Canções da Alma – 33ª Mensagem

Oração

“Amado Deus de nossas almas, instrua-nos em Tua Palavra. Ela que é a verdade que nos santifica e fortalece, é dela que os nossos corações necessita. Tire, ó Pai, do nosso coração toda ilusão de encontrarmos em nossos mesmos ou em nossos recursos a alegria que só encontramos em Tua Palavra. Abra os nossos ouvidos, e penetre fundo em nossa alma. Assim oramos em Nome de Jesus, amém!”.

 

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

Ações Que Glorificam a Deus

Sl 31

Contexto

“Ao mestre de canto. Salmo de Davi”.

O título deste salmo nos mostra que Davi o compôs para que servisse como parte do culto a Deus. Duas ocasiões podem ter sido o pano de fundo para este salmo: 1Sm 23.1-15 e 2Sm 15 – 18. Algumas expressões como, por exemplo: “Tornei-me opróbrio para todos os meus adversários, espanto para os meus vizinhos e horror para os meus conhecidos” (v.11), “Estou esquecido no coração deles” (v.12), ou e ainda, “cidade sitiada” (v.21), levaram muitos[1] a relacionar este salmo com o ocorrido em 1Sm 23.1-15, quando Davi por ordem de Deus foi livrar os habitantes da cidade de Queila que estavam sob ataque dos filisteus. Mas, quando seu sogro Saul, que o perseguia para mata-lo ficou sabendo que ele estava em Queila disse: “Deus o entregou nas minhas mãos; está encerrado, pois entrou numa cidade de portas e ferrolhos” (1Sm 23.7). Quando Davi ficou sabendo que Saul vinha no seu encalço, consultou a Deus em oração na presença do sacerdote Abiatar, e Deus lhe mostrou que os cidadãos de Queila, que festejavam com Davi a vitória sobre os filisteus, seriam os mesmos que o trairiam entregando-o nas mãos de Saul (v.9-12). Por isso, Davi e seus soldados fugiram e se abrigaram em lugares seguros no deserto, mas, Saul buscava todos os dias um jeito de capturar Davi e mata-lo.

Outros associam este salmo ao ocorrido em 2Sm 15 – 18 que narra a traição e rebelião comandada por Absalão, filho de Davi, na tentativa de tomar o trono de seu pai. Essa campanha durou meses, durante os quais Davi fugiu de Absalão evitando o confronto. Até mesmo Aitofel, o conselheiro mais proeminente de Davi o abandonou para seguir a Absalão. Essas duas ocasiões se encaixam nas palavras do v.13 “Pois tenho ouvido a murmuração de muitos, terror por todos os lados; conspirando contra mim, tramam tirar-me a vida”. Eu, porém, dou preferência à primeira.

Cercado por traidores, o coração de Davi ia do desespero ao refúgio em Deus, da dor angustiante de seu coração pecaminoso e que também sofria com o pecado dos outros ao refrigério que só Deus pode dar. As ações de Davi descritas neste salmo são ações que engrandecem e exaltam a Deus.

A situação de Davi neste salmo é muito parecida com a nossa em vários momentos da nossa vida. O tempo todo encontramos pessoas que querem o nosso mal e nos destruir, e assim como Davi devemos ter atitudes que também exaltam a Deus. Assim sendo, este salmo vem nos falar sobre: As ações que glorificam a Deus, assunto este que será o tema dessa mensagem.

Destacamos aqui três ações que glorificam a Deus:

1- Diante da maldade dos homens confie na justiça de Deus, v.1-8

Exposição v.1-8: “Em ti, SENHOR, me refugio; não seja eu jamais envergonhado; livra-me por tua justiça. 2 Inclina-me os ouvidos, livra-me depressa; sê o meu castelo forte, cidadela fortíssima que me salve. 3 Porque tu és a minha rocha e a minha fortaleza; por causa do teu nome, tu me conduzirás e me guiarás. 4 Tirar-me-ás do laço que, às ocultas, me armaram, pois tu és a minha fortaleza. 5 Nas tuas mãos, entrego o meu espírito; tu me remiste, SENHOR, Deus da verdade. 6 Aborreces os que adoram ídolos vãos; eu, porém, confio no SENHOR. 7 Eu me alegrarei e regozijarei na tua benignidade, pois tens visto a minha aflição, conheceste as angústias de minha alma, 8 e não me entregaste nas mãos do inimigo; firmaste os meus pés em lugar espaçoso”.

