Canções da Alma – 31ª Mensagem

Oração

“SENHOR Deus, Tua voz é o que precisamos ouvir agora através da Tua Palavra. Com o mesmo poder com que o SENHOR criou ou universo e nos trouxe à Vida em Cristo, fala ao nosso coração. Dependemos de Ti, necessitamos de Ti. Fala, pois Te ouviremos. Em Cristo Jesus, amém!”.

 

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

A Glória e a Força de Deus

Sl 29

Contextualização

“Salmo de Davi”.

Você tem medo de tempestades? Quando você vê o céu se fechando para uma tempestade com nuvens espessas e escuras, como você se sente? Qual é a sua reação? Para Davi, as tempestades eram manifestações não só do poder de Deus, mas, de Sua glória.

Este salmo era entoado em algumas especiais para os judeus tais como nas batalhas, na Festa dos tabernáculos, do Ano Novo e no Pentecostes[1].

Muitos comentaristas concordam que a circunstância em que Davi escreveu este salmo foi contemplando uma tempestade na qual ele via o poder de Deus[2]. Já a intenção dele, era mostrar que o SENHOR Deus é quem tem as tempestades sob Seu comando e poder e não os deuses dos pagãos, como por exemplo, Baal-Hadade[3], o deus fenício conhecido como o “deus da tempestade e fertilidade”. Neste salmo Davi deixa bem claro que o Deus das tempestades e dos terremotos, é o SENHOR Deus, e que o único Deus capaz de gerar vida (v.9) é somente Ele e nenhum outro. Este salmo nos fala sobre A Glória e a Força de Deus.

Vejamos esses dois atributos de Deus:

1- A Glória de Deus, v.1-2

Exposição v.1-2: “Tributai ao SENHOR, filhos de Deus, tributai ao SENHOR glória e força. 2 Tributai ao SENHOR a glória devida ao seu nome, adorai o SENHOR na beleza da santidade”.

A expressão “filhos de Deus” como aparece na ARA, traz certa dificuldade. No hebraico a expressão é  בְּנֵ֣י אֵלִ֑ים literalmente traduzida é “filhos dos deuses”. Calvino a traduz por “filhos dos poderosos”[4], o mesmo faz a ARC e a BRP. Já a SBP (Transliteração Portuguesa na Linguagem Moderna) a traduz por “todos os deuses”. E então, qual tradução é a correta aqui? Não temos uma solução fácil para tal. Penso que devemos nos ater ao contexto e propósito deste salmo, a saber, Davi estava contrastando a glória de Deus com a nulidade dos deuses dos pagãos que não passavam de meras invenções dos mesmos. Outro fator que deve ser levado em consideração aqui é que os reis pagãos se julgavam divindades, e literalmente, “filhos dos deuses”. Diante disso e do que Calvino traduziu como “filhos dos poderosos”, chegamos à conclusão que aqui Davi está intimando esses reis arrogantes que se declaravam “filhos dos deuses” e poderosos, a se curvarem diante do único Deus vivo e verdadeiro.

“Tributai ao SENHOR…”. Aqueles que no alto de sua arrogância exigiam que os povos lhes pagassem tributos, agora eram intimados a se apresentarem diante de Deus e renderem-Lhe “glória e força”. A riqueza de Deus não é medida pelo ouro, prata e terras como faziam os reis, mas, sim, a Sua riqueza é “em glória” (cf. Fp 4.19). Enquanto os reis desse mundo têm sua glória medida pelas suas riquezas, Deus tem Sua riqueza medida por Sua glória! E o que é a glória de Deus? O próximo versículo responde.

Sua glória está intimamente ligado ao Seu Nome, e por isso, a glória que Lhe devia ser tributada era a “glória devida ao Seu nome” (v.2). Neste salmo, nos seus onze versículos, o Nome pactual de Deus, SENHOR (יְהוָ֗ה) aparece não menos que 18 vezes. O Deus cuja glória é a Sua riqueza e cujo Nome é digno de toda reverência, este é o Deus verdadeiro diante de quem todos os poderosos e todos os homens devem dobrar seus joelhos.

A ideia de tributos aqui deixa claro que Deus é o dono de tudo e que deve ser cultuado e adorado “na beleza da santidade”. Davi tinha em mente aqui o santuário terreno do SENHOR Deus, o tabernáculo construído por Moisés, o qual era adornado com símbolos da glória de Deus[5]. Davi almejava estar na Casa do SENHOR para ali contemplar a beleza do SENHOR. Balaão quando aceitou subornos de Balaque, rei de Moabe, para amaldiçoar o povo de Israel, por três vezes tentou amaldiçoar ao povo de Israel, mas, todas as vezes ele fracassou, pois, não podia amaldiçoar o povo a quem Deus havia abençoado. Na terceira vez que ele tentou amaldiçoar Israel, ao ver as doze tribos acampadas ao redor do tabernáculo de Deus, o Espírito Santo de Deus veio sobre Balaão e ele então constatando a beleza daquela cena na qual Deus manifestava Sua glória sobre o tabernáculo, disse: 3 Palavra de Balaão, filho de Beor, palavra do homem de olhos abertos; 4 palavra daquele que ouve os ditos de Deus, o que tem a visão do Todo-Poderoso e prostra-se, porém de olhos abertos: 5 Que boas são as tuas tendas, ó Jacó! Que boas são as tuas moradas, ó Israel!” (Nm 24.3-5). Balaão via a beleza de Deus sobre o Seu povo. É a glória de Deus que embeleza o Seu povo, que dá sentido e beleza ao culto do SENHOR, e sem Deus o culto por mais ordenado e cheio de aparatos que seja não tem qualquer beleza.

