Canções da Alma – 3ª Mensagem

Salmos 3 e 4

As Bênçãos Que Desfrutamos Nas Tribulações

 

Contextualização

              Estes dois salmos são muito parecidos, e, por isso mesmo, meditaremos nos dois de uma só vez. Eles falam:

ü do espanto e angústia do salmista em face aos muitos adversários que se levantavam contra ele (3.1 e 4.1),

ü das dúvidas que esses adversários cogitavam sobre o cuidado de Deus para com o salmista (3.2 e 4.6), de Deus como a glória do salmista (3.3b e 4.2b),

ü do pedido de socorro que o salmista fez a Deus (3.4 e 4.1a,3b),

ü e do sono tranquilo resultado do cuidado de Deus (3.5 e 4.8).

              O Sl 3 tem seu contexto relacionado aos acontecimentos registrados em 2Sm 15, onde vemos que o filho de Davi, Absalão conspirara contra ele. De forma astuta, Absalão conquistou o coração do povo com promessas de que seria um rei melhor que seu pai, pois, daria atenção ao povo (2Sm 15.1-6). Ao saber que seu filho tinha um exército e o povo ao seu lado, Davi decide fugir (v.14). Em 2Sm 15.30 lemos que Davi enquanto subia pela encosta do Monte das Oliveiras, chorava, com a cabeça coberta e descalço, acompanhado pela parte do povo que ficara ao seu lado. Allan Harman situa o Sl 3  neste momento da vida de Davi[1].

              Enquanto isso, o Sl 4 apesar de seguir o mesmo assunto do salmo anterior não nos dá uma ocasião específica em que foi escrito[2]. Porém, está claro que o mesmo reflete um momento de severa angústia na vida do servo de Deus e quais atitudes este servo tomou em relação a Deus, e quais respostas Deus lhe deu quando ele clamou por Sua misericórdia.

              Assim sendo, estes dois salmos vêm nos falar sobre “As bênçãos que colhemos nas tribulações”. E é sobre isso que quero meditar com os irmãos nesta ocasião.

              Nas tribulações temos a oportunidade de desfrutarmos de forma especial das seguintes bênçãos:

1)     Segurança em Deus, 3.1-3

Exposição v.1-3: “SENHOR, como tem crescido o número dos meus adversários! São numerosos os que se levantam contra mim.  2 São muitos os que dizem de mim: Não há em Deus salvação para ele.  3 Porém tu, SENHOR, és o meu escudo, és a minha glória e o que exaltas a minha cabeça”.

              A notícia de que Absalão tinha ajuntado um exército e que a maioria do povo estava do seu lado contra Davi entrou de forma avassaladora no coração de Davi. Ele então fugiu para poupar sua vida e a dos que estavam com ele, bem como evitar um confronto com Absalão e haver perdas irreparáveis como sabemos que houve, como por exemplo, a morte de Absalão.

              O número dos adversários crescia constantemente a ponto de questionamentos arrogantes surgirem, pois, seus adversários tinham por certo de que nem mesmo Deus poderia livra-lo das mãos deles (v.2).

              A resposta que Davi deu a eles mostrou-lhes que:

ü Deus era o seu escudo: Essa figura indica a segurança e proteção que Deus dá aos que Nele confiam. Por isso mesmo,

ü Deus era a sua glória: Quem tem a Deus como seu escudo e proteção não passa vexame, não é abandonado e muito menos desonrado diante dos homens. Apesar de numerosos serem seus inimigos, bastava apenas Deus à sua frente lhe protegendo.

Aplicação 3.1-3: Nossa honra está em nos refugiarmos em Deus. Nossa glória é a glória de Deus ser revelada em nós nos defendendo das ameaças, motejos e ataques dos adversários. Você tem se refugiado em Deus nos seus momentos de tribulação? Se as suas tribulações estão sufocando você é porque você com certeza não está se refugiando em Deus. Abandone suas estratégias de defesa de lado; refugie-se somente em Deus.

               A outra bênção que colhemos nas tribulações é:

2)     Confiança em Deus, 3.4 – 4.1

Exposição 3.4-8: 4 Com a minha voz clamo ao SENHOR, e ele do seu santo monte me responde.  5 Deito-me e pego no sono; acordo, porque o SENHOR me sustenta.  6 Não tenho medo de milhares do povo que tomam posição contra mim de todos os lados.  7 Levanta-te, SENHOR! Salva-me, Deus meu, pois feres nos queixos a todos os meus inimigos e aos ímpios quebras os dentes.  8 Do SENHOR é a salvação, e sobre o teu povo, a tua bênção. 4.1 Responde-me quando clamo, ó Deus da minha justiça; na angústia, me tens aliviado; tem misericórdia de mim e ouve a minha oração”.

