Canções da Alma – 4ª Mensagem

Salmo 5

A Oração que Deus Ouve

Contextualização

              Este salmo atribuído a Davi que o compôs para ser entoado acompanhado pelo som de flautas, literalmente, “instrumentos de vento”. Ele é uma oração cantada na qual Davi busca ao Senhor Deus para além de pleitear a sua causa perante os seus adversários, vindique a honra do Seu santo Nome sobre estes iníquos. Como afirma Matthew Henry, todas as partes desse salmo nos dão uma orientação para as nossas orações[1].

              A ocasião precisa em que ele foi escrito não temos como saber. Levando em consideração que Davi em toda a sua vida enfrentou inimigos, podemos dizer que este salmo se encaixa em qualquer desses períodos. O que importa mesmo para nós aqui é que ele expressou sua confiança em Deus e através de sua oração ele exaltou a Deus apontando para vários aspectos do Seu caráter. Ele inicia o salmo clamando pelo socorro Divino e o encerra exaltando o ser de Deus. Dessa forma temos aqui A Oração Que Deus Ouve.

              Mas, como é a oração que Deus ouve? Em sua oração Davi apresenta o Senhor Deus como:

1)     O maior desejo do seu coração, v.1-3

Exposição v.1-3: “Dá ouvidos, SENHOR, às minhas palavras e acode ao meu gemido.  2 Escuta, Rei meu e Deus meu, a minha voz que clama, pois a ti é que imploro.  3 De manhã, SENHOR, ouves a minha voz; de manhã te apresento a minha oração e fico esperando”.

               Leia com atenção a essas palavras e observe o anseio de Davi por Deus. Num tom desesperado em clama a Deus: “Dá ouvidos, SENHOR (…) Escuta Rei meu e Deus meu…”. É importante observar que ele chama a Deus de “SENHOR” (hwhy – YAHWEH) “Aquele que é eterno, auto existente”. Assim, Davi ao olhar para si e ao olhar para Deus, vê Nele tudo aquilo de que a sua alma necessita.

               Ele derrama a sua oração em forma de palavras e gemidos. Isto mostra o fervor em sua alma. Quantas de nossas orações estão totalmente desprovidas desse fervor! Como é lamentável quando oramos mecanicamente, repetindo palavras que estão memorizadas, assemelhando-se mais à uma reza do que a uma oração espontânea!

               Davi dirige-se a Deus num relacionamento íntimo. Ele O chama de “Rei meu e Deus meu”. O soberano de Israel sabia que acima dele está o Rei do universo – o rei tinha um Rei! E Este era o seu Deus (H;Ala/ – Elohí), “seu Senhor, Dono, Amo”.

               Pela manhã ele orava a Deus e ficava esperando a resposta de Deus. A frase: “de manhã te apresento a minha oração” nos reporta ao rito sacrificial do Antigo Testamento quando o sacerdote punha em ordem a lenha sobre o altar, sobre a qual ele colocava o animal sacrificado e depois ateava fogo[2]. A Bíblia diz que o cheiro que subiu aos céus agradava a Deus, uma referência, é claro, à obediência do ofertante que agradava a Deus. Da mesma forma, uma oração devidamente apresentada a Deus onde um coração é posto como um “sacrifício” a Ele, com certeza agradará ao SENHOR Deus. Não é exatamente isso com nos diz o Sl 51.17: “Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantando; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus”?

Aplicação v.1-3: Sua oração deve demonstrar que tudo o que o seu coração mais deseja neste mundo é o próprio Deus. Mais do que as bênçãos do Senhor Deus, é ao Senhor das bênçãos que o seu coração anseia. O coração cujo prazer e satisfação não estão somente em Deus, suas orações não agradam a Deus. Deus será mais honrado quanto mais você se deleitar Nele!

               Davi também apresenta a Deus como:

2)     Aquele que é Santo, v.4-7

Exposição v.4-7: “Pois tu não és Deus que se agrade com a iniquidade, e contigo não subsiste o mal.  5 Os arrogantes não permanecerão à tua vista; aborreces a todos os que praticam a iniquidade.  6 Tu destróis os que proferem mentira; o SENHOR abomina ao sanguinário e ao fraudulento;  7 porém eu, pela riqueza da tua misericórdia, entrarei na tua casa e me prostrarei diante do teu santo templo, no teu temor”.

               Ao dizer: Pois tu não és Deus que se agrade com a iniquidade, e contigo não subsiste o mal”, Davi está mostrando que o caráter santo de Deus repudia a iniquidade e a impossibilidade Dele agradar-Se com tal coisa. A palavra “iniquidade” ([v;r, – réša‘) designa o comportamento negativo de pensamentos, palavras e atos malignos, que são não apenas contrários ao caráter de Deus, mas também hostis à comunidade”[3]. Toda forma de pecado contra Deus e contra as pessoas.

