-se contra Deus, querer se ver livre da Autoridade Divina para seguir seus próprios caminhos e desejos. Por isso, com toda a sua arrogância o homem despreza a Deus.

 

Aplicação v.1-3: A principal característica dos filhos de Deus é a sua submissão dócil e amorosa para com Ele. Toda vez que enveredamos pelo pecado ou pela nossa vontade em vez da vontade de Deus (ainda que a nossa vontade não seja algo pecaminoso naquele momento) estamos nos comportando como os ateus arrogantes. Há em seu coração essa submissão dócil e amorosa para com Deus? Ou você tem seguido a voz do seu coração?

               Outra verdade com relação ao reinado eterno do Messias é que

2)     Deus despreza e abate os arrogantes, v.4-9

Exposição v.4-9:4 Ri-se aquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles.  5 Na sua ira, a seu tempo, lhes há de falar e no seu furor os confundirá.  6 Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião.  7 Proclamarei o decreto do SENHOR: Ele me disse: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei.  8 Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão.  9 Com vara de ferro as regerás e as despedaçarás como um vaso de oleiro”.

               É um dado no mínimo intrigante que a única referência a Deus rindo trata-se de um momento em que a Sua ira é derramada sobre os ímpios. Numa época como a nossa em que os sermões têm sido transformados em stand up comedy, os púlpitos em picadeiros, a congregação é plateia, tudo para que as pessoas se “sintam bem” e alegres consigo mesmas, olhar para o v.4 e ver Deus se rindo como resultado de Sua ira contra os perversos, deveria nos trazer um pouco de consternação. É claro que Deus tem alegria e a expressa, e é a alegria Dele que nos fortalece (Ne 8.10). Devemos nos alegrar Nele com tremor (cf. v.11).

               Enquanto “os reis da terra se levantam” contra Deus, “aquele que habita nos céus” ri da arrogância, petulância e rebeldia ridícula dos homens. Mas, longe de ser um riso de alegria e prazer, o riso de Deus é de “ira, furor”, pois, Ele vem vindicar Sua santidade, autoridade e reinado. Os homens arrogantes falam contra Deus, mas, quando Deus abrir a Sua boca “Na sua ira, a seu tempo, lhes há de falar e no seu furor os confundirá”. E o que eles ouvirão? A resposta está no v.6: “Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião”. Uma vez que o Senhor pronuncia essa decisão, seu cumprimento é tão certo quanto se já houvesse acontecido[4]. Assim como tentaram destruir Davi, porque aos seus olhos soberbos quem era aquele pobre pastor de ovelhas que se tornou rei de Israel? Para eles isso era inconcebível. Da mesma forma (ou com muito maior intensidade) zombaram de Cristo, aquele humilde carpinteiro da Galileia. O que ninguém pode esquecer é que este humilde carpinteiro foi constituído Rei sobre todos. Como nos lembra João Calvino: os ímpios podem, agora, conduzir-se tão perversamente quanto desejarem, mas chegará o momento em que sentirão o que significa guerrear contra o céu”[5]. Enfrentarão a ira de Deus.

               “Proclamarei o decreto do SENHOR”. O próprio Messias agora fala. Ele vai proclamar o que Deus decretou por meio da Sua vontade: “Ele me disse: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei”. Assim como Davi não se tornou rei por sua vontade própria, o Senhor Jesus Cristo também não fez outra coisa senão a vontade de Deus (Jo 4.34; 5.30; 6.38). Quando a Escritura diz que Jesus é o Filho de Deus e gerado por Ele, devemos entender que Jesus procedeu, veio da parte do Pai a nós. Por isso mesmo Ele é chamado de o “Unigênito do Pai”, pois, só Ele sempre teve a mesma glória do Pai. Devemos entender a geração de Cristo por Deus como procedência divina – Ele veio da parte do Pai. Toda a obra de Cristo é resposta ao decreto eterno de Deus.

               Nos v.8-9, o salmista apresenta o próprio Senhor Deus respondendo às palavras do Seu Filho, o Messias no v.7. O Pai prometeu domínio universal a Seu Filho (v.8). Toda a terra se sujeitará à Sua autoridade[6]. Não há nada que o Filho peça para o Pai e Este não lhe dê. A arrogância que também é própria dos judeus (vide v.1) impediu-lhes de ver que o povo de Deus não era só a nação de Israel, mas, sim, pessoas de todas as tribos, línguas e nações, porque assim Deus decretou.

               No v.9 vemos como Cristo subjugará a todos. A “vara de ferro” com a qual Ele regerá as nações e as despedaçará é arma de guerra, pois, para as Suas ovelhas ele tem o Seu cajado de pastor.

Aplicação v.4-9: Devemos tomar todo o cuidado para não cometermos o mesmo erro dos judeus e, nos enclausurarmos em nossa igreja não levarmos o Evangelho às nações. Os pecadores precisam saber que a arrogância deles será abatida por Deus, e que não terão esperança alguma a menos que corram para Deus e se abriguem em Cristo, o Ungido estabelecido por Deus para reinar absoluto sobre todos. Pregue este Evangelho!

               Por fim, outra verdade em relação ao reinado eterno de Cristo aqui é

3)     Deus concede Sua misericórdia aos pecadores, v.10-12

Exposição v.10-12:10 Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos advertir, juízes da terra.  11 Servi ao SENHOR com temor e alegrai-vos nele com tremor.  12 Beijai o Filho para que se não irrite, e não pereçais no caminho; porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira. Bem-aventurados todos os que nele se refugiam”.

