Canções da Alma – 34ª Mensagem

Oração

“Santo Deus, hoje ouviremos sobre a alegria de sermos perdoados pelo Senhor. Aqueles que entre nós estiverem sobrecarregados com seus pecados, sentindo-se esmagados pela culpa, que hoje sejam confrontados e exortados a confessarem seus pecados e desfrutarem das maravilhas do Seu perdão. Assim oramos pela mediação do sangue de Seu Filho Amado, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, amém!”.

 

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

Um Coração Perdoado por Deus

Sl 32

Contexto

De Davi. Salmo didático”.

O título deste salmo e ele todo nos dá uma direção sobre o contexto em que ele foi escrito. Este salmo escrito por Davi é um מַ֫שְׂכִּ֥יל , isto é, “um cântico de instrução” (cf. v.8) daí a nossa tradução “Salmo didático”. E o que Davi divinamente inspirado quer nos ensinar aqui? Ele fala sobre Um Coração Perdoado por Deus.

Ainda que não encontremos neste salmo uma só referência à pessoa de Jesus Cristo como acontece com tantos salmos, este salmo é um dos mais evangélicos que existem, ou seja, nele encontramos o cerne do Evangelho da Graça de Deus que perdoa e recebe o pecador em Sua presença tão somente por que é cheio de graça e amor, e não por qualquer merecimento do homem[1]. Paulo citou este Salmo em Rm 4.6-8.

Destacamos aqui as seguintes verdades sobre um coração que de Deus perdoou:

 

1- Recebeu a maior alegria que existe, v.1-2

Exposição v.1-2: “Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto. 2 Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não atribui iniquidade e em cujo espírito não há dolo”.                      

Transgressão (v.1): no hebraico éפֶּ֗שַׁע , e significa “rebelião contra Deus, violação da Sua Lei”“Bem-aventurado” (אַשְׁרֵ֥י) significa: “verdadeiramente feliz, abençoado” ou numa exclamação “Ó, que felicidade!”[2]. Falando de sua própria experiência em ter sido perdoado por Deus, Davi descreve o perdão de Deus como a maior alegria de sua vida. Três palavras são usadas aqui (e no v.5) para descrever “pecado” e revelam a extensão do pecado de Davi do qual ele fora perdoado.

  • Pecado (v.1): no hebraico é חֲטָאָֽה , e significa “errar o alvo, cometer um erro, uma ofensa contra Deus”;
  • Iniquidade (v.2): no hebraico éעָוֹ֑ן , “maldade, perversão, fazer alguém desviar-se do caminho certo” e apesar de enfatizar pecado de cunho religioso, esta palavra abrange todas as formas de pecado contra Deus[3].

Davi estava verdadeiramente feliz, pois, fora perdoado por Deus, mesmo quando ele se mostrara rebelde contra Deus. Como Pai amoroso que é Deus perdoou a rebeldia de Davi quando ele violara a Lei de Deus. Ele experimentou o perdão de Deus até mesmo para aqueles erros que ele cometera mesmo tentando acertar o alvo, isto é, fazer a vontade de Deus, mas, por ser um pecador acabou não conseguindo acertar esse alvo (cf. Sl 19.12). Mas, não foi só aí. Davi também experimentou o perdão de Deus até mesmo quando ele determinadamente praticou tamanha maldade como o seu adultério com Bate-Seba e o assassinato covarde de Urias (2Sm 11).

O ensinamento aqui é claro: por maior que seja o nosso pecado, ele nunca será maior que a Graça de Deus, pois, “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5.20).

Aplicação v.1-2: Aquele que recebe o perdão de seus pecados é verdadeiramente feliz (v.1); aquele que tem sua consciência limpa diante de Deus e Deus não encontra falsidade e maldade em seu coração tem a maior alegria que alguém pode desfrutar nesta vida (v.2).

Mas, esta alegria imensa

 

2- Só é recebida mediante a confissão do seu pecado, v.3-5

Exposição v.3-5:3 Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia. 4 Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em sequidão de estio. 5 Confessei-te o meu pecado e a minha iniquidade não mais ocultei. Disse: confessarei ao SENHOR as minhas transgressões; e tu perdoaste a iniquidade do meu pecado”.

“Enquanto eu calei”. Antes de experimentar essa maravilhosa alegria através do perdão de Deus, Davi não só relutou em seu coração, como principalmente se rebelou abertamente contra Deus. Enquanto Davi escondia seus pecados e não os confessava a Deus vivia chorando e gemendo, sentindo fortes dores no seu corpo. O pecado escondido em seu coração fez com que ele sentisse seus ossos se desgastarem. Se for uma enfermidade mesmo, ou se aqui ele está usando uma metáfora, o que importa é que entendamos o quão maléfico é o pecado não confessado e abrigado em nosso coração. O pecado não confessado é como uma cobra venenosa que abrigamos em nossa casa, a qual, mais cedo ou mais tarde desferirá seu veneno mortal em nós.

