Canções da Alma – 47ª Mensagem

Oração

“Soberano, Eterno e Todo-Poderoso Deus, que habitas os céus de glória, cuja majestade enche o céu e a terra e não há nada que escape ao Teu olhar perscrutador, nem mesmo as intenções mais secretas dos corações. Coloco-me diante de Ti suplicando a Tua graça para transmitir a estes corações o Teu querer tal como revelado nas Escrituras. Admito minhas limitações, mas, confio nas Tuas perfeições ilimitadas. Em Nome de Jesus, Teu santo Filho, amém!”.

 

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

O SENHOR dos Exércitos Está Conosco

Sl 46

 

Introdução                                                                  

                  Dizem que este salmo inspirou Lutero a escrever seu magnífico hino “Castelo Forte é nosso Deus” em 1521. Quando foi convocado para comparecer em Worms para dar explicações sobre seus ensinos, dizem que ele ao avistar as torres da capela de Worms cantou este hino. Seu coração devia estar atribulado, mas, ele refugiava-se em Deus, seu Castelo Forte.

                    Este salmo toca num assunto que já vimos nos Sl 3,4,13,20,27 entre outros, a saber, como Deus age em nossa vida quando estamos passando por tribulações. Por isso quero propor o seguinte tema para a exposição deste salmo, tema este que se encontra no v.7 e 11: “O SENHOR dos Exércitos Está Conosco”.

Contextualização

                  Os filhos de Corá, a quem é creditada a autoria deste salmo, provavelmente o receberam e o colocaram no Saltério e deveria ser cantado “Em voz de soprano” (עַלְמָה), literalmente “moças”, o que não temos como determinar com precisão o que quer dizer. Outra questão diz respeito à sua autoria e a ocasião em que o mesmo foi escrito não são um dado preciso[1]. Creio que acertam aqueles que contextualizam este salmo nos dias do rei Ezequias, rei de Judá, quando várias das cidades fortificadas de Judá foram destruídas pelos exércitos de Senaqueribe da Assíria (2Rs 18.13) e este veio sitiar também Jerusalém (2Rs 18.17). Mas, na noite que antecederia ao ataque de Senaqueribe, “saiu o Anjo do SENHOR e feriu, no arraial dos assírios, cento e oitenta e cinco mil; e, quando se levantaram os restantes pela manhã, eis que todos estes eram cadáveres” (2Rs 19.35).

                  Este salmo vem nos mostrar verdades preciosas sobre a pessoa de Deus, as quais nos encorajam especialmente em tempos de tribulação e angústia.

1- Deus é a nossa força, v.1-3

1 Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações.

2 Portanto, não temeremos ainda que a terra se transtorne e os montes se abalem no seio dos mares;

3 ainda que as águas tumultuem e espumejem e na sua fúria os montes se estremeçam.

 

                   O salmista declara que Deus o nosso “refúgio” e usa essa palavra novamente nos v.7 e 11. Ele é o nosso abrigo, a nossa proteção, a nossa fortaleza que nos preserva dos inimigos. Contudo, devemos entender que Ele não nos mima quando nos protege. Seu objetivo em abrigar-nos sob o Seu poder é para nos capacitar e fortalecer para que voltemos à vida com suas responsabilidades e perigos que devem ser enfrentados[2].

                   A história de Israel sempre nos mostra que de tempos em tempos os israelitas eram tentados a buscar no Egito a ajuda para enfrentarem os inimigos. Mas, Deus sempre os repreendeu e os disciplinou por isso. Em vez de buscarem ajuda em outros lugares, eles deveriam saber que Deus é “socorro bem presente nas tribulações”. Como nos mostramos tolos quando trocamos o cuidado sempre presente de Deus pelos nossos próprios recursos!

                   Quando Ezequias ouviu as palavras ameaçadoras dos assírios, o profeta Isaías disse ao rei Ezequias: “Assim diz o SENHOR: Não temas por causa das palavras que ouviste, com as quais os servos do rei da Assíria blasfemaram de mim” (2Rs 19.6). Por isso o salmista pondo sua confiança em Deus disse: “Portanto, não temeremos” ainda que tudo ao redor se mostrasse uma terrível catástrofe com terremotos, montes se arremessando no seio dos mares causando maremotos (v.2,3). As “águas” no v.3 representam a fúria das nações inimigas contra o povo de Deus. Para enfrentarem inimigos tão violentos e determinados em destruir tudo, o povo de Deus precisava de força, mas, não de uma força qualquer – precisavam da Força suprema do universo, a Força do SENHOR dos Exércitos.  

Aplicação v.1-3 O tratar de Deus conosco, o Seu zelo em nos proteger não é para que fiquemos isolados e alheios do mundo, mas, sim, preparar-nos e fortalecer-nos para viver de forma que O honremos no mundo. No meio das suas tribulações não ceda à tentação de buscar outros recursos além da força que Deus lhe dá. Você não precisará de nenhuma outra. Ele Se faz “bem presente nas tribulações”, isto é, as circunstâncias da vida podem não ser nada favoráveis a nós, mas, Deus jamais deixará de nos dispensar Seu favor porque este está totalmente atrelado à Sua Aliança eterna.

