Canções da Alma – 46ª Mensagem

Oração

“A Tua Palavra, ó Deus Eterno é a fonte de vida ao nosso coração. De nenhum alimento mais necessitamos, e de nenhum outro necessitamos mais do que a Tua Palavra. Guie-nos por ela, fortaleça-nos por meio dela, para que, por meio dela obedeçamos a Ti. Em nome de Jesus Cristo, amém!”

 

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

O Casamento Mais Belo de Todos os Tempos

Sl 45

 

Introdução                                                                  

                  Quero falar com você nesta ocasião sobe: O Casamento Mais Belo de Todos os Tempos. Se eu perguntasse qual foi o casamento mais belo que você já viu, creio que as esposas aqui presentes diriam: “O meu”. Mas, permita-me discordar. O casamento mais belo de todos os tempos foi o que Deus realizou entre Seu Filho e a Igreja.  

Contextualização

                  Este salmo retrata um casamento real por causa do seu título que diz que ele é um “Cântico de amor”. Alguns comentaristas bíblicos identificam o rei descrito aqui com Salomão[1] que se casou com um egípcia (1Rs 3.1; 9.24), dentre os filhos de Davi somente ele foi ungido rei em Israel, o que explicaria o v.7, também ficou conhecido por sua riqueza em ouro (cf. v.9,13; 1Rs 9.28) e que manteve um relacionamento bem próximo com Hirão, rei de Tiro (comparar v.12 com 1Rs 9.10-14). Outros comentaristas, porém, veem aqui o rei Davi em um de seus casamentos[2].

                  Porém, está claro que este salmo fala de alguém muito maior que Davi e Salomão está sendo descrito neste salmo. Aqui vemos a pessoa do Messias do SENHOR, o próprio Senhor Jesus Cristo, cuja noiva “rainha adornada de outro finíssimo de Ofir” (v.9), é a Sua Igreja. E o tempo todo concentremos nisso, não percamos de vista em momento algum que este salmo descreve o relacionamento de Cristo com a sua Igreja.

1- A beleza do Noivo, v.1-9

1 De boas palavras transborda o meu coração. Ao Rei consagro o que compus; a minha língua é como a pena de habilidoso escritor”.

2 Tu és o mais formoso dos filhos dos homens; nos teus lábios se extravasou a graça; por isso, Deus te abençoou para sempre”.

                   O coração do salmista fervilhava de “boas palavras”, e ele não podia se conter quanto ao que ele tinha a dizer ao Rei (note que a palavra “Rei” está grafada em maiúsculo). Falando aqui ao Supremo Rei, ele sentia o seu coração pulsar forte e emocionado, tocado pela beleza e do Rei. O seu coração alimentava os seus lábios dos quais transbordavam louvores ao Rei.

                   Mas, por que seu coração e boca estavam cheios de louvores ao Rei? Porque dos lábios do Rei transbordou a graça, a qual impactou o salmista e o fez transbordar em louvores ao Rei. Dos lábios de Cristo a graça brotou e extravasou. Esta graça é o que move o nosso coração a louvá-Lo.

                   Deus abençoou, aprovou e glorificou a Cristo diante do universo para sempre (cf. Fp 2.5-11) porque a beleza do caráter de Cristo era o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do Seu ser (cf. Hb 1.1-4).

Aplicação v.1-2 Um coração cheio de louvores a Jesus fará os lábios transbordarem desse louvor. O coração e a boca do servo de Deus estão em perfeita sincronia, afinal “A boca fala do que está cheio o coração” (Lc 6.45). Não temos em nós nada que não tenha vindo de Cristo antes. Cristo é o único que é digno de todo louvor do universo. Tudo e todos devem louvá-Lo e renderem-se aos Seus pés. Sua Graça veio até nós e nos alcançou, e a única resposta que podemos Lhe dar é um louvor sincero e entusiasmado.