Aplicação v.1-2: Todos os seres viventes, poderosos e fracos, nobres e pobres, anjos e demônios, todos devem tributos de glória a Deus. Felizes são aqueles que atenderam ao chamado de Cristo hoje, e nesta vida tributam amoravelmente a glória que é devida ao SENHOR Deus, pois, na eternidade continuarão fazendo na presença de Deus! Você estará com estes na glória eterna?

2- A Força de Deus, v.3-11

Exposição v.3-11: 3 Ouve-se a voz do SENHOR sobre as águas; troveja o Deus da glória; o SENHOR está sobre as muitas águas. 4 A voz do SENHOR é poderosa; a voz do SENHOR é cheia de majestade. 5 A voz do SENHOR quebra os cedros; sim, o SENHOR despedaça os cedros do Líbano. 6 Ele os faz saltar como um bezerro; o Líbano e o Siriom, como bois selvagens. 7 A voz do SENHOR despede chamas de fogo. 8 A voz do SENHOR faz tremer o deserto; o SENHOR faz tremer o deserto de Cades. 9 A voz do SENHOR faz dar cria às corças e desnuda os bosques; e no seu templo tudo diz: Glória! 10 O SENHOR preside aos dilúvios; como rei, o SENHOR presidirá para sempre. 11 O SENHOR dá força ao seu povo, o SENHOR abençoa com paz ao seu povo”.

Quando se quer medir a força física de uma pessoa toma-se como parâmetro a força de seus músculos; se entendermos que a força dessa pessoa é a autoridade e influência que ela exerce sobre outros, então “mediremos” sua força tendo como parâmetro o cargo que ela ocupa ou seu status social. Mas, aqui, Davi toma como parâmetro para mensurar a força do SENHOR algo incomum: a voz do SENHOR (ק֥וֹל יְהוָ֗ה).

O substantivo “voz” aparece 7 vezes neste salmo. Davi não somente está remontando aqui à criação do universo o qual surgiu “pela palavra do seu poder” (Hb 1.2-3), mas, também enfatizando ainda mais o contraste com a idolatria dos pagãos, pois, enquanto estes vãmente afirmavam que seus deuses haviam feito o mundo, Davi deixa bem claro que o SENHOR Deus somente com a Sua poderosa voz fez e faz tudo. A ênfase do poder e força de Deus está na Sua Palavra, e é por meio dela que Ele traz tudo a existência e faz tudo o que Lhe apraz.

A cena descrita nestes versículos, a de uma terrível tempestade seguida de um terrível terremoto, como nos lembra Calvino[6], tem como objetivo mostrar àqueles que por sua arrogância e demência zombam do SENHOR Deus, o qual, somente com a Sua poderosa voz é capaz de destruí-los. Que estes tais ímpios fiquem atentos e abandonem sua arrogância e se prostrem diante de Deus para, quem sabe, Dele receberem misericórdia.

Olhando para o horizonte, Davi vê as nuvens densas e escuras se avolumando nos céus. Trovões e relâmpagos rasgando o céu. Para qualquer pessoa é uma cena terrível, mas, para aquele que teme ao SENHOR Deus essa cena causa admiração pela grandeza de Deus. Os trovões são o som da voz de Deus, e assim, “troveja o Deus da glória”, Aquele que está acima da tempestade, cuja voz “é cheia de majestade”.

Mas, a tempestade agora se desloca para o interior do continente. Vai em direção ao norte, para o Líbano. E os imponentes cedros do Líbano, cuja formosura e estatura tornaram-se emblemas de força, estabilidade e grandeza, são despedaçados pela voz do SENHOR (v.5), e não por raios ou ventos. Mas, aonde essa tempestade chegou as montanhas do Líbano e Siriom (i.e. o Monte Hermom, cf. Dt 3.9) foram abalados por um terrível terremoto que se estendeu até ao deserto de Cades[7] (v.8). A cordilheira do Líbano fica cerca de 3.500 metros acima do nível do mar, e os cananeus acreditavam que era lá que seus deuses habitavam. Mas, quando a tempestade que Deus trouxera do mar e subiu para a cordilheira, a mesma “pulou” como bezerro novo quando sai do curral, e uma manada de bois selvagens (v.7). Ante o som da voz do SENHOR Deus que portentos fez na cordilheira do Líbano e no Siriom, as corsas do campo deram cria prematuramente, porque os bosques foram devastados pela tempestade orquestrada pela voz de Deus não restando a elas nenhum abrigo. Enquanto isso, no Seu templo, Seu povo ali reunido Lhe dão “glória” (v.9).

