Canções da Alma – 45ª Mensagem

Oração

“Como é maravilhoso, ó Pai, em meio à correria do dia a dia separarmos o Dia do Senhor para juntos meditarmos em Tua Palavra. Ela é o nosso alimento, o nosso sustento. Fale conosco através dela, e que não haja nenhum empecilho para que o Teu Nome seja sempre glorificado. Em nome de Jesus. Amém!”.

 

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

Enquanto Não compreendemos o Agir de Deus

Sl 44

 

Introdução

                  Alguém disse que “a graça de Deus nunca nos levará aonde ela não possa nos sustentar”. E isso é verdadeiro tanto pelo fato de que nada neste mundo é mais forte e poderoso que a graça de Deus, como também pelo fato de Deus nunca fazer algo sem propósito em nossa vida. Pensando especificamente no fato de que Deus tem um propósito claramente definido em Sua mente divina para cada coisa que Ele faz em nossa vida sempre nos deparamos com a dificuldade de entender o que Ele está fazendo até que Ele torne tudo claro para nós. Por isso quero meditar com você neste salmo tendo como título da nossa meditação: Enquanto não compreendemos o agir de Deus.

Contextualização

                  A ocasião em que os filhos de Corá (a quem é atribuída a autoria deste salmo) escreveram este salmo nos é obscura. Alguns e o entendem como um cântico que deveria ser entoado num “dia nacional de oração”, tal como o Dia da Expiação, pelo fato de que a estrutura deste salmo apresenta um dirigente respondendo no singular após uma afirmação coletiva[1]. Veja como essa estrutura se apresenta:

  • A assembleia fala – 1-3; o dirigente responde – v.4;
  • A assembleia fala – 5; o dirigente responde – v.6;
  • A assembleia fala – 7-14; o dirigente responde – v.15;
  • A assembleia fala – 16-26

                  Este salmo apresenta o clamor de corações que estão buscando entender os propósitos de Deus para si mesmos enquanto sofrem nas mãos dos inimigos. Observemos que verdades preciosas este salmo nos traz com relação a compreendermos o que Deus está fazendo em nossa vida.

                  Enquanto não compreendemos o agir de Deus precisamos:

1- Olhar para o passado com gratidão, v.1-8

1 Ouvimos, ó Deus, com os próprios ouvidos; nossos pais nos têm contado o que outrora fizeste, em seus dias”.

2 Como por tuas próprias mãos desapossaste as nações e os estabeleceste; oprimiste os povos e aos pais deste largueza”.

3 Pois não foi por sua espada que possuíram a terra, nem foi o seu braço que lhes deu vitória, e sim a tua destra, e o teu braço, e o fulgor do teu rosto, porque te agradaste deles”.

4 Tu és o meu rei, ó Deus; ordena a vitória de Jacó”.

5 Com o teu auxílio, vencemos os nossos inimigos; em teu nome, calcamos aos pés os que se levantam contra nós”.

6 Não confio no meu arco, e não é a minha espada que me salva”.

7 Pois tu nos salvaste dos nossos inimigos e cobriste de vergonha os que nos odeiam”.

8 Em Deus, nos temos gloriado continuamente e para sempre louvaremos o teu nome”.

                   No Sl 42.4 vimos que a recordação de momentos gostosos que tivemos no passado estando nós passando por um momento de dor e tristeza pode se tornar até um tropeço para nós, pois, o saudosismo pode nos iludir. Mas, aqui, nestes versículos, o salmista não está sendo saudosista. Pelo contrário, ele traz à sua memória os grandiosos feitos de Deus por Seu povo. O que parece seu uma redundância para nós quando ele diz “Ouvimos, ó Deus, com os próprios ouvidos”, é, na verdade, uma expressão que além de demonstrar que a graça de Deus deve ser acolhida sem qualquer dúvida[2], também é a expressão de um coração cheio de gratidão a Deus que agiu pelo Seu povo de Israel dando-lhe a posse da terra prometida e banindo os povos pagãos de lá (v.2).