3 Cinge a espada no teu flanco, herói; cinge a tua glória e a tua majestade!”

4 E nessa majestade cavalga prosperamente, pela causa da verdade e da justiça; e a tua destra te ensinará proezas”.

5 As tuas setas são agudas, penetram o coração dos inimigos do Rei; os povos caem submissos a ti”.

                   Nestes versos o salmista descreve o Rei como um valente vitorioso, um herói de guerra que com sua espada vence os adversários e lhes acerta os corações com flechas fatais, trazendo paz ao reino. Cingir-se quer dizer “estar bem firmado”. O poder (espada), a glória e a majestade de Cristo estão firmados para sempre e nada e nem ninguém pode mudar sequer um milímetro do Seu domínio que é estabelecido na verdade e na justiça. E nessa majestade ele “cavalga prosperamente, pela causa da verdade e da justiça”. Cristo como um herói vitorioso e majestoso desfilando nas virtudes da verdade e da justiça[3], suplanta aos adversários (Cl 2.13-15) tendo como armas a Sua espada (a Palavra, Ef 6.17), a verdade e a justiça. E um dia, como um guerreiro regressa vitorioso da batalha, Ele voltará triunfando com a verdade e justiça sobre todo o mal e subjugando a todos aqueles que se opuseram a Ele. Com suas flechas certeiras e agudas Ele abate os inimigos encravando-as em seus corações, e não há quem resista ao Seu poder.

                   De certa forma todos os que enfrentam a Cristo serão mortos: os ímpios, por causa de sua impiedade serão abatidos, e os eleitos também serão abatidos, pois, estes têm que morrer para si mesmos para viverem por Cristo. A arma que Cristo usa é a Espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus a qual penetra no mais profundo do coração humano (Hb 4.12). Aqueles que são para salvação a Palavra produz arrependimento e conversão; aqueles que são para perdição, a Palavra os subjuga. De uma forma ou de outra a Palavra de Deus cumprirá os seu propósito. Jesus está lutando pela causa da verdade e da justiça. A Ele o Pai deu as nações por herança (Sl 2.8-9), e Ele cumprirá essa promessa.

Aplicação v.3-5 Cristo é majestoso. Quem há que possa detê-Lo? Quem há que possa impedi-Lo de triunfar? Essa verdade deve estar em nosso coração especialmente quando virmos os inimigos se levantarem contra nós e querendo nos impedir de adorar e servir a Jesus. Nestes tempos em que a verdade tem sido relativizada e a justiça distorcida, é importante lembrarmos e crermos que ninguém deterá a verdade e a justiça de Cristo.

6 O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; cetro de equidade é o cetro do teu reino”.

7 Amas a justiça e odeias a iniquidade; por isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria, como a nenhum dos teus companheiros”.

8 Todas as tuas vestes recendem a mirra, aloés e cássia; de palácios de marfim ressoam instrumentos de cordas que te alegram”.

9 Filhas de reis se encontram entre as tuas damas de honra; à tua direita está a rainha adornada de ouro finíssimo de Ofir”.

                   Como vimos, ainda que este salmo descreva um casamento real (ou de Davi ou de Salomão), fica claro que o salmista estava olhando além, para Deus[4]. Por isso mesmo este verso deve ser entendido à luz de Hb1.8-9. E Por isso mesmo ele enaltece a Deus dizendo que o Seu trono, isto é, o Seu reinado “é para todo o sempre”, e a justiça e a retidão são os Seus métodos de governo (v.6), através dos quais Ele removerá todo o mal.

                   O v.7b mostram a glória do Rei. A referência ao óleo aqui não é ao óleo da unção como Rei, mas, como o convidado de honra no banquete de casamento. É o “óleo de alegria” que representa o regozijo eterno do Noivo e da Noiva (Is 61.3)[5].

                   O v.8-9 descrevem o cortejo nupcial israelita nos tempos antigos. O Noivo saía de sua casa preparada para receber sua noiva. Ao som de instrumentos musicais e de seus amigos, ele saía de sua casa e ia até a casa da noiva e a trazia para sua casa. A noiva estando na companhia de suas damas de honra, toda adornada e aparamentada para o casamento recebia o Noivo o qual estendia sobre ela um manto de linho mostrando assim que daquele momento em diante estaria sob os cuidados do Noivo. Ela então vinha segurando sua mão direita, e os dois, entre gritos de alegria e músicas diante dos olhos de toda a sociedade consumavam o casamento.

Aplicação v.6-9 Os soldados repartiram as vestes de Cristo e o Seu corpo ficou coberto com Seu próprio sangue. Mas, quanta diferença do Seu estado hoje! Ele está revestido da mais alta glória e majestade. Os céus são o que são por causa Dele. Se neste mundo Ele andou sem ter onde reclinar a cabeça (Mt 8.20). Hoje o Seu Palácio é o Céu de Glória que supera infinitamente a quaisquer dos palácios mais suntuosos, pois, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Co 2.9). E de lá Ele virá um dia para buscar a Sua Noiva, a Igreja, a qual está hoje revestida com Seu sangue poderoso, mais precioso que todo o ouro do mundo.