               A confiança em Deus é a melhor forma que temos de testemunhar do Seu poder. Honramos mais a Deus quanto mais confiamos Nele.

               Nestes versículos Davi expressa a sua confiança em Deus das seguintes formas:

ü Deus do Seu santo monte responde ao seu clamor (v.4): na oração a humanidade frágil do servo de Deus se encontra com a poderosa glória de Deus. Embora Ele habite o Seu santo monte (i.e. sua glória) digna-Se a responder ao clamor dos Seus filhos. Davi cria plenamente nessa verdade.

ü Seu sono tranquilo era resultado de sua confiança em Deus (v.5): apesar das muitas ameaças reais de morte seu coração descansava em Deus, e, por isso, não passava as noites revirando em seu leito, tomado pela ansiedade. Em vez disso, todas as manhãs ele testemunhava a fidelidade de Deus em cuidar de sua vida nas horas da noite quando ele estava totalmente vulnerável a qualquer ataque. A ansiedade é resultado de um coração que vive pensando em si mesmo.

ü Não tinha medo das ameaças dos inimigos (v.6): quando o único temor em nosso coração é a Deus não precisamos temer mais nada neste mundo.

ü Entregando a Deus o direito de vingar os inimigos (v.7): soa-nos estranho um servo de Deus pedindo a Ele que vingue seus inimigos. Primeiramente devemos observar que Davi estava clamando pelo livramento de Deus, o que incluía dar aos seus inimigos o tratamento justo que deveriam receber. Em segundo lugar, Davi não disse que ele retribuiria aos seus inimigos, mas, em vez disso, clamou a Deus para que exercesse justiça sobre eles. Quando estivermos em situação parecida devemos lembrar o que diz Rm 12.19: a vingança pertence ao Senhor e Ele a retribuirá.

ü Sua salvação era obra exclusiva de Deus (v.8): a total incapacidade do servo de Deus em se salvar dos perigos que rondam sua alma deve ser um elemento motivador para que o mesmo quede-se aos pés de Deus e atribua a Ele toda a honra e louvor por sua salvação.

ü Suplicando por Sua misericórdia (4.1): Ele continua seu clamor a Deus só que agora pede por Sua misericórdia. Ele sabia que Deus o ouvia não por mérito pessoal, mas, porque Deus é misericordioso. O servo de Deus sempre deve ter isso em mente enquanto clama a Deus, a saber, não é por seus méritos pessoais que Deus o atende, mas, pelos méritos de Cristo e misericórdia de Deus.

Aplicação 3.4 – 4.1: Como você tem demonstrado sua confiança em Deus? Você tem buscado expressar o quanto você confia Nele reconhecendo que Ele cuida de você porque Ele é misericordioso e bom, ou tem tentado por meio de um legalismo mesquinho conquistar a bênção de Deus como se isso fosse possível? Confiar em Deus significa esperar o tempo e o modo Dele agir, enquanto clamamos por Seu socorro.

               Outra bênção oriunda das tribulações é:

3)     Proclamação a Palavra de Deus, 4.2-8

Exposição 4.2-8:2 Ó homens, até quando tornareis a minha glória em vexame, e amareis a vaidade, e buscareis a mentira?  3 Sabei, porém, que o SENHOR distingue para si o piedoso; o SENHOR me ouve quando eu clamo por ele.  4 Irai-vos e não pequeis; consultai no travesseiro o coração e sossegai.  5 Oferecei sacrifícios de justiça e confiai no SENHOR.  6 Há muitos que dizem: Quem nos dará a conhecer o bem? SENHOR, levanta sobre nós a luz do teu rosto.  7 Mais alegria me puseste no coração do que a alegria deles, quando lhes há fartura de cereal e de vinho.  8 Em paz me deito e logo pego no sono, porque, SENHOR, só tu me fazes repousar seguro”.

               Novamente, assumindo a postura de um arauto, o salmista Davi após expressar sua confiança na misericórdia de Deus (v.1), volta-se para os “homens” e dirige-lhes uma severa exortação e chamado ao arrependimento e mudança de vida.