2- Deus é a nossa alegria, v.4-7

 4 Há um rio, cujas correntes alegram a cidade de Deus, o santuário das moradas do Altíssimo.

 5 Deus está no meio dela; jamais será abalada; Deus a ajudará desde antemanhã.

 6 Bramam nações, reinos se abalam; ele faz ouvir a sua voz, e a terra se dissolve.

                   7 O SENHOR dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio.

                   Para entendermos o que o salmista quis dizer com este “rio, cujas correntes alegram a cidade de Deus”, precisamos olhar para a história do rei Ezequias novamente. A cidade de Jerusalém era uma das poucas cidades na antiguidade que não foram edificadas às margens de rios, o que exigiu que algo fosse feito para o suprimento de água. Foi então que Ezequias construiu um sistema subterrâneo de abastecimento que ligava os mananciais de Giom, no Vale do Cedrom, ao Tanque de Siloé (aquele mesmo no qual o Senhor Jesus curou o cego em Jo 9), que fica dentro da cidade (2Rs 20.20; 2Cr 32.30). Possivelmente, olhando para aquele aqueduto, o salmista sabia que de um rio tranquilo vinham aquelas águas vitais para a cidade. Mas, muito mais importante que aquelas águas era a presença de Deus alegrando o coração do Seu povo.

                   Era a presença de Deus que não permitiria que a Sua cidade fosse abalada (v.5), desde o romper da aurora, antes mesmo que o dia revelasse suas ameaças, lá estava o SENHOR Deus sustentando o Seus filhos. As palavras “Deus a ajudará desde antemanhã”, ou seja, desde a madrugada, nos reporta ao grande livramento que Deus realizou através do Seu Anjo que, de noite passou por entre o arraial dos assírios e feriu mortalmente cento e oitenta e cinco mil soldados (2Rs 19.35-37). “Se desejarmos ser protegidos pela mão divina, então devemos preocupar-nos acima de tudo que Deus habite em nosso meio; pois toda esperança de segurança depende unicamente de Sua presença”[3].

                   As nações podem se enfurecer e se agitarem contra o povo de Deus tal como um mar tempestuoso assola um navio, mas é a voz de Deus que silencia o barulho das nações. A Igreja de Cristo nunca existiu sem a presença de inimigos. O povo de Deus sempre foi e será atacado pelas nações, ora com suas leis iníquas, ora com suas religiões falsas, ora com suas filosofias. Em tudo isso a Igreja tem de permanecer firme, porque “O SENHOR dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio” (v.7). É para Ele que recorreremos quando os inimigos se levantarem contra nós, pois, Ele, somente com a Sua potente voz fará todos se calarem.

                   Os dois nomes pelos quais o salmista chama a Deus merecem nossa atenção aqui. Quando ele diz “SENHOR dos Exércitos” está se referindo ao exército celestial que sempre foi utilizado por Deus a favor do Seu povo (cf. Hb 1.14) tal como contra o exército dos assírios; enquanto isso, o nome “Deus de Jacó” nos remete para a Aliança que Deus estabelecera com Abraão e sua descendência. “Para que a nossa fé repouse verdadeira e firmemente em Deus, devemos levar em consideração, ao mesmo tempo, estas duas partes do Seu caráter – seu imensurável poder, pelo qual Ele pode manter o mundo inteiro sob Seus pés; e Seu amor paternal, o qual manifestou em Sua Palavra”[4].

Aplicação v.4-7 A alegria do povo de Deus não está nos seus próprios recursos, mas, no próprio Deus. É a presença de Deus em nossa vida que nos traz a alegria verdadeira. Em todas as circunstâncias podemos em seu rio de alegria encontrar a paz e as forças de que precisamos. Deus nos elegeu para sermos o Seu povo particular para que em nós fosse revelado o Seu poder nos preservando e nos defendendo. Confiemos Nele, pois, Dele vem a nossa plena alegria em meio às mais terríveis ameaças.

3- Deus é a nossa glória, v.8-11

8 Vinde, contemplai as obras do SENHOR, que assolações efetuou na terra.

9 Ele põe termo à guerra até aos confins do mundo, quebra o arco e despedaça a lança; queima os carros no fogo.

10 Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus; sou exaltado entre as nações, sou exaltado na terra.

11 O SENHOR dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio.

                   Os versos finais deste salmo também nos remetem novamente a 2Rs 19.35-37. Quando amanheceu os israelitas viram “as obras do SENHOR, que assolações efetuou na terra” (v.8). Ele pôs “termo à guerra”, quebrando, despedaçando e queimando todo o equipamento bélico dos inimigos. Não havia ocorrido batalha alguma, mas, o Anjo do SENHOR deixou para trás de si um rastro de morte, enquanto o Seu povo estava seguro e protegido em Suas mãos.