Diante da maldade dos homens confie na justiça de Deus, esta é a primeira ação que glorifica a Deus. Davi estava cercado de homens pérfidos que num momento estavam festejando com ele a vitória sobre os filisteus, e noutro, o delatavam a Saul. Daí então ele clamou a Deus por socorro. Davi mencionou de relance a maldade dos seus inimigos, mas, fez uma descrição detalhada da justiça de Deus pela qual ele clamava (v.1). Isso nos ensina algo muito importante: não devemos focar na maldade das pessoas, mas, mirarmos a grandeza de Deus e Sua justiça. Veja como Davi fez. Ele declarou que:

  • Deus era a sua proteção (v.1-4): Nestes versículos Davi usou algumas figuras de linguagem para descrever a ação de Deus e a Sua presença em sua vida: um castelo, uma cidadela fortificada, uma fortaleza intransponível e impenetrável, uma rocha, e um lugar espaçoso. Só Deus poderia livrá-lo não só dos inimigos, mas, também da vergonha de ser capturado por eles depois de ter sido entregue pelos que estavam próximos a ele. Só Deus poderia atender ao seu clamor e “depressa”. Só Deus poderia livrá-lo do “laço”, ou seja, das armadilhas de seus inimigos.
  • Deus era o seu Resgatador (v.5): a primeira parte deste versículo “Nas tuas mãos, entrego o meu espirito”, nos é muito conhecida. Séculos depois de Davi tê-las proferido, lá no Gólgota elas foram as últimas palavras do nosso Senhor Jesus que nos resgatou com Seu precioso sangue (Lc 23.46). A parte final deste versículo é muito profunda: “tu me remiste, SENHOR, Deus da verdade”. Remir significa “comprar de novo”. Foi isso que Deus fez com Davi, e foi justamente isso que Ele fez conosco por meio de Jesus: Ele nos comprou de novo para Si, e de Suas poderosas mãos ninguém pode nos arrancar jamais (Jo 10.28-29). Nas mãos de Deus Davi “encomendava”, “depositava” sua vida. E por que ele confiava sua vida a Deus? Porque Deus é o “Deus da verdade”.
  • Deus era o objeto do seu louvor (v.6-8): Enquanto os ímpios curvavam-se diante de “ídolos vãos”, Davi não tirava seus olhos e seu coração da pessoa de Deus. Em momento algum neste salmo encontramos Davi questionando a Deus pela traição que ele sofrera. Em momento algum ele acusou Deus de ser o responsável pela maldade humana das pessoas. Em vez disso, o que se vê é Davi louvando a Deus e depositando toda a sua confiança no seu Divino Resgatador.

Aplicação v.1-8: Você tem sido vítima de pessoas traiçoeiras e caluniadoras? Não fique focado nelas, em vez disso olhe firmemente para Deus e espere Nele a justiça. Não busque vingança, pois, isso tornará você tão desprezível quanto aqueles que lhe fazem o mal. Em meio às ações maldosas das pessoas confie na justiça de Deus de todo o seu coração.

2- Diante do sofrimento louve a Deus por Sua misericórdia, v.9-18

Exposição v.9-18:9 Compadece-te de mim, SENHOR, porque me sinto atribulado; de tristeza os meus olhos se consomem, e a minha alma e o meu corpo. 10 Gasta-se a minha vida na tristeza, e os meus anos, em gemidos; debilita-se a minha força, por causa da minha iniquidade, e os meus ossos se consomem. 11 Tornei-me opróbrio para todos os meus adversários, espanto para os meus vizinhos e horror para os meus conhecidos; os que me veem na rua fogem de mim. 12 Estou esquecido no coração deles, como morto; sou como vaso quebrado. 13 Pois tenho ouvido a murmuração de muitos, terror por todos os lados; conspirando contra mim, tramam tirar-me a vida. 14 Quanto a mim, confio em ti, SENHOR. Eu disse: tu és o meu Deus. 15 Nas tuas mãos, estão os meus dias; livra-me das mãos dos meus inimigos e dos meus perseguidores. 16 Faze resplandecer o teu rosto sobre o teu servo; salva-me por tua misericórdia. 17 Não seja eu envergonhado, SENHOR, pois te invoquei; envergonhados sejam os perversos, emudecidos na morte. 18 Emudeçam os lábios mentirosos, que falam insolentemente contra o justo, com arrogância e desdém”.

