Canções da Alma – 30ª Mensagem

Oração

“Eterno Deus, agradecemos a Ti por nos ter revelado e preservado Tua Palavra para que hoje pudéssemos nela meditar. Abra o nosso coração para entendermos, crermos e amarmos Tua Lei, e por ela sermos transformados. Assim oramos em Nome de Jesus, amém.”.

 

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

A Prática da Oração

Sl 28

Contextualização

“Salmo de Davi”.

Estamos diante de mais um salmo que trata da oração. A ocasião em que Davi o escreveu não sabemos exatamente. Os comentaristas bíblicos estão divididos quanto a isso. Ao que parece ele descreve as mesmas circunstâncias do Sl 26 quando Davi estava cercado de hipócritas que eram seus verdadeiros inimigos, e estando longe do santuário de Deus desejava lá estar (cf. v.2). O que sabemos é que ele estava numa situação de aperto e angústia causada pela aparente demora e silêncio de Deus em responder seu clamor por socorro por estar sob ataque dos seus inimigos (v.1-5), mas, apesar desse silêncio ou demora de Deus ele tinha plena confiança de que Deus o responderia vindo em seu socorro (v.6-9). Assim, temos aqui preciosas verdades sobre A Prática da Oração, que é o tema da mensagem de Deus para o seu coração nesta ocasião.

A prática da oração nos faz:

1- Perseverantes na presença de Deus, v.1-5

Exposição v.1-5: “A ti clamo, ó SENHOR; rocha minha, não sejas surdo para comigo; para que não suceda, se te calares acerca de mim, seja eu semelhante aos que descem à cova. 2 Ouve-me as vozes súplices, quando a ti clamar por socorro, quando erguer as mãos para o teu santuário. 3 Não me arrastes com os ímpios, com os que praticam a iniquidade; os quais falam de paz ao seu próximo, porém no coração têm perversidade. 4 Paga-lhes segundo as suas obras, segundo a malícia dos seus atos; dá-lhes conforme a obra de suas mãos, retribui-lhes o que merecem. 5 E, visto que não atentam para os feitos do SENHOR, nem para o que as suas mãos fazem, ele os derribará e não os reedificará”.

O verbo “clamar” (קָרָא) (“A ti clamo…”) no v.1, na forma como ele está conjugado no hebraico[1], algumas versões o traduzem no futuro[2]. Contudo, a tradução desse verbo no presente é a correta, pois, tem a ideia de algo contínuo, uma ação que está por ser completada. E justamente por conotar algo contínuo é que vemos aqui Davi perseverando em seu clamor na presença de Deus.

Davi declara que Deus é a única rocha de sua vida em quem ele confia plenamente. Deus era a sua única esperança. E assim, ele pede a Deus:

  • Que Ele não Se silencie diante de seu sofrimento (v.1): “não sejas surdo para comigo”, não deve ser tomado como atrevimento ou impaciência de Davi, mas, sim, como urgência de socorro. Ele estava prestes a perecer, suas forças se esvaíam a cada momento, e, a qualquer momento a morte poderia se apoderar dele caso os inimigos prevalecessem.
  • Que Ele ouça o seu clamor (v.2): as “vozes súplices” a que ele se refere são as suas orações repetidas na presença do SENHOR Deus – outra evidência de sua perseverança. Ele sabia que ninguém mais poderia socorrê-lo, então, precisava ouvir Deus lhe responder. A frase “quando erguer as mãos para o teu santuário” evoca uma cena terrível. Como alguém que estava numa cova junto a cadáveres pútridos. Sua esperança era que alguém o tirasse dessa cova pútrida e mortal. Davi se sentia cercado de pessoas espiritualmente mortas, e como se estivesse na mesma cova que elas, então clamou a Deus. Por isso Davi levantou suas mãos em direção ao santuário/templo, para o lugar que simbolizava a presença de Deus, e clamou para que Ele o tirasse dessa cova.
  • Que não o inclua no julgamento dos ímpios (v.3-5): Davi tinha consciência de não estar envolvido com os pecados daquelas pessoas, por isso mesmo clamou a Deus para que Ele não o contasse com eles e nem lhe desse o mesmo fim que os ímpios, pois, para um filho de Deus nada pode ser pior do que ser condenado com ímpios zombeteiros e perversos. A diferença entre os crentes e os ímpios não é que os crentes não pecam, mas, sim, que diferentemente dos ímpios que não somente pecam, como também ignoram a Deus, os crentes apesar de pecarem têm profunda consideração pela glória de Deus, daí por isso se arrependem. Davi temia ser condenado e contado com os hipócritas dissimulados que falavam de paz, mas, tramavam guerras (cf. v.3); ele temia porque sabia que Deus viria julgá-los. Por isso pediu ao SENHOR Deus que desse a paga aos ímpios conforme seus atos malignos, os quais são descritos no 5, como desprezo para com as obras do SENHOR. Quem age assim, com certeza será derrubado por Deus, e o que é derrubado por Deus jamais consegue se erguer novamente, a menos que Deus o faça.

