Canções da Alma – 48ª Mensagem

Oração

“Santo e Eterno Deus, conduza-nos pela Tua Palavra. Dá-nos o alimento que dela provém que nos sustentará a fé. Não permita que o nosso coração se desvie com pensamentos sem importância neste momento, e mesmo depois, que dela não nos esquecermos. Assim oramos, em nome de Jesus, amém!”.

 

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

O Reinado Absoluto de Cristo

Sl 47

 

Introdução                                                                  

                   Abraham Kuyper declarou: “Não há um único centímetro quadrado, em todos os domínios de nossa existência, sobre os quais Cristo, que é Soberano sobre tudo, não clame: ‘É meu!’”. E este salmo vem nos mostrar justamente isso. Hoje Cristo reina sobre todo o universo. Porém, o Seu Reinado Futuro que haverá de se manifestar no Dia da Sua volta, fará com que todos reconheçam e confessem a Cristo como Rei Absoluto que é. Neste dia, até os que hoje não O reconhecem como Soberano se dobrarão diante Dele.

 

Contextualização

                  Ao que tudo indica, o contexto deste salmo é exatamente o mesmo do Sl 46, a saber, quando Senaqueribe da Assíria sofreu uma derrota sobrenatural perdendo 185.000 soldados na véspera da invasão planejada à cidade de Jerusalém (cf. 2Rs 19.35-37). As palavras do Sl 46.10 “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus; sou exaltado entre as nações, sou exaltado na terra”, cumprem-se aqui neste salmo, e por esta razão, o salmista ordena cinco vezes ao povo que louve ao “Deus que reina sobre as nações” (v.8) e que cumpre nelas os Seus desígnios; este mesmo Deus a quem Senaqueribe insultou e comparou a outros deuses pagãos (2Rs 19.10-13), dera ao Seu povo a vitória sem igual e subjugou todos os inimigos do Seu povo.

                  Esta foi a ocasião que inspirou o salmista. Porém, o Espírito Santo de Deus conduziu o salmista para algo mais profundo. Este salmo é interpretado por alguns como uma referência ao reinado futuro de Cristo[1], com o que particularmente concordo. Por isso proponho o seguinte tema para nossa meditação neste salmo: O Reinado Absoluto de Cristo.

                  E Cristo é apresentado aqui como

1) O Rei Conquistador, v.1-4

                    1 Batei palmas, todos os povos; celebrai a Deus com vozes de júbilo.

                   2 Pois o SENHOR Altíssimo é tremendo, é o grande rei de toda a terra.

                   3 Ele nos submeteu os povos e pôs sob os nossos pés as nações.

                   4 Escolheu-nos a nossa herança, a glória de Jacó, a quem ele ama.

                        

                   Passamos do “Aquietai-vos” para o “Batei palmas… celebrai”. Há tempo para todas as coisas (cf. Ec 3.1); se há tempo para nos aquietarmos e vermos o que Deus está fazendo, há também tempo de louva-Lo com todo o nosso coração pelo o que Ele fez. Os v.1-2 nos mostram as seguintes verdades:

  • Todas as nações devem adoram a Deus por que Ele é “o grande rei de todo a terra”;
  • O nosso louvor a Deus tem de ser algo visível e cheio de entusiasmo. Bater palmas e cantar com vozes jubilosas indicam que o nosso louvor a Deus tem de ser algo visto pelas pessoas. Podemos louvar a Deus no recôndito do nosso coração (e devemos), mas, não podemos deixar de expressar Seus poderosos feitos perante o mundo, pois Ele “é tremendo”.

                   O v.3 aponta para um aspecto do reinado futuro de Cristo. Assim como Deus submeteu as nações ao Seu povo não só aqui no episódio com Senaqueribe, mas, como em tantas situações desde o Êxodo e depois sobre as nações de Canaã, um dia Cristo venceu e subjugou todos os inimigos lá na cruz conforme lemos em Cl 2.15: e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz”.

                   O v.4 nos fala do cuidado de Cristo com Seu povo. Ele escolheu para nós nossa herança[2]. O que o salmista chama de “a glória de Jacó”, é o ato de Deus em Cristo eleger para Si um povo. Ele não só escolheu para Si um povo para ser chamado de Seu, mas, também dá a este povo aquilo que há de mais importante neste mundo: o Seu amor pactual. Não existe glória maior que essa para pecadores como nós.

Aplicação v.1-4 A vitória de Cristo sobre os inimigos lá na cruz foi completa. O que parecia ter sido a derrota de Cristo foi justamente a Sua vitória, a qual, no Seu Grande e Terrível Dia haverá de se manifestar plenamente, e todos se renderão a Ele. De Suas santas mãos Seu povo recebe tudo quanto necessita para viver de forma a honrá-Lo, e a glorificá-Lo diante das nações. Ele nos ama, e nada pode alterar Seu amor nem para mais nem para menos a nosso favor, pois Ele nos ama completamente, e por nos amar assim, também Seu amor é constante e permanente. Que não reste dúvida em nosso coração que Cristo trata a nós Seu povo de forma especial e que no Seu amor encontremos toda a razão para louvá-Lo como Rei Conquistador, que não somente conquistou as nações subjugando-as, mas, também a nós Seu povo com Seu amor eterno (cf. Jr 31.3).