               Por esta causa, “Os arrogantes não permanecerão à tua vista”, pois, estes tais cometem toda sorte de iniquidade e ainda se gabam disso. Eles rejeitam o temor do SENHOR Deus e nutrem em seus corações os desejos mais sórdidos e repulsivos aos olhos de Deus. Davi continua: “aborreces a todos os que praticam a iniquidade”. O verbo “aborrecer” (anf – Sänä) cuja tradução exata é “odiar” nos mostra o ódio que Deus tem não só em relação ao pecado, mas, também ao pecador. Por isso mesmo Ele destrói os mentirosos, e abomina, condena e repele de Sua presença o sanguinário e o fraudulento. Dessa feita, os v.5-6 (juntamente com outros textos) desmentem a afirmação tão corriqueira no evangelismo moderno, a saber, “Deus odeia o pecado, mas, ama o pecador”. É fato que Deus nos amou, e dispensa o Seu amor aos pecadores, mas, somente para com os eleitos que arrependidos e tomados por um profundo senso de pecaminosidade e culpa correm para Ele clamando por Sua misericórdia. Davi mesmo é um exemplo disso quando diz: “porém eu, pela riqueza da tua misericórdia, entrarei na tua casa e me prostrarei diante do teu santo templo, no teu temor” (v.7). Mas, aos pecadores que insistem em viver conforme os desejos de seus corações perversos sem se importarem com Deus, o que eles têm de Sua parte é ódio, pois, Sua santidade exige ser vindicada.

               Contudo, aos que se voltam para Ele clamando por Sua misericórdia, deparam-se com a Sua riqueza em misericórdia, que permite a pecadores contritos e arrependidos se apresentarem diante Dele em Seu santo templo cheios do temor de Deus, rendendo-lhe todo louvor e gratidão.

               É o rico amor pactual (“riqueza da tua misericórdia”) de Deus que nos abre acesso à Sua presença. “Uma vez que Jesus nos antecedeu no céu, temos uma âncora para a alma no santuário mais íntimo de Deus (Hb 6.19,20)”[4]. Davi não confiava em si e nem mesmo em sua obediência a Deus, mas, no rico amor pactual de Deus em manter Sua Aliança com o Seu povo.

               Davi reconhecendo a santidade de Deus e a forma como Ele trata os iníquos, voltou-se para Deus com obediência, mas, reconhecendo que necessitava totalmente da misericórdia de Deus para obedecê-lo. Ele entendia que o menor sinal de autoconfiança e autojustiça diante de Deus era suficiente para ele ser tratado como um iníquo e perverso.

Aplicação v.4-7: Cuidado com o seu coração. Ele é traiçoeiro. Por natureza quererá fazer sua própria vontade, e, quando você for convencido pelo Espírito Santo de Deus mostrando-lhe a riqueza do amor pactual de Deus e a Sua graça, ainda assim, seu coração quererá fazer por merecer essa bênção. Mas saiba que a misericórdia de Deus em sua vida é algo que você jamais merecerá. Por isso mesmo diga ao seu coração “Eu, porém, obedecerei a Deus por causa da riqueza de Sua misericórdia que me sustenta”. Ele é santo e nos manda viver de forma santa também.

               Davi ainda apresenta Deus como

3)     Aquele que é Justo, v.8-10

Exposição v.8-10: “SENHOR, guia-me na tua justiça, por causa dos meus adversários; endireita diante de mim o teu caminho;  9 pois não têm eles sinceridade nos seus lábios; o seu íntimo é todo crimes; a sua garganta é sepulcro aberto, e com a língua lisonjeiam.  10 Declara-os culpados, ó Deus; caiam por seus próprios planos. Rejeita-os por causa de suas muitas transgressões, pois se rebelaram contra ti”.

               Por ter em Deus o seu maior prazer e deleite, Davi decidiu não seguir o caminho do ímpio, em vez disso, voltou-se para Deus clamando por Sua misericórdia, trazendo em seu coração o temor e a gratidão a Deus.

               Contudo, ele sabia que existiam dois perigos rondando sua vida:

ü Seu coração traiçoeiro e afeito ao pecado, que podia facilmente se encantar com a vida fácil dos ímpios, e,

ü Seus adversários que tramavam contra ele o tempo todo tentando destruí-lo. Dessa forma então ele está suplicando a Deus que o preserve em meio a esses ataques.

               Comentando sobre a justiça de Deus aqui neste versículo, Calvino diz: “A justiça de Deus, portanto, nesta passagem, como em muitas outras, deve ser entendida como sendo sua fidelidade e misericórdia demonstradas na defesa e preservação de seu povo”[5].

               A descrição que Davi faz dos seus adversários ímpios aqui é impressionante. Eles são hipócritas em suas palavras, e, por isso, não são confiáveis pois não têm eles sinceridade nos seus lábios”, e como a boca fala do que o coração está cheio (Lc 6.45), “o seu íntimo é todo crimes”. Não se vence nenhum pecado externo enquanto o coração estiver cheio dele. Ainda falando sobre as conversas dos ímpios, Davi afirma a respeito deles que “a sua garganta é sepulcro aberto, e com a língua lisonjeiam”. A cena aqui é de um sepulcro aberto que tem dois significados muito fortes:

ü Repulsa por causa dos nojentos odores que exala – palavras torpes são fétidas;

ü Insaciabilidade para derramar sangue – como uma cova aberta recebendo cadáveres e mais cadáveres, mas, nunca se enche deles.

