Canções da Alma – 35ª Mensagem

Oração

“SENHOR Deus, clamamos que o Senhor venha nos instruir em Tua Palavra. Somos tão pequenos, tão limitados, tão fracos em nosso raciocínio. Como poderemos entender as verdades preciosas da Tua Palavra se o Senhor mesmo não nos ensinar? Mas, Pai, muito mais do que o mero entendimento queremos ser restaurados, vivificados e fortalecidos pela Tua Palavra. Tende piedade de nós. Assim oramos, por meio de Cristo Jesus, amém!”.

 

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

Razões Para Louvarmos a Deus

Sl 33

Contexto

                  “Conta as bênçãos, dize quantas são, recebidas da divina mão!

                  Vem dizê-las, todas de uma vez, e verás surpreso, quanto Deus já fez!”

                                               (Novo Cântico, Hino 63).

Temos sido abençoados por Deus muito além do que podemos imaginar. Devemos louvar a Deus por todas as bênçãos que Ele nos concede. Contudo, não são somente as bênçãos que Deus nos dá as únicas razões que temos para adorá-Lo.

Quem quer que tenha escrito este Salmo, teve como propósito compelir os crentes a louvarem a Deus pelos atributos Dele descritos neste Salmo. Por isso mesmo quero refletir com você nesta ocasião sobre “Razões para louvarmos a Deus”.

Exposição v.1-3: “Exultai, ó justos, no SENHOR! Aos retos fica bem louvá-lo.  2 Celebrai o SENHOR com harpa, louvai-o com cânticos no saltério de dez cordas. 3 Entoai-lhe novo cântico, tangei com arte e com júbilo”.

Este Salmo descreve vários elementos do caráter de Deus e Seus atributos, os quais devemos trazer sempre em nossa mente quando estivermos louvando a Deus. Antes de falar desses atributos o salmista faz uma convocação nos v.1-3 para que o povo de Deus O adore com excelência. Ele destaca que para os justos, o Seu povo “fica bem louvá-lo” (v.1). Nada neste mundo promove tanta dignidade ao homem como o louvor a Deus e é por isso que fora de uma vida com Deus o homem é vazio.

Os instrumentos listados aqui não são os únicos com os quais podemos adorar a Deus. Aqui o salmista simplesmente não está dizendo com que tipo de instrumentos podemos louvar a Deus, mas, sim como esses instrumentos e cânticos devem ser executados diante do SENHOR Deus.

A expressão “um novo cântico… com arte e júbilo” aponta não para um cântico diferente a cada culto, mas, sim, para a excelência na forma como apresentamos a Deus esses cânticos. O Deus que é o SENHOR absoluto, santo, puro, eterno, justo, a quem todos os atributos gloriosos são conferidos deve ser louvado com toda excelência que podemos demonstrar.

Aplicação v.1-3: Não se trata de exibicionismo vaidoso, e nem mesmo de profissionalismo, mas, sim de zelo para com o Nome de Deus. Se demonstrarmos zelo em nossa forma de cultuar a Deus mostraremos o quão importante Ele é para nós. A postura e reverência com as quais nos achegamos ao culto a Deus dizem muito do valor do nosso amor e apreço por Ele. Com uma capa de sinceridade acobertamos o desmazelo e o pouco caso que fazemos da santidade de Deus em nossos cultos. Achamos que o nosso relaxo será aceito por Deus se formos sinceros. Contudo, essa sinceridade é uma ofensa a Deus.

Isto posto, o salmista passa a descrever as razões pelas quais devemos louvar a Deus. Observe que todas essas razões estão em Deus e não em nós ou nas circunstâncias da vida.

1- A Sua Palavra, v.4-9

Exposição v.4-9:4 Porque a palavra do SENHOR é reta, e todo o seu proceder é fiel.  5 Ele ama a justiça e o direito; a terra está cheia da bondade do SENHOR.  6 Os céus por sua palavra se fizeram, e, pelo sopro de sua boca, o exército deles.  7 Ele ajunta em montão as águas do mar; e em reservatório encerra as grandes vagas.  8 Tema ao SENHOR toda a terra, temam-no todos os habitantes do mundo.  9 Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir”.