                   Cristo também é

2) O Rei Triunfante, v.5

                    5 Subiu Deus por entre aclamações, o SENHOR, ao som de trombeta.

                  

                   Este verso narra o triunfo de um rei voltando vencedor após uma guerra. Outros veem aqui Davi trazendo a arca do SENHOR a Jerusalém[3]. Calvino traduz este verso assim: “Deus subiu com triunfo”[4].

                   Cristo domina todo o universo por que Ele é Onipotente. Nos versos anteriores vimos o Seu domínio sobre as nações, e, agora, o salmista nos declara que Ele domina os céus de glória também.

                   Este versículo deve ser entendido à luz do seu correspondente no Novo Testamento[5]. Em Ef 4.9-10 lemos: “Ora, que quer dizer subiu, senão que também havia descido até às regiões inferiores da terra? Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas”. Cristo desceu a este mundo de forma humilde. Viveu, sofreu e morreu entre pecadores. Foi ressuscitado e subiu em glória aos céus (cf. At 1.9), mas, a Sua volta será em glória tal como nunca se viu. E Ele será aclamado por Seu povo e pelas milícias celestiais. Até os ímpios erguerão suas vozes em clamor tal como nunca se ouviu.

Aplicação v.5 Como será glorioso esse dia! Não conseguimos sequer imaginar a grandiosidade de tudo o que acontecerá. Todos os seres humanos, quer os vivos, quer os mortos que ressuscitarem, todos reunidos na presença de Cristo. Nós a Igreja de Cristo seremos recolhidos pelos anjos para nos encontrarmos com Cristo nos ares (cf. 1Ts 4.13-18), e participaremos do julgamento do mundo e dos anjos caídos (1Co 6.2-3). Como será tudo isso? Como será a glória eterna? Fiquemos com o que a Palavra de Deus nos diz: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Co 2.9). Só o que precisamos saber é que participaremos do Seu Reinado Eterno e Glorioso (Ap 5.10; 20.6; 22.5).

                   Por fim, Cristo é

3) O Rei Onipresente, v.6-9

                         6 Salmodiai a Deus, cantai louvores; salmodiai ao nosso Rei, cantai louvores.

                   7 Deus é o Rei de toda a terra; salmodiai com harmonioso cântico.

                   8 Deus reina sobre as nações; Deus se assenta no seu santo trono.

9 Os príncipes dos povos se reúnem, o povo do Deus de Abraão, porque a Deus pertencem os escudos da terra; ele se exaltou gloriosamente.

                   Um dos nomes de Cristo é “Emanuel (que quer dizer: Deus conosco)” (Mt 1.23). Nestes versos finais deste Salmo tal verdade fica evidente. O salmista conclama o povo a salmodiar, ou seja, cantar louvores a Deus (v.6), por que o Seu reinado se estende por toda a terra, e não há um só lugar neste universo em que Ele não esteja presente e atuando soberanamente, Ele “é o Rei de toda a terra” (v.7).

                   Deus não reina somente sobre o Seu povo, “Deus reina sobre as nações” (v.8) e o Seu reinado absoluto sobre todas as nações será notório no Dia da volta de Cristo. Mas, há aqui ainda outra verdade que não podemos esquecer: “Deus se assenta no seu santo trono”. Esta expressão tanto aponta para o domínio de Deus sobre tudo e todos, pois, Seu santo trono está nos céus acima de tudo e todos, bem como para a Sua santidade. Seu trono é santo, ou seja, isento do pecado e da injustiça, portanto, Seu domínio também é justo e todas as Suas obras são expressão da Sua santa vontade.

                   O v.9 toca num ponto muito importante: “os que eram alienados se uniram aos judeus na adoção da mesma fé; e assim diferentes nações, desde a condição de miserável dispersão, foram reunidas num só corpo”[6]. Em Ef 2.11-22, Paulo declara que em Cristo, tanto de entre os judeus quanto de entre os gentios Deus chamou pecadores para recebê-los como Seus filhos “porque, por ele [Jesus], ambos temos acesso ao Pai em um só Espírito” (v.18). E em Ef 3.6 ele novamente afirma: “a saber, que os gentios são coerdeiros, membros do mesmo corpo e coparticipantes  da promessa em Cristo Jesus por meio do Evangelho”. Duas verdades chamam nossa atenção aqui:

  • Todos os que são realmente filhos de Deus devem procurar seu espaço na Igreja de Cristo e unir-se a ela, a fim de manterem comunhão fraternal com todos os santos filhos de Deus;
  • A unidade da Igreja afirmada pelas Escrituras deve ser mantida tão somente pela obediência à Palavra de Deus. Não existe unidade verdadeira sem verdadeira e sincera obediência à Palavra de Deus por parte de todos os membros da Igreja. Enquanto um de nós não prestar total obediência à Palavra de Deus e crer que ela é a nossa única regra de fé e prática, não viveremos em verdadeira união.