               Eles eram bajuladores, pois, “com a língua lisonjeiam”. Davi como rei que era estava cercado por esse tipo de gente, que em sua frente o bajulava e o honrava, mas, pelas costas tramavam contra ele.

            No v.10, porém, ele deixa bem claro que toda a inimizade, maldade e comportamento fraudulento que ele enfrentava o tempo todo, era antes de tudo contra Deus como podemos ver nas palavras “pois, eles se rebelam contra ti”. Naqueles tempos, quando uma aliança era estabelecida entre duas partes, os inimigos de uma tornavam-se inimigos da outra também. Nos documentos selando as alianças constavam as palavras: “Com os meus amigos serás amigo, e, com os meus inimigos serás inimigo”. Como Deus havia estabelecido Sua Aliança com Davi, então Davi via os ímpios zombadores e inimigos de Deus como seus próprios inimigos também. Por isso mesmo ele não toma de Deus o direito de fazer justiça; em vez disso, clama a Deus: “Declara-os culpados, ó Deus; caiam por seus próprios planos. Rejeita-os por causa de suas muitas transgressões”. Ele confiava no julgamento de Deus.

Aplicação v.8-10: Que haja em seu coração tanto zelo pela glória de Deus quanto houve no coração de Davi. Contudo, não permita que o seu coração queira fazer justiça no lugar de Deus. A vingança a Ele pertence, e, além disso, “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos” (Mt 5.6). É a justiça de Deus que sacia o nosso coração; a nossa justiça nos deixa ainda mais famintos e sedentos porque ela é vingança e não justiça.

               Por fim Davi apresenta Deus em sua oração como

4)     A maior alegria do Seu povo, v.11-12

Exposição v.11-12:11 Mas regozijem-se todos os que confiam em ti; folguem de júbilo para sempre, porque tu os defendes; e em ti se gloriem os que amam o teu nome.  12 Pois tu, SENHOR, abençoas o justo e, como escudo, o cercas da tua benevolência”.

               Anteriormente, no v.7 ele se contrastou com os ímpios descritos nos v.5-6; agora ele contrasta todos os demais justos “os que confiam em ti” (em Deus), com os ímpios dos v.8-10.

               Os que confiam em Deus experimentam uma alegria tão profunda em seu coração, e, por isso mesmo seus corações folgam de júbilo, isto é, cantam com tanta alegria porque experimentam o cuidado de Deus os defendendo. Os que amam a Deus (o Seu Nome), exultam e entoam louvores a Deus. Daí podermos afirmar que só louvamos a Deus quando nosso louvor é resultado do nosso amor por Deus e da experiência do Seu amor e cuidado para conosco. Fora disso não existe louvor algum.

               Outra verdade que destacamos aqui e que devemos trazer conosco em tempos de crise espiritual é que nunca estaremos sozinhos. Deus sempre reserva para si muitos joelhos que não se dobram diante dos “deuses” desse mundo. Davi sabia que além dele havia muitos que se regozijavam e ser gloriavam em Deus. Ele não era o único justo que experimentava a presença protetora de Deus como um escudo protetor. Deus cerca os Seus filhos com a Sua benevolência, isto é, com a Sua bondade graciosa.

               Deus é a maior alegria do Seu povo. Não existe alegria maior para o servo de Deus do que presenciar o cuidado de Deus em sua vida. A alegria do servo de Deus é resultante da bênção de Deus em sua vida. Como afirmou João Calvino: O significado, pois, é que, por maiores e variados sejam os perigos que cercam os justos, não obstante eles escaparão e se salvarão, porque Deus lhes é favorável”[6].

Aplicação v.11-12: Quando você estiver cercado por inimigos, sentindo-se ameaçado, não se esqueça de que Deus nunca abandonou um servo Dele que faz parte da Sua Aliança. Deleite-se em Deus e experimente Nele toda a alegria que só Ele pode lhe dar. Se o seu coração não estiver satisfeito em Deus e alegre com os Seus feitos misericordiosos, então, nada nesta vida fará sentido para você.

Conclusão

               A nossa oração deve ser um meio de Graça comunicando os poderosos feitos de Deus e o Seu caráter santo e justo, a Quem o nosso coração mais deseja e em Quem encontramos a verdadeira alegria para a nossa alma.

        


[1] Cf. HENRY, 2010, vol.3, p.230

[2] Cf. HARMAN, 2011, p.85.

[3] Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, 2011, v.3, p. 1194.

[4] HARMAN, 2011, p.85.

[5] CALVINO, 1999, vol.1, p.115.

[6] Ibid, p.121.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
This entry was posted in Mensagens Expositivas do Livro de Salmos. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.