Como disse o Charles Spurgeon: “Deus não permite que seus filhos pequem com sucesso”[4]. Porque Deus pesou Sua mão sobre Davi o tempo todo, e este viu seu humor ser mudado para como o humor de alguém que está sendo fustigado pelo sol escaldante do deserto. A forma como a frase está construída no hebraico indica que Davi estava sendo exprimido por Deus, apertado como a massa de um pão é sovada e depois levada ao forno escaldante para ser assada.

Dizem que uma pessoa que não está em paz consigo mesma não estará em paz com ninguém. Bem, não encontramos isso em lugar algum na Palavra de Deus. Em vez disso, o que a Palavra de Deus nos mostra é que um coração cheio de pecados não confessados e não abandonados não sabe o que é paz com Deus, com os outros e consigo mesmo. É um coração infeliz. Em 2Sm 12.1-15, encontramos o exato momento dessa confissão. O profeta Natã enviado por Deus foi à presença de Davi e lhe contou uma história sobre um homem rico que tomara a única ovelhinha de um homem e com ela fez um banquete para os seus hóspedes. Davi ficou furioso e ordenou a morte do tal homem. Mas, era ele este homem. Naquele momento, Davi confessou o seu pecado e disse: “Pequei contra o SENHOR” (2Sm 12.13). Confessar significa “concordar com Deus a respeito do julgamento que Ele faz da nossa pessoa”. No momento em que Davi assim o fez, ele ouviu da parte de Deus por boca de Natã: “Também o SENHOR te perdoou o teu pecado; não morrerás”. O perdão de Deus tudo mudou; quando ele deixou de fugir de Deus e concordou (confessou) com Ele a respeito do seu pecado, Deus o perdoou. Assim, ele experimentou a alegria descrita nos v.1-2.

Aplicação v.3-5: Não adianta combater os efeitos do pecado se você não combater o próprio pecado. Não adianta querer se ver livre das dores quer sejam físicas, emocionais ou espirituais se você não tratar de forma correta o seu pecado, ou seja, confessando-o a Deus. Não adianta você se encher de remédios e gastar absurdos com terapias se você não dobrar seu coração na presença de Deus e confessar o seu pecado. Faça como Davi: seja diligente em cumprir a resolução de confessar a Deus os seus pecados.

Esta imensa alegria que nos é dada graciosamente por Deus mediante a confissão de nossos pecados

 

3- É um testemunho para atrair outros a Deus, v.6-7

Exposição v.6-7:6 Sendo assim, todo homem piedoso te fará súplicas em tempo de poder encontrar-te. Com efeito, quando transbordarem muitas águas, não o atingirão. 7 Tu és o meu esconderijo; tu me preservas da tribulação e me cercas de alegres cantos de livramento.

A confissão do pecado é feita mediante a oração cheia de fé. Aquele que ora a Deus com fé pedindo perdão de seus pecados será perdoado, e isso servirá de testemunho para outros.

Os piedosos ao constatarem o amor e o perdão de Deus na sua vida confiarão em Deus fazendo súplicas na esperança de serem atendidos por Ele, e mesmo que as angústias dessa vida venham sobre eles como as “muitas águas” de uma enchente, eles não serão atingidos (destruídos). “Sendo assim”, ou “por isso”, apontando para a graça de Deus que é revelada àqueles que O buscam com fé e sinceramente arrependidos, todo filho Dele que é um “homem piedoso”, isto é, obediente e temente “lhe fará súplicas em tempo de poder encontrar-te”. Estas palavras nos lembram Is 55.6: “Buscai ao SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto”. Mas, qual é o tempo oportuno para encontrarmos o favor de Deus? É fato que Ele sempre se nos revela gracioso e pronto a nos perdoar, mas, isso não deve nos levar à indolência e ao menosprezo para com a bondade de Deus. Tão logo reconheçamos nosso pecado corramos para Deus com o coração contrito e compungido.

A confiança em Deus não somente nos faz aproximarmos Dele pedindo o Seu perdão como também nos faz abrigar Nele como um “esconderijo”. Deus transformara a situação angustiosa do coração de Davi em “alegres cantos de livramento” (lit. “cânticos de escape”). Quando as muitas águas da angústia cercaram o coração de Davi, Deus providenciou-lhe um escape. A cena aqui é de Davi entrando no templo do SENHOR para louvá-Lo juntamente com outros servos do SENHOR que também eram piedosos.

Aplicação v.6-7: O perdão de Deus na vida de Davi encorajou outros a buscarem a Deus clamando o Seu perdão, e a se abrigarem em Deus. O melhor testemunho que você pode dar diante dos homens não são as suas obras, mas, sim, as obras de Deus. Dar um bom testemunho é muito mais do que não fazer coisas erradas, é mostrar a profunda transformação que Deus efetuou em sua vida, tirando você da angústia de um coração carregado de pecados para receber o perdão que traz a verdadeira felicidade. As pessoas precisam desesperadamente de felicidade, mas, a única felicidade que realmente conta é a que é oriunda do perdão de Deus. Sua vida é um exemplo do perdão de Deus? As pessoas veem em você a obra de salvação que só Deus pode fazer? Você tem refletido a felicidade de um coração perdoado?