                   O salmista em momento algum creditou ao povo a glória da vitória, pois, sabia que não foi o poder do povo, nem sua habilidade com a espada, mas sim, o poder de Deus que através do Seu braço e do fulgor do Seu rosto, isto é, da Sua glória garantiu as vitórias ao povo. A resposta que o salmista deu a Deus não poderia ter sido outra: “Tu és o meu rei, ó Deus; ordena a vitória de Jacó” (v.4). Ele reconheceu a soberania de Deus bem como sua dependência do poder de Deus para fazer com que a vitória do povo se concretizasse, e por isso eles venceram os inimigos e passaram por cima deles (v.5). Ele aprendera a não confiar em si mesmo, mas, em Deus, pois, não era o seu arco ou a sua espada que o salvara, mas, sim, Deus (v.6). E por tudo o que Deus fizera por eles (v.7), eles se gloriavam Nele e o louvariam continuamente e para sempre (v.8).

Aplicação v.1-8 Pesa sobre nós a responsabilidade de transmitirmos aos nossos descendentes os poderosos feitos de Deus. Temos que ensinar nossas crianças, nossos netos sobre o que Deus fez no passado por nós e como Ele cuidou de nós em cada situação difícil que passamos, contra cada inimigo que enfrentamos e vencemos. Nossos filhos conhecerão a Deus através de nós e ninguém há melhor do que nós mesmos para ensina-los sobre as grandezas de Deus. Isso também revelará a nossa gratidão a Deus, pois, recordar os Seus poderosos feitos é incitar o coração a louvar a Deus constante e eternamente, reconhecendo que foi somente por Ele que nós vencemos.

                   Enquanto estivermos tentando entender o agir de Deus devemos:

2- Olhar para o presente com resignação, v.9-16

                   Resignação é a aceitação de uma situação sem a intenção de muda-la. Quando estamos diante de uma situação da qual não temos como sair e pela qual Deus quer que passemos, a melhor atitude nossa é a resignação que não contesta e nem se revolta, mas, que se coloca nas mãos de Deus esperando o socorro.


9 Agora, porém, tu nos lançaste fora, e nos expuseste à vergonha, e já não sais com os nossos exércitos”.

10 Tu nos fazes bater em retirada à vista dos nossos inimigos, e os que nos odeiam nos tomam por seu despojo”.

11 Entregaste-nos como ovelhas para o corte e nos espalhaste entre as nações”.

12 Vendes por um nada o teu povo e nada lucras com o seu preço”.

13 Tu nos fazes opróbrio dos nossos vizinhos, escárnio e zombaria aos que nos rodeiam”.

14 Pões-nos por ditado entre as nações, alvo de meneios de cabeça entre os povos”.

15 A minha ignomínia está sempre diante de mim; cobre-se de vergonha o meu rosto”

16 ante os gritos do que afronta e blasfema, à vista do inimigo e do vingador”.

                    Deus se silenciara. Naqueles dias em que o salmista escrevera este salmo ele, juntamente com o povo, sentia o peso da mão de Deus. Se antes Deus os conduzira em triunfo em todas as batalhas contra os inimigos, agora Deus já não saía à frente dos exércitos de Israel. Era costume antigamente, quando um povo saía para a batalha, o seu rei ia á frente do exército liderando o mesmo. No caso de Israel era o próprio Deus, o Seu Rei que ia à frente. Mas, agora, Ele não mais estava à frente do Seu povo (v.9). Se antes, Deus fazia os inimigos bateram em retirada diante de Israel, agora, era Israel que fugia vergonhosamente de seus inimigos os quais os tratavam com crueldade (v.10).