               A expressão “Ó homens” tem o propósito de contrastar a insignificância do ser humano comparada à glória e majestade de Deus. Estes, no alto de sua arrogância se julgavam tão poderosos a ponto de crerem que nem mesmo Deus poderia livrar Davi de suas mãos. A História está repleta de relatos de arrogantes que foram abatidos de forma humilhante por Deus.

               Pregando a Palavra de Deus a estes “homens”, Davi lhes mostra:

ü O seu pecado de idolatria (v.2): a “glória” que eles estavam trazendo vexame é um título para Deus[3]. A “vaidade” que eles amavam e a “mentira” que eles buscavam eram os ídolos, os falsos deuses. Como nos lembra o apóstolo Paulo em Rm 1.21-23, os homens querem sempre mudar a glória do Deus imortal em imagens que eles mesmos fabricam e adoram. A idolatria é algo ofensivo e vergonhoso a Deus, pois, é a expressão da arrogância humana que insiste em dizer: “o que eu faço é melhor do que Deus”. O homem troca Aquele que é cheio de glória por aquilo é que vazio de vida quando se prostra diante de um ídolo seja ele qual for.

ü Que tipo de gente agrada a Deus (v.3): um coração fiel a Deus é feliz. Aquele que é fiel a Deus recebe bênçãos incalculáveis da Sua parte. Ele “distingue para si o piedoso”, ou seja, a Sua benção é evidente na vida daquele que Lhe obedece, pois Ele ouve a sua oração.

ü A necessidade de arrependimento (v.4 e 5): Quando lhes diz “Irai-vos e não pequeis”, esta não é uma tradução favorável. O verbo zgr (rigzû) que aqui foi traduzido por “irai-vos” é “tremer, agitar-se de medo”. Calvino traduz este versículo assim: “Tremei, pois, e não pequeis”[4]. Os pecadores são chamados a tremerem diante de Deus e a se afastarem do pecado. Devem consultar sua consciência no silêncio do seu leito quando todas as vozes desse mundo se calaram, e, somente a voz de Deus em sua consciência pode ser ouvida (v.4). Conduzidos ao arrependimento, os pecadores agora são chamados a adorarem o Único e Verdadeiro Deus com “sacrifícios de justiça” demonstrando sua confiança Nele (v.5). Isto é arrependimento, isto é mudança de vida!

ü O caminho da felicidade (v.6-8): O coração do homem tem dentro de si uma sede que só pode ser saciada no “manancial da vida” (Sl 36.9) que é Deus! O homem se rende aos ídolos por não conhecer a Deus, e, enquanto Ele não Se revela e ilumina seus olhos espirituais. Por isso Davi clama a Deus: “SENHOR, levanta sobre nós a luz do teu rosto” (v.6). Reportando-se à experiência de Moisés no Sinai, Davi clama pela luz do rosto de Deus, pois, é na presença de Deus que está a verdadeira alegria que não dá para ser comparada com as alegrias das conquistas desta vida por ser infinitamente maior (v.7). Alegria esta que se traduz na segurança de um coração que confia em Deus, e, por isso, dorme em paz e logo desfruta de um sono reparador e seguro (v.8).

               Da ameaça à segurança (Sl 3), do clamor ao testemunho da fidelidade de Deus (Sl 4) assim Davi mostra a todos nós que ou estamos com Deus para nos refugiarmos não só dos inimigos, mas, de Sua ira santa, ou estamos contra Deus, à mercê dos inimigos e o que é pior, à mercê da ira de Deus.

 Aplicação 4.2-8: Não desperdice as oportunidades de arrependimento que Deus lhe dá. Trema de pavor só em pensar que está ofendendo a Deus com seu pecado. Examine o seu coração, ouça a voz de Deus chamando-o ao arrependimento e perdão. Refugie-se em Deus contra a ira Dele. Desfrute do cuidado e proteção que Ele lhe oferece. Confie plenamente Nele.

              

Conclusão

               As tribulações não são debalde na vida dos filhos de Deus. Elas são ocasiões singulares para nos fazer crescer na fé em Deus e no conhecimento de Sua vontade para nós. Os momentos de tribulação são terrenos férteis onde colhemos as mais doces e ricas bênçãos de Deus.

        


[1] HARMAN, 2011, p.81.

[2] Calvino aponta duas ocasiões, sem firmar-se em uma delas: ou Davi estava fugindo de Saul ou de Absalão (cf. CALVINO, 1999, vol.1, p.89).

[3] HARMAN, 2011, p.83.

[4] CALVINO, 1999, vol.1, p.99.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.
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