Canções da Alma – 49ª Mensagem

Oração

“Ó Rei Eterno, Soberano e Justo Deus, que em Cristo Jesus nos fez Teus filhos. Aqui estamos porque necessitamos de Ti, de ouvirmos Tua voz por meio da Tua Palavra. Nosso coração precisa de instrução, de orientação e de discernimento para entender Tua vontade. Que neste momento em que ouviremos Tua Palavra nossa vontade seja conformada à Tua vontade. Pedimos isso pelos méritos de Jesus Cristo, Teu Filho amado, amém!”.

 

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

Aqueles a Quem Deus Escolheu

Sl 48

 

Introdução                                                                  

                   Uma das doutrinas bíblicas mais difíceis de entendermos é a da predestinação. No começo, quando se tem dificuldade para aceita-la, a pergunta que se faz é: “Por que Deus escolheu este e não aquele?”. Com o passar do tempo, depois que aceitamos essa doutrina (ainda que não a entendamos), a pergunta muda: “Por que Deus escolheu a mim?”. E a resposta está no v.9 deste salmo: a misericórdia de Deus. Não há nada em nós que nos faça merecedores de sermos escolhidos por Deus; tão somente Sua misericórdia O moveu a isso.

 

Contextualização

                  O contexto deste salmo, ao que tudo indica é o mesmo dos Sl 46 e 47, a saber, portentoso livramento que Deus deu a Jerusalém nos dias do rei Ezequias quando a cidade foi sitiada pelos exércitos de Senaqueribe da Assíria (cf. 2Rs 18 e 19).

                  A cidade de Jerusalém fora tomada por Davi das mãos dos jebuseus (2Sm 5.6-9; 2Cr 11.4-7), e transformada não só na capital do reino de Israel como também no centro do culto a YAHWEH, para dali espalhar-se por todo o mundo. Alguns séculos depois que este salmo foi escrito, fora de seus muros a nossa salvação se concretizou com a crucificação de Jesus Cristo.

                  A cidade de Jerusalém tornou-se a figura da Glória Eterna como podemos ver em Gl 4.21-31; Hb 12.18-24; Ap 3.12; Ap 21.2,10. A Igreja de Cristo é o Seu povo escolhido. Assim como na Antiga Aliança, também na Nova aliança cabe ao povo de Deus tornar Seu Nome conhecido e adorado no mundo.

                  Este salmo, portanto, vem nos falar sobre a eleição divina, sobre Aqueles a quem Deus escolheu.

                  Aqueles a quem Deus escolheu

1) Estão protegidos por Ele, v.1-8

1 Grande é o SENHOR e mui digno de ser louvado, na cidade do nosso Deus.

2 Seu santo monte, belo e sobranceiro, é a alegria de toda a terra; o monte Sião, para os lados do Norte, a cidade do grande Rei.

3 Nos palácios dela, Deus se faz conhecer como alto refúgio.

4 Por isso, eis que os reis se coligaram e juntos sumiram-se;

5 bastou-lhes vê-lo, e se espantaram, tomaram-se de assombro e fugiram apressados.

6 O terror ali os venceu, e sentiram dores como de parturiente.

7 Com vento oriental destruíste as naus de Társis.

8 Como temos ouvido dizer, assim o vimos na cidade do SENHOR dos Exércitos, na cidade do nosso Deus. Deus a estabelece para sempre.

                   O salmista inicia este salmo com uma nota mui solene e reverente apontando para Deus como a razão de ser e existir do Seu povo. Ele deve ser louvado (v.1). Não foi Davi e o povo que escolheram Jerusalém para ser o centro do culto a Deus, mas, sim, o próprio Deus que ao determinar que a Arca da Aliança repousasse ali. Assim, Davi e o povo entenderam que Deus havia escolhido Sião (Jerusalém) para ser o lugar da sua morada representada na Arca da Aliança.

                   Por essa razão, “Seu santo monte, belo e sobranceiro, é a alegria de toda a terra” (v.2). De fato, o Monte Sião não era o mais alto da cordilheira, mas, a localização da cidade de Jerusalém proporcionava a ela muita segurança, e os inimigos encontravam muita dificuldade em invadi-la. Mas, não era nenhuma dessas vantagens que trazia alegria ao coração do povo, e nem mesmo colocavam nisso a confiança deles, mas, sim no fato de que “Nos palácios dela, Deus se faz conhecer como alto refúgio” (v.3). Não eram as defesas ao redor da cidade que a protegiam, mas, sim, Deus no meio dela.

