Canções da Alma – 40ª Mensagem

Oração

“Santo Deus, venha nos conduzir na Tua Palavra. Que o nosso coração seja dócil e submisso a Ti, e agora que meditaremos em Tua Palavra dá-nos a compreensão da Tua verdade e também fé e disposição para Te obedecer. Assim oração em nome de Jesus, amém!”.

 

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

Suportando a Disciplina de Deus

Sl 38

Introdução

                  Em Hb 12.5-6 lemos que Deus disciplina aos Seus filhos, e a disciplina Dele é uma prova do Seu amor por nós, pois, se não fôssemos filhos Ele simplesmente nos entregaria a nós mesmos para irmos de mal a pior (cf. Rm 1.24-27). Mas, como o autor de Hebreus ressalta “Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico ao que têm sido por ela exercitados, frutos de justiça” (Hb 12.11).

Contextualização

                  Este salmo faz parte do grupo de salmos conhecidos como “Salmos Penitenciais” (Sl 6, 32, 51, 102, 130 e 143). O seu título em hebraico “Salmo de Davi. Em memória”, aponta para os sacrifícios que incluíam uma “oferta memorativa ou memorial” (Nm 5.26; Lv 2.2; 24.7), a qual tinha a finalidade de ressaltar diante de Deus a oferta que a pessoa consagrava a Ele relembrando-O do compromisso com Ele assumido bem como a própria pecaminosidade. Era como se a pessoa dissesse a Deus: “Ó Deus, sei que sou um pecador, mas, reconheço que preciso do Teu perdão. Este cordeiro que lhe imolo a Ti mostra que sou merecedor de castigo. Contudo, refugio-me na Tua misericórdia”. Da mesma forma, aqui, Davi ao entoar este cântico está lembrando o quão pecador ele é o quanto ele necessita da misericórdia de Deus.

                  Não temos como saber a exata ocasião em que ele escreveu este salmo. Tão somente podemos afirmar que foi durante (ou depois) dele ter refletido sobre os seus sofrimentos tanto no corpo quanto na alma causados pelo peso da mão de Deus (cf. Sl 32.3) que o disciplinava por causa dos seus pecados.

                  Diante disso proponho para a nossa meditação o seguinte tema: Suportando a disciplina de Deus. No momento em que estamos passando pela disciplina de Deus devemos tomar cuidado quanto à direção para qual olhamos.

1- Se olharmos para nós mesmos entraremos em desespero

Exposição v.1-10

                   Nestes versículos Davi descreve a intensa dor em seu corpo causado por uma enfermidade, que, segundo alguns comentaristas[1] poderia ser lepra, o que explicaria o afastamento dos seus amigos e companheiros (v.11). Outros veem aqui várias doenças que o afligiam em todo o seu ser[2].

Davi sabia que o seu castigo era merecido, mas, clamou a Deus que não o castigasse no peso da Sua ira e furor. Ele não pediu que Deus retirasse seu sofrimento, mas, que amenizasse a severidade de Sua disciplina. “Se não dermos ouvidos às palavras do coração de Deus, teremos de sentir o peso de Sua mão”[3]. 1 Não me repreendas, SENHOR, na tua ira, nem me castigues no teu furor”.

2 Cravam-se em mim as tuas setas, e a tua mão recai sobre mim”.

                   Ele sentia a mão de Deus pesando sobre ele como que ferindo-o com flechas. É importante observar aqui que pelo fato de Davi saber que era o próprio Deus quem o fustigava com Sua mão poderosa, ele buscou em Deus o alívio[4]. O ímpio quando castigado por Deus torna-se irracional e imagina que tudo não passa de obra do acaso. Mas, o servo de Deus sabe que é Deus quem o está disciplinando e vê nisso uma prova do amor de Deus.

                   A partir do v.3-10, Davi descreve as condições físicas e emocionais em que ele se encontrava. É certo que o pecado trouxe desordem total em nosso corpo e saúde, como também é certo que determinadas enfermidades são resultados de pecados específicos. Se essa enfermidade era consequência de um pecado específico não temos como precisar. O que importa é saber que Davi teve seus olhos abertos para ver que sua enfermidade não era sem causa, mas, sim, instrumento de Deus para discipliná-lo.