               Como um Rei bondoso e magnânimo, Deus chama os pecadores ao arrependimento. Deus abate os arrogantes, não sem antes de conceder-lhes oportunidade de arrependimento. Isto é a misericórdia de Deus expressa e revelada aos pecadores.

               Nestes versículos, Davi personifica a figura do arauto que proclama a mensagem de seu Rei. Embora soubesse o tempo todo que Deus o havia constituído rei sobre Israel, ele não se esquece que mesmo sendo o soberano da nação israelita era também um súdito do Rei Eterno; era apenas um instrumento que Deus separara para Si na realização de Seus eternos decretos. Aqueles que foram imbuídos de autoridade e vivem conscientes de que sua autoridade deriva-se de Deus e a Ele prestarão contas desempenham bem o seu ofício.

               Davi, então, se volta para os reis e os chama à prudência, porque a maior tentação para aquele que está no poder é se engrandecer sobre os demais – isto é imprudência! Também se volta para os juízes e os chama à humildade, pois, deveriam deixar-se advertir por Deus, haja vista que é muito fácil para um juiz ser acometido por soberba e ver-se como o mais sábio de todos – isto é arrogância!

               Para que a imprudência e a arrogância não apanhassem seus corações eles deveriam se render a Deus para servi-Lo “com temor” e alegrarem-se Nele “com tremor”. Nosso conceito de servir a Deus tem perdido de vista o temor e o tremor. As pessoas têm projetado para Deus a figura de um bom vovozinho, de um igual. Os aspectos do temor e tremor chegam a causar aversão a muitos que dizem: “Isto é um absurdo! Deus é amor”. O temor e o tremor aqui nos remete à admiração, ao assombro por contemplarmos Aquele que é infinito, santo, puro em Seu ser. Quando perdemos essa admiração por Deus passamos a “vê-Lo” como um igual a nós, um amigo para os nossos hobbies. Precisamos resgatar com toda urgência o temor e o tremor diante de Deus enquanto O servimos. Se Ele nos diz que o temor e tremor em nosso coração aumenta o nosso amor por Ele, não podemos ser arrogantes em achar que sabemos mais do que Deus; não é a nossa habilidade, ou a nossa capacidade de fazer coisas bonitas que aumentará o nosso amor por Ele, mas, sim, nossa obediência à Sua Palavra e vontade.

               Davi continua: “Beijai o Filho para que se não irrite, e não pereçais no caminho; porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira”. É muito comum vermos as pessoas olhando para Cristo com pena Dele. As figuras nos crucifixos e nos quadros religiosos é a de um moribundo digno de pena mesmo. Mas, tanto aqui como em Ap 1, o Senhor Jesus é descrito como alguém aterrorizante (para os pecadores arrogantes). A reverência para com Ele é demonstrada na atitude de beijá-Lo.

               F. F. Bruce entende que este ato de beijar o Filho é “beijar os seus pés” numa atitude de rendição, reverência e submissão[7] ao Ungido de Deus, que é explicitamente aqui, Jesus Cristo. Assim, aquela imagem do moribundo na cruz, seminu e desfigurado, nada tem a ver com o Cristo vencedor.

               Ao renderem-se diante Dele evitarão que venha sobre eles a Sua ira e irritação que podem fazê-los perecer. A advertência: “porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira”, deve constar em nossa pregação o tempo todo. Os homens precisam saber que o tempo está acabando, que a oportunidade de arrependimento está passando, e, em pouco tempo “se lhe inflamará a ira”, ou seja, o fogo consumidor da Sua santidade vindicará Sua honra perante todos!

               Que figura que nos mete pavor! Contudo, a única forma de escaparmos da ira do Ungido de Deus é correndo justamente em Sua direção, pois, “Bem-aventurados todos os que nele se refugiam”. Este é um dos “paradoxos” do Evangelho para os homens naturais: como posso ser salvo por Aquele que é o único que pode me destruir? Mas, é assim. Ou corremos em direção a Cristo e clamamos por Sua misericórdia, ou ficamos onde estamos aguardando ou Sua ira ser derramada sobre nós.

Aplicação v.10-12: Como você contempla a Cristo? O que vem à sua mente quando pensa Nele? Um moribundo falido e desfalecido na cruz, ou o Supremo Rei do universo perante O qual temor, tremor e reverência acompanham sua devoção e amor por Ele? Tema a Cristo, trema diante Dele, mas, corra para Ele e refugie-se Nele.

Conclusão

               A insubmissão dos ímpios para com Deus não muda um milímetro sequer do Seu domínio sobre o universo. Sempre haverá aqueles que zombarão de Deus com sua incredulidade; Deus sempre desprezará estes arrogantes e soberbos. A única esperança para eles é Deus Se mover com misericórdia em direção a eles. Em tudo isso vemos que Ele reina absoluto sobre tudo e todos.

        


[1] BRUCE, 2012, p.537.

[2] CALVINO, 1999, vol.1, p.61.

[3] Eram eles: Thomas Altizer, Paul Van Buren, William Hamilton e Gabriel Vahanian. Harvey Cox é colocado neste grupo, mas, é mais adequado enquadra-lo na teologia da Secularização.

[4] MAC DONALD, 2007, vol.1, p.372.

[5] CALVINO, 1999, vol.1, p.66.

[6] MAC DONALD, 2007, vol.1, p.373.

 

[7] BRUCE, 2012, p.538.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
This entry was posted in Mensagens Expositivas do Livro de Salmos. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.