                   Os v.4-7 descrevem a trama dos inimigos e a vergonhosa derrota que sofreram. Os reis “se coligaram e juntos sumiram-se” (v.4). Além desse episódio da vergonhosa derrota de Senaqueribe da Assíria, houve outras vezes em que reis se levantaram contra o povo de Deus tal como nos dias do rei Acaz (cf. 2Rs 16) quando Rezim, rei da Síria e Peca, filho de Remalias rei de Israel se coligaram e vieram contra Jerusalém. O profeta Isaías chamou-os de “tições fumegantes” (Is 7.4). E assim, eles “sumiram-se” qual uma névoa, uma fumaça, pois, “bastou-lhes vê-lo, e se espantaram, tomaram-se de assombro e fugiram apressados” (v.5). Tomados de profundo terror “sentiram dores como de parturiente” (v.6). Só avistaram o Monte Sião e viram um poder sobrenatural sobre o mesmo, e bateram em retirada. Conta-se que César quando relatava sua vitória fácil sobre o Egito dizia: “Vim, vi, venci”. Aqui neste salmo, os inimigos “vieram, viram e fugiram”. Tal como uma mulher grávida que inesperadamente entra em trabalho de parto com dores excruciantes, eles de súbito viram a situação mudar contra eles.

                   Os navios de Társis eram conhecidos por serem bem construídos e fortes, mas, nem mesmo estes navios puderam resistir às terríveis tempestades orquestradas por Deus. Apenas o vento de Deus é capaz de afundar os exércitos dos inimigos (v.7)! Aos filhos de Deus resta somente contemplarem o que Deus faz em favor deles. O que antes eles ouviram dizer, agora, os seus olhos podem ver que “Deus a [Sua cidade] estabelece para sempre” (v.8).

Aplicação v.1-8 Estamos protegidos por Deus. Inimigo algum pode nos destruir. Podem até nos atacar, trazer-nos certo desconforto e dificuldade, mas, é real a certeza que temos de que nada no mundo físico ou espiritual pode nos destruir e demover-nos da nossa fé em Cristo e da segurança que Nele temos. É Deus quem nos protege; Nele é que devem estar a nossa confiança e esperança. Estamos protegidos por Deus, e todos quantos quiserem nos atacar precisam atentar para o que Cristo disse: 28 Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. 29 Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar” (Jo 10.28-29).

                   Aqueles a quem Deus escolheu

2) São alvos da misericórdia Dele, v.9-11

10 Como o teu nome, ó Deus, assim o teu louvor se estende até aos confins da terra; a tua destra está cheia de justiça.9 Pensamos, ó Deus, na tua misericórdia no meio do teu templo.

11 Alegre-se o monte Sião, exultem as filhas de Judá, por causa dos teus juízos.

                   Quando todas as coisas ao nosso redor vão de mau a pior, quando nos deparamos com a nossa insignificância e pecaminosidade, há somente uma saída: esperar na misericórdia de Deus. O salmista afirma justamente isso no v.9 quando diz: “Pensamos, ó Deus, na tua misericórdia”. Pensar, aqui é o verbo דָּמָה e denota a atitude de alguém que espera em silêncio, ficar mudo, descansando, meditando, e isto traz tranquilidade mental[1]. Por pior que seja a investida dos inimigos, por pior que seja a aflição que o nosso coração possa enfrentar, é a misericórdia de Deus que faz toda a diferença em nossa vida. Nunca devemos nos esquecer da misericórdia de Deus. O meditarmos nela nos dará a tranquilidade mental e espiritual que precisamos. Quem espera em Deus nunca será frustrado! Mas, se em meio às tribulações formos tomados pelo desespero e angústia isto significa que não confiamos em Deus e em Sua misericórdia.

                   A misericórdia de Deus está atrelada ao Seu santo Nome. Meditar em Sua misericórdia é meditar também em Sua grandeza e ter o seu coração tomado por profundo desejo de louvá-Lo. Por isso o salmista, contemplando as obras de Deus reconhece que o louvor a Deus “se estende até aos confins da terra” (v.10). Os pagãos idólatras sempre veem seus ídolos como deuses locais, isto é, cada deus manda num território. Com essas palavras aqui, o salmista está mostrando que Deus é acima de todos os deuses e que o Seu domínio é sobre toda a terra, o que se faz ver através de Sua destra que “está cheia de justiça”. Deus está presente em todo o lugar exercendo Sua justiça. Mas a Sua justiça é vista de forma especial na manutenção e cuidado com Seu povo escolhido. Por esta razão, a nossa resposta não pode ser outra a não ser intenso júbilo “por causa dos teus juízos” (v.11).

