Canções da Alma – 44ª Mensagem

Oração

“Eterno, Soberano, Justo e Bondoso Deus, que reina pelos séculos dos séculos e que Se digna a olhar para pecadores tão miseráveis como nós. Mais uma vez nos colocamos em Tua presença suplicando que abras os nossos olhos, os nossos ouvidos e o nosso coração diante da Tua Palavra. Tome cativa a nossa mente e não nos permita divagarmos por pensamentos que nos afastam de Ti. Dá-nos o entendimento e o amor pela Tua Palavra. Pelos méritos de Jesus Cristo, Teu Filho amado, oramos, amém!”.

 

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

A Fé que Insiste em Meio ao Sofrimento

Sl 42 e 43

Introdução

                  Religiosidade. Eis um termo que tem sido atacado em nossos dias por aqueles que buscam viver a vida com Deus de forma intensa e sincera. A religiosidade, em si mesma, não é o problema, pois, ela diz respeito à prática da fé. O problema está em depositarmos em nossa religiosidade a esperança da nossa salvação. Não somos salvos por ser religiosos, mas, porque Deus nos amou e revelou-nos a Sua graça, e isto nos leva a amarmos a Deus e a tudo o que Ele ama. É impossível alguém amar a Deus de verdade se não tiver prazer nas coisas que Ele ama. A Fé Reformada ensina que Deus nos concede “Meios da Graça”, ou seja, meios pelos quais Deus comunica-nos Sua Graça a fim de fortalecer a nossa fé. Eis alguns meios de Graça: a pregação da Palavra, a administração dos sacramentos da Ceia e do Batismo, a comunhão com os irmãos, a oração, e a leitura e estudo da Bíblia. Quando o crente faz uso desses meios ele cresce em Graça.

                  Neste salmo encontramos o servo de Deus desejando ardentemente estar na Casa do SENHOR na presença do Seu povo para adorar a Deus (um meio de graça), mas, por causa dos inimigos que capturaram e o levaram ao exílio, este se via impedido de estar onde tanto amava estar. E no meio de tudo isso, vemos A Fé que Insiste em Meio ao Sofrimento, assunto este que será o tema da nossa mensagem.

Contextualização

                  Estes dois salmos formam uma só peça como fica claro na pergunta que se repete em 42.9 e 43.2: “Por que hei de andar eu lamentando sob a opressão dos meus inimigos?” e com a pergunta retórica de 42.5,11 e 43.5: “Por que está abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu”. Por que eles foram separados não sabemos, mas, devem ser vistos juntos.

                  A autoria deles (e dos Sl 44 – 49, 84, 87 e 88) é creditada aos “filhos de Corá”. Não sabemos se este Corá é o mesmo de Nm 16 o qual era um sacerdote da tribo de Levi que liderara uma rebelião de 250 homens contra Moisés, e por isso foi morto (cf. Nm 16). Caso seja o mesmo tudo indica alguns de seus descendentes foram poupados e continuaram a servir no templo do SENHOR – mas, não temos nenhuma referência bíblica que comprove isso.

                  Longe da Casa de Deus, afastado da comunhão dos seus irmãos, o salmista sofria demais. A saudade do templo do SENHOR era por causa do SENHOR do templo. Estando exilado ele lutava por manter sua fé em Deus.

                  Este salmo fala sobre a alma cuja fé que insiste em esperar Deus agir e em louvá-Lo mesmo quando não vê ou ouve resposta alguma da parte Dele. Essa fé que insiste em meio ao sofrimento

1- Luta contra a secura da alma, 42.1-5

Exposição v.1-5


2 A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando irei  e me verei perante a face de Deus?”.
1 Como suspira a corsa pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma”.

                   A figura de uma corça arquejando e se arrastando à procura de águas correntes ilustra bem a sede que o salmista tinha de Deus. Dizem que uma corça após correr por um bom tempo, se tiver a oportunidade de molhar seus cascos num riacho por alguns instantes, ela conseguirá correr sem parar, o mesmo tempo novamente. Estando exilado e longe da Casa de Deus sua alma suspirava por estar aonde o Deus vivo se manifestava. Mas, as circunstâncias o impediam. Quando chegaria a hora dele novamente estar “perante a face de Deus”? Quando ele saciaria sua sede pelo “Deus vivo”?

Aplicação v.1-5 Se você hoje tem a oportunidade de estar na Casa de Deus em comunhão com Seus irmãos com o fim de adorá-Lo e bendizê-Lo aproveite isso. Não troque o culto a Deus por nada neste mundo. Ame a Casa e o Povo de Deus. Ame o que Deus ama.

4 Lembro-me destas coisas – e dentro de mim se me derrama a alma –, de como passava eu com a multidão de povo e os guiava em procissão à Casa de Deus, entre gritos de alegria e louvor, multidão em festa”.3 As minhas lágrimas tem sido o meu alimento dia e noite, enquanto me dizem continuamente: O teu Deus, onde está?”.

