Canções da Alma – 43ª Mensagem

Oração

“Aqui estamos, ó Pai para suplicar Sua graça e orientação ao nosso coração. Dá-nos ouvidos atentos, coração sincero e disposição em obedecê-Lo. Da Tua Palavra vem a instrução e a vida para nós. Que não seja o pregador aqui falando, mas que ele seja apenas a boca que o Senhor usará neste momento. Assim oramos em nome de Jesus Cristo, amém!”.

 

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

A Importância do Discernimento

Sl 41

Introdução

                  Não sei se você é do tempo em que a mãe mandava escolher feijão retirando as pedras do meio dos grãos. De vez em quando, uma pedra escapava e alguém pagava com uma obturação ou pedaço de dente. Esse ato de separar as pedras do feijão é uma boa ilustração para o significado da palavra “discernimento”. Este salmo vem nos falar justamente sobre A Importância do Discernimento.

Contextualização

                  A ocasião em que Davi escreveu este salmo nos é um tanto quanto obscura. Relacioná-la à rebelião de Absalão (2Sm 15) é um tanto quanto forçoso, pois, nada é registrado nos livros históricos sobre a enfermidade da qual Davi fala nos v.5-8. O fato é que neste salmo o Espírito Santo através de Davi vem nos mostrar o quão importante é discernirmos as coisas ao nosso redor. E aqui vemos pelo menos quatro situações nas quais devemos aplicar o discernimento. A primeira é:

1- À causa do necessitado, v.1-3

Exposição v.1-3

                   O verbo “acudir[1]” no hebraico é שָׂכַל que se traduz por “entender, ver, tornar sábio, agir com discernimento”. Calvino traduz assim este verso: “Bem-aventurado aquele que julga sabiamente o pobre”[2]. Assim sendo, o homem que se deparar com o necessitado deve procurar entender a razão e propósito do sofrimento pelo qual o necessitado está passando, deve ser capaz de discernir com sabedoria e de não fazer um julgamento precipitado da causa do pobre é bem-aventurado.1 Bem-aventurado o que acode ao necessitado; o SENHOR o livra no dia do mal”.

                   Mas, a quem “o SENHOR livra no dia do mal”? Ao que julga com sabedoria ou ao pobre? As duas opções, embora sejam igualmente verdadeiras não devemos perder de vista que o que importa aqui é sabermos que de Deus vem o socorro para os que o temem e para os que sofrem. E a forma como Deus assim o faz é esplêndida:

2 O SENHOR o protege, preserva-lhe a vida e o faz feliz na terra; não o entrega à discrição dos seus inimigos”

3 O SENHOR o assiste no leito da enfermidade; na doença, tu lhes afofas a cama”.

                   Essa lista de bênçãos prometidas àqueles a quem Deus socorre mostra como Ele é maravilhoso. Ele protege e preserva a vida do seu filho, o faz feliz no lugar da sua habitação. Não é o lugar em que o servo de Deus vive que o faz feliz, mas, sim, a presença de Deus. E porque Deus está presente, o seu servo não precisa temer os inimigos que o ameaçam, pois, Deus não deixará Seu filho à vontade dos inimigos.

                   Outra verdade consoladora é que Deus dá total assistência ao Seu filho quando este se encontra numa enfermidade. Ao dizer que Deus afofa o leito do seu servo na hora da doença nos mostra que não é o tratamento médico, o cuidado da enfermagem, ou o próprio medicamento que fará a diferença, mas, sim, a presença de Deus.

Aplicação v.1-3 O Senhor Jesus disse: Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também” (Mt 7.2). Porém, o julgamento que realmente importa e que deve ocupar nosso pensamento é o de Deus. Somos falhos em nosso julgamento. Por isso mesmo precisamos que Deus nos oriente e nos ajude a discernir o que é o correto. No exercício da misericórdia lembre-se de que um dia você é quem necessitará dela. Olhe para o necessitado e não se precipite em julgar. Seja sábio. Sirva-lhe de consolo, pois, assim Deus trará grande alegria para você.

                   Outra área que devemos exercer o discernimento, e esta é de longe, a mais difícil é:

2- O nosso próprio coração, v.4.