Aplicação v.9-11 Assim como partiu de Jerusalém o louvor a Deus para outros povos, da mesma forma deve partir de nós para o mundo o testemunho da misericórdia de Deus. Devemos “pensar” na misericórdia de Deus, isto é, meditarmos nela, encher o nosso coração com a confiança na misericórdia de Deus e saber que Ele jamais nos deixará. Devemos espalhar pelo mundo os louvores a Deus para que muitos outros O conheçam e se rendam a Ele. A melhor e mais eficaz maneira de evangelizar é demonstrando às pessoas como Deus é bom para conosco e que Dele temos recebido infindas bênçãos, principalmente a de termos sido escolhidos por Ele para vivermos para Ele. Confiar na misericórdia de Deus não somente é um grande benefício para nós como também para os outros que estão ao nosso redor.

                   Por fim, aqueles a quem Deus escolheu também:

3) Têm um pacto eterno com Ele, v.12-14

12 Percorrei a Sião, rodeai-a toda, contai-lhe as torres;

13 notai bem os seus baluartes, observai os seus palácios, para narrardes às gerações vindouras

14 que este é Deus, o nosso Deus para todo o sempre; ele será nosso guia até à morte.

 

                   Uma vez salvos, salvos para sempre. E isso porque a nossa salvação é obra de Deus. Ele não nos escolheu ontem para nos desprezar hoje. Uma vez feitos Seus filhos, o seremos para sempre (cf. Jo 1.12). Mas, a segurança que podemos ter de que jamais seremos desamparados e abandonados por Deus e que a salvação que ele nos proporcionou é definitiva e eterna repousa somente no Seu caráter imutável e santo. Nossa segurança é resultado da presença de Deus conosco.

                   Nos v.12-13, o salmista enquanto enaltece a beleza de Jerusalém apontando para o fato de que a mesma está solidamente fortificada, e, que, por isso, os inimigos não a transporiam com facilidade, ele não estava com isso, pretendendo que o povo confiasse nessas coisas. Quando ele ordena as pessoas a que reparassem na grandiosidade das fortificações, nos baluartes e palácios da cidade tinha um objetivo muito mais sublime, a saber, que eles contassem às gerações vindouras “que este é Deus, o nosso Deus para todo o sempre; ele será nosso guia até à morte” (v.14). Não era para a grandiosidade e beleza de Jerusalém que o povo deveria olhar, mas, sim, para a grandiosidade e poder de Deus. Ele é quem sustenta o Seus eleitos e faz isso constante e perpetuamente; Ele é quem mostra a direção que o Seu povo deve seguir.

                   Se Deus for o nosso Deus, Ele o será para sempre, não só durante as diferentes eras do tempo, mas, pela eternidade. Se Ele for o nosso Deus, Ele nos guiará por todos os dias de nossa vida até adentrarmos os portais da Jerusalém celestial. Deus guiará o Seu povo até a morte, através dela, e para além dela porque Ele estabeleceu um pacto eterno, uma aliança eterna com os Seus escolhidos.

Aplicação v.12-14 Olhe para sua vida, veja tudo quanto você tem, repare nas conquistas que você alcançou e em todas as bênçãos que Deus derramou sobre você. Mas, nunca se esqueça de que Deus é quem lhe deu tudo, e que por isso, todo o louvor deve ser rendido a Ele. Além disso, confie somente Nele. É a fidelidade de Deus que sustenta a sua vida, que lhe guia os passos e conduzirá você até às moradas celestiais.

Conclusão

                   Se o povo de Deus no Antigo Testamento tinha grande apreço e apego pela Jerusalém terrena, muito mais razões temos nós para nos apegarmos à Jerusalém Celestial. Se aos olhos dos eleitos na Antiga Aliança Jerusalém era motivo de louvor e alegria, muito mais para nós é a Jerusalém Celestial. Deus nos protegerá, será misericordioso conosco e nos guiará por todos os dias até adentrarmos os portais celestiais. Ele será o nosso Deus desde agora e para sempre!

                   Ele é a glória do Seu povo, e este não vê glória maior que a de pertencer a Ele e de tê-Lo no seu no meio. Que Deus seja a nossa glória, a nossa alegria e a nossa esperança desde agora e para sempre.

Oração

“Santo Deus, obrigado por nos conduzir protegidos e amparados por Tua misericórdia. Obrigado por nos guiar em cada momento nesta vida e por toda a eternidade. Não permita que os nossos olhos percam de vista a Glória Eterna, que o nosso coração se enrede com as coisas deste mundo e deixemos de andar jubilosos em Tua presença. Temos muitas razões para louvá-Lo e assim queremos fazer neste mundo e por todo o sempre. Em Nome de Jesus, Teu Filho oramos, amém!”.

[1] Cf. CALVINO, 1999, vol.2, p.362.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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