                   O v.10 traz uma dificuldade de interpretação. Enquanto uns afirmam que essas palavras dizem respeito aos inimigos que deveriam se aquietar diante de Deus[5], e, por isso mesmo, coloca essas palavras como que o próprio Deus as dizendo, outros entendem-nas como em referência ao povo de Deus que deveria se aquietar (descansar, não agir) enquanto testemunhasse o agir sobrenatural de Deus[6]. Admito que as duas interpretações são plausíveis. Se crermos que essas palavras se referem aos inimigos que bramavam como um mar furioso contra o povo de Deus, então, destaca-se a Sua soberania sobre tais nações; se as entendermos em referência ao povo de Deus, então veremos a ordem que Ele nos dá para nos aquietarmos confiantes em Seu agir tal como Israel naquela noite em que o Anjo do SENHOR matou centenas de milhares dos assírios.

                   De tudo isso o que se depreende é que “O SENHOR dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio” (v.11). Assim como no passado Deus tratou o Seu povo, também hoje trata a Sua Igreja permitindo que a mesma se encontre sempre em apuros e apertos para que a sua fé cresça e Ele seja glorificado.

                   Deus é a nossa glória! Não são os nossos recursos, nossa habilidade ou inteligência que nos garantem a vitória, e nem mesmo devem ser a nossa honra, pois, a nossa honra está em Deus agir por nós, em mostrar aos nossos inimigos que quando alguém toca em nós e nos fere está atacando a honra do próprio Deus. Os ímpios gloriam-se dos seus feitos esquecendo-se que até a força para realizarem tais feitos veio de Deus; mas, o povo de Deus não rouba para si a glória de Deus, antes, credita-a totalmente a Ele, e em glorifica-Lo está a razão de sua alegria e força. Lembremo-nos de Is 2.11: “Os olhos altivos dos homens serão abatidos, e a sua altivez será humilhada; só o SENHOR será exaltado naquele dia”.

Aplicação v.8-11 Há um momento certo para obedecermos a Deus e agirmos, mas, enquanto este momento não chega devemos nos aquietar, recolhermo-nos confiantes no poder de Deus e na Sua sabedoria. Veremos maravilhas acontecerem em nossa vida somente se nos aquietarmos na presença de Deus contemplando o Seu poder e agir. Se nos dedicarmos a crer nas promessas de Deus e confiarmos totalmente no Seu poder estaremos ocupados demais para interferirmos nas circunstâncias e sobrecarregar-nos com preocupações!

Conclusão

                   Quando as tribulações cercarem você tal como um mar revolto, lembre-se:

  • Deus está bem presente. A presença de Deus não é algo imperceptível, mas, bem real, fortalecendo o seu coração enquanto o protege das investidas dos inimigos, e preparando-o para enfrenta-los na hora certa.
  • Há um rio de alegria que vem de Deus. Basta apenas um rio vindo de Deus para aplacar a fúria dos mares dos inimigos.
  • A glória de Deus é revelada em nossa fraqueza (2Co 12.9-10). Deus nos convida a aquietarmos em Sua presença esperando confiantes em Seu agir; mas, aos inimigos Ele não faz nenhum convite, tão somente ordena-lhes que se calem em Sua presença. Nossa glória está em Deus, em sermos tratados como Seus filhos e não como o restante das nações.

Oração

“Ó Santo Deus, obrigado por nos fortalecer, nos alegrar e nos fazer plenos em Sua glória. Obrigado por nos tratar como filhos com quem o Senhor tem um pacto eterno e inquebrável. Ensine-nos sempre a dependermos de Ti e jamais agirmos como os gentios que confiam em si mesmos e em seus parcos recursos. Que de Ti nunca nos apartemos. Para honra e glória do Teu santo Nome, em Cristo Jesus oramos, amém!”.

[1] Allan Harman não afirma quem foi seu autor, mas, o contextualiza nos dias da vitória de Josafá contra os amonitas e moabitas, 2Cr 20 (Cf. HARMAN, 2011, p.203). Matthew Henry o vê como resultado de uma das vitórias de Davi sobre as nações vizinhas tal como a que está registra em 2Sm 8, (Cf. HENRY, 2010 vol.3, p.370). F.F. Bruce concorda com Harman quanto a ocasião, mas afirma que foi Ezequias quem o compôs na ocasião em que Deus livrara Judá das mãos de Senaqueribe da Assíria, em 2Rs 19 (cf. BRUCE, 2009, p.807), com o que concordam João Calvino (CALVINO, 1999, vol.2, p.327) e Warren Wiersbe (Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.176).

[2] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p. 176.

[3] CALVINO, 1999, vol.2, p.333.

[4] Ibid, p.335.

[5] Cf. HARMAN, 2011, p.204; CALVINO, 1999, vol.2, p.338.

[6] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.177

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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