Esta alegria imensa adquirida pela Graça de por meio da confissão, além de servir de testemunho para atrair outros a Deus

4- Deve cultivar uma vida de santidade e obediência, v.8-11

Exposição v.8-11:8 Instruir-te-ei e te ensinarei o caminho que deves seguir; e, sob as minhas vistas, te darei conselho. 9 Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento, os quais com freios e cabrestos são dominados; de outra sorte não te obedecem. 10 Muito sofrimento terá de curtir o ímpio, mas o que confia no SENHOR, a misericórdia o assistirá. 11 Alegrai-vos no SENHOR e regozijai-vos, ó justos; exultai, vós todos que sois retos de coração. Quem está falando aqui nos v.8-9? Alguns[5] entendem que pelo fato de Davi estar na Casa de Deus (cf. v.7) é o próprio SENHOR Deus quem fala prometendo ao Seu servo que irá instruí-lo na forma como deve viver. Outros[6] entendem que é Davi se dirigindo aos homens piedosos que o cercavam ali no templo no momento em que entoavam “alegres cantos de livramento” (v.7). Eu concordo com os que optam pela primeira interpretação. Contudo, o mais importante aqui é entendermos que os v.8-11 estão tocando num ponto muito importante: santidade e obediência como resultados do perdão. Já vimos em outros salmos que “caminho” num sentido figurado como aqui quer dizer comportamento. Quer seja Deus falando essas palavras ou Davi, o “conselho” de Deus para os Seus filhos se encontra em Sua Palavra, à qual devemos responder com santidade e obediência. É na Palavra de Deus que Ele nos instrui, e é sob a orientação da mesma (“sob as minhas vistas”) que achamos o conselho de Deus para o nosso coração.

Aquele que docilmente se submete à Palavra de Deus “a misericórdia o assistirá”, ao passo que aquele que se comporta teimosa e desobedientemente para com a Palavra de Deus, além de assemelhar-se a animais irracionais que só podem ser domados à força “Muito sofrimento terá de curtir”. Aqui Davi estava relatando a sua própria experiência de vida. Houve um tempo que ele se tornou como uma mula teimosa que foi necessário Deus ferir-lhe como se fere um equino selvagem e bruto com freios e cabrestos. Em Hb 12.7-11, vemos que esses “freios e cabrestos” que Deus usa na vida dos filhos Dele é a disciplina. Ele disciplina aos Seus filhos, ao passo que os quem não é filho Ele os entrega a si mesmos (cf. Rm 1.24,26,28).

Um coração que foi perdoado por Deus deve preservar-se em santidade e obediência na presença de Deus, e sob as vistas de Deus buscar o Seu conselho, pois, se não fizer assim, facilmente cairá na displicência e insolência banalizando a Graça de Deus. Em tal espírito será encontrado dolo (v.2). Encerrando este salmo, Davi conclama a todos os filhos de Deus a se alegrarem, regozijarem e exultarem no SENHOR Deus, e como vimos tudo isso é possível somente mediante o perdão dos pecados. Só pode experimentar a verdadeira alegria e louvar a Deus de todo o coração, aquele que sabe o que é ser perdoado por Ele.

Aplicação v.8-11: Você tem certeza da sua salvação? Tem certeza de que Deus o perdoou de seus pecados? Para saber a resposta é só olhar para sua vida e ver se você tem vivido em santidade e obediência à Palavra de Deus. Uma fé que não santifica não salva; uma fé que não obedece a Deus não leva você para o céu. Você foi perdoado e salvo por Deus para viver em santidade e obediência a Ele (cf. Ef 1.3-4), qualquer estilo de vida diferente desse não é o que Deus preparou para você (cf. Ef. 2.10).

                  

Conclusão

Enquanto você se calar no seu pecado, guarda-lo dentro do seu coração em vez de confessá-lo a Deus você não somente não experimentará a maior alegria que existe, a alegria de ter sido perdoado por Deus, como também estará em declarada rebeldia e desobediência a Deus, envenenando o seu coração. Não há qualquer possibilidade de você ser feliz enquanto fugir de Deus. Paradoxalmente, é correndo para os braços de Deus confiado no sacrifício de Jesus Cristo que você se livrará da ira de Deus contra o pecado.

 

Oração

“Ó Pai, somos eternamente gratos ao Senhor por ter nos dado o Teu perdão. Não o merecemos, mas, a Tua graça nos convida ao Teu amor e à alegria perene que existe somente no Teu perdão. Que os corações que hoje se encontram pesados pelos seus pecados experimentem o Teu perdão. Assim oramos, em Nome de Jesus Cristo, amém!”.

[1] Cf. HENRY, 2010, vol.3, p.314.

[2] VANGEMEREN, 2011, vol.1, p. 553.

[3]Cf. VANGEMEREN, 2011, vol.3, p.352.

[4] In WIERSBE, 2010, vol.3, p.149.

[5] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.150.

[6] Cf. CALVINO, 1999, vol.2, p.51 e HARMAN, 2011, p.157.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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