Canções da Alma – 38ª Mensagem

Oração

“Santo Deus. Neste momento em que o nosso coração queda-se diante da Tua Palavra, suplicamos a Ti que fale ao nosso coração. Não merecemos tal graça, mas, carecemos totalmente de Ti. Reconhecemos a nossa indignidade diante de Ti, mas, aqui estamos pelos méritos de Teu Filho Jesus Cristo, o Santo, o Justo. Em Nome Dele oramos e confiamos, amém!”.

 

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

A Benignidade de Deus

Sl 36

Introdução

                  Quero meditar com você nesta ocasião sobre: A benignidade de Deus. Por três vezes (v.5,7 e 10) aparece o substantivo חֶסֶד que é traduzido aqui como benignidade. Este substantivo no Antigo Testamento traz consigo a ideia de “fidelidade, amor imutável, ou, de forma, mais geral, bondade, apontando para o aspecto fortemente relacional”[1], ou seja, esta é a forma como Deus trata os Seus filhos; é o Seu amor pactual.

Contexto

             Davi se apresenta como “servo do SENHOR”, e “servo” (עֶבֶד) aqui, significa “escravo”. Davi não somente se via como alguém que servia a Deus, mas, como alguém que pertencia a Deus. E isto era o maior privilégio para o seu coração.

                  Este salmo foi entregue aos cuidados do mestre de canto”, o regente de música do Templo para que fosse entoado por todo o povo. Ele relata as reflexões de Davi sobre o impacto profundo que a glória de Deus causa no coração do pecador. E assim, Davi vem nos mostrar que a única esperança para o pecador está na benignidade de Deus.

                  Encontramos aqui duas verdades sobre a benignidade de Deus

1- Ela revela a nossa pecaminosidade, v.1-4

Exposição v.1-4: “Há no coração do ímpio a voz da transgressão; não há temor de Deus diante de seus olhos.  2 Porque a transgressão o lisonjeia a seus olhos e lhe diz que a sua iniquidade não há de ser descoberta, nem detestada.  3 As palavras de sua boca são malícia e dolo; abjurou o discernimento e a prática do bem. 4 No seu leito, maquina a perversidade, detém-se em caminho que não é bom, não se despega do mal”.

                   Nestes quatros primeiros versículos Davi descreve o coração do ímpio. Mas, como ele poderia descrever tão bem assim o coração de um ímpio, se um dia ele não tivesse sido um? Assim, nestas palavras ele descreve a si mesmo e também cada um de nós. Antes de termos sido alcançados pela benignidade de Deus éramos exatamente como a descrição destes versículos. E ainda hoje, mesmo tendo sido transformados por Deus, quando não vigiamos nosso coração e o trazemos à obediência de Cristo podemos facilmente agir assim. João Calvino também entendeu assim estes versículos, e via neles Davi relatando a sua própria pecaminosidade[2]. E a forma como ele descreve o coração do homem sem Deus é assustadora, é um golpe em nosso coração que insiste em pensar que é bom, quando na verdade é totalmente corrompido.

                   “As palavras de sua boca são malícia e dolo”. Quantas vezes usamos de mentira e engano! Quantas vezes escondemos os nossos reais sentimentos que temos por alguém, sentimentos de ódio, de rancor, de ira, mas, na presença dessa pessoa as nossas palavras são bajuladoras, mentirosas e hipócritas! Quantas vezes deixamos de entender e de fazer o bem, porque nosso coração obstinado e rebelde abdicou o entendimento proveniente da Palavra de Deus. E para que nenhum de nós se engane ou mesmo ouse discordar que somos totalmente depravados e carecemos totalmente de Cristo, Davi começa falando do que é o mais secreto do nosso ser: o nosso coração. Somos podres e estragados na fonte. Quem de nós nunca seguiu a voz do próprio coração e fez e cometeu erros terríveis? Em nosso coração existe “a voz da transgressão”, isto é, da rebeldia. Quando ele diz que não há temor de Deus diante dos olhos do ímpio, não devemos pensar que isso nada diga respeito a nós também, pois, a cada pecado que cometemos estamos seguindo a voz de rebeldia que grita em nosso coração em vez de ouvirmos a voz de Deus – e isto é falta de temor a Deus em nosso coração! Quantas vezes nos gabamos da nossa rebeldia, do nosso “jeitinho brasileiro de ser”, da nossa esperteza? Quantas vezes pecamos e a princípio fazemos de tudo para esconder das pessoas, e até nos sentimos seguros, e dizemos: “Meu pecado não será descoberto; ninguém ficará sabendo disso”. Não brinquemos com o pecado. Um abismo sempre chamará outro abismo.