                   O salmista reconheceu que foi Deus quem os entregou como ovelhas para o abate e os espalhou no meio dos pagãos (v.11). Eles foram expostos à venda como se fossem escravos (v.12), e assim, foram cobertos de vergonha e foram escarnecidos pelos seus inimigos (v.13-14). A vergonha que toda a nação sentia era sentida individualmente pelo salmista (v.15-16). Não era um patriotismo ou nacionalismo, mas, sim, a consciência pactual, ou seja, o Pacto de Deus com Seu povo unia todo o povo como se fosse um só homem. Este mesmo sentimento está presente na Igreja hoje – vemo-nos como um Corpo com muitos membros, ligados uns aos outros e todos à Cabeça que é Cristo. Daí a dor de um tem que afetar o outro também. Comentando estes versículos, Calvino disse: “quando os fiéis apresentam Deus como o Autor de suas calamidades, não é com propósito de murmurarem contra ele, senão para que possam com mais plena confiança buscar alívio, por assim dizer, na mesma mão que os golpeara e os ferira”[3]. Que aprendamos a buscar em Deus o Seu consolo mesmo quando Ele nos disciplinar!

Aplicação v.9-16 Às vezes Deus nos conduz a situações nas quais não entendemos nada, nos sentimos consternados, abatidos e humilhados e nem mesmo sabemos a causa de tudo o que nos está acontecendo. Por isso a nossa atitude nesses momentos deve ser de resignação. E vez de ficarmos buscando a causa e o motivo de todo esse sofrimento, a hora é de nos aquietar na presença de Deus e, com humildade aceitar o que Ele está fazendo conosco. A disciplina de Deus não vem sem motivo, e Deus não tem obrigação nenhuma de explicar-nos o que Ele está fazendo. O chamado para viver com Ele não é para obtermos todas as respostas, mas, para desfrutarmos do Seu consolo e amparo em todos os momentos.

                   Por fim, enquanto estivermos tentando entender o agir de Deus devemos:

3- Olhar para o futuro com convicção, v.17-26

                   Em Hb 11.1 lemos que a fé “é a certeza de coisas que se esperam e a convicção de fatos que se não veem”.

17 Tudo isso nos sobreveio; entretanto, não nos esquecemos de ti, nem fomos infiéis à tua aliança”.

18 Não tornou atrás o nosso coração, nem se desviaram os nossos passos dos teus caminhos”, 

19 para nos esmagares onde vivem os chacais e nos envolveres com as sombras da morte”.

20 Se tivéssemos esquecido o nome do nosso Deus ou tivéssemos estendido as mãos a deus estranho”,

21 porventura, não o teria atinado Deus, ele, que conhece os segredos dos corações?”

22 Mas, por amor de ti, somos entregues à morte continuamente, somos considerados como ovelhas para o matadouro”.

23 Desperta! Por que dormes, Senhor? Desperta! Não nos rejeites para sempre!”

24 Por que escondes a face e te esqueces da nossa miséria e da nossa opressão?”

25 Pois a nossa alma está abatida até ao pó, e o nosso corpo, como que pegado no chão”.

26 Levanta-te para socorrer-nos e resgata-nos por amor da tua benignidade”.

                   Como vimos no ponto anterior, em momentos assim saímos à caça de pecados que cometemos na tentativa de explicarmos a razão do nosso sofrimento. Mas, vasculhando o seu coração e as ações de todo o povo, o salmista diz: “Tudo isso nos sobreveio; entretanto, não nos esquecemos de ti, nem fomos infiéis à tua aliança” (v.17). O salmista estava convicto tanto da sua fidelidade a Deus quanto da do povo, pois, sabia que seus corações não haviam voltado atrás e nem haviam eles se afastado dos caminhos do SENHOR para sofrerem em circunstâncias tão difíceis (v.18-19). Ele entendia que se porventura tivessem se esquecido de Deus e buscado o socorro de deuses estranhos (o que seria a quebra explícita do primeiro mandamento e causa de grande maldição) então todo o sofrimento estaria justificado, pois Deus é o Deus que conhece todas as coisas, inclusive as intenções dos corações dos homens (v.20-21).