5 Por que está abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu”.

                   A impossibilidade de estar no templo do SENHOR e a zombaria dos inimigos questionando onde estava o Seu Deus causavam-lhe terrível dor e sofrimento no coração. Suas lágrimas o alimentavam. Quando estamos passando por tempos de sofrimento é muito mais fácil chorarmos do que nos alimentarmos. As lágrimas roubam de nós a fome e o apetite.

                   Além do sofrimento causado pelos inimigos, seu coração sofria com as lembranças deliciosas das festividades do culto a Deus. Sua alma se derramava de tristeza com essas lembranças. Em datas específicas o povo fazia romarias para ir ao templo do SENHOR a fim de adorá-Lo. Era uma festa que acontecia não só no templo, mas, na jornada. Eram “gritos de alegria e louvor, multidão em festa”. Era uma cena linda, um momento singular ver o povo caminhando e louvando a Deus rumo ao templo para adorar ao SENHOR. Mas, agora, exilado, longe da Casa de Deus, o salmista faz uma autoconfrontação admoestando-se a não ficar abatido e a esperar em Deus, pois, tinha certeza de que voltaria a louvar a Deus, o seu auxílio e seu Deus.

Aplicação v.3-5 A secura da alma não é vencida com recursos naturais (v.1) e nem com as memórias de dias gloriosos (v.4). Somente Deus pode dessedentar a alma que definha na sequidão. Se a sua alma está seca, somente em Deus você encontrará a Água da Vida. Almeje viver na presença de Deus; mire a glória de Deus, pois, do contrário, sua alma definhará na sequidão. Mesmo que você esteja seco por dentro espere em Deus, ponha sua fé em Deus. O seu coração ainda será tomado novamente pela alegria do SENHOR.

                   A fé que insiste em meio ao sofrimento também

2- Luta contra a angústia da alma, 42.6-11

Exposição v.6-11


7 Um abismo chama outro abismo, ao fragor das tuas catadupas; todas as tuas ondas e vagas passaram sobre mim”.
6 Sinto abatida dentro de mim a minha alma; lembro-me, portanto, de ti, nas terras do Jordão, e no monte Hermom, e no outeiro de Mizar”.

8 Contudo, o SENHOR, durante o dia, me concede a sua misericórdia, e à noite comigo está o seu cântico, uma oração ao Deus da minha vida”.

                   A condição espiritual e emocional do salmista nestes versículos muda de uma seca para uma tempestade terrível, e ele se via como que afogando em muitas águas.

                   A cordilheira do Hermom (no plural “Hermonim” חֶרְמוֹנִ֗ים ) é onde nasce o rio Jordão, e tanto as chuvas quanto as águas do degelo transformam o cenário árido em cachoeiras violentas de uma hora para outra, formando torrentes perigosas. O salmista sentia em sua alma angústias terríveis; era como se estivesse caindo nas catadupas (cascatas) mortais de um aguaceiro, e lá no fundo dos abismos ele ouvia o barulho assustador das muitas águas cobrindo-o sem ter chance de escapar.

                   Tomado por tão terrível angústia, estando longe da Casa de Deus e da comunhão com os irmãos, o salmista cria que Deus não estava longe dele. Se antes, a recordação de lembranças deliciosas não puderam acalentar seu coração, agora, ele sabe que somente Deus poderia fazer isso, e assim, ele declara a sua fé em Deus, sabendo que Ele não está confinado a um templo ou região, mas, sim, está aonde Seu servo está, e, por isso mesmo, sabia que mesmo submerso nestes abismos “o SENHOR, durante o dia, me concede a sua misericórdia”. É importante ainda observar que somente aqui nestes dois salmos ele usa o Nome Pactual de Deus “SENHOR” (יְהוָ֙ה) o que nos mostra a fidelidade de Deus. Mas, e quando a escuridão da noite caísse? Ele também sabia que “à noite comigo está o seu cântico, uma oração ao Deus da minha vida”. É possível louvarmos a Deus em meio à escuridão angustiante das tribulações. Deus é fiel e por isso deve ser louvado o tempo todo. Temos na fidelidade de Deus todos os motivos para louvá-Lo.

Aplicação v.6-8 Quando a angústia apertar seu coração, quando você se sentir tragado, arrastado e engolido pelo medo, angústias e temor, creia no Deus onipresente e onipotente. Deus está com Seus servos que sofrem para lhes mostrar a Sua misericórdia e pôr em seus lábios um cântico de louvor que soa aos Seus ouvidos como uma oração agradável. Não é a lembrança de bons tempos passados que lhe ajudará a vencer a angústia de sua alma, mas, sim, a certeza da misericórdia e fidelidade de Deus.

10 Esmigalham-se-me os ossos, quando os meus adversários me insultam dizendo e dizendo: O teu Deus, onde está?”.9 Digo a Deus, minha rocha: por que te olvidaste de mim?”.

