Canções da Alma – 41ª Mensagem

Oração

“Ó Pai, hoje veremos que somente o Senhor é a nossa esperança. Guie o nosso coração enquanto meditamos nessa preciosa verdade. Não permita que o nosso coração e mente divaguem neste momento e percam essa oportunidade singular para o fortalecimento da nossa fé em Ti. Assim oramos, por meio de Cristo, amém!”.

 

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

Deus é a Única Esperança

Sl 39

Introdução

                  Recitamos ao término da Escola Dominical o versículo de 1Tm 1.1 o qual se tornou o lema da nossa Igreja: “Cristo Jesus, nossa esperança”. Dos três elementos essenciais à vida cristã, a esperança é um deles, sendo os outros dois a fé e o amor (cf. 1Co 13.13).

                  As pessoas alimentam esperança em muitas coisas, e todas essas coisas paulatinamente se mostram vazias, ou na linguagem desse salmo “vaidade” (v.5 e 11). A única esperança que não decepciona, que não falha é Deus. Por isso mesmo quero convidá-lo a meditar comigo sobre: Deus é a Única Esperança.

Contextualização

                  Davi compôs este salmo e o confiou aos cuidados de Jedutum, que juntamente com Hemã e Asafe foram encarregados por Davi pelo culto no santuário (cf. 1Cr 16.37-43; 2Cr 5.12; 35.15). Alguns entendem que o título “Ao mestre de canto, Jedutum” não seja uma referência a este músico, mas, sim, uma melodia fúnebre que levou este nome[1], mas, como Calvino, vejo que tal interpretação é desprovida de sentido e importância[2].

                  Ainda que haja alguma conexão com o Sl 38, neste salmo Davi não se queixa de alguma enfermidade sendo usada por Deus para discipliná-lo.

                  Uma estrutura se repete neste salmo[3]:

Silêncio diante do Senhor (v.1-3)

Oração ao Senhor (v.4-6)

Apelo por auxílio (v.7-8)

Silêncio diante do Senhor (v.9)

Oração ao Senhor (v.10-11)

Apelo por auxílio (v.12-13)

                  Seguiremos essa estrutura na exposição deste salmo. No v.7 Davi faz uma pergunta retórica: “E eu, Senhor, que espero?”, seguida de uma confissão maravilhosa: “Tu és a minha esperança”. Deus é a nossa única esperança, e a verdadeira esperança que o nosso coração precisa só pode ser encontrada em Deus. E assim aprendemos que esperando em Deus devemos

1- Aguardar em silêncio o Seu agir, v.1-3,9

Exposição v.1-3,9

                   O profeta Jeremias disse: “Bom é aguardar a salvação do SENHOR, e isso, em silêncio” (Lm 3.26). Ele disse isso quando Jerusalém estava sendo assaltada pelos babilônios. Enquanto os inimigos devastavam a cidade, o profeta esperava em Deus que os inimigos fossem castigados, e assim confiava em Deus para isso em vez de fazer justiça com as próprias mãos. Nestes versículos Davi expressa o mesmo sentimento.

O silêncio que Davi adotou diante do ímpio tinha dois motivos: (1) não envergonhar o nome de Deus com lamúrias e queixumes (pois, a murmuração traz desonra a Deus), (2) não dar ao ímpio a chance dele tripudiar sobre a sua dor e blasfemar contra Deus.1 Disse comigo mesmo: guardarei os meus caminhos, para não pecar com a língua; porei mordaça à minha boca, enquanto estiver na minha presença o ímpio”.


3 Esbraseou-se-me no peito o coração; enquanto eu meditava, ateou-se o fogo; então, disse eu com a própria língua”.
2 Emudeci em silêncio, calei acerca do bem, e a minha dor se agravou”.

                   Esperar em silêncio diante de Deus é uma tarefa difícil, mas, necessária. Davi calou-se “acerca do bem”, isto é, ele se calou e não saiu em sua defesa mesmo estando certo. Em vez disso confiou em Deus e silenciosamente Nele esperou.