                   Mas, justamente por estarem sofrendo sem uma causa aparente, ou pelo menos não revelada por Deus, eles se sentiam como “entregues à morte continuamente (…) como ovelhas para o matadouro” e tudo isso por amor a Deus (v.22). Se tivessem cometido pecado de idolatria ou rebeldia, isso justificaria tamanho sofrimento. Mas, a certeza que o salmista tinha era a de que ele e o povo amavam a Deus e estavam sofrendo por amor a Ele. Warren Wiersbe afirma: “aqueles que dão a vida pela causa do Senhor são conquistadores, não vítimas, e Deus pode ser glorificado mesmo em meio a aparentes derrotas”[4]. É por isso que temos de olhar para o futuro com a convicção de que Deus está fazendo o melhor para nossas vidas, mesmo que para isso Ele nos faça passar por sofrimentos.

                   Os v.23-24 não devem ser entendidos como um questionamento revoltado, mas, sim, como uma súplica com base na certeza de que Deus é o Senhor Absoluto e pode vir socorrer o Seu povo. Isto fica claro pelo fato do salmista usar o Nome  אֲדֹנָ֑י“Senhor” para referir-se a Deus aqui no v.23. Este nome apresenta Deus como o Senhor de tudo, inclusive das nações do mundo. Quem poderia livrar o povo de Deus de tão grande sofrimento a não ser o próprio Deus que tem tudo debaixo do Seu senhorio?

                   Por isso mesmo, a maneira correta de se aproximar desse Deus é com humildade, como podemos ver nas palavras dos v.25-26. Apelando para o amor que Deus tem por Sua própria benignidade, o salmista clama humildemente por socorro divino. Se antes, o salmista tinha sua consciência limpa diante de Deus e não encontrava um pecado específico que tivesse causado todo aquele sofrimento, agora o salmista não faz vistas grossas para a sua pecaminosidade e para a do povo. Ele via que a sua alma estava humilhada até ao pó, ou seja, a tristeza decorrente da vergonha que sentia diante de Deus por sua pecaminosidade era algo tão forte que o prostrava no chão, de onde somente a misericórdia de Deus poderia levantá-lo. Ele também tinha convicção de que Deus faria isso por amor de sua própria glória, pois, no ser humano não há merecimento algum da graça de Deus.

                   Assim, o salmista olhando para si tinha convicção de que mesmo sendo inocente a respeito de um pecado específico, não o era inocente no tocante à sua essência, pois, ele era um pecador desprezível. Mas, a convicção que ele tinha além dessa outra era a de que Deus era o único que poderia resgatá-lo e de fato era o único que viria resgatá-lo.

Aplicação v.17-26 Ao olharmos para o futuro não podemos perder de vista que nossa dor tem tempo certo para existir, e como Jó podemos dizer: Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra” (Jó 19.25). Sim, podemos ter a convicção de que Deus sempre virá em nosso auxílio e socorro. Mas, também nunca devemos perder a convicção da nossa pecaminosidade, e ainda que não tenhamos cometido um pecado específico que seja a razão do nosso sofrimento, somos pecadores por natureza e somente a Graça de Deus, o amor que Ele tem por Sua glória é que O leva a vir em nosso socorro.

Conclusão

                   Nem sempre podemos explicar as tragédias da nossa vida. Mas, não podemos nos esquecer de Rm 8.28-29. A ordem de Isaías é muito atual: “Quem há entre vós que tema ao SENHOR e que ouça a voz do seu Servo? Aquele que andou em trevas, sem nenhuma luz, confie em o nome do SENHOR e se firme sobre o seu Deus” (Is 50.10). Deus nos chama para confiarmos Nele e desfrutarmos do Seu cuidado.

[1] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.172.

[2] Cf. CALVINO, 1999, vol.2, p.280.

[3] CALVINO, 1999, vol.2, p.289.

[4] WIERSBE, 2010, vol.3, p.173.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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