                   Agora preste atenção ao v.4. Quantas vezes lá no nosso leito perdemos o sono e nos entregamos a pensamentos malignos! Mas não somente pensamos coisas malignas e perversas, como muitas vezes até tramamos planos iníquos. Em vez de nos entregarmos à meditação da Lei de Deus (Sl 1.2; 16.7; 42.8; 63.6) acabamos emprestando nossa mente e coração ao pecado. “O coração corrupto gerou uma consciência corrupta, uma mente confusa e uma vontade pervertida”[3]. Matthew Henry  afirma que “as omissões se tornam comissões”, ou seja, quando não submetemos nossa mente à Palavra de Deus, Satanás facilmente enche o nosso coração com sugestões pecaminosas que já estão fervilhando em nosso coração. É por isso que Deus nos ordena a que tenhamos habitando ricamente em nosso coração a Sua Palavra para com ela nos aconselharmos, instruirmos e edificarmo-nos mutuamente (cf. Cl 3.16). Preste atenção: quando você deixa de fazer o bem você já está fazendo o mal, você já está pecando como nos lembra Tiago: “Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando” (Tg 4.17).

Aplicação v.1-4: Irmãos, temos de ser honestos em admitir que se Deus nos soltasse por alguns instantes nosso coração seguiria por caminhos sórdidos.  A benignidade de Deus ressalta o quão malignos nós somos. A nossa pecaminosidade é latente. E é por isso que precisamos clamar a Deus para que transforme o nosso coração e nos molde à semelhança de Cristo (Rm 8.28-29). Não nos iludamos: tudo o que há de bom em nosso coração é resultado da benignidade de Deus que nos alcançou e nos salvou.

                   Lute contra o pecado. Não ceda um milímetro a ele, pois, se o seu coração provar nem que seja uma pequena dose da tentação, certamente você se entregará ao pecado. Lembre-se que a luta contra o pecado começa em sua mente, em seu coração, e nenhum pecado é verdadeiramente combatido enquanto não for primeiramente combatido em seu coração. Enquanto você não se ver como um pecador totalmente depravado, não reconhecerá a necessidade de um Salvador maravilhoso.

                   A segunda verdade sobre a benignidade de Deus é que:

2- Ela vai muito além da nossa compreensão, v.5-12

Exposição v.5-12:5 A tua benignidade, SENHOR, chega até aos céus, até às nuvens, a tua fidelidade. 6 A tua justiça é como as montanhas de Deus; os teus juízos, como um abismo profundo. Tu, SENHOR, preservas os homens e os animais. 7 Como é preciosa, ó Deus, a tua benignidade! Por isso, os filhos dos homens se acolhem à sombra das tuas asas. 8 Fartam-se da abundância da tua casa, e na torrente das tuas delícias lhes dás de beber. 9 Pois em ti está o manancial da vida; na tua luz, vemos a luz. 10 Continua a tua benignidade aos que te conhecem, e a tua justiça, aos retos de coração. 11 Não me calque o pé da insolência, nem me repila a mão dos ímpios. 12 Tombaram os obreiros da iniquidade; estão derruídos e já não podem levantar-se”.

                  O coração que foi alcançado pela benignidade de Deus e foi incluído no Seu pacto de amor, tem uma transformação completa. De um pecador obstinado e rebelde que só conhece a sua própria vontade, ele é transformado num filho de Deus, num adorador que contempla a grandiosidade da glória de Deus e se submete à vontade de Deus.

                  Davi fala também sobre a justiça (צְדָקָה) de Deus. Os hebreus tinham o costume de designar tudo o que é excelente e majestoso como “de Deus”. Quando algo era descrito como “de Deus”, não era só no sentido de pertencer a Ele, mas, de trazer consigo a grandeza e a glória de Deus. Daí quando Davi chama essas montanhas “as montanhas de Deus”, ele não está falando meramente das montanhas de Israel, mas, da excelência, da grandiosidade e firmeza da justiça de Deus, que como montanhas são inabaláveis. Ele prosseguiu, “os teus juízos, como um abismo profundo”, e com estas palavras ele nos ensina que para qualquer direção de volvermos nossos olhos, para cima ou para baixo, todas as coisas são dispostas e ordenadas pelo justo juízo de Deus[4]. Podemos confiar inteiramente em Deus, porque Ele não erra em Suas decisões. O final deste versículo nos mostra que Deus cuida até das Suas criaturas irracionais, e por isso mesmo podemos esperar Nele o cuidado de que necessitamos. Que Deus bondoso e generoso é o nosso Deus! Conhecermos o caráter de Deus é fundamental para uma vida cristã equilibrada. No v.5 Davi emprega o termo “fidelidade” como sinônimo da benignidade de Deus como ocorre em outras passagens (Sl 57.3; 61.7; 85.10; 86.15). A benignidade é o amor com que Deus nos amou, e a fidelidade é o Seu empenho em continuar nos amando até o fim. Como podemos medir algo que vai além das nuvens, que atinge os céus? Simplesmente não podemos. Como podemos entender este amor maravilhoso que amou pecadores como nós e continua nos amando até o fim? Simplesmente não podemos entender. Mas, Deus não nos chama a entender Seu amor, mas, para viver no Seu amor.