 Talvez você esteja se perguntando: como saber se o silêncio de Deus para com as minhas orações é resultado Dele estar desgostoso comigo ou se é por que Ele está querendo me ensinar alguma coisa? Esta é uma boa pergunta. E como vemos nestes versículos, a maneira de você saber que o silêncio de Deus para com as suas orações não é sinal de reprovação, é tendo consciência limpa diante Dele não tomando parte nas obras dos ímpios.

Aplicação v.1-5: Persevere em oração na presença de Deus. O silêncio Dele nem sempre quer dizer reprovação ou desgosto Dele para com você. Muitas vezes isso pode acontecer. Porém, persevere também numa vida de santidade e pureza afastando-se do pecado e dos pecadores arrogantes. Só assim, você terá a certeza de que o silencio de Deus não é um ato de reprovação Dele, mas, sim, o tempo certo de todas as coisas.

A prática da oração também nos faz:

2- Exultantes na fidelidade de Deus, v.6-7

Exposição v.6-7:6 Bendito seja o SENHOR, porque me ouviu as vozes súplices! 7 O SENHOR é a minha força e o meu escudo; nele o meu coração confia, nele fui socorrido; por isso, o meu coração exulta, e com o meu cântico o louvarei”.

A fé em Deus transformou o clamor angustiado em exultação alegre na fidelidade de Deus. A oração do servo de Deus tem de ser uma declaração de sua fé em Deus.

A mudança súbita no salmo causa para alguns comentaristas dificuldades na interpretação. Uns pensam que são dois salmos diferentes que foram unidos por algum escriba. Mas, isso não tem fundamento. Outros entendem que o objetivo de Davi neste salmo é mostrar como Deus foi bondoso para com ele, e, por isso, narrou antes a sua situação cheia de aflição para assim ressaltar ainda mais a bondade e fidelidade de Deus. Ainda outros pensam que o objetivo de Davi era apresentar a Deus a sua queixa e dor, e para animar seu coração fala dos poderosos feitos de Deus como se já tivessem acontecido.

Bem, devemos vê-lo como uma só peça, uma só oração, e por isso mesmo entender que o melhor momento para começarmos a louvar a Deus é justamente no momento em que estamos clamando por Seu socorro.

No v.6 o verbo “ouvir” (שָׁ֜מַע)[3] na forma verbal como está conjugado aqui nos mostra que Deus de fato escutou, dou ouvidos, prestou atenção, atendeu[4] ao clamor do Seu servo.

No v.7, Davi declara que Deus é:

  • A sua força para apoiá-lo e conduzi-lo,
  • O seu escudo para protegê-lo de todos os intentos malignos dos seus inimigos.

Tudo isso fez com que ele confiasse em Deus para socorrê-lo. Temos uma lição importante a aprendermos aqui: quem confia exclusivamente em Deus, quem O toma como sua proteção, sempre será socorrido. Deus nunca desempara aqueles que Nele confiam. Deus nunca deixa de lhes ouvir às orações. É importante observarmos aqui como Davi se disciplina em relação a Deus. Ele traz seu coração submisso à vontade de Deus e o faz descansar no cuidado de Deus.

A parte final deste verso nos mostra que o louvor resultante da constatação da fidelidade de Deus é algo tremendo. O verbo “exultar” como aparece na frase no texto hebraico (לִבִּ֑י וּֽמִשִּׁירִ֥י אֲהוֹדֶֽנּוּ ) literalmente quer dizer: meu coração dá saltos cantando, dá pulos de louvor.

O contraste com o começo deste salmo é impressionante. Antes, ele se via como que numa cova cercado de mortos temendo ser esquecido lá dentro dessa cova; mas, contemplando a presença de Deus (o santuário/templo de Deus, v.2) seu coração lembrou-se de como Deus é fiel, misericordioso, justo e poderoso para livrá-lo.

Aplicação v.6-7: Enquanto você estiver ali orando a Deus, clamando para que Ele o ouça, louve-O, adore-O, exulte na presença Dele constatando Sua fidelidade em socorrer-lhe. Nosso grande problema em relação à oração é que não a vemos como um momento para exultarmos de alegria, para sentir o nosso coração saltando em nosso peito desfrutando da fidelidade de Deus. Chore se necessário for, mas, não se esqueça de exultar na presença de Deus, tal como fez Ana que depois de apresentar sua dor e clamor a Deus, ao terminar sua oração “seu semblante já não era mais triste” (1Sm 1.18).