                   Vejamos agora,

2- A beleza da Noiva, v.10-17

 10 Ouve, filha; vê, dá atenção; esquece o teu povo e a casa de teu pai”.

11 Então, o Rei cobiçará a tua formosura; pois ele é o teu senhor; inclina-te perante ele”.

12 A ti virá a filha de Tiro trazendo donativos; os mais ricos do povo te pedirão favores”.

13 Toda formosura é a filha do Rei no interior do palácio; a sua vestidura é recamada de ouro”.

14 Em roupagens bordadas conduzem-na perante o Rei; as virgens, suas companheiras que a seguem, serão trazidas à tua presença”.

15 Serão dirigidas com alegria e regozijo; entrarão no palácio do Rei”.

16 Em vez de teus pais, serão teus filhos, os quais farás príncipes por toda a terra”.

17 O teu nome, eu o farei celebrado de geração a geração, e, assim, os povos te louvarão para todo o sempre”.

                   É importante que, enquanto meditarmos nestes versos tenhamos em mente Ef 5.22-33, especialmente os v.25-27 que dizem: “maridos, amai a vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, sem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito”, e isso para mostrar-nos que a Igreja é bela e é o que é por causa de Cristo somente. É a beleza do Noivo que faz a Noiva ser bela.

                   O relacionamento de Cristo com a Igreja é descrito nas figuras do Noivo e Noiva, Esposo e Esposa, Cabeça e Corpo, e aqui neste salmo (e somente aqui) é descrito como Rei e Rainha. Isso é muito significativo.

                   O v.10, ainda que primeiramente possa ser aplicado a Salomão quando casou-se com a filha do Faraó do Egito (1Rs 3.1), não devemos nos prender a isso, mas, olharmos o significado desse verso aplicado ao relacionamento de Cristo com a Igreja. À Igreja é dito o mesmo que foi dito à filha do Faraó: “Esqueça do Egito! Agora você tem uma pátria muito superior”. A nós as Escrituras o tempo todo exortam mostrando que devemos deixar o mundo, não nos iludirmos com os encantos deste mundo pelo fato de que a nossa Pátria Celestial, a Nova Jerusalém da qual somos filhos (cf. Gl 4.26) é incomparavelmente melhor. E não só isso, mas, nenhum amor neste mundo é mais puro, mais forte e mais real que o amor que o Noivo Jesus Cristo tem por nós Sua Noiva; e este amor inspira-nos a reverenciá-Lo e diante Dele nos inclinamos (v.11).

                   Hoje a Igreja de Cristo sofre ataques das nações pagãs, é perseguida, é ridicularizada, é injustiçada, mas, chegará o dia em que as nações reconhecerão na Igreja a glória de Cristo (v.12). No dia do Juízo Final, quando a Igreja será recolhida à vista de todos, e ali ao lado de Cristo presenciaremos a Sua justiça sendo executada sobre aqueles que perseguiram a Igreja.

                   Os v.13-15 devem ser entendidos da seguinte forma[6]: toda a beleza da Rainha (Igreja), toda sua formosura, toda a sua exuberância não é para ser exibida ao mundo, mas, “no interior do palácio (…) perante o Rei”. Quando vejo pregadores falando que a igreja tem de ser simpática e atraente para que os perdidos pecadores olhem para ela e queiram nela entrar, e comparo com uma passagem como a deste salmo, vejo o quão distantes da verdade tais pessoas estão, e o quanto a visão dessas pessoas do que é ser igreja é distorcida. Toda a obra que Cristo realizou e realiza na Igreja para deixa-la linda e formosa, santa e sem defeito é para o Seu deleite próprio e não para chamar a atenção do mundo (cf. Ef 5.22-33). Comentando estes versos Calvino diz[7]:

     Se em nossos dias a Igreja não é tão ricamente adornada com aquela beleza espiritual na qual a glória de Cristo resplandece, a culpa deve ser imputada à ingratidão dos homens que, ou por sua própria indiferença desprezam a benevolência divina, ou, depois de se terem sido enriquecido por ele, novamente se acomodam num estado de pobreza e carência.