11 Por que está abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu”.

                   Concordo com Calvino[1] que as palavras destes versículos não expressam dúvida do cuidado de Deus, pois, isto estaria em franca contradição com o que foi dito no versículo anterior. O que ocorre aqui é que o salmista confiava em Deus e O tinha como “minha rocha” – segurança e proteção – mas, ao ver-se esmagado pela angústia e insultado pelos seus adversários que insistentemente zombavam dele questionando se de fato o Seu Deus existia, ele então clamou ao SENHOR Deus para que viesse logo em seu socorro. E enquanto ele aguardava o agir de Deus em sua vida socorrendo-o dessa angústia e sofrimento, ele novamente se confronta: “Por que está abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim?”. Ele não tinha ainda vencido completamente suas tentações, mas, ainda que cambaleante e esmagado pela angústia ele cria que Deus o socorreria, o resgataria daquele exílio e lhe daria novamente o privilégio e a alegria de louvá-Lo tanto no templo quanto em qualquer lugar.

Aplicação v.9-11 É possível que mesmo você experimentando o cuidado de Deus o tempo todo em sua ainda lute contra as investidas de Satanás colocando dúvidas em seu coração quanto ao cuidado de Deus. Diga o tempo todo ao seu coração: “Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu”. Com isso você não somente ficará firme diante das embatidas do maligno, mas, principalmente não perderá de vista que o propósito da sua vida é viver para a glória de Deus.

                   A fé que insiste em meio ao sofrimento por fim:

3- Luta contra a escuridão que envolve a alma, 43. 1-5

Exposição v.1-5

Faze-me justiça, ó Deus, e pleiteia a minha causa contra a nação contenciosa; livra-me do homem fraudulento e injusto”.

2 Pois tu és o Deus da minha fortaleza. Por que me rejeitas? Por que hei de andar eu lamentando sob a opressão dos meus inimigos?”.

3 Envia a tua luz e a tua verdade, para que me guiem e me levem ao teu santo monte e aos teus tabernáculos”.

4 Então, irei ao altar de Deus, de Deus, que é a minha grande alegria; ao som da harpa eu te louvarei, ó Deus, Deus meu”.

5 Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu”.

                   O cenário novamente muda. Não mais agora um abismo profundo coberto por um aguaceiro, mas sim, uma noite escura, a qual só pode ser vencida pela luz e pela verdade de Deus (cf. v.3).

                   Cercado pelos inimigos filhos de uma “nação contenciosa”, e atacado pelo “homem fraudulento e injusto” o salmista clama a Deus para que viesse e lhe fazer justiça. Ele declarara que Deus era a sua rocha e, agora, faz outras declarações sobre Deus que mostram a sua confiança em Deus: “o Deus da minha fortaleza” (v.2); “Deus, que é a minha grande alegria” (v.4) e “Deus meu” (v.5).

                   Por mais ameaçado, atacado, maltratado, injustiçado e insultado que viesse a ser, o salmista não perdeu de vista quem era o seu Deus. Ele não vivia de expectativas, mas, de certezas. Ele tinha certeza de que:

  • Deus o livraria. Assim como em 9, aqui em 43.2 o salmista não está vendo a sua fé ser abalada; pelo contrário, pelo fato de saber que Deus era o seu protetor, ele clama a Deus não se demorar em vir em seu socorro. Outra verdade aqui no v.2 é que o salmista sabia que seus inimigos não poderiam lhe fazer mal algum se Deus não permitisse. Por isso mesmo, ele clama a Deus que interrompa seu sofrimento causado pelos inimigos.
  • Louvaria a Deus no Seu altar. Quando a luz e a verdade de Deus o guiassem na escuridão de sua alma e o levasse novamente ao santo monte e aos tabernáculos de Deus (v.3), então ele louvaria a Deus com sua harpa (v.4). O 5 não deve ser lido com a mesma voz abatida com em 42.5,11. Aqui o salmista expressa sua fé exultante! “Quando pela fé, vemos o rosto de Deus resplandecer sobre nós (Nm 6.22-27), nosso semblante se ilumina e se torna espiritualmente saudável. Sabemos que Deus é por nós, que Deus nos libertará e nos conduzirá a sua cidade santa, onde o adoraremos e cantaremos louvores a ele”[2].

Aplicação v.1-5 A fé que insiste mesmo quando a alma está cercada pela escuridão sabe que Deus resplandecerá em glória dissipando todas as trevas. No caminho de volta para a casa o salmista louvava a Deus, O qual era a sua grande alegria. A alma que confia em Deus jamais ficará à mercê das trevas. A fé que insiste em continuar firme em meio ao sofrimento nunca será uma mera expectativa, mas, sim, a certeza plena de que Deus agirá em seu favor.

Conclusão

                   “O teu Deus, onde está?”. O nosso Deus está conosco quando a nossa alma está seca, angustiada e tomada pela escuridão das lutas e tristezas dessa vida. O nosso Deus jamais nos desamparará. Ele estará sempre presente transformando nossa sequidão, nossa angústia e escuridão em vida abundante. Amém!

[1] Cf. CALVINO, 1999, vol.2, p.269.

[2] WIERSBE, 2010, vol.3, p.172.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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