Diante do sofrimento louve a Deus por Sua misericórdia, esta é a segunda ação que glorifica a Deus. Davi descreveu seu sofrimento das seguintes:

  • Intensa e extensa angústia na alma e no corpo (v.9-10): Ele se sentia “atribulado”, ou seja, chacoalhado, agitado violentamente no seu íntimo. Seus olhos se consumiam nas lágrimas, sua alma relutava na tristeza a ponto de seu corpo sentir dores excruciantes. Toda essa angústia se arrastava por alguns anos nos quais ele vivia sob gemidos de dor, e isso debilitava-lhe as forças. Agora preste atenção à confissão que ele faz aqui: “debilita-se a minha força, por causa da minha iniquidade, e os meus ossos se consomem”. Não havia “vitimismo” nas palavras de Davi. Ele sabia que muito do seu sofrimento era culpa dele também. Nenhuma dor do coração é verdadeiramente tratada e curada enquanto o pecado que há nele não for confrontado diante de Deus!
  • Sentimento de abandono e medo da vergonha (v.11-13): O ataque dos inimigos fez com que as pessoas se afastassem dele. (1) opróbrio (escárnio) para os vizinhos: Seus vizinhos zombavam (חֶרְפָּ֡ה – censurado, escarnecido, zombado) dele; (2) horror para os conhecidos: por causa da ameaça que os inimigos representavam, os conhecidos de Davi tinham medo de serem associados a ele, e, por isso, todos fugiam dele. (3) esquecido pelos que lhe eram mais próximos: quando trazemos alguém em nosso coração é porque esta pessoa nos é muito importante, não é mesmo? Mas, as pessoas já não tinham mais essa consideração por Davi. Pelo contrário, o que ele via era “terror por todos os lados”. Esta expressão se tornou um refrão nas profecias de Jeremias (Jr 6.25; 20.3,10; 46.5; 49.29; Lm 2.22).

Como é difícil lidar com o sofrimento. Temos verdadeira repulsa pelo sofrimento e fazemos qualquer coisa para nos vermos livres dele, não é mesmo? Mas, não podemos nos esquecer que o sofrimento é um instrumento precioso que Deus usa para trazer-nos para perto Dele. Veja que foi justamente isso que aconteceu com Davi. No meio de seu sofrimento, em vez de murmurar ou ficar se queixando de sua condição, o que foi que ele fez? Ele louvou a Deus por Sua misericórdia:

  • Declarando sua confiança em Deus (v.14-15; 17-18): Novamente a frase “Nas tuas mãos” aparece aqui. Apesar de estar sob ataque dos inimigos e da possibilidade de cair nas mãos deles, Davi sabia que de fato, era nas mãos de Deus que ele estava. Que verdade preciosa temos aqui para nós. Não importam em quais circunstâncias estivermos, sempre estaremos nas mãos de Deus! Confiar significa “escorar-se, apoiar-se”. Davi não apoiava em si mesmo para que a justiça fosse feita contra os inimigos, mas, sim, apoiava-se em Deus e Nele esperava para que a justiça fosse feita.
  • Relembrando a Aliança do SENHOR (v.16): algumas frases nestes versículos nos remetem ao contexto da Aliança, como por exemplo: “Faze resplandecer o teu rosto sobre o teu servo”. Esta frase nos lembra da bênção Araônica em Nm 6.24.25. Relembrar as promessas da Aliança de Deus conosco é uma forma de louvá-Lo que enaltece-Lo como fiel, justo e benigno que é.

Aplicação v.9-18: Passando por sofrimentos, avalie-os na presença de Deus e veja quais deles são causados pelos inimigos, e quais são causados pelos seus próprios pecados. Em todos os casos, refugie-se em Deus e em Sua misericórdia. Só Ele poderá livrá-lo dos sofrimentos de sua alma. Mas não se esqueça de que Deus tem um propósito maravilhoso quando Ele permite que você passe por sofrimentos, a saber, traze-lo para mais perto Dele. Não importa em quais circunstâncias você vier a se encontrar você sempre estará nas mãos de Deus. Louve-O de todo o seu coração por isso!

3- Diante da vitória alcançada dê toda glória a Deus, v.19-24

Exposição v.19-24:19 Como é grande a tua bondade, que reservaste aos que te temem, da qual usas, perante os filhos dos homens, para com os que em ti se refugiam! 20 No recôndito da tua presença, tu os esconderás das tramas dos homens, num esconderijo os ocultarás da contenda de línguas. 21 Bendito seja o SENHOR, que engrandeceu a sua misericórdia para comigo, numa cidade sitiada! 22 Eu disse na minha pressa: estou excluído da tua presença. Não obstante, ouviste a minha súplice voz, quando clamei por teu socorro. 23 Amai o SENHOR, vós todos os seus santos. O SENHOR preserva os fiéis, mas retribui com largueza ao soberbo. 24 Sede fortes, e revigore-se o vosso coração, vós todos que esperais no SENHOR”.