Exposição v.4

4 Disse eu: compadece-te de mim, SENHOR, sara a minha alma, porque pequei contra ti”.

                   A causa de todo o nosso sofrimento é o pecado. Quer seja um pecado específico que cometemos, quer seja o pecado de Adão que empurrou toda a humanidade para longe de Deus, quer seja o pecado dos outros causando-nos males. A própria enfermidade é resultado do pecado e muitas vezes pode ser resultado de pecado. Por isso, como disse Calvino: “invertem a ordem natural das coisas os que buscam remédio tão-somente para suas misérias externas, sujeitos às quais labutam, mas que em todo tempo ignoram a causa delas”[3], e qual é a causa do nosso sofrimento? O pecado.

                   Para o pecado não existe remédio, não existe terapia; pior ainda é ignorá-lo ou relativizá-lo dizendo que não passa de um “ponto de vista” de cada um, ou seja, o que eu considero pecado pode não ser considerado por outro da mesma forma por questões de cultura, criação e educação. Para o pecado, a única solução é a confissão.

                   Davi pediu que Deus o sarasse e tivesse compaixão dele. Ter compaixão é pôr o coração ao lado daquele que sofre e sofrer junto. Mas, aquele que não põe o seu coração ao lado do coração de Deus desejando viver vida santa e agradável aos olhos Dele, não deve alimentar esperança alguma de que Deus faça o mesmo em relação à sua dor.

Aplicação v.4 Irmão, não tolere o pecado em seu coração. O pecado o expulsou do paraíso, e se não fosse pela Graça de Deus salvando-o, o pecado também o impediria de entrar no céu. Não busque outra solução para o seu pecado além da confissão sincera diante de Deus. Só Deus pode livrá-lo do seu pecado. Seja sábio, e antes de sair por aí combatendo o pecado no mundo, combata-o em seu coração.

                   A terceira área em que devemos exercer discernimento é

3- A malícia das pessoas, v.5-9

Exposição v.5-9

6 Se algum deles me vem visitar, diz coisas vãs, amontoando no coração malícias; em saindo, é disso que fala”.5 Os meus inimigos falam mal de mim: Quando morrerá e lhe perecerá o nome?”.

7 De mim rosnam à uma todos os que me odeiam; engendram males contra mim, dizendo:

 8 Peste maligna deu nele, e: Caiu de cama, já não há de levantar-se”

9 Até o meu amigo íntimo, em quem eu confiava, que comia do meu pão, levantou contra mim o calcanhar”.

                   Nestes versos nos deparamos com dois outros personagens das Escrituras aos quais Davi faz uma referência implícita: Jó e o Senhor Jesus. Nos v.6-8 nossa mente vai para a história de Jó o qual coberto de feridas e tumores recebe a visita de seus amigos, os quais buscavam de todas as formas encontrar algum pecado em Jó que justificasse o seu sofrimento. E como bem sabemos, todos estavam equivocados. O v.9 por sua vez, foi citado pelo Senhor Jesus em Jo 13.18 em referência a Judas Iscariotes. Se nos v.1-3 vemos o julgamento correto que o servo de Deus deve fazer acerca dos outros, aqui vemos o julgamento maligno que os ímpios fazem dos filhos de Deus.

                   Davi viu-se traído por alguém que era de dentro de casa, a quem ele chama de “o meu amigo íntimo”, alguém que ele considerava um companheiro chegado, que comia do seu pão (para o judeu a comunhão de uma refeição é algo reservado somente para quem é muito próximo e com quem se tinha intimidade). Davi foi traído por pessoas muito próximas a ele tais como Aitofel, seu conselheiro pessoal que tomou partido de seu filho Absalão quando este se rebelara e traíra a Davi (2Sm 11.3 e 23.34). Aitofel era avô de Bate-Seba e odiava a Davi pelo que ele fizera a Urias, esposo de Bate-Seba. Davi sentia o ódio dessas pessoas que:

  • Falavam mal dele: “Quando morrerá e lhe perecerá o nome?” (v.5);
  • Desejavam-lhe o mal: “amontoando no coração malícias (…) engendram males contra mim” (v.6-7);
  • Faziam-lhe mal: “levantou contra mim o calcanhar” (v.9).

                   Sermos traídos por pessoas com quem não temos um relacionamento profundo é algo doloroso; mas, quando pessoas em quem confiávamos, com quem tínhamos um relacionamento íntimo, a dor é algo excruciante. Mas, porque nos decepcionamos quando alguém próximo a nós nos trai? Muitos são os fatores, mas, quando discernimos o fato de que as pessoas nos traem porque são pecadoras, então conseguimos lidar melhor com a traição por mais doída que ela seja. Outro fato que devemos discernir no tocante à traição é que somos tão falhos e pecadores quanto às pessoas que já nos traíram, e que já causamos muita dor e decepção nas outras pessoas que nos tinham como próximas a elas.