Há pouco mais de uma semana (08/09/2015) nossa cidade foi varrida por uma terrível tempestade que se comparada a essa descrita neste salmo parecerá uma brisa, e ainda nesta semana que se passou (16/09/2015) um forte terremoto destruiu as regiões norte e central do Chile, cujo tremor foi sentido aqui no estado de São Paulo. Quem passou por essa experiência consegue descrever o terrível pavor que um terremoto causa.

Enquanto essa demonstração do poder extraordinário de Deus se desenrolava perante os olhos dos ímpios arrogantes que agora estão terrificados de medo, a Igreja de Deus O louva e O adora. Como disse Calvino[8]:

Pior que irracional, é monstruoso imaginar que os homens não se deixem comover pela voz de Deus, quando ela exerce tal poder e influência sobre as bestas selvagens. Aliás, é vil ingratidão não perceberem os homens sua providência e governo em todo o curso da natureza; é uma detestável insensibilidade, porém, que pelo menos suas obras incomuns e extraordinárias, as quais compelem até mesmo bestas selvagens a obedecê-Lo, não lhes ensinem a sabedoria.

Que os arrogantes vejam que nada são ante Aquele que controla a força das tempestades e dos terremotos tão somente pelo poder da sua Palavra.

A certeza de que o Seu Deus é soberano e está no controle absoluto de tudo, e “como rei, o SENHOR presidirá para sempre”. Além do privilégio da adoração a Deus no Seu templo, à Igreja de Cristo são dadas (v.10-11):

  • A força do SENHOR, a mesma que é presente em Sua Palavra (voz);
  • A paz que a presença de Deus traz.

Não é impressionante que diante de uma visão tão assustadora como essa de uma terrível tempestade e um terremoto avassalador, o servo de Deus se encontre cheio de paz? Mas, é justamente isso que precisamos ter em mente: é a presença de Deus que enche o nosso coração de paz e não a ausência de problemas e tribulações nas circunstâncias da vida.

Aplicação v.3-11: Como o seu coração se comporta ante a voz (Palavra) de Deus? Ante a voz de Deus tempestades e terremotos, bosques e animais, anjos e demônios se estremecem. E o seu coração, como ele reage ao ouvir a potente e extraordinária voz de Deus? Seu coração queda-se reverente e cheio de temor? Confia no Deus que é Todo-Poderoso que somente com a Sua voz faz tudo o que Lhe apraz? Seu coração tem desfrutado do privilégio de louvar o Único e Verdadeiro Deus? Tem desfrutado da certeza de que a sua vida está muito bem guardada e dirigida por este único Deus Eterno? Tem recebido força e paz que emanam Dele? Como está seu relacionamento com este Deus?

Conclusão

Aqueles que contemplam Deus nas tempestades da vida sempre serão agraciados com a Sua Glória e Força. O último versículo deste salmo nos mostra que Deus confere ao Seu povo a sua Glória, isto é, o Seu Nome, pois, aqueles que Nele confiam são chamados de “Seu povo”, isto é, “Povo sobre quem está o Nome de Deus”, e também confere a Sua força, pois Ele “dá força ao seu povo”. E assim, a Glória e a Força do SENHOR Deus em nós enche o nosso coração paz.

Oração

“Ó, Deus Eterno, cujo trono está acima de toda a criação. Faze-nos ouvir a Tua voz todos os dias da nossa vida quando abrirmos a Tua Palavra e nela meditarmos. Que no meio de tantas vozes e ruídos neste mundo, nossos ouvidos estejam treinados e educados para ouvi-Lo sempre. Obrigado, Senhor, porque a nós Teus filhos, o som da Tua voz traz paz ao nosso coração. Louvamos-Te hoje e queremos louvar-Te sempre. Em Cristo Jesus, amém!”.

[1] Cf. BRUCE, 2008, p.790.

[2] Por exemplo, William MacDonald, 2007, vol.1, p.398.

[3] Cf. BRUCE, 2008, p.790.

[4] CALVINO, 1999, vol.1, p.611.

[5] Cf. CALVINO, 1999, vol.1, p.613.

[6] Cf. CALVINO, 1999, vol.1, p.616-622.

[7] Possivelmente, esse Cades é o que fica nos Orontes, uns 200 quilômetros ao norte de Damasco, e não Cades Barneia, no extremo sul (cf. HARMAN, 2011, p.148).

[8] CALVINO, 1999, vol.1, p.619.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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