Diante da vitória alcançada dê toda glória a Deus, esta é a terceira ação que glorifica a Deus. O nosso coração anseia por reconhecimento, por ser glorificado, honrado e amado. O próprio Davi neste salmo se lamentou por estar sendo esquecido no coração das pessoas (cf. v.12). Há em nós um desejo imenso de sermos reconhecidos e aplaudidos; nosso coração compete com Deus por glória. Por isso mesmo temos muito a aprender com Davi sobre como dar a Deus toda a glória pelas vitórias alcançadas.

Se aos ímpios e perversos Deus revela o Seu Juízo santo, àqueles que O temem Ele revela a Sua bondade, da qual Davi diz: “Como é grande a tua bondade”. Mas, esta bondade é reservada (צָפַן – lit. “esconder”, “tesouro escondido”). Sim, a bondade de Deus é um tesouro escondido e reservado somente para aqueles que O temem. E nesta bondade Deus acolhe e protege os que Nele se refugiam. Nos v.19 e 20, Davi faz um trocadilho com as palavras. Àqueles a quem Deus reservou (escondeu) Sua bondade, a estes Ele também os esconde (“No recôndito da tua presença”) e os colocará em segurança livres dos caluniadores e traiçoeiros.

Deus fizera grandes coisas na vida de Davi. Livrara o Seu servo e o pusera a salvo. Foi a mão do SENHOR Deus que lhe dera esse livramento, e ele sabia disso.

Seu coração até chegou a pensar que Deus havia Se esquecido dele. Anteriormente, Davi se viu esquecido no coração dos homens, e depois transferiu sua experiência para seu relacionamento com Deus. Como o nosso coração é corrompido! Muitas vezes transferimos para Deus as nossas decepções com as pessoas, como se Ele fosse igual a nós. Não foi o inimigo que assustou Davi, mas, sim a ideia de Deus ter Se esquecido dele. Mas, tão logo ele percebeu sua estupidez e incredulidade, o mais rápido possível se voltou para Deus louvando-O de todo o seu coração.

Os versículos finais são uma exortação àqueles que são “os seus santos”, isto é, do SENHOR. Calvino traduz “santos” (חֲסִ֫ידָ֥יו) por “humildes” para contrastar com “soberbo”[2]. Os santos de Deus andam humildemente em Sua presença. Em momento algum roubam para si a glória que é somente de Deus. Seus corações só se satisfazem em dar a Deus toda a glória por todas as bênçãos e vitórias alcançadas. Eles esperam no SENHOR Deus, e, por isso mesmo são revigorados e fortalecidos pelo Seu poder.

Aplicação v.19-24: Você teme a Deus? Você O ama de todo o seu coração? Se sim, a bondade de Deus está reservada escondida para você para que nela você também seja escondido e guardado na presença Dele. Por isso, não permita que o seu coração roube a glória que é de Deus, credite a Ele toda glória e louvor por tudo o que Ele tem feito em sua vida, por todas as vitórias e conquistas. Ame a glória de Deus, deseje-a, busque-a, mas, nunca aceite ser honrado e exaltado no lugar de Deus. Somente Ele merece o louvor. Revigore o seu coração e suas forças na esperança depositada em Deus. Se o seu coração alimenta alguma esperança que não está no ser de Deus, então você não está louvando e honrando a Deus. Creia no suprimento de bondade que Deus tem para a sua vida.

Conclusão

                   Como observamos no começo dessa mensagem, Davi percorria todas as sendas que iam da angústia, desespero e abandono à alegria, vitória e louvor. No meio dessa tensão está a esperança no poder de Deus sempre presente guardando e amparando aqueles que o temem e o amam. Confie Nele!

Oração

“Pai, Justo, misericordioso e digno de todo louvor, guarde-nos seguros e secretos em Tua santa presença que nos revigora e fortalece. Não nos deixe afastar de Sua presença gloriosa. Muito obrigado por Teu amor dispensado a nós. Em Nome de Jesus Teu Filho Santo, amém!”.

[1] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3. p.148.

[2] Cf. CALVINO, 1999, vol.2, p.34;

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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