Não havia parte em seu corpo que estivesse sã; sentia dores até em seus ossos por causa da ira de Deus e da culpa que lhe pesava no coração. A expressão “por causa” que aparece aqui e no v.5 mostra que ele relacionava a ira de Deus com o seu pecado, qual um para-raios atraindo uma descarga elétrica.3 Não há parte sã na minha carne, por causa da tua indignação; não há saúde nos meus ossos, por causa do meu pecado”.


Ele sentia-se como que se afogando num mar de pecados; a culpa de seus pecados era um fardo pesado para ele que o esmagava o qual ele não tinha força alguma para carregar.4 Pois já se elevam acima de minha cabeça as minhas iniquidades; como fardos pesados, excedem as minhas forças”.

                  As feridas em seu corpo expeliam pus e exalavam forte e desagradável odor por causa de sua loucura (os pecados que cometera). Não há maior ato de loucura do que pecar contra Deus. É importante observar que quando um ímpio é confrontado no seu pecado ele se justifica com a ignorância, dizendo: “Eu não sabia que era errado! Não sabia que era pecado!”, ou na indolência: “Mas, qual o problema com isso? Todo mundo faz isso!”. Enquanto isso, o filho de Deus ao ser confrontado admite: “Cometi loucura; procedi mui loucamente” (cf. 2Sm 24.10).5 Tornam-se infectas e purulentas as minhas chagas, por causa da minha loucura.


Davi Sentia-se encurvado, e demasiadamente abatido andando profundamente triste o dia todo. Tanto o reconhecimento do seu pecado quanto o peso da mão de Deus sobre ele o faziam encurvar-se e sentir-se profundamente abatido por tristeza intensa, tristeza como a que se sente por alguém que morreu. “6 Sinto-me encurvado e sobremodo abatido, ando de luto o dia todo”.


8 Estou aflito e mui quebrantado; dou gemidos por efeito do desassossego do meu coração”.
 “7 Ardem-me os lombos, e não há parte sã na minha carne”.

                   Seu corpo ardia em febre por causa das feridas infectas, e não havia uma parte sequer do seu corpo que não estivesse doente. A descrição aqui parece ser de lepra ou de úlceras na pele que o levavam à febre. Ele estava muito fraco e sentia-se muito quebrantado, moído e devastado por essa enfermidade que o fazia lembrar de quão pecador ele era e merecedor do castigo divino; ele dava gemidos, ou melhor traduzindo o verbo  שָׁ֜אַ֗ג ele “dava gritos, urros” de dor enquanto sentia o seu coração inquieto.


10 Bate-me excitado o coração, faltam-me as forças, e a luz dos meus olhos, essa mesma já não está comigo.
9 Na tua presença, Senhor, estão os meus desejos todos, e a minha ansiedade não te é oculta”.

                   Mas ele sabia que tudo o que estava em seu coração e tudo o que ele dizia em gemidos não estava oculto aos olhos de Deus.  Nem mesmo a ansiedade que fazia o seu coração palpitava angustiado estava oculta aos olhos de Deus.  Mas, faltavam-lhe as forças. Sua visão estava como que se apagando. A aflição de Davi consumia-lhe as forças. Olhando para si ele só via desolação, fraqueza e limitação. Quão desesperadora era a situação dele!

Aplicação v.1-10: “Temos liberdade para desobedecermos a Deus, mas, não temos liberdade de mudar as consequências dessa desobediência”[5]. Se este salmo tivesse terminado aqui, a situação de Davi seria somente desespero e angústia. Ficarmos olhando para nós mesmos facilmente nos levará à autocomiseração. Quantas pessoas entram em depressão e angústia porque quando se deparam com a culpa do seu pecado e com as consequências dos mesmos e por estarem focadas em si mesmas buscando em si próprias o poder para vencer tais pecados e culpa. Fujamos dessa armadilha que o nosso próprio coração nos arma.

                   Mas, atenção

2- Se olharmos para as pessoas nos sentiremos sós

Exposição v.11-14

                   Depois que olhou para si e só enxergou a miséria em que se encontrava Davi olha ao seu redor, para aqueles a quem ele considerava seus amigos e para os seus parentes. É coisa comum quando estamos passando por um momento de dor e luta buscarmos a ajuda daqueles com quem estamos unidos por laços de sangue e pelo coração. Mas, coisa extremamente dolorosa é vermos tais pessoas nos dando as costas. Ele experimentou terrível solidão.