                   Os v.16-17 encerram este salmo nos mostrando o final da cerimônia deste casamento[8]. Enquanto os dois deixam o recinto da festa e se recolhem em seus aposentos nupciais, o salmista profere uma bênção sobre eles, mas especialmente sobre o Rei. Podemos parafrasear as palavras destes versos da seguinte forma: “Que os teus descendentes sejam tão honrados e poderosos quanto teus antepassados; que sejam príncipes governando por toda a terra e assim honrem o teu nome. Que tu reines para todo sempre e o seu nome nunca seja esquecido, e que todos os povos te louvem por todo o sempre”. Aplicarmos essas palavras a um casamento qualquer seria um exagero, mas, quando aplicadas a Cristo e a Sua Igreja tais palavras não são suficientes para descreverem toda a glória que envolve Cristo e a Igreja. Assim é a Igreja de Cristo. A ela (a nós) foi prometida a vitória e uma vida eterna que jamais terá fim. Foi-nos prometido que como Igreja de Cristo desfrutaremos das riquezas da Sua glória para todo o sempre.

Aplicação v.10-17 A Igreja é linda, é bela, é santa e formosa não por conta de coisas que nós fazemos, mas, somente por causa do que Cristo fez e faz por ela e nela para o Seu próprio deleite. Quando você estiver procurando um motivo para continuar na Igreja de Cristo lembre-se de que a Igreja existe para o deleite de Cristo. Fomos constituídos em Igreja de Cristo para que Ele se deleitasse ao contemplar o “fruto penoso do trabalho de sua alma e ficará satisfeito” (Is 53.11). Não temos sequer o direito de pensar que somos nós que fazemos a Igreja ser bela. Não temos o direito de roubar a glória que é só de Cristo. Foi Ele quem morreu pela Igreja para que esta sendo lavada e regenerada pelo Seu poderoso sangue seja um dia apresentada a Ele quando vier busca-la para viver eternamente com Ele nos Palácios da Glória Eterna. É a beleza de Cristo que torna a Igreja linda. É a beleza da glória de Cristo que faz com que a união Dele com a Igreja seja o casamento mais belo de todos os tempos.

Conclusão
                   A beleza de Cristo revela o Seu caráter cheio de graça que enche de graça o coração de cada membro da Sua Igreja. Em Cristo a verdade e a justiça são executadas pelos golpes da sua espada, que é a Sua Palavra, e por isso Seu reinado é eterno. A beleza da Igreja é um reflexo da beleza de Cristo; ela não tem beleza própria e por si mesma, mas, depende de Cristo que nela tem todo o Seu prazer. Diante de tudo isso a pergunta que deve ficar para a nossa meditação é: que direito temos nós de macular a Noiva de Cristo vivendo uma vida sem compromisso com Sua glória? Todas as nossas ações particulares afetam em cheio a vida da Igreja. Amar a Igreja de Cristo é amar o próprio Cristo; desprezá-la é desprezá-Lo também.

Oração

“Santo Deus, que nos escolheu do mundo caído e depravado para constituir-nos reino e sacerdotes para o louvor da Tua glória, pedimos-Lhe perdão por não tratarmos Tua Igreja como ela deve ser tratada, por não termos nela o mesmo deleite que o Teu Filho Jesus Cristo tem. Ensina-nos, repreenda-nos, corrija-nos e eduque-nos na justiça para que amemos Tua Igreja e tenhamos nela o mesmo prazer que o Senhor tem. Assim oramos em nome de Jesus Cristo, o Noivo dessa Noiva, o que é digno de todo o louvor e adoração. Amém!”.

[1] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.173; CALVINO, 1999, vol.2, p.304; BRUCE, 2009, p.806.

[2] Cf. HENRY, 2010, p.365.

[3] Cf. CALVINO, 1999, vol.2, p.308.

[4] Muitos traduzem o v.6 assim: “O teu trono é de Deus…”, o que demonstra que negam a divindade do Messias. Tal tradução não encontra respaldo exegético algum (cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.175, e CALVINO, 1999, vol.2, p.309).

[5] WIERSBE, 2010, vol.3, p.175.

[6] Cf. CALVINO, 1999, vol.2, p.323.

[7] Ibid, p.324.

[8] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p. 175.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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