A “palavra do SENHOR” aqui, primeiramente indica a instrução que o SENHOR Deus dá àqueles que O amam. Essa instrução que foi registrada com o propósito de nos revelar Deus e Nele termos esperança (cf. Rm 15.4) está intimamente ligada ao proceder de Deus que “é fiel”, e ao Seu caráter, pois, “Ele ama a justiça e o direito” (v.5), e por isso mesmo em todos os lugares podemos ver a Sua “bondade” (חֶ֥סֶד). Por mais que a maldade dos homens se alastre como uma praga “a terra está cheia da bondade do SENHOR” e em cada dia presenciamos a Sua bondade de diversas maneiras. Os filhos de Deus sempre veem o agir de Deus apesar das circunstâncias e reconhecem a Sua bondade sempre presente, o nome disso é gratidão.

Estes versículos nos remetem ao relato da Criação, e assim como no Gênesis e em todas as partes das Escrituras que falam sobre a Criação, o destaque é para a Palavra Criadora de Deus “Os céus por sua palavra se fizeram… pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir”.

Qual deve ser a nossa resposta à Palavra de Deus? O v.8 diz: “Tema ao SENHOR toda a terra, temam-no todos os habitantes do mundo”. Em Rm 1.20, Paulo afirma que “…os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis”. Dois livros revelam a existência de Deus: a Criação e as Escrituras. Este último apresenta mais que Sua existência: revela-nos o Seu caráter. Contudo, somente o “livro” da Criação é suficiente para que os homens sejam considerados indesculpáveis diante do tribunal de Deus, e não poderão alegar que não tiveram nenhuma evidência de Sua existência. Felizes são aqueles que temem a Deus como resultado de terem entregue suas vidas a Ele e o adoram alegremente.

Aplicação v.4-9: Louve a Deus por Ele ter lhe dado a conhecer a Sua Palavra através da qual você pode conhecê-Lo e ama-Lo pelo o que Ele é. Ame a Palavra de Deus, porque amando-a, você conhecerá mais a Deus e O amará ainda mais.

2- A Sua Vontade, v.10-12

Exposição v.10-12:10 O SENHOR frustra os desígnios das nações e anula os intentos dos povos. 11 O conselho do SENHOR dura para sempre; os desígnios do seu coração, por todas as gerações. 12 Feliz a nação cujo Deus é o SENHOR, e o povo que ele escolheu para sua herança”.

“Falar da glória obediente da natureza é lembrar-se da rebeldia descarada do homem”[1]. Se é maravilhoso vermos como a natureza glorifica e expressa a glória de Deus (cf. Sl 19.1), é lamentável vermos como aquele que foi criado e capacitado para ser o principal adorador é, por causa do pecado, o ser mais insolente, mais, atrevido e arrogante que existe. Nenhuma outra criatura de Deus se opõe à Sua vontade, mas, o homem, escravo do pecado, não faz outra coisa senão insultar a Deus. Contudo, isso não deve nos fazer pensar que Deus é impotente ou até mesmo apático diante da rebeldia do homem. Antes, “O SENHOR frustra os desígnios das nações e anula os intentos dos povos”. Ele não precisa da permissão dos povos e dos seus reis. Independente das decisões dos homens, a vontade de Deus prevalece e é soberana. Isso traz ao nosso coração a segurança de que tanto precisamos especialmente quando vemos ao nosso redor tanta corrupção e malignidade praticada pelos nossos governantes. Somente a vontade de Deus é eterna, somente o Seu conselho e os Seus desígnios do Seu coração atravessam as gerações. Deus fará tudo o que Ele estabeleceu em Seu coração, nada mais e nada menos, e nessa certeza deve descansar o nosso coração.