                   Outro ponto importante aqui é vermos que o v.9 sendo citado pelo Senhor Jesus em relação à traição de Judas. Quando somos traídos nos sentimos injustiçados, contudo, o único que realmente foi injustiçado quando traído foi o Senhor Jesus. Ele nunca traiu e trairá ninguém; o mesmo você e eu não podemos dizer.

Aplicação v.5-9 Lembre-se do que diz o profeta Jeremias: “Maldito o homem que confia no homem e faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jr 17.5). Traga o seu coração sempre na presença de Deus, pois, somente ele poderá sustenta-lo quando você sofrer o golpe da traição de alguém que lhe é próximo. Mas, não se esqueça de que você também não deve trair e causar a dor ao coração de quem lhe tem como íntimo e chegado.

                   Por fim, devemos exercer o discernimento também em relação:

3- À justiça de Deus, v.10-13

Exposição v.10-13

10 Tu, porém, SENHOR, compadece-te de mim e levanta-me, para que eu lhes pague segundo merecem”.

11 Com isto conheço que tu te agradas de mim: em não triunfar contra mim o meu inimigo”.

12 Quanto a mim, tu me susténs na minha integridade para sempre”.

13 Bendito seja o SENHOR, Deus de Israel, da eternidade para a eternidade! Amém e amém!”.

                   No desfecho desse salmo nos deparamos com a misericórdia de Deus na forma como Ele nos trata (v.10-12) e também a glória Dele como o alvo da nossa vida (v.13).

                   Sobre o ombro do rei Davi pesava o dever do julgamento correto. Não se tratava de fazer vingança aos inimigos, mas, sim, de exercer a justiça como um rei que era. Davi sabia que ele era o ungido de Deus para governar o povo, e que por isso, se falhasse em seu julgamento traria desonra a Deus[4]. Como então ele poderia fazer o que Deus mandou se não dependesse do próprio Deus para isso? Esta é a lição que devemos aprender aqui: só podemos fazer o que Deus quer se dependermos totalmente Dele.

                   Davi tinha de julgar com equidade e retribuir a cada um conforme a justiça determinava, e para isso ele precisava de Deus, precisava não só da instrução de Deus, mas, da ação de Deus. Se assim Deus agisse em seu favor, os inimigos não triunfariam sobre ele e ficaria claro que Deus se agradava de Davi (cf. v.11), não pelos méritos de Davi, mas, porque o próprio Deus é quem o sustentava em sua integridade (v.12). Eis outra preciosa verdade preciosa: é Deus quem nos transforma e nos sustenta com Sua graça para que sejamos agradáveis a Ele.

                   Qual deve então ser a nossa atitude diante de tão gloriosa verdade? A mesma de Davi no v.13: louvarmos e bendizermos a Deus, com o louvor que perpassa de uma eternidade à outra, pois, do começo ao fim, Ele é digno de todo o louvor e adoração. A glória eterna de Deus deve ser o alvo da nossa vida e o elemento principal para nos ajudar a discernir todas as coisas. Quando vemos a vida sob o prisma da glória de Deus, a vida passa a ter sentido.

Aplicação v.10-13 Para ser o que Deus quer que você seja você precisa totalmente de Deus e também de confiar somente Nele. Para que a sua vida glorifique a Deus é com a glória Dele que você deve estar totalmente ocupado em seu coração. A melhor maneira de glorificarmos a Deus é mostrando que nada neste mundo nos é mais importante que a glória Dele.

Conclusão

                   Uma criança cheia do Espírito Santo tem um discernimento mais apurado que um adulto arrogante e autoconfiante. O discernimento é uma faculdade que desenvolvemos conforme amadurecemos em nossa experiência cristã e em na dependência de Deus. Exercite o discernimento que Deus lhe deu. Discernindo todas as coisas com o foco na glória de Deus você será bem-aventurado!

Oração

            “Deus Eterno, tome a nossa mente e o nosso coração. Não permita que pensemos ou julguemos as pessoas de forma temerária. Que possamos discernir Tua vontade em meio às circunstâncias para que assim glorifiquemos o Teu nome acima de tudo. Em Nome de Jesus, Teu filho amado, oramos. Amém!”.

[1] Hiphilמַשְׂכִּ֣יל .

[2] CALVINO, 1999, vol.2, p.239.

[3] CALVINO, 1999, vol.2, p.245.

[4] Cf. CALVINO, 1999, vol.2, p.250-254.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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