                  Para estes que foram alcançados por tão preciosa benignidade não resta outra coisa senão esperar em Deus que não a deixe faltar em suas vidas. O verbo “continuar” (משׁךְ) aqui tem a ideia de “esticar”, “prolongar”, conota a paciência de Deus. Dessa forma Davi clama a Deus que faça a Sua benignidade e justiça sejam esticadas e prolongadas na vida daqueles “que te conhecem” (v.10). É importante que entendamos que Deus usa da Sua benignidade para salvar quem Ele quiser, mas, é somente para aqueles a quem Ele quis revelar Sua benignidade que Ele lhes dá o privilégio de conhecê-Lo, isto é, entrar num estreito relacionamento com Ele, num pacto solene e eterno, que a Sua benignidade é prolongada. A paciência de Deus para com os aqueles com quem Ele estabeleceu Seu pacto é contínua. Àqueles a que Deus revela a Sua benignidade a estes Ele também dá da Sua justiça. Dessa forma temos aqui com todas as letras as doutrinas da salvação e justificação pela graça. A benignidade é preciosa para aqueles que por ela foram atraídos e se acolheram “à sombra das tuas asas”, isto é, na Casa de Deus, onde “fartam-se da abundância” (v.8). Observe a ênfase que é dada com as palavras “fartura e abundância” neste versículo. Deus sacia-lhes a alma “na torrente das tuas delícias” encontradas Nele próprio porque Nele “está o manancial da vida”, e no fulgor da Sua glória está a luz para guiar o coração de Seus filhos (v.9). Estes versículos estão em estreita conexão com o livramento e proteção de Deus para com Seu povo no Êxodo. Ali o povo de Israel andou sob a sombra da nuvem durante o dia que os aliviava do calor escaldante do deserto, e, à noite, a coluna de fogo aquecia e iluminava o povo. “A vida e a luz andam juntas (Sl 49.19; 56.13; Jo 1.4; 8.12), e ambas vêm do Senhor. Os perversos alimentam-se de lisonjas (v.2), mas os justos se alimentam das ricas bênçãos do Senhor”[5].

                   A benignidade de Deus revelada aos Seus servos é a garantia de que os inimigos não prevalecerão contra eles em seus planos malignos (v.11) e por isso mesmo, naquele mesmo lugar onde armaram ciladas para derrubarem os filhos de Deus, é justamente ali mesmo que os ímpios cairão e serão destruídos sem poderem se levantar e reagir. O que nos mostra que apesar deles passarem noites a fio tramando contra nós e até executando seus planos malignos contra nós, eles não prevalecerão, porque a benignidade de Deus sustenta os Seus filhos. O ímpio confia em si mesmo e desdenha de Deus; o justo confia em Deus e nunca em si mesmo.

Aplicação v.5-12: Que grande privilégio é ser filho de Deus, não é mesmo? Descansamos sob Sua proteção, alimentam-nos em Sua presença e saciamos a sede da nossa alma nos rios da graça de Deus. O que cabe a nós então? Diferentemente dos ímpios que desprezam o conhecimento, devemos buscar o conhecimento de Deus, pois, é para os que O conhecem que a Sua benignidade Ele a estende. Devemos beber da fonte da vida que é o SENHOR Deus, e tão-somente Nele saciarmos o nosso coração. Além disso, assim como Davi devemos alimentar a nossa esperança em Deus enquanto permanecemos fiéis a Ele.

Conclusão

                   Que a benignidade de Deus seja o alento e sustento do nosso coração, pois, fora da benignidade de Deus tudo é morte e dor. Que no manancial da vida que é Deus nosso coração sacie sua sede e jamais busque satisfação no deserto desse mundo.

Oração

                   Pai Santo, ensina-nos a amar a Ti somente. Não nos abandone em nossa rebeldia e pecaminosidade. Sustente-nos com a Tua graça para que o mundo veja que só o Senhor pode satisfazer o coração humano. Purifica os nossos pensamentos, as nossas motivações e desejos. Que todos eles sejam só para Ti. Em nome de Jesus, Teu Filho Amado, amém!”.

[1] Cf. VAN GEMEREN, 2011, vol.2, p.207

[2] Cf. CALVINO, 1999, vol.2, p.120.

[3] WIERSBE, 2010, vol3, p. 158.

[4] Cf. CALVINO, 1999, vol.2, p.128.

[5] WIESRBE, 2010, ol.3, p.158.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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