Seus amigos e parentes se afastaram dele por causa da sua doença e o abandonaram em sua desgraça. Talvez tomados pelo medo de contraírem a doença dele, ou pela soberba e arrogância em não quererem ser vistos ao lado de um moribundo. Se ficarmos com a primeira opção, então possivelmente a doença dele era algo contagioso, embora em lugar algum nos livros históricos é mencionado que ele tenha contraído alguma doença assim.11 Os meus amigos e companheiros afastam-se da minha praga, e os meus parentes ficam de longe”.


Além do desprezo daqueles que lhe eram próximos, Davi também enfrentou a maldade dos seus inimigos. Seus inimigos viram na sua calamidade uma oportunidade para destruí-lo e por isso armaram ciladas para ele. E não somente isso, mas, também, insultavam-no e o tempo todo tramavam contra sua vida.12 Armam ciladas contra mim os que tramam tirar-me a vida; os que me procuram fazer o mal dizem coisas perniciosas e imaginam engano todo o dia”.


14 Sou, com efeito, como quem não ouve e em cujos lábios não há réplica”.
 13 Mas eu, como surdo, não ouço e, qual mudo, não abro a boca”.

                   Em vez de revidar, Davi fazia-se de surdo e não dava ouvidos a eles; fazia-se de mudo e não lhes respondia nada. Estava tão oprimido e abatido que não tinha forças sequer para se defender, por isso, ouvia calado o que diziam a seu respeito. Contudo, há outro motivo para o seu silêncio: ele esperava que Deus o defendesse. Como disse Calvino: “Os que dependem do mundo, e nutrem respeito só para com os homens, se não se vingam das injúrias que lhes são feitas, claramente revelam, através de suas audíveis queixas, a ardente raiva e fúria de seus corações”[6]. Davi agiu como se espera de um filho de Deus. Ele não saiu em sua defesa contra eles; adotou o silêncio como resposta para que a única resposta que viesse a ser dada fosse a de Deus e assim somente Deus ficasse em evidência. Aqui Davi nos lembra o próprio Cristo que como “ovelha muda” (Is 53.7) suportou calado o mal que lhe fizeram.

Aplicação v.11-14: Que Deus nos dê a graça de suportarmos calados as maldades das pessoas. As pessoas falham. Mesmo aqueles em quem tanto confiamos e por quem temos grande apreço poderão falhar conosco e nos abandonar. Sozinhos seremos alvos fáceis para os inimigos e eles virão com tudo sobre nós. Nestes momentos experimentaremos terrível solidão. Só nos restará uma saída, a única que realmente importa:

3- Se Olharmos para Deus experimentaremos o perdão

Exposição v.15-22

                   Davi já havia buscado a Deus silenciando-se diante das pessoas que o insultavam e atacavam. Mas, ele foi além ao demonstrar sua confiança em Deus. O tempo todo aqui ele contrasta a sua condição debilitada e moribunda com a dos seus inimigos que eram “vigorosos e fortes”. Se Deus não intervisse em seu favor ele estaria condenado à morte pelas mãos dos inimigos.


16 Porque eu dizia: Não suceda que se alegrem de mim e contra mim se engrandeçam quando me resvala o pé”.
 “15 Pois em ti, SENHOR, espero; tu me atenderás, Senhor, Deus meu”.

                   Ele pôs sua confiança em Deus, e Nele esperava o socorro. A esperança em Deus e a paciência de Davi em esperar Deus agir a seu favor vem nos mostrar que “a mente humana jamais cultivará a gentileza e a mansidão, nem será capaz de vencer suas paixões, enquanto não aprender a jamais desistir da esperança”[7]. Se por um só momento perdermos a esperança em Deus seremos tomados pelo desespero. A Deus ele pedia que não permitisse que seus inimigos rissem da sua desgraça, e que Ele não deixasse eles zombarem de sua queda como se eles fossem vitoriosos. Ele sabia que se Deus o deixasse, seus inimigos prevaleceriam sobre ele. Na vida cristã, o quanto antes entendermos que dependemos totalmente de Deus O glorificaremos com a nossa confiança. Se estivermos desesperados com alguma coisa é porque já não estamos mais esperando em Deus, e isto é pecado.


Ele admitia sua total fraqueza e sabia que poderia cair a qualquer momento; sua dor quer no corpo, quer na alma não lhe dava trégua. “17 Pois estou prestes a tropeçar; a minha dor está sempre perante mim”.