O v.12 não pode ser separado dos dois precedentes, pois, “o povo que ele escolheu para sua herança” é um só, a saber, os Seus eleitos. É claro que aqui o salmista está pensando estritamente em Israel, mas, quando nos volvemos para a Nova Aliança vemos que este povo é a Igreja de Cristo que começou com a nação de Israel, mas, que sempre foi composta pelos eleitos de Deus. Estes a quem Ele constituiu como Seu povo são verdadeiramente felizes porque vivem debaixo do senhorio de Deus.

Aplicação v.10-12: De todas as manifestações da vontade de Deus, sem dúvida alguma a mais maravilhosa, a mais importante de todas para nós foi a Sua vontade em nos escolher e salvar, constituindo-nos o Seu povo, a Sua herança. Que isso encha o nosso coração da mais profunda alegria em saber que Deus tem a Sua vontade estabelecida, e nem mesmo todos os poderes deste mundo poderão nos demover da Sua graça.

3- A Sua Onisciência, v.13-15

Exposição v.13-15:13 O SENHOR olha dos céus; vê todos os filhos dos homens;  14 do lugar de sua morada, observa todos os moradores da terra, 15 ele, que forma o coração de todos eles, que contempla todas as suas obras”.

O fato de que Ele “olha dos céus” aponta para duas verdades: (1) Ele está acima de todos e ninguém é maior que Ele, e, (2) ninguém escapa do Seu olhar, pois, Ele “vê todos os filhos dos homens; do lugar de sua morada, observa todos os moradores da terra”. Escondemos das pessoas nossos segredos, mas, jamais conseguiremos escondê-los de Deus. O olhar de Deus é todo abrangente, ou seja, ninguém escapa dos Seus olhos. Aqueles que tentam esconder das pessoas o que realmente são e fazem se depararão com a dura realidade de ver todas as suas obras ocultas serem trazidas por Deus à plena luz.

O v.15 é ainda mais enfático ao dizer que sendo Ele quem formou os corações de todos os homens, Ele também é capaz de perscrutar todas as intenções dos mesmos, afinal Ele é o que “sonda mentes e corações” (Rm 8.26). Ele não vê somente o exterior (“todas as suas obras”), mas também o coração (1Sm 16.7). Até as intenções mais secretas do coração dos homens serão reveladas. Nas palavras de Pv 24.12 vemos como isso é claro: “Se disseres: Não o soubemos, não o perceberá aquele que pesa os corações? Não o saberá aquele que atenta para a tua alma? E não pagará ele ao homem segundo as suas obras?”.

Aplicação v.13-15: Não há como fugirmos do olhar de Deus, mas, há uma maneira segura de vivermos debaixo do Seu olhar, a saber, em temor, amor e obediência à Sua Palavra confiantes no sacrifício santo de Jesus. Aos que andam assim na presença de Deus, certamente o olhar de Deus será de alegria e aprovação.

4- A Sua Providência, v.16-22

Exposição v.16-22:16 Não há rei que se salve com o poder dos seus exércitos; nem por sua muita força se livra o valente. 17 O cavalo não garante vitória; a despeito de sua grande força, a ninguém pode livrar. 18 Eis que os olhos do SENHOR estão sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua misericórdia, 19 para livrar-lhes a alma da morte, e, no tempo da fome, conservar-lhes a vida. 20 Nossa alma espera no SENHOR, nosso auxílio e escudo.  21 Nele, o nosso coração se alegra, pois confiamos no seu santo nome. 22 Seja sobre nós, SENHOR, a tua misericórdia, como de ti esperamos”.

O coração do homem é enganoso (Jr 17.9). Ele inventa coisas para facilitar sua vida e depois passa a confiar nelas. Os reis (governantes) confiam em seus exércitos, mas, não é o poder desses exércitos que lhes garante a vitória. Como vimos no v.10, é a vontade de Deus que estabelece um rei e abate a outro. Os cavalos era para os reis antigamente o que os tanques de guerra e os aviões são para os homens de hoje. O ensinamento aqui é: não é a força e o poder do homem que o sustenta, o livra e o faz vencer, mas, sim, Deus.