Por fim, a prática da oração nos faz:

3- Humildes diante de Deus, v.8-9

Exposição v.8-9:8 O SENHOR é a força do seu povo, o refúgio salvador do seu ungido.  9 Salva o teu povo e abençoa a tua herança; apascenta-o e exalta-o para sempre”.

Para encontrarmos a humildade aqui nas palavras de Davi devemos lembrar de um fato muito importante: ele era o rei de Israel. Era para Davi que o povo olhava, e nada pode ser mais desastroso para um reino ou nação que ter um rei ou presidente fraco. Lembremo-nos de Saul a quem o povo escolheu por causa de sua estatura.

               Os gregos e os romanos viam a humildade como fraqueza; eles repudiavam um rei ou um líder que apresentasse essa característica. Ter um rei humilde era ter a certeza de ser ridicularizado pelos inimigos. Mas, não foram só eles que agiram assim. Os judeus não aceitaram que o Messias de Deus fosse um filho de carpinteiro, ou mesmo um mestre andarilho que apesar de demonstrar Seu poder sobre a criação, sobre a morte, sobre as enfermidades e sobre os demônios, não expulsou os romanos da Judeia, não pegou numa espada para lutar e até disse que era “manso e humilde de coração” (Mt 11.29).

Ele não tinha força algum e confiança em outra pessoa para fortalecê-lo. A sua força é a “força do seu povo”, ou seja, o SENHOR Deus,               Agora, Davi sendo o rei de Israel ele declara que:

  • Ele precisava de Deus para protegê-lo, e sem a proteção de Deus ele nada era. Mesmo sendo ele o “ungido” de Deus, não exibia poder algum em si mesmo;
  • E que em Deus ele colocava a sua confiança para salvar e abençoar o povo que era a “herança” de Deus, ou seja, filhos Dele.

               Ainda no v.9 devemos atentar para as palavras “apascenta-o e exalta-o para sempre”. Essas duas palavras são extraídas da experiência pastoril de Davi. Apascentar significa pastorear, tal como é descrito no Sl 23.2-4; enquanto isso, exaltar quer dizer “erguer nos braços” tal como um pastor carrega uma ovelha ferida, ou um pai a seu filhinho que precisa de cuidados. Assim, percebemos mais um belo contraste entre o começo e o fim deste salmo. No v.2 Davi ergueu seus braços pedindo socorro, aqui no v.9 Deus estendeu-lhe os braços e o tomou cuidadosamente, não somente o rei, mas todo o povo.

               O rei temente a Deus quer ver seu povo na presença de Deus. Deus era a esperança não só de Davi, mas, de todo o povo. Davi era o rei. O rei era a figura do poder, da força e da proteção para o povo. Um rei fraco inspirava medo e insegurança. Davi não temia ser visto como dependente de Deus. Bons líderes são estes que demonstram dependência de Deus e ensinam seus liderados a dependerem Dele também.

               Davi demonstrou sua humildade estando cercado da glória do palácio tendo a seu dispor a proteção de seus exércitos. E como ele fez isso? Mostrando que a glória desse mundo nada é ante a glória e o pode de Deus, que o poder de um exército não é nada diante do poder de Deus.

Aplicação v.8-9: Mostrar-se dependente e confiante em Deus é a maior prova de humildade. Mostre para as pessoas que a sua dependência está totalmente em Deus. Para isso deixe bem claro que todas as suas decisões são tomadas em oração, e que se Deus não lhe abriu uma porta, ou se Ele não lhe deu uma resposta ainda significa que você esperará humildemente na presença Dele. A prática da oração exercitará não só a sua fé e promoverá o louvor em seu coração, mas, também fará você andar humilde e dependente de Deus, mesmo tendo já todos os recursos em suas mãos. Na prática da oração você aprenderá a usar os recursos que você tem, os quais sem a prática da oração serão motivos de sua vanglória. Na prática da oração os seus recursos sempre serão vistos como recursos de Deus em quem você confia.

Conclusão

               Alguém disse que a oração move o braço de Deus. Eu, porém, prefiro ver diferente: a oração move o meu coração para o centro da vontade de Deus. Faça de suas orações verdadeiras declarações de fé em Deus. Glorifique-O com elas. Que assim seja para a glória de Cristo, amém!

[1] Qal imperfeito na 1ª pessoa do singular.

[2] P.ex.: Almeida Corrigida Fiel, Almeida Revista e Corrigida, Bíblia Almeida Portuguesa e João Calvino.

[3] Qal perfeito da 3ª pessoa do masculino singular

[4] Cf. VAN GEMEREN, 2011, vol.4, p.174.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.
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2 Responses to Canções da Alma – 30ª Mensagem

  1. reginaldo says:

    como e maravilhoso ter estudo , ler conteudo que vem da palavra de Deus. agradeço ao pastor Olivar Alves por estas bençãos.

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