                   O silêncio de seus lábios estancou dentro dele os seus pensamentos, e isso agravou a sua dor. Seus pensamentos eram como que fogo queimando em seu peito (coração e mente). O que está sendo descrito aqui é a ira que Davi sentia. Mesmo conscientemente tendo adotado o silêncio diante do ímpio, seu coração não deixava de pensar na maldade e perversidade do ímpio. Temos de ser honestos em admitir que muito nos incomoda vermos os ímpios vivendo tranquila e prosperamente enquanto sofremos injustiças. Mas não podemos ter outra atitude além de aguardar silenciosamente o agir de Deus. E quando Ele age não faz silêncio. Torna-se visível manifestação da Sua justiça e ira.

Seu silêncio diante de Deus deu a oportunidade para que somente Deus fosse visto em sua vida. O que Davi quis dizer aqui é que ele reconhecia que a existência tanto dele quanto a do ímpio são obras da mão de Deus (“porque tu fizeste isso”). O nosso silêncio aguardando Deus agir é também uma demonstração da nossa submissão a Deus aceitando os Seus propósitos. Ele tem Seus propósitos até na existência do ímpio. Se o ímpio existe é porque Deus assim o quis.9 Emudeço, não abro os lábios porque tu fizeste isso”.

Aplicação v.1-3,9

                   Na presença de ímpios fale somente o que vai glorificar a Deus, e nunca abra o seu coração a um ímpio. Nunca murmure na presença de um ímpio, pois, isso é um péssimo testemunho. Ponha uma mordaça em sua boca. Não dê ao ímpio motivo para blasfemar contra Deus.

                   Cuide para que a sua ira justa não se torne em ira pecaminosa. Você deve se deixar ser consumido pelo zelo da glória de Deus, mas, jamais permitir que o desejo de vingança e o ódio que acompanham a ira pecaminosa encontrem espaço em seu coração. Combata o pecado sem se sujar com ele.

                   Submeta-se a Deus e busque compreender os Seus propósitos em todas as coisas que Ele faz. Aguarde em silêncio a resposta de Deus, não dê espaço para sentimentos pecaminosos de revolta crescerem em seu coração. “Deixa a ira, abandona o furor; não te impacientes; certamente, isso acabará mal” (Sl 37.8).

                   Enquanto esperamos Deus agir devemos também

2- Suplicar com humildade a Sua sabedoria, v.4-6,10-11

Exposição v.4-6,10-11

                   Tiago disse: “Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida. Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; pois o que duvida é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento” (Tg 1.5-6).

                   Ao abrir a sua boca, Davi o fez na presença de Deus e clamou por sabedoria para compreender verdades preciosas sobre a sua vida.


Ele pediu a Deus que lhe desse a conhecer como seria o seu fim e quantos dias ainda ele teria de vida, para que, vendo como a sua vida seria breve e passageira, pudesse aproveitá-la da melhor forma possível para a glória de Deus. Assim como Moisés escreveu no Sl 90.12: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio”, Davi também orou aqui.4 Dá-me a conhecer, SENHOR, o meu fim, e qual a soma dos meus dias, para que eu reconheça a minha fragilidade”.

             O insensato vive como se nunca fosse morrer; sua preocupação é com o agora e o seu compromisso é com a sua própria vontade. Ele jamais considera os cominhos e propósitos de Deus.

Ele disse a Deus: “A vida que o Senhor me deu é muito curta; minha vida diante de Ti não é nada. Por mais seguro que o homem se sinta, sua vida não passa de um sopro”. Ele pediu sabedoria a Deus para reconhecer o quão ínfimo ele era diante de Deus, e assim foi atendido.5 Deste aos meus dias o comprimento de alguns palmos; à tua presença, o prazo da minha vida é nada. Na verdade, todo homem, por mais firme que esteja, é pura vaidade”.

                   As palavras deste versículo nos lembram as do Senhor Jesus em Mt 6.27: “Qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso de sua vida?”. Um côvado é a medida entre o punho e o cotovelo, pouco mais que um palmo. A nossa vida aqui é efêmera tal como um sopro. A expressão “pura vaidade” aqui significa algo vazio, como aquilo que sobra depois que a bolha de sabão explode[4].

                   Tal efemeridade é expressa ainda mais no próximo versículo.