Ele decidiu confessar seus pecados a Deus, pois, estava sofrendo muito em seu coração por causa deles. Ele sabia que seu sofrimento não tinha como causa a maldade das pessoas, mas, sim, a sua própria maldade. O que os inimigos faziam contra ele somente agravava ainda mais a sua dor, mas, a causa do seu sofrimento era a sua própria iniquidade. O substantivo “iniquidade” (עָוֹן), não se trata de um pecado específico, mas, da pecaminosidade latente no coração humano, da perversidade e malignidade da alma humana. Não há qualquer possibilidade de um filho de Deus ficar em paz com pecados inconfessos. Logo, alguém que se diz crente e filho de Deus e está vivendo sem qualquer aflição em sua alma a despeito de pecados cometidos, essa pessoa está se iludindo a respeito de sua fé. “18 Confesso a minha iniquidade; suporto tristeza por causa do meu pecado”.


20 Da mesma sorte, os que pagam o mal pelo bem são meus adversários, porque eu sigo o que é bom”.
  “19 Mas os meus inimigos são vigorosos e fortes, e são muitos os que sem causa me odeiam”.

                   Seus inimigos eram mui fortes a seus olhos, e sabia que eles o adiavam sem razão. Eles sempre lhe pagavam o bem com o mal, mesmo Davi sempre tendo lhes feito o bem. Enquanto Davi se humilhava na presença de Deus, seus inimigos se mostravam ainda mais “vigorosos e fortes”. Isso não deve nos causar espanto. Como vimos no Sl 37, os ímpios vivem como se Deus não existisse, daí não terem qualquer crise de consciência. Mas, o fato deles ignorarem Deus e não se submeterem a Ele não os põe em vantagem alguma, muito pelo contrário, pois, como disse Asafe no Sl 75.7-8: 7 Deus é o juiz; a um abate, a outro exalta. 8 Porque na mão do SENHOR há um cálice cujo vinho espuma, cheio de mistura; dele dá a beber; sorvem-no, até às escórias, todos os ímpios da terra”.


22 Apressa-te em socorrer-me, Senhor, salvação minha”. 
21 Não me desampares, SENHOR; Deus meu, não te ausentes de mim”.

                   Encerrando este Salmo Davi mais uma vez clamou a Deus para que não o desamparasse e nem dele se afastasse. E em desespero clamou a Deus que viesse o quanto antes em seu socorro. As três expressões que ele usou aqui mostram como ele confiava em Deus e O desejava mais que tudo: “Não me desampares… não te ausentes… apressa-te em socorrer-me”. Deus era a sua salvação. Essa declaração é sobremodo bela e importante para entendermos que a nossa única solução quando estivermos sob o peso da mão de Deus nos disciplinando, não é nos recolhermos em nossas dores porque só encontraremos desespero; muito menos recorrer às pessoas, pois, elas nos trairão e nos abandonarão e só encontraremos solidão; a nossa única solução para escaparmos da ira de Deus é corrermos para Ele clamando Sua misericórdia e socorro.

Aplicação v.15-22: O nosso coração está angustiado por pecados que cometemos? Há em nossa alma intensa tristeza por termos desonrado a Deus? Temos sentido a Sua poderosa mão pensando sobre nós por causa disso? Não fujamos de Deus; fujamos para Deus. Abriguemo-nos em Sua misericórdia. Recolhamo-nos na graça de Deus, pois, Ele nos disciplinará porque somos filhos Dele. Quem é filho de Deus se submete à Sua disciplina confiado na Sua graça. Quem não é filho, não recebe disciplina alguma da parte Dele, mas, enfrentará o castigo eterno. Melhor e sermos disciplinados por Deus hoje, do que enfrentarmos o castigo eterno.

Conclusão

                   Fora da graça de Deus tudo é desespero e solidão. Lembremo-nos: na graça de Deus até a Sua disciplina é prova do Seu amor por nós.

Oração

“Pai amado, dá-nos um coração dócil e submisso a Ti especialmente quando Tua mão estiver nos disciplinando. Que possamos ver na Tua disciplina o Teu amor por nós levando-nos a viver para a glória do Senhor. Por meio de Teu Filho Jesus Cristo, amém!”.

[1] Cf. HARMAN, 2011, p.178.

[2] Cf. WIERSBE, 2011, p.162

[3] Ibid p.162.

[4] Cf. Cf. CALVINO, 1999, vol.2, p.177.

[5] WIERSBE, 2010, vol.3, p.162.

[6] CALVINO, 1999, vol.2, p.187.

[7] CALVINO, 1999, vol.2, p.187.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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