Os v.18-19 fazem um jogo com as palavras que é muito importante. Enquanto “os olhos do SENHOR estão sobre os que o temem”, estes que o temem também estão olhando para Ele, pois, “esperam na sua misericórdia”, e pela misericórdia de Deus são livrados da morte, e têm sua vida conservada mesmo quando tempos de fome varrem a terra.

Deus livra, dá vitória e sustenta a vida daqueles que Nele confiam. A isto chamamos de “Providência”. Como é bom saber que podemos confiar em Deus. Saber que não importam as circunstâncias, Ele estará sempre cuidando de nós.

Observe que a Bíblia não diz que os filhos de Deus não passam por dificuldades, não enfrentam fome, e nem mesmo morrem. Pelo contrário, a fome também pode bater à casa dos filhos de Deus, a morte também entre lá, mas, os filhos de Deus não sofrem nada para o que não tenham em Deus, o consolo e a proteção. O que de pior pode acontecer aos homens é a morte, mas, para os filhos de Deus até a morte é lucro (Fp 3.7). A diferença dos filhos de Deus para os ímpios não é que eles não tenham sofrimentos, mas, quando os têm não perdem Deus de vista. João Calvino disse[2]: Deus às vezes permite que seus servos sofram fome por algum tempo, para que depois os sacie, e que os envolve com as trevas da morte, para que a seguir os restaure à luz da vida. Sim, só começamos a pôr nossa firme confiança nele quando a morte surge diante de nossos olhos; porque, até que conheçamos, por experiência, a vacuidade dos auxílios do mundo, nossos afetos continuarão enredados por eles e a eles jungidos”.

Encerrando este salmo, o profeta faz uma declaração de sua confiança em Deus. Assim como ele começara este salmo conclamando os filhos de Deus a adorá-Lo, agora ele encerra mostrando que a maneira mais vívida para louvarmos a Deus é expressando a nossa confiança Nele.

Os v.20-22 são um testemunho que o salmista (e todos os filhos de Deus) dá a respeito de sua confiança em Deus. Ele se dirige às pessoas e declara: “Nossa alma espera no SENHOR, nosso auxílio e escudo”. O mais íntimo do nosso ser, a nossa alma, o fôlego de vida que Deus mesmo nos deu, se volta para Ele, e Nele busca e encontra socorro (auxílio) e proteção (escudo). Por isso mesmo, “Nele o nosso coração se alegra, pois, confiamos em seu santo nome”. “Onde há confiança verdadeira no caráter de Deus, então pode haver cânticos de alegria que enalteçam o que ele é para o Seu povo”[3]. Por isso mesmo o salmista encerra dizendo: “Seja sobre nós, SENHOR, a tua misericórdia, como de ti esperamos”. A esperança que espera em Deus, esta é a esperança que deve estar no coração do crente. Assim, este salmo apresenta as três grandes virtudes da vida cristã: a fé (v.21), a esperança e o amor (v.22).

Aplicação v.16-22: Não basta deixarmos o lugar de adoração simplesmente nos “sentindo bem”, pois os sentimentos são temporários e, por vezes, enganosos. Nosso louvor só alcança o objetivo de Deus quando passamos a amar mais ao Senhor e a Seu povo, a ter mais fé e esperança no Senhor e a avançar na batalha da vida com mais confiança e alegria.

Conclusão

O maior motivo para louvarmos a Deus é o próprio Deus. Que assim possamos adorá-Lo com toda força do nosso coração.

Oração

Ó Pai, faze com que o nosso coração não busque outra motivo para Te louvar além do Senhor mesmo. Que Tu sejas a única razão do nosso louvor e adoração. Assim oramos, em Nome de Jesus, amém!”.

[1] KIDNER, 1980, p.157.

[2] CALVINO, 1999, vol.2, p.72.

[3] HARMAN, 2011, p.161.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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