Com toda certeza (“Com efeito”) o homem é tão efêmero quanto uma sombra. Semelhante metáfora é usada por Tiago quando diz: “Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa” (Tg 4.14). As riquezas que tanto amontoamos de nada servem, pois, acabam ficando para outros, e nós nem ficamos sabendo quem as aproveitará. Isso nos lembra o que o Senhor Jesus contou sobre aquele homem rico que se vangloriava de sua colheita abundante e confiava em suas riquezas, e naquela mesma noite ele morreu, deixando tudo para traz (cf. Lc 12.20). “ 6 Com efeito, passa o homem como uma sombra; em vão se inquieta; amontoa tesouros e não sabe quem os levará”.


11 Quando castigas o homem com repreensões, por causa da iniquidade, destróis nele, como traça, o que tem de precioso. Com efeito, todo homem é pura vaidade”.
 “ 10 Tira de sobre mim o teu flagelo; pelo golpe de tua mão, estou consumido”.

                   Estes dois versículos devem ser entendidos juntos. O que Davi está dizendo aqui é que se Deus não tivesse misericórdia dele enquanto o disciplinava ele seria totalmente exterminado, pois, se via sendo consumido pelo peso da mão de Deus.

                  Deus não nos castiga sem motivo; Ele disciplinou a Davi por causa de sua iniquidade. E neste momento Davi sentiu ainda mais a fragilidade de sua vida. O que ele tinha de mais precioso era a sua própria vida. No entendo, tal como um pano é consumido pela traça, sua vida estava se definhando sob o castigo de Deus. Ele havia pedido a Deus que lhe desse a compreensão sobre a brevidade de sua vida, e assim Deus lhe respondera, tanto que ele repetiu a conclusão a que chegara: “Com efeito, todo homem é pura vaidade”.

Aplicação v.4-6,10-11

                   Na fraqueza e limitação da sua vida reconheça a eternidade de Deus. Somente quando você viver reconhecendo a glória e grandeza de Deus é que a sua vida terá sentido. Uma vida tão passageira e breve como a sua não pode ser desperdiçada com o pecado e nem mesmo com futilidades. Viva intensamente para a glória de Deus. Não faça da sua vida uma bolha de sabão sem consistência. Afaste-se do pecado, pois, este só atrai o castigo de Deus. Mas, quando você for castigado por Deus clame a Sua misericórdia e Sua sabedoria para não desperdiçar mais sua vida.

                   Por fim, esperando em Deus devemos

3- Desejar com sinceridade o Seu perdão, v.7-8;12-13

Exposição v.7-8;12-13

                   Para o pecador não há honra maior do que a de ser perdoado por Deus e ser recebido em Sua presença com um filho. O maior de todos os desejos do nosso coração deveria ser o perdão de Deus. Tão intenso quanto nosso desejo por viver de forma santa diante de Deus deve ser o nosso desejo de sermos perdoados por Ele quando fracassamos em obedecê-Lo.


Depois de constatar tudo isso, o que Davi podia esperar dessa vida? O que esperar de uma vida tão curta, tão transitória? Ele responde: Tu és a minha esperança.7 E eu, Senhor, que espero? Tua és a minha esperança”.

                   O que faz uma vida valer a pena não é a extensão dela, se vivemos muitos anos, ou se desfrutamos do bom e do melhor neste mundo, nem tão pouco o prestígio ilusório que este mundo oferece aos que a ele se devotam.

                   O verdadeiro sentido da vida está em Deus, em vivermos cada instante para a Sua glória, em buscarmos em cada momento honrá-Lo com humilde obediência e cuidando para vivermos em santidade de vida. David Brainerd que viveu apenas 29 anos, mas, devotou sua vida à evangelização dos índios norte-americanos, ou como Ashbel Green Simonton que viveu somente 34 anos e plantou a Igreja Presbiteriana aqui no Brasil porque até então todas as missões evangélicas em nossa pátria eram voltadas somente para os imigrantes. Com certeza cada um de nós conhece alguém que viveu poucos anos, mas, sua vida foi vivida para a glória de Deus.


Ele clamou a Deus para que o livrasse de todas as suas iniquidades, ou seja, suplicou sinceramente o perdão de Deus. O perdão de Deus é a maior honra que o pecador pode receber, e é a única que realmente importa. “Ao rogar que fosse libertado de suas transgressões, ele atribui a Deus o louvor da justiça, enquanto se responsabiliza por toda a miséria que ora enfrenta”[5].8 Livra-me de todas as minhas iniquidades; não me faças o opróbrio do insensato”.