                   A expressão “porque a Deus pertencem os escudos da terra” nos mostra a proteção e o cuidado que Deus tem com o mundo. Quando olhamos para a imensidão do cosmos e vemos que bastaria um pequeno meteoro colidir-se com o nosso planeta para que o mesmo fosse totalmente destruído, e que a cada minuto vários desses meteoros circulam ao nosso redor e nada acontece conosco, ou mesmo quando olhamos o nosso cotidiano e sequer reparamos de quantos males Deus nos livrou (o simples fato de não lembrarmos de um livramento específico por si só é prova de que Deus nos livrou e nem tomamos conhecimento) deve trazer ao nosso coração a certeza de Sua presença onipresente cuidando dos mínimos detalhes. Ele é o Deus transcendente, que é o “totalmente outro”, mas, também é o Deus imanente, que Se faz presente na Sua Criação governando com mão poderosa todas as coisas. Por isso o salmista declara: “Ele se exaltou gloriosamente”.

Aplicação v.6-9 Cristo reina. Ele reúne em Seu poder todas as nações, todos os reis; Ele estende o Seu domínio comandando todas as coisas cuidando de todos os seres humanos, especialmente do Seu povo. Ele está presente. Ele não Se descuida do mínimo detalhe de Sua criação. Essa verdade deve trazer ao nosso coração profunda convicção da proteção da parte de Deus para que jamais duvidemos do Seu cuidado e amor por nós. Além dessa convicção também devemos nutrir em nosso coração profunda reverência na presença de Deus justamente por sabermos que não há um momento sequer da nossa existência que não só os nossos atos, mas, todos os nossos pensamentos e intenções estão patentes aos olhos de Deus, e como resultado desta reverência em nosso coração evitarmos todo tipo de pecado e amarmos a Deus obedecendo Sua Palavra.

Conclusão

                   Este salmo nos fala de algo um tanto quanto trivial: Jesus é o Rei Conquistador contra quem nenhum inimigo subsiste, é o Rei Triunfante que adentrou os portais celestiais (cf. Sl 24.7-10) declarando Sua vitória inconteste, e também é o Rei Onipresente cuidando de Sua Criação e especialmente do Seu povo. Mas, não lhe causa estranheza o fato de que esquecemos com tanta facilidade dessas verdades? Quantas vezes tememos os inimigos da cruz de Cristo que querem nos calar, em vez de mostrar-lhes que eles é que têm que temer o nosso Rei? Quantas vezes vivemos lamentando e amargando a derrota em vez de alimentarmos nossa confiança e alegria Naquele que é o Rei que triunfou gloriosamente? Quantas vezes nos deixamos levar por pensamentos pecaminosos de autocomiseração duvidando do cuidado do nosso Rei Onipresente que não nos desampara em momento algum? Oh! Que Deus se apiede de nós e nos perdoe por tamanha iniquidade e mau testemunho.

                   Hoje as pessoas estão vivendo sem se importar com o fato de que Cristo é o Rei. Eles ignoram e até zombam de nós quando falamos da volta do Senhor Jesus. Até mesmo muitos membros de igrejas estão trocando a esperança na glória eterna por glórias deste mundo. Mas, não nos esqueçamos e nem nos calemos diante da verdade de que Cristo voltará e instaurará definitiva e eternamente o Seu reinado. Hoje Ele reina, e está chamando os pecadores a que se rendam ao Seu senhorio. Mas, no Dia da Sua volta, não haverá mais chamada, mas, somente a declaração: “Vinde, benditos de meu Pai” aos Seus filhos, e, “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno” (Mt 25.34,41).

Oração

“Oh, Deus bendito, nosso coração se envergonha diante de Ti quando vemos o quão mesquinhos e incrédulos somos, desobedecendo à Tua Palavra que nos manda não somente confiar, mas, exaltar, salmodiar e cantar louvores a Ti com toda a força de nossa alma, exaltando-O diante do mundo. Pai, confessamos o nosso pecado, e clamamos por Tua misericórdia e perdão. Faze-nos mais crentes, mais tementes a Ti, e mais obedientes à Tua Palavra. Por meio de Jesus Cristo, o Rei Conquistador, Triunfante e Onipresente nós oramos a Ti. Amém!”.

[1] Cf. CALVINO, 1999, vol.2, p.339; HENRY, 2010, vol.3, p.381.

[2] Cf. CALVINO, 1999, vol.2, p.342.

[3] Cf. HENRY, 2010, vol.3, p.374.

[4] CALVINO, 1999, vol.2, p.345.

[5] Ibid, p.345.

[6] CALVINO, 1999, p.348.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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