                   No início desse salmo Davi adotou o silêncio na presença do ímpio para que este não tivesse nada do que zombar e blasfemar de Deus olhando para Davi. Ao temer ser deixado ao “opróbrio do insensato”, Davi tanto temia ser ridicularizado por eles caso Deus não o perdoasse, quanto sofrer a vergonha da condenação que estes sofrerão. Isso só reforça ainda mais a verdade de que o que Davi mais desejava era o perdão, a misericórdia e a comunhão com Deus.

Davi transparece o desejo que ele tinha da presença de Deus. Ele começa falando da sua “oração”, em seguida do seu “grito por socorro”, e termina dizendo das suas “lágrimas”, diante de Deus. “Esta gradação não é mera figura de retórica, a qual só serve para adornar o estilo ou para expressar a mesma coisa em diferente linguagem. Isto mostra que Davi deplorava sua condição, sinceramente e do âmago de seu coração”[6].12 Ouve, SENHOR, a minha oração, escuta-me quando grito por socorro; não te emudeças à vista de minhas lágrimas, porque sou forasteiro à tua presença, peregrino como todos os meus pais o foram”.

                   Davi refugiou-se em Deus e clamou por Seu consolo. Ele reconhecia sua transitoriedade diante da eternidade de Deus. Sabia que era um “forasteiro (…) peregrino como todos os meus pais o foram”. A figura do peregrino aplica-se a todos os crentes. Um peregrino sabe que nada tem além de sua pátria distante. Tudo o que traz consigo não deve ser mais do que o necessário para atravessar essa jornada. Seu coração não pode se apegar a este mundo, pois, o seu tesouro está nos céus, na eternidade ao lado de Deus.

                  Neste último versículo ele pediu a Deus que lhe deixasse tomar um fôlego, que lhe desse uma pequena pausa na sua angústia, a fim de que tomasse um alento antes que ele partisse e deixasse de existir. Como vimos no Sl 38, Deus disciplina aos Seus filhos, e Davi estava sendo disciplinado por Deus. No entanto, ele buscou a Deus para receber o alívio. Tanto das aflições dessa vida quanto das aflições causadas por Deus em decorrência do Seu castigo para com as nossas iniquidades, só Ele pode nos livrar. “13 Desvia de mim o olhar, para que eu tome alento, antes que eu passe e deixe de existir”.

 

Aplicação v.7-8,12-13

                   Quando você estiver sob o peso da mão de Deus disciplinando-o, busque não só o alívio, mas, acima de tudo o perdão de Deus. Reconheça a fragilidade, a limitação e a transitoriedade de sua vida. Olhe para o Eterno e O deseje mais que tudo. Você é um peregrino neste mundo; nada aqui lhe pertence, e muito menos você pertence a este mundo. Nada aqui deve prender o seu coração; nada aqui deve iludi-lo. Você foi criado e resgatado para viver para a glória de Deus e só encontrará sentido para a sua vida se viver na presença de Deus.

Conclusão

                   Deus é a nossa única esperança. Fora Dele tudo é ilusão. Desconectada Dele nossa vida é efêmera não só na duração, mas, na consistência, é vaidade, isto é, nada.

                   Deus é a sua única esperança?

Oração

“Pai Santo, afasta de nós as ilusões deste mundo. Que não nos envolvamos nas mentiras deste mundo vil. Que o nosso coração uma vez tendo experimentado a Tua graça e perdão não queria nada mais, pois, tudo o resto neste mundo é um vácuo diante da Tua glória. Dá que sejamos plenamente satisfeitos em Ti para que glorifiquemos o Teu santo Nome cada vez mais com a nossa fé e confiança. Assim clamamos em Nome de Teu Filho Jesus Cristo, o nosso Senhor e Salvador, amém!”.

[1] Cf. WIERSBE, 2011, p.164.

[2] Cf. CALVINO, 1999, vol.2, p.195.

[3] Cf. HARMAN, 2011, p.181.

[4] Cf. WIERSBE, 2011, p.164.

[5] CALVINO, 1999, vol.2, p.206.

[6] Ibid, p.212.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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